TwoLifes
2 Capitulo II: Estou no paraíso?
Notas iniciais
Cheguei em casa arfando, mais uma vez estava ensopada de suor. Minha mãe olha para a caixa em minhas mãos incrédula.
– Você tem certeza que “ganhou” no sorteio? – Ela pergunta com a voz desconfiada.
– Eu não roubaria, mãe. Nunca – Passo direto para o meu quarto e tranco a porta.
– Você pode me emprestar enquanto não estiver usando? – Ela grita da sala.
– Não ouse tocar nessa perfeição divina, mãe! – Grito de volta.
Agora eu finalmente poderia ver como é a vida noturna, poderei senti-la, prova-la. Deito-me na cama e minha respiração começa a se estabilizar. Pego as instruções e leio atentamente antes de colocar o aparelho. Era muito mais simples do que pensava, liguei todas as coisas esquisitas do aparelho e deixei em volta da cama. Havia um aparelho que parecia uma caixa destinado à internet, era totalmente branco e tinha luzes azuis. Havia outro que ligava com um monte de fios que eu precisava grudar na pele dos meus pés e da minha mão. E outro que eu colocava no nariz como uma mascara. Deitei novamente em uma posição confortável e coloquei o enorme capacete. Ele cobria toda a minha cabeça e ia até os ombros, era estranho olhar lá dentro, era como se eu estivesse em uma cabine. Estranhamente não senti nenhuma fobia de estar lá dentro. Era bem aconchegante.
– Ligar – Ordenei com a voz rouca e tremula.
Já sentiu a sensação de desmaiar? Foi exatamente assim. Eu perdi todas as forças e meus olhos fecharam sem minha autorização. Eu simplesmente fui abduzida por aquele sonho esquisito. O meu corpo todo começou a formigar e eu sentia como se estivesse em pé. Abri os olhos e me vi em um lugar amplo e iluminado, olhei em volta assustada.
– Bem-vinda a TwoLifes. Se estiver sentindo algum incomodo, por favor, nos avise – Uma bela voz de mulher soou na sala branca e vazia.
– E-eu... Eu estou sentindo um formigamento no corpo – E então o formigamento parou.
– Está melhor agora? – A voz perguntou.
– Sim, mas...
– Antes de começarmos faremos alguns testes de sensibilidade, tudo bem?
– Tudo. Tudo sim – Olhava em volta esperando ver alguém. De repente o ambiente começou a ficar gelado. – Estou com frio.
– Pedimos autorização para poder fazer leituras em seu cérebro, apenas facilitara o teste e o jogo. Assim não precisaremos que diga o que está sentindo.
– Tudo bem – Respondo confusa e sinto algo coçando na cabeça. – O que diabos?
– Você ainda não está totalmente no jogo. Iremos desconecta-la ainda mais da vida diurna.
E dito isso eu me senti muito mais viva. Sentia até o cheiro do ambiente, aquele cheiro de hospital, ou algo do tipo.
– Fase um, ok – A voz soou e então a parte do chão que eu estava começou a subir devagar – Escolha sua aparência.
Um espelho apareceu na minha frente e o olhei espantada. Eu era algum tipo de luz sem forma. Tinha uma forma, mas não tinha ao mesmo tempo. Comecei a me perguntar como escolheria a minha aparência até que a voz me respondeu.
– Deseje e será.
Pareceu uma daquelas frases de contos de fadas, ri baixo e olhei para aquele espelho novamente. De repente um corpo começou a aparecer. Que corpo! Eu nunca teria um corpo desses nem frequentando a academia por um milhão de anos. No começo me senti envergonhada por estar despida e a voz provavelmente estar me observando, mas depois me convenci que a voz era apenas uma programação e me soltei. Caramba, aquilo não são seios, são obras divinas. Que merda de cintura é essa? Como pode ser tão fina? E esse quadril! Meu Deus. Rodopio e fico espantada com o tamanho da minha bunda. E então começa a aparecer o rosto. E ai pegou pesado. Lábios carnudos, nariz perfeitinho e olhos verdes. O cabelo era um tipo de ondulado bonito e loiro. Toquei neles e pela primeira vez amei tocar em meus cabelos.
– Fase dois, ok – A voz disse novamente e então um belo vestido preto cobriu o meu corpo.
O olhei assustada e depois vi o quanto ficava lindo em mim. Caramba, cada vez eu amava mais aquilo.
– Prefere escolher sua profissão agora ou viver em TwoLifes até descobrir o que quer fazer?
