Tá tudo errado, volta!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Há alguns meses, Zhang Mu-Guang nunca se imaginou saindo da China, seu país natal. Há duas semanas, recebeu a notícia de que havia passado no exame ofertado por sua escola e foi selecionado para participar de um intercâmbio. Há um dia (ou dois, ou nenhum, não entendia bem o fuso horário) estava embarcando no voo que o levaria para o outro lado do mundo.
E agora? Mu-Guang havia acabado de chegar ao aeroporto de Toronto, no Canadá. Estava empolgado, afinal isso era o mais distante que já chegara de Pequim. Por esse mesmo motivo, também se sentia bastante nervoso. Será que se adaptaria rapidamente a sua nova realidade? Será que seu inglês é o suficiente para ter o mínimo de comunicação com as pessoas? Pode até ter uma boa compreensão e uma pronúncia razoável, mas ainda estava longe de ser fluente...
"Fique calmo, Mu-Guang!", o jovem chinês dizia para si mesmo, "Vai dar tudo certo, ok?"
Respirou e tratou de ir atrás de sua bagagem, que por sorte não foi extraviada... E sim, Mu-Guang estava muito receoso quanto a isso, tinham lhe dito que era muito comum essas coisas acontecerem, então logo se preocupou. O próximo passo era encontrar a família com quem ficará pelos próximos seis meses, os Murphy. Passou então a procurá-los, não demorando muito para encontrar um casal de aproximadamente cinquenta anos, segurando uma cartolina com os dizeres "We're the Murphy's" e "Wellcome, Zhang Mu-Guang". Pelo menos já sabia que estavam contentes em recebê-lo.
— Com licença... — disse em um inglês um tanto arrastado ao se aproximar do casal
— Zhang Mu-Guang? — o homem do casal lhe perguntou
— Sim, sou eu. — Mu-Guang fazia esforço para falar o melhor inglês que podia — Prazer em conhecê-los.
Curvou-se para o casal, que reagiu com uma troca de olhares confusa. Por que seu gesto foi visto de forma confusa? Para ele é algo tão natural, mas para os ocidentais, não é.
— Seja bem-vindo, querido. — a mulher o cumprimentou, estendendo a mão
Ok... E agora? Ela quer mesmo que ele aperte sua mão? Isso parece um tanto estranho, na verdade, muito estranho, estranhíssimo.
— Obrigado. — o chinês, ainda com um pouco de receio, apertou sua mão
Conversaram um pouco mais por lá. Lilian e Tony, o senhor e a senhora Murphy, eram muito atenciosos, sempre lhe perguntavam como havia sido a viagem, se queria comer ou beber alguma coisa, se precisava de algo antes de irem. Mu-Guang disse que estava tudo bem, então logo se dirigiram ao carro do casal e seguiram caminho para casa. Continuaram a conversar durante o trajeto. O chinês não pude deixar de ser sentir orgulhoso ao receber elogios do casal por seu inglês, pelo jeito estava melhor do que pensava.
Os minutos foram se passando e logo eles chegaram a seu destino. Mu-Guang olhou diretamente para o número da casa: oitenta e oito, felizmente. Foi criado dentro de uma cultura muito supersticiosa, então tais superstições já fazem parte de seu ser, são parte de quem ele é. Em seu país natal, quatro é o número da morte (e o fato de o número da placa do carro do casal possuir um numeral quatro o deixou apreensivo), enquanto oito é o número da boa sorte. Já que o número do lugar onde ficará possui dois números oito, significa que sua estadia será ótima, será fantástica, serão os melhores seis meses de sua vida.
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— Sashaaaaaaaaaaaa, por favooooooooooor! — Kimberly Murphy arregalava os olhos azuis e fazia beicinho, alongando cada palavra que dizia — Vai, deixaaaaaaaaaa! Por favor, por favor, por favor, por favor, por favooooooooooor!
— Para de choramingar, Kimberly Murphy. — a amiga respondeu, guardando o livro de história da arte na mochila e fechando-a — Eu já expliquei que minha casa está sendo detetizada, nós já somos seis pessoas num quarto de hotel, não tem espaço para mais nada.
Droga! Sua vida de filha única não lhe permitia imaginar como seria ter irmã mais velha de trigêmeos e, sinceramente, nem queria se imaginar em uma situação dessas. Se não aguentava mais ter de dividir seu espaço com intercambistas, quem dirá com crianças!
— Mas eu não quero voltar para casa. — a pequena Murphy choramingava, afundando a cabeça no caderno ainda aberto
— Esse drama todo é por causa do tal chinês, é?
Kimberly apenas afirmou com a cabeça.
— Ah, me poupe. — Sasha bufou, esse drama se repetia toda vez que seus pais recebiam intercambistas — Como se fosse a primeira vez que seus pais recebem um intercambista. Para logo com esse drama.
— Não! — Kimberly protestou, sem levantar a cabeça do caderno, talvez dormiria por lá mesmo e só retornaria para casa em seis meses — Eu quero fazer drama, não posso mais?
— Pode, claro que pode. O choro é livre, eu só não quero ouvir.
— Você é muito chata, por que eu sou sua amiga mesmo?
— Porque eu sou a única pessoa que te atura.
— Eu também te amo.
— Eu sei, todos me amam. — Sasha se levantou, mexendo em seus cabelos cacheados e volumosos — Sabia que a aula acabou, né?
— Eu sei, eu só não quero ir, não quero um chines estranho cozinhando cachorro na minha casa enquanto assiste hentai.
— Mas você é burra, Kimberly! Vamos começar que hentai é japonês e o consumo de cachorro diminuiu muito. — a análoga revirou os olhos, segurando o braço de Kimberly e a puxando para fora da carteira — Vamos logo, guarda suas coisas.
Kimberly bufou e começou a guardar o material contra sua vontade, não aguentava mais ter de dividir teto com estranhos. Queria apenas desaparecer por enquanto... E quem disse que teria de voltar para casa? Sempre há uma válvula de escape para qual pode ligar e é isso que está fazendo agora.
— Alô? Alex? — sorriu ao ouvir a voz do garoto, já quase oito anos mais velho do ela, do outro lado da linha — Eu não quero voltar para casa hoje, você pode me levar para algum lugar legal?
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