Two Crowns
17 Capítulo XVI
Notas iniciais

Ninguém nunca me avisou que um dos requisitos básicos para ser uma rainha é ter estômago.
Santiago Lands foi mandado embora, e já no ritmo, decidi que na manhã seguinte podia me encontrar com Fillipe Astor.
Quem dera eu não tivesse feito isso. Ao invés de eliminar ele, como eu já queria, eu dei essa chance, e ele com certeza desperdiçou-a.
Estávamos caminhando pelos jardins, a pele quase dourada dele brilhando com os raios de sol matutinos de Illéa.
— Como foi sua noite, Alteza? — Perguntou, puxando assunto. Graças a Deus. Eu estava prestes á comentar que pretendia manda-lo embora e que o encontro era apenas uma forma de conversar com ele antes de o fazê-lo. Bem, teoricamente era.
— Boa — tanto quanto poderia ser, dadas as circunstâncias —, e a sua?
— Ótima. — Ele suspirou, como se estivesse tomando uma decisão de algo á se falar ou não. Com certeza era exatamente isso, já que ele continuou. — Por quê você e sua irmã estão enrolando tanto para a Elite? Quer dizer, está claro que vocês duas tem suas preferências, e vivem dando mais atenção á elas, os outros príncipes estão impacientes e prestes a desistir. Acho que vocês deveriam eliminá-los. — Concentrei toda a minha força de vontade, e minha criação inteira, que tive por dezoito anos, para não gritar com ele. Na realidade, quase fiz isso, mesmo com toda a paciência que tinha.
Estávamos em uma situação delicada, e alguém me diz o que fazer?
Correto, ele era um príncipe, mas estava no meu palácio, seguindo regras, principalmente as regras da seleção. Dentre elas, havia uma regra importantíssima: não pressionar uma escolha.
Ao que parece, certo príncipe não parecia ter lido o documento que continha essa regra.
— Sr. Astor, eu acredito que você não entenda a posição que está no momento. — Ele me olhou cautelosamente, ainda não notando o que ia acontecer, e muito menos o que tinha feito. Eu notei alguns guardas tentarem conter a risada. Risada. Eles achavam graça. Eu também poderia acompanhá-los, se o comentário de Fillipe não tivesse me irritado profundamente. A Seleção era comandada pelo meu pai, mas, principalmente por mim e por minha irmã, e a Elite só se formaria caso nós duas estivéssemos prontas, ou caso meu pai estivesse sendo muito pressionado pelos seus conselheiros. Não por um príncipe que tivesse falsas esperanças de fazer parte da futura Elite que se formaria na Seleção, apenas por ter tido um encontro, pouquíssimo importante, aliás. — Esta era sua segunda chance. Decidi que na primeira ainda poderia lhe dar o direito da duvida, mas vejo que pensei errado. Uma regra clara do documento que você deveria estar á par é: Nenhuma das princesas tolerará pressão para que decisões e escolhas sejam tomadas; a seleção durará pelo tempo que Alexandra Schreave e Rosemarie Schreave julgarem necessário. — Terminei de citar a cláusula, e acho que foi aí que Astor notou o erro. — Você está oficialmente fora da Seleção, Sr. Astor. Ainda hoje um voo será marcado para você. Despeça-se de seus amigos até o almoço. — E, após isso, me virei e saí.
Dei de cara com Matheo Delacroix assim que me virei, começando a caminhar para as portas que pretendia passar, irritantemente irritada de mais para meu gosto. Ele tentava esconder a gargalhada, mas o movimento de seus ombros era impossível esconder.
Me sentei ao seu lado num baque alto, irritada.
Quem Astor pensava que era para dar ordens assim? Ao que parece, havia acreditado profundamente que por ser um príncipe em algum outro lugar no mundo, poderia mandar no futuro da minha vida e do meu país. Pensamentos extremamente errôneos, a propósito.
O mesmo príncipe com pensamentos errôneos caminhava pelo lado contrário que eu havia seguido, com a cabeça abaixada. Ah, a vergonha, o que ela não causa, não é mesmo?
— Qual a graça, Delacroix? — Perguntei, imitando o tom egocêntrico que minha irmã usava com ele.
