Táxi
1 Disputa
Notas iniciais
Acabara de desligar o celular. Recebera uma ligação do chefe:
“Esteja na sala de reuniões em duas horas!”
Tudo bem, nada de tão anormal para o respeitável advogado de madeixas longas e azuis. Exceto o fato de que estava do outro lado da cidade, saindo da mecânica onde deixara o carro. Ótimo! Só lhe restava rezar para que encontrasse um taxista de boa vontade, disposto a atravessar a cidade em menos de duas horas.
Estava tranqüilo até meio minuto atrás, quando o pneu dianteiro esquerdo do carro rodava bem. Ora, mas que azar dos diabos! Se não fosse esse completo imprevisto, não teria problema algum em chegar à maior empresa de advocacia da cidade para o primeiro dia no novo emprego. Cinco anos aturando cada maldito dia na faculdade de advocacia seriam completamente inúteis, se perdesse essa oportunidade; de nada adiantaria ter conseguido passar na seleção para os estagiários que permaneceriam na empresa. Tudo por causa de um maldito pneu que resolveu furar no dia, hora e lugar errados!
Bem, que a caçada ao táxi, que poderia ou não salvar sua carreira, se iniciasse o quanto antes. “Quem sabe, com um pouco mais de sorte, encontre um moto-taxista...” Só lhe restava pensamentos positivos. Apanhou seus pertences, pouquíssimas coisas que usaria para a reunião surpresa, e saiu com passos apressados.
Pegou o celular e discou o número de uma mecânica conhecida, que estava perto dali.
Deu as instruções para chegarem ao carro traidor, como ele mesmo havia pensado, e combinou o acerto para quando saísse da reunião. Pronto, precisava apenas de um táxi... E um pouquinho mais de sorte.
Estava quase correndo rumo ao centro. Sabia que a localização – quase completamente isolada do resto da cidade – da mecânica, não o ajudaria em nada. Dava longas passadas, rápidas e quase violentas. Se não fosse necessária uma boa aparência para a reunião, se não soubesse que perderia seu maravilhoso perfume, não hesitaria em dar uma corrida. Estava em boa e belíssima forma, a final.
Certo, não estava em desvantagem com o tempo se considerasse que já estava no centro, ou bem perto dele, ao menos. Tinha boa percepção e seu cérebro era um perfeito GPS: sabia exatamente onde havia um ponto de táxi. E sabia também que estava longe, bem longe. Maravilha...
Embora estivesse com pressa, sabia que se perder em um lugar que lhe era tão comum, familiar, seria, além de patético, um belo de um atraso. Então, precisava manter a calma, e paciência era o seu ponto forte. Andou, andou, andou... Demorou, mas valeu a pena. Saiu em uma rua onde havia um ponto de moto-táxi.
- Olá, bom dia... Poderia me ajudar, por favor?
Estava passando pela terceira loja de celulares da mesma operadora. O colorido de uma grande loja de tecidos lhe irritou. O nervosismo e o estresse assumindo o controle. Impaciente, começara a andar mais e mais rápido, desejando que um grande par de asas fosse concebido à ele e, assim, saísse voando, literalmente.
Com toda certeza, aquele não era seu dia de sorte!
- Preciso de um moto-taxista para...
- Sinto muito, amigo. – O outro homem o interrompeu, sem ser muito grosseiro. – Estamos sem homens agora, todos em corrida... Desculpe.
A vontade que teve foi de gritar, explodir. Mas paciência era mesmo seu ponto forte. Manteve a educação e o tom de voz calmo, quando agradeceu e saiu apressado. Embora estivesse prestes a mandar a paciência para os altos!
Mais alguns minutos andando e procurando, quando caiu dos céus o tão desejado ponto de táxi.
Em fim, chegou. Um único carro reluzente, com a plaquinha iluminando a palavra que, agora, lhe causava dores de cabeça; uma bela dissílaba: táxi. Um suspiro de raiva, cansaço e alívio escapou-lhe por entre os lábios. Decidiu avançar com mais calma, já que havia conseguido o que queria. “Bem, pelo o que vejo, não estou tão azarado hoje... Afinal, um único táxi restou. Parece estar esperando por mim!” Com tal pensamento, não pôde evitar um sorriso maroto, satisfeito pelo “esforço”.
Ah! Que vontade de ir correndo ao encontro do único táxi que havia parado ali! Apressou o passo para chegar até lá mais depressa; no ritmo que sua manhã iniciara, temia um concorrente. “É melhor não brincar com a sorte... Uma vez que ela já não está muito a meu favor.” O belo advogado avistou um outro homem, muito bonito, diga-se de passagem, alto, com longas madeixas num tom cinza atraente, que bailavam de acordo com os passos suaves e firmes daquele ser. Este seguia calmamente, com uma expressão de certa felicidade. Rezou para que não estivessem indo para o mesmo lugar...
O sorriso em seu belo rosto desapareceu quando viu um homem parar ante o único taxista do ponto. “Não, não! Nem pensar! Não será fácil assim, seu... Seu... Coisinha!” Correu sem muito exagero, num trote aparentemente tranqüilo, que chegava a ser elegante, até o mesmo local onde estava o taxista e o outro homem, a tempo de ouvi-lo solicitar os serviços do taxista. Aproveitou que ainda não havia resposta, já que se quer o pedido fora concluído, e chegou como se não soubesse o que estava acontecendo ali. Manteve o tom calmo, embora o nervosismo o consumisse a alma. Sabia que estava errado...
