Notas iniciais
Gente, eu já havia postado um capítulo um diferente e tive comentários (que adorei), mas tive que apagar tal capítulo porque depois de fazer uma avaliação, eu percebi que não é exatamente onde eu quero deixá-lo. Então foi meio que um spoiler. Me perdoem. rs
Bom, aqui está o capítulo um oficial! ♥

C A P Í T U L O

1

Dia 20 de setembro de 2012.

— Mandy, eu não consigo te escutar. Fala mais alto! — Connie gritou de maneira enérgica do outro lado da linha. Com o fone preso entre o ouvido e o ombro direito, Mandy teve que se inclinar ligeiramente para trás para que não deixasse o aparelho deslizar sobre pele suada e cair. Ela não tinha mais fichas para completar outra ligação e qualquer movimento que fosse brusco terminaria de arrancar o fio ruído do único aparelho telefônico a sua disposição. Era sábado à tarde e o calor afobado deixava uma atmosfera pesada e insuportável no ar. Dentro da cabine telefônica ela podia ver no horizonte inalcançável o principio do rio de águas escuras da sua cidade, há quilômetros de distância. Ela se ajeitou na cabine de forma que pudesse manter o fone preso em seu ouvido enquanto travava uma insistente batalha com a mão esquerda para manter a porta da cabine o mínimo que fosse aberta.

— Eu disse que consegui a transferência da diretoria do Lar Irmã Rosaria, Connie — ela repetiu pela quinta vez. — Elas disseram que nós podemos começar segunda-feira.

— Conseguiu? Desculpe, é impossível te ouvir direito. Onde você está? Mandy soltou a porta de vidro da cabine telefônica quando seus dedos começaram a escorregar pelo vidro molhado e olhou em volta. Ela não sabia exatamente onde se encontrava, tudo que conseguia enxergar a sua volta era uma longa estrada cercada por mato queimado e placas de redução de velocidade. Não havia qualquer posto de gasolina e o armazém mais próximos ficava cerca de dez minutos dali, próximo a placa de Boas-Vindas da cidade.

— Estou em um cruzamento de Saint Louis, próxima a divisa com Restful City. — ela falou — Dentro de uma cabine telefônica no acostamento. Você vem até aqui?

— Na divisa? Eu acabei de deixar MysticVille e estou indo para casa. Por que nós não nos encontramos no centro?

— No centro? — Mandy gemeu — Minha gasolina está acabando e eu não tenho dinheiro, não sei o carro aguenta uma viagem até o centro. Eu estou pertinho de Restful City, consigo ver o começo do Okla River. Nós podemos nos encontrar no colégio — ela sugeriu. Do outro lado da linha Mandy ouviu um chiado insuportável, em seguida as palavras de Connie estavam sendo cortadas de tal modo que era impossível entender o que ela estava falando. E então, depois de segundos de intervenção, a ligação caiu. Mandy soltou um palavrão baixinho e bateu com o fone no gancho, o barulho do receptor de plástico fez um eco na cabine abafada de vidros embaçados. Ela limpou a testa com as costas da mão e com a ponta do pé chutou a porta que não tinha tanta facilidade para abrir quanto tinha para fechar. As dobradiças de metal enferrujado rangeram até uma se soltar ligeiramente, deixando a porta inclinada de uma forma estranha. Mandy olhou para os lados, não havia ninguém. Afinal, quem se importaria? Aquela cabine já estava com seus dias contados.

A picape preta Ford Ranger estava parada a alguns metros dali. Enquanto caminhava Mandy se perguntou quantos carros costumavam passar por aquele cruzamento ao longo do dia e se alguém alguma vez já havia parado para observar a pastagem desforme e queimada de sol que ladeava a estrada. O asfalto estava tão quente que ela podia sentir da sola desgastada do all star velho o vapor que subia até seus calcanhares. Naquele momento, mais do que nunca, ela desejou estar usando um short de pano fino ao invés daquela calça jeans escura e apertada. Ela apalpou a traseira do jeans se perguntando se havia retirado à chave da ignição ou se apenas havia desligado o motor. A única coisa que ocupava um de seus bolsos era o celular descarregado. Mandy puxou a trava do carro e a porta se abriu, o barulho do alerta que bipava sempre que as portas estavam abertas foi o único som que ela ouviu desde que estacionara o carro ali.