— Nenhuma, Schreave. Nenhuma. — Ele continuava rindo, rindo tanto que eu tive que acompanhar ele. — Eu estava querendo esse cara fora.
— É? — Ele concordou, me encarando, agora não rindo mais, mas um sorriso brincalhão ainda fazia presença em seu rosto. — E por quais motivos?
— Ele era um idiota. Se achava o dono do mundo, fora que se gabava de que iria conseguir sim a coroa de Illéa, além da de Marrocos. Como ele foi embora, eu posso compartilhar essa informação com você. — Estreitei os olhos para Matheo, enquanto ele abria um sorriso malicioso, como se soubesse de muito mais informações do que eu sequer saberia.
— Isso não é justo. — Falei. — E não venha me dizer que a vida não é justa. — Acrescentei rapidamente, lembrando da citação de William.
Ele revirou os olhos para mim, se levantando e pegando um livro que tinha ao seu lado, e então me mostrou sua mão.
— Acompanharia esse doce e lindo príncipe até a biblioteca? — Ele piscou para mim. — Temos alguns assuntos á tratar, a propósito.
Revirei os olhos para ele, mas aceitei sua mão, enquanto me levantava.
Nós dois começamos a caminhar pelo jardim, seu braço segurando o meu, e decidi que poderia pegar no seu pé tanto quanto ele pegava no meu.
— Doce e lindo... — Brinquei, enquanto ele revirava os olhos e subíamos os degraus até a varanda. — Conte-me, você usa alguma substância ilícita, Sr. Delacroix?
— Drogas. Rosemarie, chame-as de drogas. É mais forte assim. E não, não uso, á não ser que você prometa não contar para ninguém, então minha resposta provavelmente mudará. — Nós dois sabíamos que era mentira.
Passamos pelas portas do palácio, caminhando pelo saguão que entramos e indo diretamente até o corredor que nos levaria á biblioteca.
— Vamos fazer uma troca. — Ofereci, enquanto ele levantava uma sobrancelha para mim, e nós dois entrávamos na biblioteca, com ele soltando seu braço do meu e levando o livro ao seu lugar de origem.
— Você conseguiu minha atenção; prossiga.
— Tentarei fazer com que sua relação com Alexa dê um passo á frente. — Dei de ombros, avaliando os títulos ao meu lado. Romeu e Julieta? Alexa já havia me contado o final, infelizmente. Um bom título para se ler nas horas vagas, admito. Bem, mal não faria. Peguei o livro.
— Contanto...? — Matheo estava ansioso para o que viria á seguir.
— Contanto que eu tenha informações sobre dois príncipes á minha escolha. — Matheo estreitou os olhos, enquanto eu mostrava minha mão, a mesma que pairou entre nós dois.
Ele pareceu avaliar a situação por alguns segundos, e então falou:
— Eu lhe darei uma informação agora, e uma após você conseguir meu lado do combinado.
— Perfeitamente compreensível. — Minha voz era a voz da inocência, e eu sabia que ele imaginava o que eu estaria pensando sobre o que eu estaria pensando para fazer Alexa e ele terem um relacionamento mais fácil do que era no momento. Ele levou sua mão até a minha, apertando firmemente.
— Estamos entendidos.
— William Davis. — Dei o nome, enquanto ele sorria.
— Eu acreditava que você estivesse mais curiosa quanto ao Vermont, mas... — Deu de ombros. — Ele é um cara legal, sucessor da Austrália, futuro rei. Seria uma ótima pra você, mas... — Estreitei os olhos, cruzando os braços frente ao corpo quando ele não continuou. — Eu não confiaria cem por centro no cara.
— E por que não?
— Porque, Princesa Rosemarie Annabelle Schreave, ninguém é confiável. Principalmente um príncipe cujo exibe sua coleção de relógios que vale milhões. — E aí estava meu grande medo, meu maior medo de todos: E se eu me casasse com um príncipe que apenas queria meu dinheiro, e não minha felicidade? E se no final, o amor não fosse surgir?
Talvez Nathan realmente fosse a escolha correta para tudo, e não nenhum dos príncipes que se encontravam sob meu teto. Mas realmente seria isso? Seria esse meu futuro?
