Two Pieces
11 Quem é ela?
Notas iniciais
Acordei cedo com uma mensagem de Rafael. O celular vibrou em baixo do meu travesseiro e eu acordei quase instantaneamente. Enfiei a mão em baixo do travesseiro e ela saiu de lá segurando o celular. Abri a mensagem que dizia:
Estou te esperando no jardim! Beijos, Rafa
Sorri. Levantei em um salto e disparei para o banheiro. Geovanna ainda estava dormindo o que significava que ela havia chegado muito tarde. Que horas? Eu não sei. Depois que Rafael me deixou no meu quarto eu ainda fiquei acordada por um tempo antes de ir para a cama e mesmo assim não a vi chegar.
Assim que saí do chuveiro fui direto para o guarda roupa. Escolhi roupas simples, nada de especial. Uma blusa cinza de manga longa e uma bermuda, com sapatilhas e saí do quarto em silêncio para não acordar Geovanna. Caminhei calmamente pelo corredor, tentando ainda entender porque minhas mãos tremiam. Não um tremor de verdade, mas um tremor diferente, ansioso. Pensar em Rafael ultimamente tem me causado isso. Tremores leves que nunca cessam e me deixam desconfiada.
A grama estava levemente molhada aos meus pés. Havia amanhecido mais verde. Caia uma chuva fina, uma garoa na verdade. A sensação do vento frio em meus cabelos era deliciosa e um sorriso brotou em meus lábios. O ar tinha cheiro de terra molhada e o dia estava com uma sensação prazerosa de liberdade. Era como se a liberdade fosse dada a todos e eu pudesse até mesmo pegá-la.
Rafael estava sentado em baixo de uma árvore, o olhar perdido. Seu rosto era calmo e eu não me lembro de ver seus tão perdidos quanto estavam naquele dia. Vestia uma blusa branca e calças jeans, chinelos simples nos pés. Não parecia se incomodar com o frio e seus olhos pareciam brilhar mais. Os joelhos estavam dobrados a frente do corpo e as mãos estavam encaixadas, uma a outra, colocadas em cima dos joelhos. Quando me aproximei, ele abriu um meio sorriso e me convidou a sentar.
—Bom dia! — cumprimentei assim que me sentei.
—Bom dia. — ele parecia feliz. Não avançou para me beijar o que eu achei estranho, porém compreensível. Nem eu sabia direito se gostaria que ele me beijasse agora. Pensando bem, gostaria sim.
—Então, tem alguma razão específica pra você me chamar aqui?
—Sim. — ele falou. — queria estar com você.
—Bom. — ri. Ele sorriu também e desviou seu olhar do meu rosto. Respirei aliviada, estava começando a ficar constrangida.
—Você tá melhor? Sobre o negócio do seu pai e tal? — ele parecia sem graça.
—To, obrigada. Você tinha razão. Meu pai sempre era muito alegre. Não me deixava entristecer por nada e nem por ninguém. — ele concordou com um aceno de cabeça. Olhei para seu rosto, procurando analisa-lo. Nunca fui do tipo “analista”, mas descobrir o que Rafael estava sentindo era como um hobbie que eu ainda não tinha dominado. Sentia necessidade de entender toda aquela imensidão azul e todos os sentimentos dele. Naquele momento seus olhos estavam perdidos, o rosto com uma expressão de dor. Franzi o cenho.
—O que foi?
—Estava pensando na minha mãe. — sua voz era um sussurro. O olhar agora era triste e ele cerrou os punhos. Meu coração pesou.
—O que aconteceu com ela? Quer dizer, sei que morreu. Mas como? — ele respirou fundo antes de começar, as palavras saindo rápido de sua boca.
—Eu tinha dez anos quando eles se separaram. Meus pais. Ele a havia traído com uma mulher que ele nem se quer chegou a ter alguma coisa com ela. Minha mãe era daqui de Goiás e conheceu meu pai quando precisou se mudar para São Paulo. Nunca soube o motivo. Ela voltou para a casa dos pais depois da separação, me trazendo com ela. Eu era pequeno, mas entendi que meu pai era o errado da história e bati o pé querendo ficar com a minha mãe. Não me arrependo até hoje.