O interior da picape estava tão quente e abafado quanto aquela cabine caindo aos pedaços. Mesmo com as quatro janelas abertas não havia nem ao menos um sopro de ar que pudesse aliviar um pouco aquela sensação escaldante. Mandy ergueu o rosto para o retrovisor, com a ponta dos dedos ela massageou as bochechas vermelhas, queimadas de sol e depois afastou da testa os fios de cabelo molhado presos pelo suor. Havia ido para Saint Louis fazia cerca de quatro horas, quando o sol resplandecia no céu azul-claro e os comércios do centro da cidade ainda estavam abertos. Ela havia voltado para o Lar Irmã Rosaria a procura de Katherine, diretora da casa de idosos, para retirar a permissão de transferência para o lar de idosos mais próximo de Restful City, sua cidade. Mandy e Connie haviam começado a prestar serviços voluntários há cerca de três meses e foram diretamente encaminhadas para um lar de idosos na cidade vizinha, mas se locomover de uma cidade para a outra exigia um fundo monetário para o uso de gasolina o qual elas não tinham fácil acesso e a picape do pai de Mandy nem sempre estava disponível para ela. Quando rodou a chave na ignição e não recebeu o ronco familiar do motor cantando em seus ouvidos ela suspirou, não acreditando que aquilo pudesse estar acontecendo. Rodou a chave mais uma vez, o motor roncou brevemente ameaçando começar a trabalhar, mas desfaleceu. Mandy soltou a chave a afundou o corpo no banco de couro, os olhos azuis passearam pelo painel atrás do volante, a seta vermelha do marcador de combustível pendia ligeiramente na letra E. Ela se inclinou e tentou mais uma vez ligar o carro, os olhos fixos no painel. A seta tremeu e pulou algumas casas, e, no entanto, quando o motor da picape engasgou fazendo um barulho feio, ela caiu novamente para a letra E.

— Mas você ainda tinha alguns litros de combustível! — ela gritou irritada, como se o carro pudesse responder de alguma forma. Mandy encostou a testa no volante e massageou a têmporas doloridas. O calor daquele dia não estava fazendo bem ao seu humor, nem ao seu condicionamento físico. Todo o dinheiro que tinha na carteira tinha sido gasto em gasolina para poder sair de Restful City e chegar a Saint Louis. Durante as quatro horas em que ficara na cidade tudo o que conseguira comprar com alguns trocados tinha sido uma garrafa plástica de água mineral que acabara em menos de vinte minutos. Agora seu estômago roncava de fome e sua cabeça começava a dar leves pontadas. Ela se ajeitou no banco e ergueu o punho, olhando o relógio de braço. Seis horas da tarde e estava parada em um cruzamento na cidade vizinha, sem gasolina, sem celular ou fichas de orelhão para completar mais uma ligação a pedir a ajuda do pai ou do irmão. Ou até mesmo de Jéssica ou Connie. Exasperada, ela puxou a fita que prendia o cabelo em um rabo-de-cavalo, fez um coque no alto da cabeça e o prendeu novamente, apertando a fita mais do que o necessário. Sua nuca suava como todas as partes de seu corpo. Ao menos a blusa regata a alivia um pouco da sensação de estar sendo assada viva, muito embora seus ombros e seu busto estivessem tão vermelhos e queimados de sol quanto suas faces. Ela abriu a porta da picape e desceu. Não avistou nenhum sinal de vida nos arredores. A pastagem em volta movia-se cuidadosamente, denunciando o começo de uma brisa que ela ainda não conseguia sentir. Ela caminhou até a frente da picape, um cheiro forte de combustível ardeu em seu nariz. Ajoelhou-se no asfalto quente e apoiou as mãos no chão, inclinando o corpo ligeiramente. Próximo da roda traseira no lado do carona ela conseguiu enxergar uma poça escura e quase seca, o cheiro de gasolina se fez mais forte. Ótimo, ela pensou. Agora o meu pai vai me matar.