— Mas... Ele... — Não consegui terminar.
E se Nathan também tivesse seus próprios interesses? O pensamento se enroscou em minha mente como ervas daninhas dos contos mágicos que mamãe contava para mim quando eu era menor.
— Você quer saber se ele está interessado apenas na coroa, não é mesmo? — Concordei com a cabeça. — Eu não acredito que sim, ele, com certeza, deve ter seus interesses, mas acredito que ele tenha alguns maiores que apenas mais uma coroa à sua coleção. — Concordei, um tanto quanto mais aliviada.
E se todos os outros príncipes tivessem interesse apenas na coroa? E se Caleb, Kyle, Dimitri, até mesmo Daniel, fossem todos interessados apenas na minha coroa? Bem, possível coroa, mas eles não sabiam disso. Suas apostas poderiam ir para a princesa mais frágil, singela, como um falso disfarce, mas essas apostas estavam erradas, ao menos em primeiro plano.
— E você? Quais são seus interesses, Delacroix? — Perguntei, a dúvida surgindo em minha mente. Matheo havia acabado de dizer que pessoas não eram confiáveis, e até onde eu sabia, ele era uma pessoa.
— Digamos que eu adoraria ter essa coroa na minha cabeça, mas também tenho a da Suíça, então não estou interessado na coroa que você ou sua irmã vão herdar, se é isso que lhe preocupa. Mas, sobre meus interesses em vocês... É simples: Alexandra Sophie Schreave é uma incógnita impossível de desvendar. A única no mundo. Bom, talvez você também esteja se tornando uma, o que é uma grande possibilidade, já que, juntando os ruivos Singers, com os loiros Schreaves, podemos ter uma combinação química extremamente perigosa, não acha, Rose? — Levantei as sobrancelhas para ele, ele parecia obcecado. Quase louco, devo admitir.
— Você parece ser um daqueles homens que apenas quer mais um troféu, e se bem sei, é exatamente assim que trata as mulheres. — Ah, e eu sabia perfeitamente disso. Havia feito a pesquisa sobre os príncipes que mais me chamavam a atenção, e como havia mantido Matheo na Seleção, ao contrário de Alexa, e ele se mostrava um príncipe bem decidido, era melhor prevenir do que remediar.
— Concordo com você, é assim que trato as mulheres, mas já comentei que a realeza é extremamente pelicular? Sempre existem exceções, pequena Schreave. Sempre.
Isso queria dizer que Matheo, na realidade, estava interessado em minha irmã mais do que para ser apenas mais uma. E se ele realmente pensasse num futuro com ela? Era um pouco chocante pensar sobre isso, já que os dois sempre tiveram esse ódio mortal um pelo outro. Talvez um ódio não tão mortal assim, no final das contas.
— Espere aí, você comentou que é o sucessor da Suíça, correto? — Eu precisava mudar de assunto, e provavelmente conseguiria resolver dois dos meus problemas com apenas um tiro. Bom, seria mais como “matar dois coelhos com um tiro só”, mas é um pouco não-princesa de mais. Bom, ficarei com o “resolver dois de meus problemas com apenas uma ação”. É, muito mais diplomático e real.
Minhas divagações foram cortadas pela resposta de Delacroix.
— Sim, por...?
— Preciso da sua ajuda para algumas coisas. — Ele levantou as duas sobrancelhas, me testando.
— Imagino o quão amargas suas palavras saíram. — Dei de ombros. — Até onde eu sei, você poderia pedir ajuda para seus conselheiros.
— Ah, os mesmos que reportam tudo diretamente até meus pais? — Matheo entendeu. — Exatamente, você é minha melhor opção.
— E no que você precisa de minha ajuda?
— Hm... Projetos. Queria começar um projeto autônomo sobre o desenvolvimento socioeconômico de Illéa, mas não faço ideia de como fazê-lo. — Ele me olhou com uma expressão de incredulidade.
— E porque você não pede para Caleb? Ou até para William, ou todos os seus outros cachorrinhos?