“Eu tinha quatorze anos quando ela morreu. As coisas estavam difíceis, porque eu queria sair com os amigos e ela não deixava. Dizia que era perigoso e tal. E eu, naquela empolgação adolescente idiota, só queria fazer o que os meus amigos faziam. Um dia fui convidado a ir para o Araguaia. Era só um final de semana entre amigos e logo eu estaria em casa. É claro que ela recusou. Argumentou o de sempre e nem me deixou me defender. Fiquei com raiva. E fugi de casa.”
“Fui para o Araguaia naquele dia. Nós rimos e nos divertimos e tudo ia bem. Eu sabia que ela ia me matar quando eu chegasse a casa, mas e daí? Eu estava feliz e depois eu me virava com ela. Não cheguei a ter essa chance. Naquele mesmo dia, o meu telefone tocou com a notícia de que ela estava morta.”
—Nossa. — sussurrei. Meu coração agora estava insuportavelmente pesado, como se eu fosse Rafael. Podia sentir sua dor. Ele não chorou e manteve a voz neutra. Entendia como. Eu mesma dava conta de fazer aquilo, falar sem expressão como se não se importasse. Esconder o que sentia. Mas no fundo, ou talvez não tão fundo assim, você sentia cada dor, cada pedaço do seu coração arder em agonia. Ele continuou:
—Ela tinha um problema no coração. Até hoje não sei bem o que é. Não me preocupei em saber. Não podia ficar preocupada ou estressada, se não teria um infarto. Dependendo do quanto de preocupada poderia ser fatal. Eu não sabia. Ela nunca me contou. Se eu soubesse... — ele pausou a voz embargada. — se eu imaginasse... Ela ficou preocupada comigo e por isso teve um infarto fulminante. Nem tive tempo de me despedir. — ele fechou os olhos. Aquilo acabou comigo. Era desumana aquela dor. Toquei em seu ombro sem saber exatamente o que fazer. Pensando que fosse o melhor, coloquei as mãos em seus ombros, virei-o para mim e o apertei contra meu corpo. Ele passou os braços em torno de mim e senti as lágrimas quentes molharem minha camiseta. Não me importava.
—Pode chorar Rafa. Pode chorar. Liberte-se da dor. — disse eu com a voz calma, neutra. Chorar pode até ser sinal de fraqueza. Mas é um sinal de fraqueza que esvazia a alma e leva a dor.
Ele chorou por no mínimo uns vinte minutos, antes de se recompor e enxugar as lágrimas, envergonhado. Sorri garantindo-lhe que não havia nada com que se envergonhar. Todo mundo chora. Todo mundo precisa chorar.
—Assim que se passou o enterro eu quis ir com meu pai. Não porque eu o amava, mas a culpa era insuportável. Não conseguiria voltar para aquela casa sem vê-la em todo canto, sem sentir uma culpa enorme. Todas as noites eu sonhava com ela morrendo, me dizendo que eu era o culpado de tudo. Desde então nunca mais vi a família dela.
—Mas isso não é verdade. — eu disse. — você não é o culpado. Errou como todo adolescente. Não sabia do problema dela. Se soubesse nunca teria feito isso.
—Mas eu o fiz.
—Não deve se culpar. — disse novamente. Ele ficou em silêncio sem concordar e sem discordar. — você podia ver sua família de novo.
—Ver minha família? — ele perguntou confuso.
—É. Disse que há anos não fala com ela. Eles devem sentir saudade. E não te culpam pela morte da sua mãe. — ficamos em silêncio. Rafael sorriu animado.
—Quer dar um passeio?
***
—É sua?
