Tão fora da terra
17 Capítulo 17- Por quê sempre é assim?
Notas iniciais
–Liko, como?
A medida que a carroça andava, Camus tentava conversar com Liko, mas as ideias passavam muito rápido em sua cabeça.
–Eu não sei tá? Só sei que eu sempre consegui fazer essas coisas. Me vô disse pra tomas cuidado e não usar meu “talento” na frente dos outros, por que nem todo mundo é bom.
Camus estava mais sério agora. Então era verdade.
–Camus, o que tá acontecendo? Por que a gente saiu fugindo do santuário?
Camus não sabia o que responder.
–Por que... bem, por que...
–Tem inimigos por lá? Alguém com quem você vai brigar?
Camus suspirou.
–Liko, você confia em mim?
O menino sorriu.
–Sim!
–Então vamos voltar.
–Ajudar o Milo?
–Também! Vamos.
A carroça deu meia volta.
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–Sangue para que?
–Afrodite é vaidosa, gosta de receber oferendas e presentes. Para ir até algum lugar, geralmente para atender o pedido de algum amante apaixonado, ela exige um pequeno sacrifício de sangue. De uma gota até uma pessoa inteira, dependendo do pedido do ente apaixonado. Depende de como ela encara o valor da pessoa, ou do que a pessoa sente.
–E a tal rosa? Tem o que a ver com isso?
–É uma rosa especial, branca, mas que suga o sangue de quem toca. E fica cor de rosa quando atinge o que Afrodite julga ser suficiente. Se por acaso, ela ficar vermelha, a pessoa morre.
–Mas por que ela iria querer sangue?
–Vaidade. Quer mostrar para os outros deuses que os humanos são capazes de dar a vida por amor. Ela acha mais simpático derramar sangue por amor que pela guerra. Ela coleciona essas rosas ensanguentadas, em um jardim. Mas chega disso, preciso de sangue, e não pode ser o meu.
–Por quê?
–Eu recebi uma oferta dela, e recusei. Ela entendeu como uma ofensa, por isso quando tentei contatá-la, ela quase me matou, sugando muito do meu sangue.
–Por isso anda tão pálido-MM estava irritado.
Saga se adiantou. Cortou a ponta do dedo.
–Ela não gosta muito de mim, acho que não vai querer muita coisa. Use o meu.
Afrodite sacou uma rosa branca dos cabelos, e encostou no dedo de Saga.
–Por favor, estamos te chamando.
Mu suspirou. Shaka sorriu levemente.
–Acho que ela gostou de você, Mu.
Um segundo depois, os olhos de Mu voltaram a exibir a cor rósea.
–O que desejam? Por que pararam?
Saga tomou a palavra.
–Hefesto está fugindo, não?
–Sim, com o cavaleiro de Aquário, já disse.
–Então podemos ser levados direto ao santuário. O cosmo dele é tão forte que nos impede de chegar lá? Com a sua ajuda?
A expressão de Mu, possuído por Afrodite era de choque.
–Ora, eu não pensei nisso... indo de lá para cá, também...
–Bom, nós pensamos. Vai nos levar daqui, ou temos que correr mais?
–Você está me desafiando, Saga de Gêmeos?
–Não, eu não sou burro, já provei do seu poder. Quero só acabar com isso tudo logo.
Mu encarou Saga por mais alguns instantes.
–Conversaremos ao final disso, se sobreviverem. Queimem seus cosmos. O santuário de Atena aguarda vocês!
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Shion e Aioria estavam na sala do mestre.
–Aioria, sinto o cosmo de Milo por aqui, mas fraco, oscilante. Pode encontrá-lo?
–Sim, mestre, agora.
Aioria desceu em disparada a procura de Milo. Shion se sentou e soltou um longo suspiro.
–Estamos perto do fim...
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O relógio anunciou o fim da nona hora. Faltavam três casas. Shura iria lutar agora. Milo e Camus conversavam através do cosmo, e achavam que dessa vez, os guerreiros de bronze, que se encontraram em Sagitário, não iriam avançar.
–Você está triste, Camus?
–Preocupado sim. Mas já experimentei a dor de perder meu pupilo hoje, e ele teima em voltar. Acho que posso lidar com isso.
–Peça para Shura deixá-lo para você.
–Hum... isso seria covarde. Ele não tem chance contra mim, e se Shura o fizesse, seria uma ofensa ao seu código, ou ideia de cavaleiro. Não, deixe que ele tente chegar aqui por suas forças. Então veremos.
