Julia entrou numa ducha morna com os pensamentos ainda na garota que encontrara na praia. Estranhou de fato a súbita preocupação com uma mera desconhecida...Sentiu o coração apertar em vê-la daquela forma, queria descobrir o que a deixava daquela forma, tão frágil...Mas como, se mal a conhecia? No minimo, bizarro. Saiu do banheiro, vestiu uma camiseta social branca e uma calça jeans preta, uma sapato não muito alto, preto também e estava pronta. Deu uma olhada no espelho e gostou do que viu, arrumou o cabelo e saiu do quarto. Chegando na sala, passou direto por Edna indo para a cozinha, atras de café. Edna, fingindo irritação, foi até a cozinha, ainda com a vassoura na mão:
— Não vai me cumprimentar não, sua ingratinha? — e pôs a mão livre na cintura.
— Ooooi Edna... — já tomando um generoso gole de café
— E é assim mesmo?
— Edna, eu vô me atrasar.
— Não vai se atrasar mais se me der um beijo!

Julia revirou os olhos e foi até a senhora que ainda mantinha uma das mãos na cintura e a olhava num misto de reprovação e riso. Deu um beijo na bochecha da mulher que sorriu e comentou somente para provocar:
— Viu? Com beijo ou sem beijo você continua atrasada!
— Pronto, Edna...Agora eu vou embora.
— Sem comer nada? Julia!
— Edna eu acabei de falar que tô atrasada! — exclamou já se irritando.
— Come pelo menos uma fatia de bolo que eu fiz...É daquele que você gosta — e fez aquela carinha de decepção.

Julia olhou para a senhora a sua frente. Edna era a mãe que não teve, sempre preocupada, cuidadosa, protetora...E o melhor de tudo, não a condenava pelo fato de ser gay. Foi uma das primeiras coisas que disse a Edna quando soube seria ela que cuidaria do apartamento (para não dizer de si). Terminou de tomar o liquido fumegante, pegou uma faca e cortou um pedaço generoso do bolo, que realmente era o seu preferido. Edna olhou para a mão da garota e exclamou:
— Fiilha, eu falei pra você comer um pedaço, não a metade do bolo!

Julia riu, adorava o jeitinho de Edna, abraçou a velha com a mão livre e lhe deu um beijo na testa.
— Tô indo, mãe.

Acho que não é nem necessário citar, que Edna sentia o coração amolecer quando Julia a chamava assim. Olhou a mulher mais nova com os olhos brilhando, enquanto Julia lhe cedia um sorriso tímido, soltou a senhora e foi para sala. Só aí Edna percebeu que Julia nem sentou, saiu com o bolo na mão comendo...Correu até a sala e exclamou pouco antes de Julia fechar a porta:
— Julia! Senta pra comer menina! Vai sair comendo esse bolo pelo prédio!
Julia não respondeu porque estava com a boca cheia, apenas acenou para a senhora e fechou a porta. Edna balançou a cabeça negativamente e disse baixinho:
— Minha Nossa Senhora, essa daí não tem jeito...

Lilian lia uns papeis na sua sala, no fundo da loja...Tentava prestar atenção mas, não conseguia parar de pensar no par de olhos verdes. Nem perguntou o nome da mulher, foi muito idiota quanto a isso, se xingou mentalmente por diversas vezes graças a isso. Foi tirada de seus pensamentos por uma das atendentes que batia na porta da sua sala.
— Cliente atras da gerente...
— Pra que? Aconteceu algo?
— Cliente querendo reclamar de alguma das meninas...
— Ai ai, quem foi dessa vez, Jaque?
— Boa pergunta Lili, ela não quis nem dizer...
— Mais um pepino pra eu resolver...Eu já vou Jaque, me dá um minuto.
— Tudo bem. — respondeu simpática.

Jaqueline saiu, deixando Lilian ali por poucos minutos pois a garota logo seguiu para a frente da loja...

Julia chegou praticamente correndo na loja, cumprimentou alguns vendedores e seguiu para seu escritório improvisado, assim que entrou viu Sérgio analisando uns papéis todo sério, assim que ouviu a porta abrir, olhou o relógio todo sério e depois lançou um olhar mortal a Julia...
— Tô atrasada, tô atrasada...Tô sabendo. — disse estendendo os braços na altura dos ombros.
— Sabe quanto tempo, Julia? — perguntou sério.
— Quinze minutos...Pelo amor de Deus né, Sérgio...Sabe que eu não costumo fazer isso. — comentou já irritada.
— Eu sei, eu sei...Tava brincando só pra te perturbar um pouco. — disse mudando o semblante completamente — E aí, aconteceu algo?
— Nada excepcional...Só perdi a noção da hora.
— Sabe que se precisar...
— Sei meu amigo, sei sim... — comentou dando um tapa cordial no ombro do amigo.