—Era da minha mãe. Vamos pegar emprestado hoje. — ele pega um capacete me entrega e coloca o dele. Em menos de dois minutos estamos na estrada. E aí estava ele outra vez, o medo me cercando. Eu morria de medo de moto quando pequena e parece que esse medo veio comigo. Sem saber direito o que estava fazendo, meus braços rodearam a cintura de Rafael assim que ele acelerou. —ei, eu ainda preciso respirar está bem? — brincou Rafael. Sorri um pouco e o soltei um pouco. Só um pouco.
O caminho foi tranquilo. Eu não sabia que lado de Goiânia era aquele, nunca tinha ido para lá. Eu vi que saímos da cidade e seguimos rumo à outra que, de acordo com a placa, chamava Bela Vista. Na beira da estrada estava cheio de vendedores, pessoas com bancas e alguns produtos. A maioria era comida: queijos e doces de todos os tipos. Rafael e eu não paramos. Continuamos andando, enfrentando o calor naquela estrada asfaltada.
O vento batia contra meus cabelos, levando-os para longe. A sensação não era ruim realmente. Andar de moto talvez não fosse o bicho de sete cabeças. Com o tempo acabei esquecendo aquele sentimento e aproveitei a viagem. A paisagem se limitava a muitas árvores, variando com alguns paredões de morro de cada lado da estrada de vez em quando. Havia algumas estradas de terra para fazendas com placas indicando os nomes.
Foi uma viagem bastante tranquila. Não tivemos problemas e Rafael sabia dirigir a moto com uma habilidade que me impressionou. Chegamos a uma casinha velha e não muito pequena. Ela tinha três áreas grandes, uma delas sendo a garagem. Era azul claro e a pintura aparentava ser nova. Era cercada por cerca de arame farpado que era brevemente interrompida por uma porteira. A porteira foi aberta por uma mulher alta, de cabelos castanhos escuros lisos e curtos e um pouco gorda. Ela arregalou os olhos não acreditando no que via. Franzi o cenho.
Rafael desceu da moto e tirou o capacete. A mulher, que até então ainda estava na porteira, sorriu e veio até Rafael.
—Rafael? — a voz dela deixou transparecer toda sua surpresa. Desci da moto e tirei meu capacete arrumando o cabelo em seguida. Rafael sorriu e foi até ela para abraça-la.
—Tia! — ele sorriu e a abraçou forte. Ela gargalhou e bateu nas costas dele.
—Seu menino levado, como pôde? Nunca mais ligou e nem deu notícias.
—Eu sei, eu sei. É que... Tudo bem, não tenho desculpas. — ela deu um tapa na cabeça dele. — aí. Ok acho que mereci essa. — eles riem. Fiquei só observando.
—Mãe! Pai! É o Rafael. — ela grita empolgada. — meu Deus, como você ficou lindo querido. — ela diz apertando o rosto dele. Rio com aquela cena. Ela olha por cima do ombro dele, só então notando minha presença e sorri. — quem é querido?
—Ah, esta é Kamilla. Uma amiga. — ele sorri. Assenti e me aproximei deles. Fiquei feliz que ele não tinha dito namorada ou algo do tipo. Só ficamos algumas vezes, não chega a ser um romance. Mas, se não fosse esse o caso, por que ele me levaria para conhecer a família dele? — Milla, essa é a Tia Hilda. Tia Hilda, esta é a Kamilla.
—Prazer, senhora Hilda.
—Prazer Kamilla. Pode me chamar de Hilda.
—Pode me chamar de Kamilla. — sorrimos uma para a outra e olhamos para trás quando escutamos passos entusiasmados. Uma mulher morena aparentando cinquenta anos aparece na varanda com os olhos espantados. Ela usava óculos e o que poderia ser sua franja estava presa por um piranha, o que, particularmente, não dava um charme. Ela secava as mãos em um pano de prato e estava com os olhos arregalados, a boca aberta em um “O” desajeitado. Ela correu o máximo que pode e abraçou Rafael. Este a agarrou e sorriu fechando os olhos. Estava muito feliz e meu peito se encheu de alegria.
—Minha rainha! — ele disse quase gritando.