Uma hora mais tarde Mandy estava deitada no capo do carro, os braços e pernas estendidos enquanto contemplava a mudança da cor gradiente do céu de crepúsculo para os primeiros sinais do anoitecer. O céu estava salpicado com pequenos pontos brilhantes de estrelas enquanto nuvens brancas dispersavam na imensidão escura como fumaça tragada de um cigarro. Nenhum carro havia passado no cruzamento desde então, ela se perguntou se Restful City e Saint Louis eram tão separadas ao ponto de nenhum morador de ambas as cidades ter a curiosidade de visitar a outra. Talvez fossem como Springfield e Shelbyville, embora não tivessem nenhum motivo proveniente para tamanha rivalidade. Somente após muitas tentativas falhas de tentar religar o celular descarregado ela percebeu que o melhor a se fazer era ficar na beira da estrada esperando por alguma ajuda que surgisse em algum dos lados. Embora fosse arriscado, não tinha outra escolha. Ela sustentou as pernas no ar e levantou o tronco, se esforçando para se levantar, depois encolheu os joelhos e dobrou as pernas, sentando como índio no capo da picape. Deu uma risadinha interna quando imaginou como Bobby surtaria se a visse em cima do seu carro daquela forma. A única coisa que seu pai amava mais do que o carro, era sua própria família — também seria estranho se o pai resolvesse trocar um deles por um carro —, no entanto, sua maior paixão era a picape que ele sempre matinha impecável. Depois o estômago de Mandy, que até agora protestava de fome, se revirou quando ela pensou na bronca de ouviria do pai quando contasse que o carro apresentou um vazamento de combustível assim que ela o pegou. Mandy olhou para o horizonte, incapaz de distinguir de forma mais precisa o que estava vendo, ela espremeu os olhos e alguns segundos depois dois feixes de luz amarelada brilharam em sua direção. Faróis.


Mandy deu uma risada de satisfação e surpresa ao ver que finalmente alguém tinha aparecido. Pulou no carro e correu para o meio da estrada. O veículo agora estava a poucos metros de distância, em baixa velocidade. Ela fez sinais com os braços estendidos no ar, depois fez um gesto com as mãos para a picape parada no acostamento da estrada. Estava escuro e a única iluminação na local provinha da luz do luar — e agora dos faróis baixos do carro vizinho — e ela não pode identificar com precisão qual era o modelo, ou se era um homem um ou uma mulher atrás do volante. Mas quando o veículo parou ela sentiu uma sensação absurda de alivio percorreu em seu corpo desgastado. A porta se abriu e um par de sapatos masculinos desceu ao chão, depois surgiu o corpo de um homem esguio e forte. Ela se concentrou sem intenções nos traços de seu rosto, as madeixas negras caiam em seus ombros em um leve corte desfiado, contornando o rosto fino e de simetria agradável. Embora estivesse escuro e os faróis do carro não estivessem direcionados a ele, Mandy se surpreendeu com o brilho de seus olhos. Ela precisou de alguns segundos até se desprender da avaliação e então esclarecer o motivo de estar ali, parada.

— Será que você pode me ajudar? — perguntou um pouco sem jeito. Ela enfiou as mãos no bolso traseiro da calça e encolheu os ombros, como se estivesse sentindo frio.

Claro que não estava.

O homem a mediu de cima abaixo e depois olhou de soslaio para a picape parada logo adiante.

— O que houve? — perguntou, a voz firme preenchendo o espaço entre eles dois.

— A gasolina do meu carro acabou e... — ela não completou a frase. Ao invés disso balbuciou alguma que não faria sentido nem para ela — eu não consegui ligá-lo — completou, enfim.

— A gasolina acabou no meio do caminho?

— Na realidade eu parei naquela cabine para fazer uma ligação. Ainda havia um pouco de combustível, mas quando retornei e tentei ligá-lo, não consegui. O painel mostrou que a gasolina havia acabado.

— A gasolina acabou e você não percebeu? — ele parecia desconfiado, ou simplesmente incomodado por ter sido parado no meio da estrada.