–Você tem medo de algo, Camus?
O aquariano se calou por alguns instantes.
–Sim, Milo, tenho.
–Diga!
–De te perder.
–Isso não vai acontecer. Mas me refiro a essa batalha.
–Eu também. Milo, você sabe que eu te amo, não?
–Hoje eu sei. E você? Sabe que eu te amo?
–Sem dúvidas!
–Não queria te ver triste...
–É inevitável...
–Deveria ter matado Hyoga.
–Conseguiria?
–Não sei. Além de seu desejo de avançar, por causa dessa Atena falsa, ele me lembrou...
–Liko?
Milo suspirou.
–Camus, são os mesmos olhos.
–Tirando o cabelo loiro, eles são exatamente iguais, não?
Sim, pensou Camus. Exatamente.
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A carroça se aproximava do santuário. Agora Camus tinha mais motivos pra se preocupar do que nunca: Milo, que não deveria estar em bom estado, e como iria salvar a vida de Liko com os outros guerreiros a caminho? Será que iriam entendê-lo? Iriam mostrar-se realmente seus amigos?
Suspirou. Odiava sentir medo.
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Aioria descia as escadas, mas logo sentiu o cosmo de Milo, realmente enfraquecido como o mestre dissera. Quando o encontrou, ele estava deitado, com as mãos próximas a uma rosa um tanto quanto estranha. Colocou o escorpiano no colo.
–Milo- Aioria o chamava e batia em seu rosto- Milo, acorde.
Muito devagar, Milo entreabriu os olhos.
–Aioria...
–O que aconteceu?
–Hefesto... Liko... Camus...
–Milo, não estou entendendo. Onde está Camus? Hefesto esteve aqui?
–Aioria... eu tenho que salvar...
Ele respirava com pressa. Estava com o corpo muito frio.
–Milo... Milo...
Milo desmaiou. Aioria achou melhor levá-lo ao mestre.
O que será que havia acontecido?
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–Mestre, rápido, Milo está muito machucado, e congelado praticamente.
Shion se levantou e caminhou em direção aos guerreiros. Aioria pousara Milo no chão do salão do grande mestre.
–Ferimentos assim só podem ser feitos por Camus...
–Milo resmungou algumas coisas, mas não entendi muito bem. Falou sobre Hefesto e Camus, e um outro nome...
–Bom, daremos um jeito de descobrir isso depois. Primeiro precisamos recuperá-lo. Queime seu cosmo e me ajude, sim?
–Sim mestre.
O mestre e o leonino elevaram seus cosmos. Shion estendeu uma mão sobre o peito de Milo e começou a recitar uma prece, que mais tarde Aioria descobriu ser dos jamilianos. O corpo de Milo foi ficando mais aquecido. Alguns lugares antes roxos, ou cortados, estavam sendo normalizados. Em alguns minutos, Milo estava como se estivesse dormindo, totalmente curado.
–O que foi isso mestre?
–Técnicas de guerra. Não podemos apenas destruir coisas, nosso cosmo tem capacidade para restaurar também. Por isso se prepare, pois cedo ou tarde você terá que aprender isso.
–Ele...
–Vai acordar em breve. Então teremos explicações.
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O acesso ao santuário apareceu. Liko estava meio quieto, em parte por achar Camus estranho.
–Camus... o que está acontecendo?
Camus detestava mentiras.
–Liko, temos um inimigo muito forte querendo destruir nossa terra. Não de forma direta, mas ainda assim, é uma ameaça. Como cavaleiro, eu tenho que fazer tudo o que posso para defender nosso planeta. É minha missão. Como cavaleiro de Atena. Se for preciso, tenho que morrer por isso. Entende como a situação é séria?
–Hum hum...
–Então. Os meus amigos estão procurando o responsável pelos problemas que podem vir a acontecer. Eles acham que você é essa pessoa Liko.
O menino arregalou os olhos azuis.
–EU? Como assim?
–É difícil explicar, mas vamos dizer que eles estejam confundindo você com outra pessoa. Nós vamos mostrar pra eles que você é você, mas eu preciso que você me ajude, certo?
Liko estava amedrontado.
–O que eu tenho que fazer?
–Ser você apenas, mas em hipótese alguma, mesmo que pareça necessário, use seus poderes, certo? Guarde bem seu canivete, e não faça nada, de forma alguma, você me entendeu Liko?
–Sim.
–Nada. De jeito nenhum. Mesmo que pareça uma situação que você possa ajudar, não ajude. Apenas seja um menino comum. Pode ser? Isso vai salvar as nossas vidas.
