Two Crowns
22 Capítulo XXI
Notas iniciais

— Alguém bebeu demais noite passada? — Matheo Delacroix tinha um sorriso de deboche no rosto.
— Você não vai querer me irritar hoje, Delacroix. — bufei, encarando a fotógrafa. Ela realmente levava todo aquele tempo para limpar uma lente?
— Eu também recebi o convite. — ele pigarreou.
— Hm.
Flash. Eu nem estava preparada para aquilo. Virei-me para a fotógrafa a fim de mandar alguém embora, e só então notei que era a câmera que estava direcionada à minha irmã. Maldita ressaca.
— Não precisa se fazer de indiferente. — o suíço colocou as mãos em minha cintura, e posamos para a primeira foto. — Eu sei que você estava esperando por ele.
— Hm. — repeti, tirando a segunda foto. — Próximo.
William Davis sequer pediu permissão para me tocar. Tinha o olhar tão distante que provavelmente estava mais afetado pela bebedeira da noite anterior que eu mesma. Sem falar nada, tirou as duas fotos comigo e logo depois foi se sentar, cobrindo os olhos contra a claridade ambiente. Dimitri Ivanov, por outro lado, parecia ter acordado de um sono de dez anos. Estava incrivelmente disposto e falante.
— Bom dia, Vossa Aletza. — Ele sorriu, beijando minha mão. Clique. Poxa vida, essa fotógrafa não era capaz de segurar aqueles dedos nervosos, não? — Como passou a noite? Imagino que o momento de lazer ontem a noite tenha...
— Senhor Ivanov, será que poderíamos apenas tirar as fotos? Não estou me sentindo muito bem. — eu o interrompi. O russo apenas assentiu, e depois entrou na fila para fotografar com minha irmã.
Caleb Vermont foi o seguinte. Seus olhos estavam semicerrados e seu maxilar enrijecia a cada barulho mais alto no ambiente. Seria uma situação até engraçada, se eu não estivesse péssima, também.
— Diga-me que ao menos sua irmã está pior do que mim. — ele riu da própria situação. — Estou me sentindo até meio constrangido por aparentar tal estado físico.
— Está ótimo, senhor Vermont. — não pude conter uma risada da minha própria mentira, e ele me acompanhou. — Mas se quer consolo, creio que o senhor Davis está tão mal quanto você.
Mais duas fotos. Que inferno. Para que tantos flashes quando se tem uma luz ambiente como aquela? Malditos amadores de fotografia.
Patrick Hampson não era muito de falar. Educadamente, pediu permissão para se aproximar de mim para tirar as fotos. Fez apenas algum comentário que não entendi sobre a festa e se direcionou para minha irmã. Ao que parece, o único que estava cem por cento no local era o russo.
— Bom dia, estrela da manhã. — Kyle beijou minha mão, sorridente. — Sua irmã confirmou o boato que ouvi por aí. Sou um príncipe cobiçado, então?
— Não vá se gabar por aí. — brinquei.
Dois flashes seguidos. Teriam que abusar da edição para esconder minha ressaca de toda a Illéa, disso eu tinha certeza.
— Nos vemos mais tarde? — ele perguntou. De fato, não queria ver ninguém por um bom tempo. Precisava passar umas horas sozinhas até digerir o fato de que Aaron Thompson havia me trocado.
— Quem sabe. — suspirei, vendo-o sair com um sorriso nos lábios. — Próximo.
Andrew Van Persen se aproximou. Tinha lindos e misteriosos olhos azuis escuros, e um cabelo tão negro quando o céu noturno nublado. Sua boca, porém, demonstrava uma certa preocupação e receio.
— Você tem me evitado. — ele suspirou, posado para a primeira foto.
— Isso é mentira, Andrew. — brinquei com seus cabelos, sendo acompanhada de mais um clique. — Só não tenho tido tempo para tudo. Prometo recompensar você com mais umas horas de quebra-cabeça, tudo bem?
— Pensarei se lhe perdoo. — seus lábios tocaram minha bochecha e ele saiu, fuzilado pelo olhar impaciente da fotógrafa.
— O vermelho da gravata destacou seu tom de pele, senhor DanBrook. — comentei, vendo o moldávio se aproximar.
— Ah, obrigado. Essa cor fica muito boa em mim, realmente.