— Na realidade houve um vazamento de combustível. E sim, eu não pude perceber isso — ela apontou para alguma coisa abaixo do carro. Os olhos do homem seguiram seu dedo, mas ele não encontrou nada. Ele fechou a porta do carro e se aproximou da picape com passos curtos. Mandy o acompanhou, mas ficou a uma distância considerável dele.

— Sente esse cheiro? — ela perguntou.

Ele a avaliou de cima a baixo novamente, depois se voltou para o carro.

— Senti a quilômetros de distância — ele respondeu, e sorriu. Seus dentes eram brancos e perfeitamente alinhados. Ela olhou para trás e encarou o carro, agora mais concentrada percebeu que era o modelo Chevrolet Onix. Observou a postura arrebicada do homem e o relógio de prata que brilha sob a luz do luar em seu pulso direito. Deve ser dentista, ela pensou distraidamente.

— Você tem um pouco de combustível, ou alguma coisa que possa me ajudar a sair daqui?

— Um pouco de combustível? — ele suspirou e balançou a cabeça. Mandy pensou ter dito alguma besteira — E você, te alguma mangueira?

— Hãm? — ela engasgou.

O homem levou as mãos até o quadril largo e voltou a olhar para ela. Agora mais próximo Mandy pôde notar que algumas rugas que se formavam em torno do seu olho quando ele ameaçava rir.

— Uma mangueira, para que eu possa puxar um pouco de gasolina do meu tanque e passar para o seu — ele explicou.

— Ah sim — ela coçou a cabeça. Não sabia se tinha “uma mangueira” ou se havia uma mangueira especifica para fazer aquilo. Pegou a chave do carro no bolso da calça e apertou o dispositivo no chaveiro, destravando os pinos dos dois compartimentos da picape. Ela olhou sugestivamente para o seu possível salvador e ele se afastou um pouco da porta. Nos bancos da cabine e pelo chão ela procurou por alguma coisa que se assemelhasse com uma mangueira. Bobby tinha o costume de guardar alguns acessórios que utilizava na picape embaixo do carpete de espuma. Com as mãos ela tateou o chão até encontrar uma elevação, usando a ponta dos dedos ela puxou uma mangueira de dois bicos com mais ou menos um metro de extensão, enrolada ali como uma serpente.

— Seria isso? — perguntou, olhando para o homem. Ele assentiu e pegou a mangueira da sua mão. Em silêncio deu a volta na picape, Mandy observou cada movimento. Parou diante ao compartimento bocal do tanque e puxou a tampa. Depois, balançou a cabeça, como se estivesse lamentando.

— Alguma coisa de errado? — perguntou Mandy, aproximando-se.

— O seu tanque tem proteção de combustível. Com isso não dá para transferir gasolina do meu carro para o seu — falou, devolvendo a ela a mangueira.

— Ótimo — ela murmurou. Bobby adquirira aquela picape há pouco menos de dois anos, todos os carros em nova demanda possuíam uma proteção bocal para garantir que não houvesse roubo de gasolina ou qualquer tipo de transtorno para o proprietário do veículo. Mandy, no entanto, não sabia que o carro do pai estava incluído nessa frota.

— Para onde você vai? — perguntou o homem, ele sabia fingir muito bem que não estava interessado em saber para onde ela estava indo, e ao julgar pela sua aparência cansada e o rosto juvenil ele não conseguiria simplesmente abandoná-la na estrada e seguir o seu caminho.

Se é que ele já não tivesse encontrado o que queria.

— Restful City.

— Eu estou indo para lá. Posso te dar uma carona — ele sugeriu.

— E deixa a picape aqui? — ela suspirou — Não posso.

— Eu ligo para o reboque, você dá o seu endereço e eles levam até a sua casa — ele sugeriu, puxando o celular do bolso.

— Desculpe. Mas eu mal te conheço. Quem me garante que você não vai desviar o caminho? — Mandy disse a ele numa voz séria. O homem parou de discar e ficou com o dedo polegar pendido no ar, seus olhos ergueram-se para Mandy e um sorriso sem graça brotou em seus lábios. No entanto, ele não respondeu nada. Caminhou até o seu carro e deu a volta no veículo, calmo.