Sérgio era amigo de Julia há uns bons anos...Conheceram-se através de Mari, Sérgio já foi um dos diversos namoradinhos que a garota tivera quando mais jovem. Sempre sorridente, Sérgio e Julia simpatizaram um com o outro de imediato, tanto que quando Mari terminou com o rapaz, continuaram mantendo contato, saiam juntos para beber, dançar, ou então somente conversar...Até que um dia, Sérgio teve a idéia da loja de artigos esportivos e propôs a Julia uma parceria já que não conseguiria colocar a loja de pé sozinho, parceria essa que foi aceita prontamente pela mulher.

Sérgio casou-se recentemente, com uma bela ruiva chamada Suzi...Que por sinal já estava gravida. Isso diminuiu as saídas dos dois consideravelmente, mas não era problema já que se viam praticamente todos os dias na loja.
— Que tal a gente trabalhar um pouco...Pra variar, né? — brincou Sérgio.
— É sempre bom, né... — respondeu Julia entrando na brincadeira.

Sérgio sorriu amistosamente e Julia logo pegou os papeis que estavam em sua mesa analisando-os. Julia nem se deu conta do tempo que passou em sua sala, quando percebeu já tinha passado bastante do horario do almoço. Virou para o amigo que já tinha ido e voltado do almoço há tempos, até tinha chamado Julia, mas ela preferiu não ir. Virou para o rapaz e disse:
— Brigado por me lembrar de almoçar, ingrato.
— Ué, eu te chamei pra almoçar, você que disse que num ia.
— Devia ter me lembrado, né.
— Tá, da próxima vez eu te amarro e te levo pra comer comigo, ok?
— Que bonitinho...Menino obediente.
— Besta...Agora vai almoçar, vai. Tá tarde.
— Vou mesmo que a fome tá apertando.

Julia saiu e foi até um restaurante que era ali perto, quando estava atarefada demais no trabalho optava por comer num restaurante, mais perto e mais pratico. Quando comia em casa, Edna a fazia perder um belo de um tempo. Fez o pedido e comeu tranquilamente...Logo seus pensamentos foram para os acontecimentos da manhã, sorriu ao lembrar do rostinho envergonhado da garota, ficou um tempo assim, até resolver voltar a realidade e ao seu trabalho, mas antes de sair do restaurante constatou:
— Preciso arrumar uma mulher...

Logo em seguida chamou o garçom e pediu a conta...

O resto do dia passou corrido, pouco tempo depois de almoçar Julia voltou para casa. Tomou um banho e resolveu tirar um cochilo....Cochilo esse que durou um bom tempo, quando acordou já era noite. Acordou com alguém lhe chamando sutilmente, logo reconheceu a voz, era Edna...
— Que horas são, Edna? — perguntou bem sonolenta.
— Oito e meia, querida...
— Cassete!
— Só passei pra te avisar que tô indo embora...E pra te acordar também, porque sei que essa noite você não vai dormir nadinha.
— Num chamasse, né Edna...Assim eu já embalava com o sono da noite.
— Deus me livre, é muito sono pra uma pessoa só...Levanta filha. E sem contar que a senhorita não pode ficar sem comer, ouviu?
— Ai Edna, tá bom...Tá bom, tá bom. — respondeu irritada enfiando a cabeça debaixo do travesseiro.
— Agora eu tô indo, filha...
— Tchaaau Edna, tchau! — respondeu acenando freneticamente sem tirar a cabeça debaixo do travesseiro.
— Tchau querida. — respondeu contendo o riso.

Minutos depois, Julia estava sentada no sofá da sala comendo com os olhos vidrados na televisão. Tomou o maior susto quando ouviu o telefone tocar, abaixou o volume da televisão e atendeu o aparelho:
— Alô?
— Alô, é da residência de uma morena gatona dos olhos verdes? — Mari.
— Numero errado colega...Aqui é a residência de uma pobre mulher solitária.
— Porém gostosa.
— Ai, sua boba! — comentou rindo — aconteceu algo?
— Não, só queria ouvir a sua voz sexy pra eu poder dormir em paz. Mentira! Antes que você me zoe...Só quero saber o que cê tá fazendo agora...
— Mentira...
— Verdade!
— Tô jantando...
— Ai, sabe o que é...Quer vir pra cá não? Vou ficar em casa...
— Viu...
— Ai Julia, vem ou não?
— Ué, cê num ia sair com um cara?
— Ia...Num vou mais.
— Por que?
— O cara era bonito...Mas fiquei sabendo de uns negócios que eu não gostei...
— Que negócios?
— Compromissos...
— Namora?
— Pior! Casado...
— Nossa...Tô indo praí.
— Ótimo! Tô te esperando...Não demora!
— Pode deixar.

Cada uma desligou seu respectivo telefone e Julia voltou sua atenção a televisão...Terminou de comer e foi para o quarto...