– Viver em... – Nem acabei de responder e me senti zonza, de repente não estava mais naquela sala gigantesca e infinita. Estava deitada de olhos fechados e havia muita falação em minha volta. Abri os olhos com dificuldade e me vi em um tipo de salão cheio de camas com muita gente vestida de preto assim como eu.
– Você também ganhou os aparelhos no sorteio? – Ouvi uma voz ao meu lado e virei. Deparo-me com um homem lindo de mais ou menos trinta anos. Ele era muito branco, seus cabelos iam eram de um loiro platinado e tinha uma bela barba aparada. Seu sorriso torto me despertava algo muito, muito constrangedor.
– S-sim – Ah, vamos lá. Quem não gaguejaria ao acordar ao lado de um cara desses? — Nós... Dividimos a mesma cama? – Pergunto sem jeito.
– Não, eu só sentei aqui... É que você é realmente muito linda – Ele responde com o mesmo sorriso.
– Ok. Sai da minha cama, cara desconhecido – Murmuro seca e ele se afasta confuso.
Droga. Por que diabos eu disse isso? Reviro os olhos e levanto da cama, vou andando para examinar todo aquele grande salão esquisito e não entendo nada. Parecia que não existia nenhum tipo de banheiro. Apenas camas e mais camas.
– Acho que começamos com o pé esquerdo – O cara desconhecido fala... – Meu nome é Joseph, prazer. – O Joseph fala andando atrás de mim e se apresenta erguendo uma das mãos para um aperto de mãos.
– Meu nome é... – Droga, calma. Eu nem havia escolhido o meu nome ainda. – Eu ainda não sei.
– Então, “eu-ainda-não-sei”, quer um parceiro novato para andar por ai e conhecer mais de Twolifes? – Ele pergunta sorrindo.
– Se eu disser não você vai continuar me seguindo de qualquer jeito, não é mesmo? – Jogo o cabelo para trás do ombro e o olho displicente.
– ‘Tá brincando – Joseph ri e revira os olhos. – Você não consegue fazer isso.
– Isso o que? – Pergunto sem entender.
– Ser metida – Ele ri baixo e morde um lábio. Qual é. Morder o lábio é sacanagem.
– Em Twolifes as pessoas saem se beijando? Só para saber – Acho que deveria ter esperado um pouco mais para fazer essa pergunta.
– Sim – Ele ri. – O pior é que sim.
Seu olhar continuou no meu por uns longos minutos até eu entender que ele queria me beijar.
– Ah! Tá. Ok – Olho para os seus lábios incrédula – Isso não pode ser real. Eu beijando um deus grego? Qual é?!
– Até parece que nunca fez isso – Ele se aproxima rindo e coloca as mãos na minha cintura.
– Na verdade... Eu nunca beijei nenhum cara mesmo.
– ‘Tá brincando.
E então ele ficou me olhando descrente até sacar que não era uma brincadeira. Eu deveria ter percebido logo que em Twolifes as pessoas não parariam de se “comer”, principalmente porque todos aqui são extremamente atraentes. Todos devem ser tão solitários em suas vidas reais que procuram o amor aqui como agua no deserto. Olho para Joseph e, por alguns segundos, sinto pena dele. Ele não deve ser um deus grego na vida real e não deve ter nem metade da ousadia que tem aqui.
– Bem, aqui você terá mais oportunidades – E então ele ri sem graça – Se for por causa da sua religião, dos seus parentes que pressionam muito ou da sua aparência... Bem – Joseph coça a nuca sem graça – Nada disso será um empecilho agora.
– É, mas eu não sou do tipo que veio aqui só para beijar, entende? – Tento não soar muito rude, mas falho. — Não que você seja desse tipo, eu só...
– Tudo bem – Ele impede que eu continue falando – ‘Tá tudo bem. Eu vou indo, então. Nos vemos por ai.
– OK.
Ai que droga. Eu e minha falta de tato agindo mais uma vez. Mas pensando bem... Cara, pela primeira vez eu rejeito um menino e ele era, tipo, muito gato. Começo a rir e saio dali enquanto as pessoas me olham sem entender.
A rua era extremamente limpa, não havia nenhum lixo ou nenhum odor, tudo era perfeito. As pessoas eram lindas, os animais eram lindos, os carros eram lindos. Estava começando a pensar que estava no paraíso até que tropeço e caio de joelhos no chão. A dor é como na vida real, infelizmente. Sou ajudada por algumas pessoas e eles sorriem calorosamente. “Na minha primeira vez também fiquei assim”, diziam para mim. Ando mancando por alguns metros até que a dor começa a passar. Estava tendo a impressão que esquecia alguma coisa até me lembrar de quem me deu o aparelho. Robert! Dou um grito e saio correndo atrás de uma moça que estava passando por mim.