— Porque, primeiro, eles não são cachorrinhos, segundo, eles provavelmente veriam como uma chance de passar tempo comigo, enquanto você está literalmente obcecado pela minha irmã, então eu não preciso me importar com pensamentos amorosos em relação á você. — Ele concordou com a cabeça.
— Você conseguiu um ponto. Começaremos por onde?
— Pela parte que você me explica o que sabe sobre desenvolvimento socioeconômico. — Ele sorriu, mas pelas duas horas seguintes ele me ajudou á trabalhar no novo projeto, e devo dizer que responsavelmente. Matheo não era a imagem que Alexa tinha em sua mente, de um príncipe irresponsável e que não sabia fazer nada, mas ele fazia ela ter essa imagem, e eu ia descobrir por quê.
Nós dois entramos juntos para o almoço, o que levou muitos olhares questionadores. Inclusive um confuso de Alexa. Para ela, eu tinha mantido Matheo na Seleção como vingança por Arthur — e era verdade —, mas ela também não fazia ideia de meus planos com Delacroix, o que era algo engraçado, se pensando bem. Céus, quando eu havia passado de serve-pra-nada para conselheira-e-cupido? Bom, aparentemente, em algum momento desta seleção.
Durante a tarde, eu e Alexa tivemos uma aula extremamente longa sobre Francês e Italiano. Alexa era praticamente fluente nas duas línguas, mas eu estava, com certeza, longe disso. Principalmente em Italiano. Talvez eu devesse pedir algumas aulas particulares para Daniel Blue, ele com certeza adoraria me dar essas aulas.
Enquanto Alexa e eu saíamos da sala, ela me deu uma olhada significativa, e eu já imaginava o que viria pela frente.
— Matheo, Rose? Sério?
— Ele é legal. — Melhor mentir do que dizer á minha irmã que eu, na realidade, estava tentando deixar os dois próximos, um plano que, por sinal, não estava funcionando tão bem quanto o planejado.
— Ah, extremamente. — Ela revirou os olhos. — Só tome cuidado, ele provavelmente quer uma princesa na incontestável lista de mulheres que já levou para cama. — Mordi a boca por dentro.
— Ele não quer, Alexa. — Isso fez ela parar no corredor, me parando e me encarando.
— O que ele disse pra você? O que ele usou para fazer você acreditar nisso? Vocês já se beijaram? — Caramba, ela realmente não gostava dele, ou escondia muito bem o que sentia. Seja lá o que fosse, ela com certeza não havia gostado nem um pouco de saber que eu havia passado mais tempo do que ela imaginava com Delacroix.
— Ele é legal, ok? Não estamos saindo. — Ela franziu o cenho da mesma maneira que Maxon fazia quando não entendia algo, absolutamente da mesma maneira.
— Se vocês não estão saindo, então porque chegaram juntos?
— Ele estava me ajudando num projeto. — Ela levantou as sobrancelhas, duvidando.
Com certeza duvidando.
— Ah, sério? Sinto muito se não consigo acreditar nisso. Matheo Delacroix é o homem mais galinha que eu conheci em toda a minha vida, e olha que eu já vi vários desse tipo. — Claro, reclusa dentro de um palácio, presa por inúmeros guardas, absolutamente verdade, Alexandra.
— Ele pode ser tudo o que você disse, é verdade, mas ele também é legal, Alexa. Sério. — Ela ainda não acreditava, mas pelo menos havia me deixado falar sem abrir a boca ou demonstrar uma emoção sequer durante meu monólogo. — E ele realmente sabe das coisas, apenas finge não saber de muitas delas.
Ela levantou uma sobrancelha para mim.
— Não que eu duvide de você, mas eu duvido dele, sinto muito, Rose, mas por favor, mantenha distância dele. Matheo Delacroix significa apenas uma coisa: problema. — Concordei, vendo ela se afastar e subir as escadas com os dois livros que segurava, e segurando a barra do vestido com a outra mão.
— Por que tanta necessidade em fazer sua irmã gostar desse tal de Matheo? — Nathan se materializou ao meu lado, me fazendo dar um salto, o que fez ele sorrir.