— Eu tenho cara de assassino? — ele perguntou abrindo a porta do carona — Ou pareço algum tipo de predador?

Mandy ficou em silencio. Se ele estava querendo agir como uma pessoa normal ou ao menos parecer gentil, não estava fazendo da maneira certa.

— Tem um posto de gasolina aqui perto — ele voltou a falar — Eu te levo até lá, você compra um galão de combustível e eu te trago de volta até aqui.

— Eu não tenho dinheiro — ela disse, recuando na estrada. Já estava começando a se arrepender de ter parado aquele motorista. Mandy se virou para a picape e jogou a mangueira no banco de trás, fechou a porta e foi para o lado oposto do veículo do homem, pronta para subir na picape e se trancar lá dentro.

— Eu pago — ele falou a suas costas. Ela parou com a mão a meio caminho da porta do motorista. Os vidros ainda estavam abertos, o interior do carro estava escuro e opaco. Naquele momento ela sentiu uma primeira e leve rajada de vento passando entre suas pernas. Ou pelo menos ela pensou que realmente fosse uma brisa no ar.

— Não acho uma boa ideia — ela confessou, ainda de costas. Abriu a porta e se preparou para pular no banco alto.

— Vamos lá. Eu não posso te deixar aqui sozinha, e pelo que eu pude notar você não tem como entrar em contato com ninguém para pedir ajuda ou então não estaria aqui parada a essa hora da noite. Me deixe te ajudar, eu prometo que não vou fazer nada com você.

Mandy deu um suspiro cansando. Ela não era o tipo de pessoa que se deixava vencer por insistência, mas avaliando as circunstancias em que se encontrava, por mais arriscado que fosse, aceitar a sugestão daquele homem parecia ser o ponto mais próximo para fazê-la voltar para casa.

— Tudo bem — ela falou, virando-se para ele — Mas se você tentar algo, eu pulo do carro — completou.

Antes de ir, ela se certificou de que todas as janelas do carro de Bobby e todas as portas estivam bem fechadas. Deixar o carro esperando por ela na beira da estrada fazia com que seu estômago tremesse de medo e repreensão. Embora não quisesse confessar, ela se sentiu extremamente à vontade quando entrou no carro daquele homem e foi recebida com o frescor do ar-condicionado ligado. A cabine era extensa e conforme ela se movia no banco o barulho dos botões da sua calça roçando no pano grosso fazia um eco pequeno. Ela se manteve quieta por todo o trajeto de volto para Saint Louis, os olhos fixos na janela aperta e o vento tocando seu rosto. O motorista também não pareceu estar muito a fim de conversa, e Mandy evitou o máximo possível olhar para ele. Cerca de quinze minutos depois eles já estavam próximos ao posto de gasolina. As luzes estavam acesas e uma mulher corria em torno das bombas atrás de duas crianças que riam e, vez ou outra, se trombavam, tentando escapar das mãos dela. Mandy desceu do carro e observou o ambiente. Dali mesmo onde estava parada podia ver o começo do arco de metal de Saint Louis, iluminado por luzes roxas e esverdeados.

— Gasolina aditivada? — perguntou o homem, quebrando a concentração de Mandy. Ela se virou para ele, só então se deu conta de que não sabia o nome dele, e não faria qualquer diferença perguntar agora.

— Comum, por favor — pediu, incomodada.

Ela encostou-se à beira no carro e ficou o observando enquanto ele entrava na loja do posto e seguia para a prateleira repleta de diferentes marcas de empresas que vendiam galões de combustível. Imaginou como Claire surtaria se soubesse que ela havia aceitado carona de um estranho a beira da estrada. Mandy olhou para o relógio de pulso, quase oito horas da noite. Ela já estava ciente de que ouviria muitos sermões da mãe e provavelmente do pai também. Com o celular descarregado e sem nenhuma forma de entrar em contanto, Mandy já se sentia impaciente para voltar logo para casa antes que a mãe resolvesse chamar a polícia. Ela cruzou os braços diante do peito e ficou olhando o estranho que agora estava no caixa, oferecendo o dinheiro necessário ao atendente para que pudesse finalmente ir embora. Quando abriu a porta da loja Mandy tento disfarçar e olhou para outro o outro lado, se preparando para entrar no carro novamente.