O boneco Ken era tão fútil que chegava a ser engraçado. Se um dia eu me casaria com ele? Não mesmo. Mas eu gostava da sinceridade dele. O penúltimo foi Daniel Blue. Ele tinha um sorriso no rosto cansado, e assim que se aproximou de mim, abracei-o.
— Buon compleanno! — sorri. — Non ti auguro il meglio, ti auguro molto di più di quel che meriti.
— Alguém está gastando o italiano hoje. — ele sorriu de volta. — Muito obrigado, princesa. Bela pronúncia, por sinal.
— Grazie! — mordi o lábio. — E, falando em nisso, creio que o senhor possa me ajudar com umas traduções de uns livros italianos.
— Sem dúvidas. — Daniel beijou as costas de minha mão, segurando-a logo em seguida e fazendo-me girar. — Meu Deus, Alexandra, você está linda. E esse vestido, com certeza, é um dos meus favoritos. Quando me mandaram o desenho, eu fiz questão de cruzar as alças nas costas para que encaixasse melhor em seus ombros. É um dos mais bonitos na coleção.
— Você também os desenha? — perguntei, curiosa, posando para a primeira foto antes que a fotógrafa nos interrompesse. — Ele realmente é perfeito.
— Só alguns rabiscos. — Daniel sorriu, abraçando-me por trás para a segunda foto. Mesmo antes de vê-la, eu sabia que seria uma das mais bonitas. — E só é perfeito em você. Essa é a mágica desse vestido.
— Provavelmente é perfeito em Rose, também. — eu o desafiei. O príncipe italiano se aproximou de mim e sussurrou em meu ouvido.
— Acredite, minha querida, não é com o corpo dela no meu que eu sonho acordado.
Nem o vi sair. Acho que ainda tinha um sorriso bobo nos lábios, pois Artur encarou-me com malícia antes de tirarmos nossas fotos. Independente do príncipe dinamarquês ter ou não uma ideia do que acontecera ali, uma coisa era certa: Daniel Blue merecia um belo presente de aniversário.
Assim que a sessão de fotos acabou e America nos informou sobre um dos futuros testes pelo qual os príncipes passariam, subi de volta para meu quarto, não querendo sair dali tão cedo. Peguei o convite de casamento em mãos e finalmente juntei a coragem necessária para abri-lo. Tanto o envelope quanto o convite eram de uma cor próxima ao mármore das escadarias do palácio. As letras eram douradas, e os nomes dos noivos eram cobertos de pó de ouro.
Os nomes dos pais de Aaron eram seguidos de duas cruzes. Morreram cedo demais, pensei comigo mesma. O inglês assumiria o trono tão jovem quanto meu pai: aos dezenove anos. Deveria ser tão forte quando Maxon. Ao contrário de papai, contudo, ele não tinha uma America a seu lado. Tinha uma Lydia.
Foi a primeira vez que li o nome da garota que assumiria meu lugar. Lydia Rebecca Collins. Pelos nomes de seus pais, reconheci o título. Era filha de um barão inglês. Aaron Edward Thompson trocara uma princesa por uma baronesa. Degradante. Suspirei fundo e olhei a data. Eles se casariam dentro de dois meses.
Mesmo assim, eu não conseguia chorar.
Por um momento, ouvi duas vozes do lado de fora, e numa fração de segundo depois, Gabriel Leger entrou em meu quarto, um semblante sério estampado em seu rosto. Olhou-me por um tempo, esperando as lágrimas que não caíram, e então suspirou aliviado. Aproximou-se de minha cama e nela se sentou, segurando minha mão.
— Achei que não fosse ser tão forte. — comentou, beijando minha testa. — Fico feliz por estar enganado.
— A vida continua. — dei de ombros. — Quando tudo começa dar errado, nem sempre se trata de desafios propostos pela vida. Às vezes, as coisas só não devem acontecer.
— Essa é minha menina. — Gabe sorriu. — E já que estamos nesse lance de seguir em frente, uma das criadas veio me informar que Daniel Blue está implorando para poder subir aqui. Mas ordens são ordens, então recomendo que você desça lá.