–Tudo bem.
–Confio em você- Camus sorriu.
Liko sorriu também.
–Agora vamos, é melhor caminharmos a partir daqui.
Quando desceram, Liko encostou as mãos nos cavalos. O que antes era grande voltou ao tamanho original, pequeno de caber nos bolsos. Liko guardou as miniaturas no bolso de trás da calça.
Camus olhou a frente e suspirou. Elevou seu cosmo. Precisava conversar com uma pessoa.
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Shion estava distraído ainda, só entendeu o que estava acontecendo quando sentiu os cosmos dos dourados nas proximidades.
–Mestre!
–Sim Aioria, eles chegaram. Finalmente.
Milo acordou. Estava um tanto confuso. Aioria foi ajudar a levantá-lo.
–Milo, ei,está melhor?
–Sim... estou... preciso falar com o mestre, senti o cosmo dele...
–Vem, eu te ajudo.
Shion se adiantou e pegou uma das mãos de Milo. Se olharam por alguns instantes, e Shion sorriu por baixo da máscara.
–Não se preocupe.
–Obrigado Mestre.
Quando Aioria ia perguntar o que estava acontecendo, sentiu Mu chamá-lo pelo cosmo.
–Estamos no salão do mestre- O leonino disse em voz alta.
Um clarão dourado, e os oito cavaleiros pousaram no salão do mestre. Saga falou:
–Então era verdade, o cosmo dele não estava atrapalhando mais nada. Mas e agora, temos que nos apressar e ir atrás de Camus. Ele está com Hefesto, não?
–Na verdade não.
–Hum? Como é, Milo?
–Camus está vindo para cá. Com Liko. E não, antes que digam qualquer coisa, eu não acredito que Liko é Hefesto.
Saga estava sério.
–Afrodite disse que o garoto que Camus estava protegendo era Hefesto, que ele havia se infiltrado no santuário, queria nos separar para não atrapalharmos ele quando fosse atrás do limbinus. Disse que ele havia conquistado Camus, assim atrasaria nossa perseguição, e teria alguém para defendê-lo. Shaka foi preso, e eu e Mu quase morremos tentando salvá-lo. Nós vimos Hefesto. Se esse garoto for mesmo ele, não podemos ter piedade. Temos que devolvê-lo ao Olimpo, antes que ele consiga forjar algo que possa matar ou prejudicar Atena, e então nossa vida na terra estaria ameaçada. Milo, independente do que você e Camus acreditem, nós temos uma missão, e vamos cumpri-la, por que nós já quase morremos hoje, e não foram poucas vezes.
Milo encarou Saga, com olhos raivosos.
–Saga, eu não estou dizendo que não vamos cumprir nossa missão. Só digo para esperarem e ouvirem o que Camus tem a dizer. Não vamos agir sem antes ter certeza. Tudo isso pode ser mais um truque, só não sabemos de quem.
Saga não gostou do tom de Milo.
–Nós já temos um plano, e vamos segui-lo. Se não vai ajudar, fique fora disso Milo. Já estou cheio de problemas.
–Você realmente deve ter problemas Saga. Mas agora o problema é agirmos como cavaleiros. Não como soldados marionetes, de quem quer que seja. Não esqueça que você não manda aqui.
Saga e Milo se encararam. A tensão era palpável. Shion observou por alguns instantes antes de falar:
–Vamos ouvir o que Camus tem a dizer. Caso o garoto realmente seja Hefesto, iremos agir conforme as instruções de Afrodite. Do contrário, teremos que resolver a questão de outra forma. Eu sou o mestre do santuário, representante da deusa Atena e chefe dos cavaleiros do zodíaco. Portanto estejam em posição, e aguardem as minhas ordens. Chega de confusão, Camus se aproxima.
Milo suspirou. Saga, de olhos fechados, tentava controlar sua raiva. Mu, Shaka e Aioria se olhavam. Shura e Aldebaram caminhavam de um lado pra outro. Afrodite estava encostado em uma pilastra, e MM ao seu lado disse:
–Acho que isso vai dar merda.
Aioros piscou.
–O que, MM?
MM apontou para Saga, mas falou outra coisa.
–Esse plano da Afrodite... -Ele falava isso, mas apontava para Saga, que estava de costas, andando devagar de olhos fechados em direção a porta. Seu cabelo estava ficando castanho.