Quase uma hora depois, Julia entra no apartamento da amiga. Da sala já podia se sentir o cheiro de pipoca que corria pela casa. Cumprimentou Mari e sentou no sofá, junto com a amiga...
— E aí, tudo bem?
— Ótimo, tô meio entediada por ter que ficar em casa, mas...Ótimo.
— Pow, fica tranquila, você vai ficar aqui comigo...
— Isso é o que realmente me deixa entediada. — brincou Mari.
— Como você é ingrata! Meu Deus! — disse Julia se fazendo de ofendida.

Mari riu e disse abraçando a amiga.
— Você sabe que eu te amo, né? Por mais rabugenta que você seja...
— Rabugenta? Eu mereço uma coisa dessas...Sai daqui! Sua coisa. — disse sorrindo e se afastando fingindo revolta.
— Alguei uns filmes...A noite vai ser loonga.
— Pra você, né gatinha...Logo eu vou deitar e dormir.
— E logo eu dar na sua cara...Eu te chamei pra ver filme, não pra dormir!
— Onde você colocou minhas roupas, hein? — perguntou levantando.
— Tá lá no quarto de hospedes, como sempre... — respondeu com desgosto.

Julia foi até o quarto de hospedes, que já era bem conhecido. Não era a primeira vez que Julia dormia na casa da amiga, e vice-versa...Devido a diferença de tamanho entre as duas, Julia sempre tinha algumas roupas na casa da amiga. Pois, segundo ela, usar as roupas de Mari seria o mesmo que ficar pelada, caso entrasse, né. Já na casa da morena quase não tinham roupas de Mari, sempre a loirinha pegava alguma blusa de Julia para dormir.

Julia voltou com um short bem curto e confortável e uma blusa bem folgada. Foi até o quarto da amiga e deitou na cama em que Mariane já estava deitada com a bacia de pipoca do lado segurando o controle pronta para dar play. As duas mantinham-se deveras concentrada no filme, até que Julia resolveu falar...
— Mari...
— Que? — ainda com os olhos vidrados na televisão.
— Aconteceu uma coisa tão estranha comigo hoje de manhã...
— Assalto? — olhando para a amiga rapidamente.
— Nãão — riu — sua boba...
— Que foi?
— Eu tava correndo né...

E começou a relatar o breve encontro que tivera com a garota. Mari perdeu completamente o interesse pelo filme e passou a prestar a maior atenção no que a amiga tava falando, quando Julia terminou, Mari perguntou:
— E você num sabe nem o nome da menina nem nada?
— Não.
— Perguntou?
— Nããão...
— Julia, você e esse seu jeito bicho do mato.
— Mari! Deixa de ser bobona...
— Sabe o que eu acho? Que você precisa de uma mulher...Mas uma mulher mesmo! Não esses projetos que você costuma andar...
— Aiii — suspirou Julia afundando a cabeça no travesseiro.
— Você sabe que é verdade...
— Eu sei,eu já cheguei a essa conclusão.
— Pois então trate de arrumar uma, gata...E logo! — e sorriu.

Lilian conversava distraidamente com o namorado. O rapaz apareceu de surpresa na casa da namorada. A garota adorou a surpresa e assim pode matar as saudades do namorado. Lilian, de fato sentia mais falta das conversas com o namorado do que dos beijos trocados pela casal. Não que o rapaz não soubesse como tratar uma mulher, obviamente não...Mas, não tinha paixão naquele relacionamento. Carinho, respeito era o que não faltava, os dois se davam muito bem, como irmãos...Quando se tratava de paixão, Lilian era um tanto distante, fechada do namorado, que fazia de tudo para tentar amenizar a situação, as vezes conseguia...Em outras...
— Afim de uma pizza? — perguntou André enquanto entrelaçava seus dedos nos da namorada.
— Agora! — respondeu entusiasmada.
— Vou pedir...

Beijou a garota rapidamente e levantou seguindo para o telefone...Enquanto a pizza não chegava o rapaz tentava convencer a garota a sair com ele na manhã seguinte, mas como já tinha marcado com o irmão de sair, não tinha como...Até que se surgiu uma idéia:
— Vem com a gente!
— Não Lili, eu quero fazer um programa só eu e você, entende? Uma coisa...
— Tá, tá...Já entendi — corou levemente — Mas não ia te custar nada se você viesse, Dé.
— Por que você num pode vir comigo?
— Porque eu já marquei com o Guh, faz tempo que eu não saio com ele...
— Então, mais um motivo pra eu não ir, né. Não quero atrapalhar o programa dos irmãos. — disse meio irritado com uma ponta de sarcasmo.

Lilian vendo onde ia dar aquilo resolveu parar, abraçou o namorado e o cobriu de beijos por toda a face:
— Você fica uma gracinha irritado, sabia? — e abriu um largo sorriso.

O rapaz não teve como resistir, abraçou a namorada e a beijou longamente na boca. Um beijo apaixonado, quente e demorado. Porém, foram interrompidos pelo interfone, André se afastou um pouco da namorada e disse:
— Acho que a pizza chegou...
— Vou atender. — levantou e foi até o interfone.

E seguiram a noite assim, comendo pizza, vendo televisão e namorando...