— Tudo bem, eu vou. — levantei-me, ajeitando os fios de cabelo que haviam saído do lugar. — Nada melhor para a mente que dar uns beijos por aí. — brinquei, vendo o guarda rir. Ele me acompanhou até a escada.
— Se as coisas esquentarem, — Gabe sussurrou — não se esqueça de usar proteção. Tem camisinha nos criados-mudos dos quartos dos príncipes. Tio Maxon me mataria se soubesse que coloquei lá, mas não quero ver minhas babys doentes.
— Ou grávidas. — dei risada e desci a escadaria. Daniel sorriu ao me ver. — Ouvi dizerem por aí que alguém requisitou minha presença.
— Estão certíssimos. — o príncipe italiano segurou minha mão e a beijou lentamente, entrelaçando meus dedos com os seus logo em seguida. — Como você está? Com esse lance do casamento do Thompson e tudo o mais?
— Você também foi convidado? — perguntei, e ele assentiu. — Estou bem. Não posso dizer que não me afetou nem um pouco, assim como também não posso dizer que meu mundo acabou.
— Você o ama. E por amar, sabe que deve deixá-lo ir.
— É. — sorri — Algo assim.
— Considerando que Vossa Alteza está relativamente bem, e que hoje é meu aniversário, posso prosseguir com meus planos diabólicos, então. — Daniel começou a andar, levando-me consigo. — Isso é um sequestro. Vai ser minha refém até o fim do dia.
— Parece ótimo ser refém. — sorri. — Mas se me chamar de Vossa Alteza mais uma vez, eu vou confiscar aquela sua Delta Fox, senhor Blue.
— Falando nisso, que tal darmos alguns tiros por aí?
Que minha irmã me perdoe, mas treinamento de mira com o príncipe italiano é muito mais divertido do que com ela. Usamos todos os modelos de armas possíveis e existentes em todo o CT da guarda real, até meus ombros não aquentarem mais os trancos do armamento de grande porte.
— Pra mim, deu. — larguei a CFR sobre o balcão, passando minha mão esquerda sobre o músculo do trapézio em meu lado direito. — Creio que vá ficar tão roxo que terei que usar vestidos com mangas e sem decotes.
— Isso seria uma pena. — Daniel brincou, largando a arma dele ao lado da minha e massageando meus ombros. — Dizem que faço uma massagem divina, sinta-se honrada.
— Sempre. — brinquei, realmente aproveitando. Daniel tinha alguns calos finos nas mãos, provavelmente em virtude do manejo constante de armas. Quando suas mãos pararam e desceram para minha cintura, foi a vez de seus lábios tocarem minha nuca. — Dan... — sussurrei. — Aqui não.
Minutos depois estávamos em seu quarto. O italiano encostara-me à parede, uma mão em minha nuca, a outra percorrendo a extensão lateral de meu corpo. Seu beijo era quente, lento, e assustadoramente excitante. Meus dedos em seus cabelos os puxavam, e isso parecia motivar ainda mais o príncipe.
Desci minhas mãos por seu peitoral, desfazendo o nó da gravata e avindo os primeiros botões de sua camisa. Daniel jogou o terno e a gravata em algum lugar, arregaçando as magas da camisa e descendo a boca para meu pescoço, mordendo e chupando o local violentamente.
Eu só torcia para não ficar com marcas.
O príncipe se jogou na cama, puxando-me para seu colo. Felizmente, o tecido elástico do vestido não se rompeu quando minhas pernas se abriram, de modo a envolver seu quadril. Coloquei minhas mãos em seu cabelo, voltando a beijá-lo, enquanto seus dedos brincavam por minha coxa. E subindo. Suas mãos levavam o tecido para cima, habilidosamente.
Tirei os suspensórios e a camisa de Daniel enquanto ele beijava meu decote. Deus, como ele me enlouquecia. Seus beijos iam descendo cada vez mais, e suas mãos exploram minhas costas nuas. Alguns momentos depois, senti o zíper se abrindo. Essa era a vantagem de se ter desenhado o modelo: você o conhecia de olhos fechados.
— Eu teria rasgado ele em dois. — o príncipe comentou, adivinhando meus pensamentos. — Mas não acho que você vá querer sair daqui vestindo algo meu.