— Aqui esta — disse o homem, oferecendo a sacola a ela. Mandy pegou e deu um sorriso sem graça. O galão era maior do que ela havia pensando, mas por ser de plástico era um pouco mais fácil de carregar.

— Olha, eu não sei quem você é e não sei se vou poder te pagar de volta — ela começou, profundamente incomodada com a situação. Era extremamente estranho ficar devendo dinheiro à pessoa que não conhecia.

— Não precisa se preocupar com isso — o homem disse abrindo a porta do motorista. — Isso é o de menos.


Quando retornaram ao cruzamento e Mandy se certificou de que não faltava nenhum pedaço da picape ela suspirou de alivio. Agora estava chegando à parte a qual ela passou o caminho inteiro de volta pensando em como escapar. Ela retirou o galão de combustível da sacola grande e repousou no chão. O motorista havia descido do carro e a observava encostado no capo, com os braços cruzados diante do peito.


— Pode me ajudar? — ela pediu, envergonhada. Encher o tanque de combustível não parecia ser um trabalho tão difícil ao ponto de ela não conseguir fazê-lo. Mas encher sem as bombas equipadas as quais ela já estava acostumada tornava as coisas um pouco mais complicadas.

O motorista assentiu e se aproximou. Colocou a bica no galão e então com uma mão só o ergueu, encaixando a ponta da bica no bocal do tanque. O líquido escurou começou a transcorrer pelo plástico claro da bica. O homem parou quando o galão ficou cheio só até a metade.

— Sua picape está com um vazamento de combustível — ele começou a falar, rolando a tampa no galão na rosca de plástico — Enchi só até a metade para evitar que vaze mais — ele ergue o galão e colocou na cabine da picape.

— Obrigada — Mandy agradeceu, uma mecha do seu cabelo se desprendeu quando ela balançou a cabeça e caiu diante do seu olho esquerdo. Naquele momento o homem parou de falar por um segundo e a observou, o rosto inexpressivo. Ela notou quando ele apertou a boca em uma linha reta e firme, como se tivesse pensando bem antes de voltar a falar. Ela escondeu a mecha atrás da orelha e mordeu a carne da bochecha, nervosa com o silencio repentino.

— Faça um teste — o homem falou e piscou lentamente depois de ficar segundos em silêncio. Sem entender o que tinha acabado de se passar, Mandy virou para a porta.

Ela retirou a chave do bolso da calça e deu um beijo nela antes de mais nada, fazendo uma pequena oração: Por favor funcione. Não faça tudo isso ter sido atoa! Desejou. Quando rodou a chave na ignição novamente e o motor roncou continuamente, ela suspirou. Apertou o pé o acelerador e aproveito o barulho estrepitoso como se fosse uma melodia.

Ela abriu a janela, colocou a cabeça para fora e sorriu.

— Funcionou — gritou para o motorista, como se já não fosse claro. Ele bateu com as mãos nas coxas da calça e se aproximou da janela.

— Você vai conseguir chegar a Restful City sem maiores problemas, mas eu a aconselho levar essa picape a uma oficina o mais rápido possível — ele disse. Rrestfule City foi o que Mandy o ouviu dizer. Ele não tinha um sotaque da região, ou um sotaque que ela pudesse reconhecer. Deduziu em pouco tempo que ele não era morador de Restful City, nem de Saint Louis. Talvez ele nem fosse de Missouri.

— Posso saber o seu nome? — perguntou, como quem não queria nada. Ele já havia a ajudado muito a levando até o posto de gasolina e pagando para ela um galão de combustível. E em nenhum momento aproveitou-se da situação, como ela temia. Dizer o seu nome era o mínimo que ela podia fazer.

— Mandy — falou.

Ele assentiu e pouco a pouco se afastou da janela, virando-se de volta para o Chevrolet Onix.

— Mandy — ele repetiu, calmamente, enquanto virava — Foi um prazer.


Notas finais
Comentários? *-*'
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.