– Pense bem antes de me assaltar, menina – Ela murmura e se vira com uma espada.
– Calma! – Grito e olho a espada. Ok. Isso foi bem estranho. – Eu só queria perguntar onde é que fica o parque dos pássaros.
E então o olhar dela fica vago, ela me olha de cima a baixo e vejo sua espada tremer.
– Me perdoe, me perdoe. Eu não sabia que você era do clã da Phoenix – Ela joga a espada no chão e ergue as mãos. – Por favor, não faça nada contra mim.
– Eu não farei, só estou perdida. E como assim clã da Phoenix? – Pergunto confusa.
– Clã da Phoenix? – Um homem loiro que estava passando para e nos olha assustado. – Por que estão dizendo essas coisas assim? Se um guarda pega uma de vo... Ei! – Ele vê a moça com as mãos erguidas e se afasta de mim – V-você é do clã da Phoenix?
– Isso já esta me cansando, gente – Reviro os olhos e tenho uma ideia. Pego a espada da moça do chão e a aponto para o homem. – Me leve agora até o parque dos pássaros antes que eu corte o seu corpo ao meio.
Os dois me olham desesperados.
– Uau – Ouço aplausos atrás de mim e me viro rapidamente. – Digno de uma Phoenix – Um menino ruivo, alto e magro me olhava displicente. Seu olhar era de um profundo azul e me causavam arrepios. – Mas temo que esteja sozinha demais para enfrentar um guarda lvl. 50.
A moça e o homem que estavam atrás de mim arfam e começam a correr.
– Está havendo algum engano, eu não sou desse clã e...
– Não tente negar, eu vi tudo – Ele começa a se aproximar de mim lentamente. – Você não pode mais fugir disso – Sua mão vai em direção ao meu braço e ele o aperta.
– Cara, na moral...
– Solte-a, guarda – Ouço uma voz familiar. – Ela está comigo.
Sinto um braço envolvendo minha cintura e sou puxada para trás.
– Você... – O guarda ruivo diz e solta uma risada displicente. – Leve-a, então.
Ele dá meia volta e vai embora, não antes de olhar para mim pelos ombros e sorrir.
– Mas que merda, Rob. Que tipo de Parque é esse que mete medo nas pessoas só pelo nome? – Me viro esperando ver o Robert que vi na vida diurna, mas me deparo com um homem. Deveria ter reparado na sua voz mais grossa e madura. Ele estava incrível. Na vida diurna era magro, alto e tinha cabelos rebeldes e castanhos jogados de qualquer jeito. Na noturna tinha belos cabelos grandes chegando até o ombro e uma barba por fazer. Mesmo com um casaco que cobria tudo até os pés, dava-se para perceber que seu corpo era malhado. Em baixo desse lindo casaco preto e bem passado havia uma camisa e uma calça da mesma cor. A única coisa que quebrava a negritude daquele visual era um belo lenço laranja que estava jogado em volta do pescoço e suas pontas caiam pelo seu peito.
– Stephany? Você está me escutando? – Droga.
– Desculpa... – Minha voz sai rouca e então eu tusso. – Me desculpa não consegui ouvir.
– Você também não está de se jogar fora – Ele diz rindo e revira os olhos. Pega no meu braço e começa a me puxar para um carro preto.
– Como você sabia que eu era a Stephany? – Pergunto e bato a cabeça antes de entrar no carro. – Ai. Ai.
– Eu anotei a codificação do aparelho que lhe dei para poder ver sua mudança. Você nua... Uau.
– Eu não estou acreditando... – Fico ruborizada e me encolho no banco. – Seu sem vergonha!
– Depois só vim aqui, que é onde todos do nosso país diurno nascem em Twolifes, e te achei.
– Você disse que não havia mudado nada de sua aparência em Twolifes.
– Na verdade não mudei, eu só escolhi ser como eu serei quando tiver trinta anos.
– Isso é mudar. “Só gente como você precisa mudar” – Falo com uma voz metida.
– Isso não é “mudar”... Coloque o cinto. Vou te levar para um lugar legal – Robert diz e pisa no acelerador. Meu corpo vai para trás com fúria e demora até eu conseguir me acostumar. Coloco o cinto e o olho pasma.
– Que tipo de lugar legal é esse?
– Um motel.
– AHN?! Para o carro!
– É brincadeira – Ele ri. – Você vai ver.
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