— Nisso você tem razão. — empurrei-o, de modo a fazê-lo deitar na cama, e continuei sentada sobre ele, retirando o vestido e jogando-o junto ao restante de nossas roupas. Quando seus olhos encararam meu corpo apenas de lingerie, sua ereção aumentou; sorri maliciosamente. Debrucei-me sobre seu corpo, beijando seu pescoço e sussurrando em seu ouvido. — Parece que alguém está animado.
— E você ainda provoca. — ele nos virou, retirando a calça e ficando apenas de cueca boxer. Até nossas roupas íntimas combinavam: eram azuis. Daniel Blue beijou todo meu corpo, demorando-se no vale entre meus seios, até finalmente retirar meu soutien. Suas mãos tremiam em desejo. Sua boca se deliciava em meus seios, fazendo-me gemer e, consequentemente, deixando-o mais duro. — Isso é deliciosamente errado. — o italiano sussurrou e gemeu quando envolvi seu quadril com mais força. — Tem certeza que quer?
— Se não tivesse certeza, teria deixado você me beijar no centro de treinamento. — mordi o lábio inferior para evitar outro gemido quando ele voltou a avançar para meu pescoço.
Céus, aquilo era muito bom.
— Criado-mudo. — sussurrei, e ele rapidamente entendeu.
O príncipe esticou o braço até o móvel, puxando um pacote prateado de lá de dentro. Rapidamente retirou a única peça de roupa que lhe restava e colocou a camisinha. Eu queria não olhar, mas não resisti. Ter Daniel pelado à minha frente era uma maravilha e tanto.
— Nunca imaginei que fosse usá-las aqui no palácio. — Suas mãos rapidamente retiraram minha calcinha, seus dedos penetrando-me lentamente, aumentando meu desejo. Eu já estava molhada, era capaz de sentir. Ele beijou meus lábios uma última vez. — Talvez doa um pouco.
Na verdade, não doeu. Dizem que varia de pessoa para pessoa, e eu estava tão entorpecida pelas preliminares que o máximo que cheguei a sentir foi um desconforto. Daniel começou devagar, movimentando-se lentamente dentro de mim. Não queria me machucar, suponho.
Vez ou outra sua boca tocava a minha, demonstrando afeto. Minhas mãos se prendiam ao lençol e eu não era capaz de conter os gemidos. Quando a velocidade começou a aumentar, senti meus olhos saírem das órbitas. Minha respiração estava acelerada, e eu logo cheguei ao primeiro orgasmo. Minhas pernas tremiam, eu não controlava direito o corpo.
Daniel suava pelo esforço, e parecia ter alguma dificuldade em controlar o orgasmo por muito mais tempo. Desacelerou os movimentos e me colou de lado, deitando-se atrás de mim. Uma de suas mãos foi para minha perna, levantando-a, de movo que conseguisse voltar a me penetrar. Quando consegui juntar forças para manter a perna suspensa, seus dedos voaram para meu clitóris, fazendo rápidos e repetitivos movimentos circulares.
Então veio o segundo orgasmo. De tão apertada que fiquei nesse segundo momento, Daniel gozou, gemendo em meu ouvido. Depois de alguns segundos, ele se retirou de dentro de mim, removendo a camisinha, dando-lhe um nó e a jogando fora. Então, deitou-se de bruços a meu lado, seus dedos brincando em meu cabelo.
— Feliz aniversário. — sorri, e ele me deu um selinho.
— Não estou acreditando nisso. — ele me encarou, como se finalmente voltasse à realidade. — Meu Deus, Alexa, seu pai vai me matar se souber que eu tirei sua virgindade antes do nosso casamento.
— Casamento? — sorri. — Vai ter que fazer mais que isso se quiser que me case com você, senhor Blue. — brinquei.
— Não me provoque.
Daniel me beijou novamente. Dessa vez, porém, não era desejo. Era carinho. Se perder a virgindade com alguém que é quase um estranho é loucura? Sim, é loucura. Mas eu sabia que ele se importava comigo, bem como eu me importava com ele. Se iríamos nos casar e ter filhos? Não sei. Mas o italiano era uma ótima companhia para alguém que quisesse uma transa boa.
— Carpe Diem. — comentei, lembrando-me de sua citação tempos atrás.
— Viver cada dia como se fosse o último. — ele traduziu. — Você leva isso muito a sério.