Aioros encarou o mestre. Shion, por trás da máscara, sentiu que finalmente a energia cósmica de Saga estava irradiando luz e trevas ao mesmo tempo. Ele não ia aguentar se esconder muito mais.
Outro problema.
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Seiya, Shiryu, Hyoga e Shun estavam chegando em Capricórnio. Faltavam pouco mais de três horas. Todos estavam cansados, mas com as forças e esperanças renovadas pelo testamento de Aioros.
Seiya corria com Shun, e Hyoga com Shiryu. Shun olhou para Seiya.
–Ei, tudo bem?
–Sim... só preocupado... conseguimos chegar até aqui, quero muito que isso acabe logo. E você?
–Eu o que?
–Tá bem Shun? Quer dizer, depois que...
Seiya se calou. Shun sorriu.
–Pode falar Seiya. Se estou bem depois que o Ikki morreu. Claro que estou triste, mas eu sou um homem com um dever a cumprir. Nós temos uma missão, e minhas emoções não podem fraquejar agora. Eu não posso perder mais ninguém hoje.
A última frase sim, tinha um tom que deixou Seiya preocupado.
–Você quis morrer em Libra? Pra salvar o Hyoga?
Shun abaixou a cabeça.
–Se eu morresse, desapontaria Atena, e você e os outros, e não seria homem pra cumprir uma promessa que fiz ao meu irmão. Eu tenho que ir até o fim das minhas forças, e se der um pouco mais além. Não, eu não quis morrer, por que sei que isso abalaria vocês. E nem quero, se você quer saber.
Seiya sorriu.
–Você me surpreende sempre, amigo.
–Você que é lerdo pra entender as pessoas Seiya.
–Ei...
Shiryu e Hyoga estavam logo atrás, ouvindo um pouco da conversa. Shiryu sorriu.
–Parece que estamos mudando heim?
Hyoga disse sério.
–Perto da morte nós temos que mudar, de um jeito ou de outro. Ainda mais nós, sabendo que cada passo pode ser o último.
O Cisne encarou Andrômeda com olhos carinhosos. O Dragão sorriu novamente.
–Ele conseguiu derreter alguma coisa aí, heim?
Hyoga sorriu também.
–Com certeza.
–Eu acho que somos abençoados. Com todas as batalhas, ainda conseguimos arrumar amor no meio disso tudo.
–É... Acho que o fato de queremos cuidar tanto uns dos outros nos leva a frente.
Shiryu encarou as costas de Seiya.
–Concordo.
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Camus pegou a mão de Liko.
–Vamos? Lembra do que me prometeu heim?
–Pode deixar.
O aquariano entrou na sala do Mestre. A sua frente os outros dourados o encaravam. Liko apertou sua mão.
–Mestre, eu vim explicar o que aconteceu.
Shion se levantou.
–Aproxime-se Camus. Com quem você está?
–Esse é Liko, Mestre. Um menino comum que mora em um vilarejo aqui nos arredores do santuário, que me ajudou uma vez e desde então tem sido uma espécie de amigo.
Saga riu com desdém.
–Amigo de um garotinho, Camus?
Camus o encarou com um olhar gélido.
–Um garotinho que é bom, e não tem dúvidas disso, Saga. Sim.
Quando Saga abriu os olhos, deu um salto para trás.
–Mu, Shaka, vocês viram. Ele é Hefesto, sem sombra de dúvida. Temos que atacar, agora.
Saga começou a explodir seu cosmo, quando Aioros pulou em sua frente de braços abertos.
–Um movimento em falso e eu vou ser seu oponente, Saga.
–Aioros!
Os dois se encararam. Shion disse em voz alta.
–Chega. Camus, traga o garoto até aqui, sim?
Camus estava apreensivo. Aioros se virou.
–Pode ir Camus. Ninguém vai fazer nada até o mestre nos dizer o que fazer.
–Aioros...- Saga rugiu com raiva.
Aioria se postou as costas do irmão. Milo também se aproximou. Mu e Shaka se postaram também ao lado deles.
Camus sorriu. Milo o encarou.
–Vai. Vamos mostrar que o Liko é só um menino.
Milo sorriu também.
Camus avançou, sentindo a ameaça nos olhos de Saga. Aldebaram, Shura e Afrodite continuavam parados, e MM estava concentrado em alguma coisa no chão.
Quando chegou a frente do mestre, Camus se ajoelhou e Liko o imitou. Shion sentiu seu estomago gelar quando olhou nos olhos do garoto. Um brilho esverdeado deu lugar a um olhar chamejante e um sorriso maléfico.
–Mas o que?
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