- Bom dia... Com licença, é o senhor o dono do táxi?
A voz sensual, educadamente pronunciada, fez uma pergunta que o fez ter certeza de que a sorte o abandonara naquela manhã. Fazendo jus à beleza estonteante, a voz era uma melodia, capaz de hipnotizar. Mas, eticamente falando, o direito ao táxi era seu: ele chegou primeiro.
- Hã... Desculpe-me, mas... Eu já estou solicitando os serviços dele. – Disse antes que houvesse resposta do taxista.
Ao ouvir a voz do homem ao seu lado, procurou o rosto do dono da mesma. Notou que a beleza não se fazia presente apenas na voz, mas em todo o resto. Deu um sorriso zombeteiro, usando de seu charme quando tornou a falar.
- Oh, entendo. Pode soar egoísta, mas você poderia me ceder a sua vez, fazendo-me um grandíssimo favor?
Esperava conseguir dobrar o belo ser abusando de sua sedução. E isso não era difícil...
Ora, mas que sorriso...! Era, com toda certeza, capaz de conquistar qualquer um. Mas ele não era bobo, e não cairia nesse truque, que era altamente perigoso e tentador. E sabia os planos do outro, que pensava ser capaz de enganá-lo.
Devolveu-lhe um sorriso, igualmente lindo e sedutor.
- Sinto muito, mas não poderei lhe conceber tal pedido. Preciso, com muita urgência, atravessar a cidade para uma reunião de última hora.
O feitiço parecia ter voltado contra o feiticeiro: se não fosse pelo sorriso maravilhoso daquela criatura, ele teria retornado com cinco pedras em cada mão, ao invés da notável educação que empregou.
- Lamento por isso, já que este é um problema comum a nós dois. Minha carreira profissional, que acaba de se iniciar, depende desse táxi...
E toda essa educada discutição culta o estava fazendo perder seu curto e precioso tempo, além de está-lo irritando. “Mas, tudo bem... Ele está sendo, embora contraditoriamente, educado comigo, então não posso lhe faltar com o devido respeito...”
- Olha meu caro, eu entendo mais que perfeitamente o seu caso, mas...
Ele era bonito, educado e atraente, mas a impaciência era seu maior defeito, e nem o belo homem escaparia dela. Acabou o interrompendo.
- Não, você não entende! Só eu sei o que passe para estagiar naquela empresa; só eu sei o quanto foi difícil passar na seleção dos estagiários que ficariam lá! E se eu não chegar lá em menos de duas horas...
Passara meia hora andando até encontrar o maldito táxi; já estava estressado por causa da reunião da qual não era para ele participar, e ainda acaba por encontrar um infeliz para irritá-lo ainda mais. Educação para com o estranho já não era algo com que se preocupar...
- Eu já disse que sei o que está passando, meu caro! Também passei pelos anos de estágio, também passei na dura seleção de estagiários, e, agora, também tenho menos de duas horas para manter meu emprego, ou, ao menos, o reconhecimento de “advogado”! E se eu não chegar lá, Shion vai me matar!
Ora, mas aquele homem se arrependeria por interrompê-lo, e ainda sobrepor sua voz, embora não estivesse tão alterada.
- Não é porque você é, ou, ao menos, parece ser um pouco mais experiente que pode querer dar lição de moral em mim! Eu acabei de conseguir o emprego, e será que Shion irá me demitir antes mesmo do meu primeiro dia na empresa do cara?!
Isso não seria possível, seria...? “Shion? Coincidência de mais, ou não?!” E o belo sorriso formou-se tímido em seu rosto, sendo logo acompanhado por uma risada descontraída, embora breve e discreta. Percebendo a expressão irritada e confusa do outro homem, tratou de explicar-se.
- Você disse Shion? É ele o seu chefe? – O sorriso em seus lábios enquanto esclarece sua percepção. – Acho que estava irritado de mais para prestar atenção no que eu disse... – Voltou-se ao taxista, que assistia a tudo em mais profundo e tímido silêncio, entregando-lhe um cartão. – Por favor, leve-nos até este endereço...
Achou muita petulância da parte do outro homem, decidir para onde os dois iriam. “Abusadinho, não?!” Ele era, com toda certeza, de uma beleza rara e extrema, educado e atraente, mas... “Não está sendo muito apressadinho não, meu caro?!”
- Com licença, mas... Você ouviu o que eu disse agora a pouco? Sabe, a parte de eu ter menos de duas horas para salvar meu emprego...
Albafica voltou seus olhos azuis hipnotizantes na direção do outro homem. Com seu sorriso de anjo iluminando seu rosto, respondeu-lhe calmamente.
- Não pense coisas erradas sobre minha atitude... Ao menos não por enquanto... – Sorriu quase maleficamente. – Eu ouvi sim o que você me disse. Foi você quem não me ouviu... E com eu já lhe havia dito antes, sei o que está passando. Agora vamos – Disse-lhe abrindo a porta traseira do táxi –, entre logo nesse maldito táxi que já me deu tanta dor de cabeça. Se não chegarmos logo, Shion nos mata.
Mas que manhã maluca! Tantos imprevistos improváveis já o estavam deixando com raiva, o que era natural. Embora esta última surpresa não lhe parecesse de todo ruim. Minos lhe devolveu o sorriso encantador, e entrou pela porta que lhe era aberta, um tanto constrangido pelo desentendimento.
- Muito prazer, sou Minos...
- Albafica. E... O prazer é todo meu...
(Continua...)
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