Duas batidas na porta nos interromperam. Levantei-me da cama, dando-lhe um selinho. Peguei meu vestido no chão e fui até o banheiro, colocá-lo de volta. Seria um desafio. Soltei o cabelo, para parecer menos bagunçado, e me surpreendi quando notei a ausência de quais marcas arroxeadas em meu pescoço. Já fechava o zíper quando ouvi o barulho no quarto.
— Olha aqui, Blue, não me interessa o que você faz de tão barulhento nesse quarto a essas horas da manhã, mas eu estou de ressaca e preciso trabalhar no meu projeto, coisa que você deveria estar fazendo. Será que pode, por favor, ficar quieto?
Ah, isso foi o cúmulo.
— Não iremos mais atrapalhá-lo, senhor Delacroix. — sorri e me virei de costas para Daniel, segurando o zíper — Pode fechar para mim?
— Claro. — eu sabia que Daniel impedia um sorriso. Seus dedos fecharam o vestido habilidosamente. — Já vai?
— Já. — virei-me para ele, dando-lhe mais um beijo. — Como o próprio senhor Delacroix disse, temos projetos nos quais trabalhar. Feliz aniversário.
Daniel puxou-me pela cintura, dando-me um selinho mais demorado. Matheo parecia ou não acreditar naquilo, ou então estar chocado demais para demonstrar qualquer reação, porque ele continuou fitando o vazio por mais alguns segundos depois que eu me retirei do quarto.
Quando cheguei às escadarias, ouvi uma confusão. Aparentemente, alguém estava tentando subir ao terceiro andar, e os guardas não permitiam. Imaginei que fosse um dos príncipes — mais precisamente, William Davis — querendo ver minha irmã, mas ao me aproximar da briga, reconheci o doutor Hudson.
— Eu já disse que são ordens das princesas! — ele revirou os olhos, sendo barrado mais uma vez.
— Algum problema aqui? — pigarreei, e todos se viraram para mim.
— Vossa Alteza, — um dos guardas começou — o médico aqui disse que a senhorita, ou sua irmã, haviam lhe pedido para subir. Mas considerando que nenhuma das duas está no terceiro andar... — eu o interrompi.
— Pelo amor de Deus, soldado — olhei seu nome na farda — Masen, quando é que vocês ficaram tão insuportáveis assim? Ele é o médico Real, e nós temos um guarda-pessoal a postos lá em cima. Espero que essa situação não volte a se repetir, e sei que o doutor Hudson também.
— Perdão, Vossa Alteza. — ele abaixou os olhos. Os outros soldados soltaram o médico, que subiu as escadas ao meu lado.
— Não vai me punir? — ele sussurrou, para que os guardas não ouvissem. — Por eu ter mentido sobre ter autorização?
— Claro que não. — bufei. — Se quisesse me matar, poderia ter feito isso enquanto eu estivesse no seu consultório. Além disso, eu sei o quanto é ruim quando o Universo conspira para manter duas pessoas afastadas.
Ele sorriu no momento que seus olhos encararam os de Gabriel, do outro lado do salão.
— Como você soube? — questionou-me.
— Eu sou a princesa, oras. — brinquei. Aproximei-me de Gabe e sussurrei em deu ouvido. — Obrigada pelas dicas sobre o criado-mudo. — Encaminhei-me para meu quarto, deixando os dois a sós. Antes de me fechar, porém, dei uma piscadela para o casal. — O quarto ao lado está mobilhado e inutilizado, só pra saberem.
Leger atirou-me uma almofada das poltronas e fechei a porta para desviar o objeto, mas não sem antes ver Dean Hudson corar.
Eu ainda estava no banho quando Rosemarie entrou desesperadamente no banheiro anunciando algo sobre uma corrida de cavalos que só fui entender muitos momentos depois, quando minha irmã já estava na terceira explicação sobre o evento. Apenas sorri e concordei com tudo o que ela dizia.
— Espera... — pigarreei. — Uma corrida de cavalos? Aqui? Dentro do castelo?
— Que parte disso você não entendeu? — ela perguntou, impaciente. — Em que mundo você está, Alexa?
— Desculpe-me, é que ainda estou com a cabeça no meu último encontro. — sequei-me, e Rose me ajudou a colocar um vestido novo.
— Tudo bem. Desde o começo, então.