—Meu rei! — ela bateu em seu ombro quando ele a soltou. — nunca mais apareceu e do nada resolve fazer uma visita? Quer matar sua avó de susto? — então ela era a avó dele? Não se pareciam em nada. — Geraldo! Geraldo venha! É o Rafael.
Na porta apareceu um homem. Parecia ter sessenta anos e os cabelos loiros estavam ralos na cabeça, porém, incrivelmente não eram brancos. Apenas um poucos na frente. Os olhos eram castanhos e o rosto marcado por rugas. Ele franziu o cenho, mas assim que viu Rafael sorriu e veio andando tranquilamente até o neto. Sorria mostrando os dentes perfeitamente alinhados. Presumi que fosse dentadura. Ele cumprimentou o neto não poupando abraços e sorriu feliz. Após todo o momento de êxtase, eles notaram minha presença. Rafael me apresentou a eles. A avó se chamava Linda e o avô Geraldo. Entramos na casa.
A sala era média, com uma televisão um pouco velha, quadros de pessoas desconhecidas na parede. A sala dava para um corredor e nós o atravessamos. Ao longo do corredor contei quatro quartos, com portas fechadas. Chegamos à cozinha, que ficava ao fim do corredor. A casa em si não era muito velha. Parecia ter sido pintada recentemente de azul bebê e o piso era branco o que deveria dar um enorme trabalho para limpar. A casa não estava particularmente limpa, mas ninguém pareceu se importar. A cozinha era grande, com uma mesa, um fogão, armário e geladeira. Rafael afastou duas cadeiras para nós e nos sentamos. Eles começaram a conversar, contar sobre as novidades e coisas que aconteceram ao longo dos anos. Até que a Tia Hilda perguntou para Rafael porque ele estava aqui em Goiás.
—Fui preso. — ele disparou sem rodeios. Todos, menos eu, olharam para ele espantados. — apostando racha com um colega. Nós estávamos bêbados e batemos o carro. A polícia nos pegou, mas meu pai conseguiu fazer com que nós não fossemos presos e sim condenados a serviços comunitários. Fiquei prestando serviços no orfanato de Elisa, onde conheci a Kamilla. — ele apontou para mim. Todos olharam para mim.
—Você trabalha lá? — perguntou a avó de Rafael.
—Não, eu apenas sou aluna mesmo. Meu pai morreu quando eu era menor. Não cheguei a conhecer minha mãe. — contei minha “história trágica”, como Rafael havia chamado uma vez, a eles. Eles olharam solidários para mim.
—Sinto muito. — disseram. Sorri como sempre fazia quando esse assunto era tocado.
—Está tudo bem. Faz muito tempo. — eles voltaram a conversar entre si. Conversas alegres, contos e críticas umas dos outros. Não prestei muita atenção. Estar em família era estranho. Eu nunca tive uma família, sempre éramos só eu e meu pai e eu nunca soube de outro parente sequer. Rafael tinha ouro e não sabia. E pensar que ele ficou anos sem vê-los. Queria bater nele.
—Vai dormir aqui querido? — era a avó dele.
—Na verdade não, vó. Eu e Kamilla ainda temos uns assuntos a resolver na escola e tal. Vamos embora ainda hoje. — eles ficaram tristes. — mas, prometo voltar com mais frequência.
—E telefonar?
—E telefonar! — sorri. Estava orgulhosa de ele ver que era bobeira o que havia feito. Começaram a conversar sobre o que fazer de almoço. Devo admitir: estava faminta. Rafael sugeriu pamonha, pois de acordo com ele as pamonhas de São Paulo eram horríveis e ele estava morrendo de saudade das pamonhas da avó. Ela sorriu e nos levantamos para buscar o milho. Até que uma voz veio da porta da cozinha. Todos os rostos se viraram pra olhar uma menina que aparentava ter a minha idade, com uma trança castanha de lado, olhos castanhos, pele branca e vestindo roupas pouco encardidas. Apenas uma palavra saiu em grito de sua boca:
—Rafael! — ela correu até ele e ele a recebeu de braços abertos, levantando-a do chão. E a única pergunta que me pendurava é: Quem é ela?
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