Avisar os príncipes foi a parte fácil. Arthur e Nicholas conversavam animadamente sobre natação. Ao que parece, o dinamarquês ensinara ao boneco Ken que o buraco cheio de água, próximo às esteiras de bronzeado, tinha alguma finalidade. Gravesen pareceu animado com a competição — ainda que nós dois soubéssemos que ele era péssimo no hipismo —, entretanto o moldávio não estava muito motivado a ficar com as pernas assadas da montaria. Mas iria pelas câmeras.
Andrew e Kyle estavam jogados nos sofás mais ao longe. Não tinham muito o que conversar, todavia pareciam bem compenetrados no jogo de xadrez. Recebi dois sorrisos com o anúncio, e um pedido silencioso do norueguês. Era claro que ele queria falar comigo. Quem sabe, no dia seguinte.
Daniel foi o último. Ele estava em seu quarto, e abriu a porta no momento em que meus dedos tocaram a madeira. O italiano sorriu, exibindo dentes perfeitos, ao me ver. Segurou minha mão e beijou o nó de meus dedos, educadamente.
— Quer entrar? — ele me puxou para dentro, fechando a porta atrás de nós.
— Na verdade, senhor Blue, só vim avisá-lo sobre uma corrida que faremos antes do jantar, em comemoração ao seu aniversário. — sorri. — Pensei que talvez quisesse convidar seus pais. Se der tempo de chegarem, claro.
— Isso seria uma honra. — ele mordeu o lábio. — Rosemarie me falou sobre a corrida, mas não comentou nada sobre o rei e rainha da Itália.
— Considere isso cortesia minha. — dei de ombros e destranquei a porta. Já ia saindo quando Daniel prensou-me à parede ao lado.
— Muito obrigada. — deu-me um selinho. — Quando teremos outro encontro de novo? Espero ansiosamente por isso há... — ele olhou no relógio — uma hora e quarenta e sete minutos.
— Volto à noite. — mordi o lábio.
As mãos do príncipe desceram para minha cintura, sua boca tocando a minha lentamente, até se tornar um beijo quente e lento. Era muito bom beijar Daniel Blue, admito. Era muito bom estar na companhia dele, também. E, definitivamente, era ótimo tê-lo na cama. Aos poucos, o beijo perdeu ritmo, e então acabou.
Talvez eu estivesse me apaixonando novamente.
— Eu sou um cara de muita sorte. — sorriu, deixando-me, finalmente, ir.
— Não discordo de você.
Ouvi murmurinhos no quarto ao lado, e imediatamente direcionei-me para lá. Eu odiava o fato de saber a quem pertencia o quarto, tanto quanto odiava o fato de a voz feminina ser idêntica à minha. Rose estava com Matheo.
— [...] como está a sua relação com ela? — foi o que ouvi minha irmã perguntar.
— Uma merda. — o suíço respondeu. Qualquer relação que ele tivesse com alguém já era um passo. Considerando o insucesso dele, provavelmente se tratava de mim.
— E aí, casal? — provoquei. — Posso falar com você, Rose?
Ela mordeu o lábio. Sabia que estava fazendo algo errado.
— Na realidade, não posso agora, Alexa, preciso ir resolver algumas coisas, mas tenho certeza que Matheo adoraria conversar com você... — E então sumiu.
— Pare de tentar manipular minha irmã para chegar até mim. — revirei os olhos. — Não entendo porque insiste em apenas confirmar meus postulados sobre sua infantilidade. É apenas um moleque, Delacroix. Eu preciso de um homem.
— Estranho dizer isso enquanto passa horas na cama daquele garotinho italiano. — ele bufou, indo até mim e fechando a porta atrás de nós dois. Retirou a chave e colocou no bolso de seu terno. — Você vai me ouvir, agora?
— Sabia que eu posso simplesmente gritar, então seis guardas derrubam essa porta e te espancam até perder a consciência?
— É um risco que vou correr. — Matheo suspirou, sentando-se numa das poltronas e me convidando para a outra. Sentei-me por educação e indiquei para que prosseguisse. — Eu estou apaixonado por você.
— Conte outra, Delacroix! — exclamei, levantando-me. Fui impedida por sua mão em meu punho.
— Posso continuar? — sentei-me novamente. — Ótimo.
— Seja rápido. — pigarreei.
— Alexandra Sophie Schreave, eu estou apaixonado por você. Começou como uma pequena chama, como a luz de uma vela. E então foi aumentando. Eu não sei quando aconteceu, só sei que aconteceu. Num Natal eu adorava irritar você, e no outro eu percebi que é porque essa era a única maneira de fazer com que você me notasse. E, caso não tenha reparado nisso, ainda é. — ele suspirou. Segurou minhas mãos, mas as retirei rapidamente, cruzando os braços. Mais um suspiro. — Não vou dizer que sonho com você todas as noites, porque não é verdade. Mas se eu pudesse escolher com o que sonhar, seria com você. Seria com o modo que você sorri quando derrota qualquer um na esgrima, seria com a ruga que se forma em sua testa quando lê algo difícil, seria com o ódio que seus olhos encaram os meus, porque é só com ódio que você me enxerga.
— Talvez você mereça. — encarei-o. — E se realmente me observa há tanto tempo, sabe que meu coração pertence a Aaron, Matheo.
Ele sorriu. Por que infernos ele sorriu?
— É por isso que eu agradeço a Deus por tê-lo mandado embora. É por isso que a Suíça vai fazer um acordo econômico com a Polônia. Sinto que devo uma a James Miller. Isso não vem ao caso, de qualquer forma. — ele passou as mãos pelo cabelo, nervosamente. — Eu sei que você estava esperando por ele. Sei que provavelmente se entregou ao primeiro que foi carinhoso com você para provar a si mesma que não precisa mais de Thompson. Sei que provavelmente está com o italianinho apenas porque acredita que nunca vai voltar a amar ninguém, então melhor ficar com aquele que a trata bem e satisfaz suas vontades. Sei de tudo isso. Só que as coisas não funcionam assim.
— Pra mim, funcionam. — suspirei. — Se isso é tudo o que tem para falar...
— Alexa, — ele prosseguiu — você sabe o que é não conseguir sequer beijar outras pessoas, pois cada vez que fecha os olhos, pensa que poderia ser outro alguém?
— Não, eu não sei. — cruzei os braços. Era verdade.
— Então não é amor.
— Sugiro que tome umas aspirinas antes da corrida. Está afetando seu juízo de valores. — estendi a mão para ele, pedindo pela chave.
— Já que não acredita no que digo, então me dê uma chance de provar. Uma aposta. Temos a corrida hoje. Se eu chegar à sua frente, tenho direito a um encontro com você, cujo lugar eu escolho.
— Se for eu a chegar à sua frente, você pede para se retirar da Seleção. — sorri, provocando-o. — E fique longe da minha irmã.
— Já está contando com a minha vitória? — ele me entregou a chave, provocando-me. Revirando os olhos, abri a porta e saí.
O resto da história já é conhecido: ajudei minha irmã a quebrar todas as regras da Seleção ao se enrolar com um plebeu, perdi a bendita aposta — então teria um encontro com o suíço no dia seguinte —, eliminamos Kyle West pela indecisão em jogar dos dois lados e finalmente tive algum descanso — mentira — ao visitar Daniel Blue em seu quarto após o toque de recolher, imposto por medidas de segurança.
— Foi um aniversário bem agitado. — ele sorriu, beijando-me mais uma vez. E abraçando-me de conchinha. — Um dos melhores, por sinal.
— Fico feliz que seus pais tenham chegado a tempo. — entrelacei meus dedos com os dele, sentindo sua respiração pesada em minha nuca. — Eles parecem ser muito simpáticos, uma pena não ter tido tanto tempo para conversar com os dois.
— Se sua mãe já era a queridinha da minha, imagine você. — ele riu. — Os dois adoraram você. Veem nos seus olhos a determinação de uma rainha.
— Isso é bom. — sorri, virando-me na cama de modo a encará-lo sob a luz pálida da lua. — Preciso perguntar se quer mesmo continuar, Dan... As invasões parecem estar próximas.
— Eu sei me virar sozinho. — seus dedos percorreram as alças finas de minha camisola, abaixando-as e acariciando meus ombros. — Com algumas coisas, claro. Para outras, sua ajuda seria muito bem vinda.
E lá se ia mais uma noite em claro.
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