— Céus, Nathan. — Coloquei a mão no coração. — Ele... Esse cara gosta de minha irmã, e ela odeia ele, e como eu estou devendo um favor, e ele me deve algumas coisas, também, estou ajudando ele á ter pelo menos um pouco mais de atenção de Alexa. — Nathan franziu o cenho, não entendendo direito. — E você, o que está fazendo aqui?
— Na realidade, preciso lhe entregar isso. — Eram duas pastas. — Uma pasta tem meu projeto com sua mãe e Silvia, a outra tem duas partituras. Uma para violino, e uma para violoncelo. — Bufei. — Eu sei que você não gosta, mas sua tia, a Senhorita May — revirei os olhos ao ouvir o “senhorita” antes do nome de minha tia — insiste que você aprenda violoncelo. Ela também tentou me convencer á ensinar você á pintar quadros. Não é minha área. — Ele levantou as mãos, como quem se rende, e abri um sorriso, olhando em volta. Não havia ninguém, algo estranho, mas eu podia aceitar isso. Nathan fez o trabalho por mim, se abaixando um pouco e encostando seus lábios nos meus. — Eu poderia fazer isso um dia inteiro. — Ele respondeu, se afastando contragosto. O que me fez abrir um sorriso.
— Que tal a noite inteira?
— Rose... — Sua voz adquiriu um tom repreendedor, mas tudo o que eu fiz foi abrir um sorriso. — Como você pretende me esconder de seus guardas, suas criadas, seu mordomo, sua família e vinte e um príncipes durante uma noite inteira?
Revirei os olhos para ele, dando um tapinha em seu peito, onde estava o aviso de que era Nathan Archbald, professor de música da família Schreave.
— Você sempre esquece do título que eu tenho antes do meu nome. Durante o jantar suba até meu quarto.
— E suas criadas? — Tudo o que eu fiz foi suspirar.
— Hoje á noite você vai ter uma demonstração do tamanho da minha influência sobre alguém.
Ele parecia descontente com a situação, mas o que poderia fazer? Eu era uma princesa, e ele sabia muito bem dos encargos no momento em que decidiu admitir seus sentimentos por mim. Efeito colateral é parte da substância, gostando ou não.
Ele concordou, e foi quando dois guardas surgiram no corredor, conversando enquanto faziam a ronda.
— Vejo você amanhã cedo para a aula, Alteza? — Concordei com a cabeça, notando que sua voz vacilou no alteza, pela adição rápida do termo.
— Claro, até mais, Sr. Archbald.
Os guardas me cumprimentaram, e apenas deram um aceno para Nathan, e eu subi as escadas, sendo parada no segundo andar por um príncipe que eu já conhecia. Patrick Hampson. Não que eu já tivesse saído com ele, mas eu sabia que ele era uma boa pessoa — pelos arquivos, entrevistas, comentários e tudo mais que sabia sobre ele.
Não havia saído com ele uma vez sequer, mas o esbarrão foi útil.
— Sr. Hampson, ótimo vê-lo por aqui. — Ele abriu um sorriso, revelando covinhas.
— Olá, Alteza. Fico feliz com isso. — Ele estava sem jeito, e eu sabia perfeitamente porque.
— Acho que devo algumas desculpas. Por ainda não ter lhe dado atenção alguma.
— Ah, não, não, não se desculpe por isso. Sei que está ocupada. Não se preocupe.
— Bom, ainda me preocupo e estar ocupada saindo com príncipes mais de uma vez não é uma desculpa para ignorar a existência de outros, não é mesmo? — Ele sorriu, agora um sorriso mais verdadeiro que o inicial. — Que tal tirarmos o atrasado?
— Claro, onde a senhorita pretende ir?
— Rosemarie. — Corrigi-o. — Você sabe nadar? — Ele concordou, sorrindo. — Ótimo, vamos aproveitar o pôr do sol na piscina, então. Lhe encontro lá?
— Claro, Al... Rosemarie. — Se corrigiu em segundos, o que fez um sorriso verdadeiro aparecer em meu rosto.
— Obrigada. — Continuei meu caminho até as escadas que levariam ao terceiro andar, mas pude notar que atrás de mim, no primeiro andar, na mesma reta que eu subia, Nathan caminhava para a portas principais de saída do palácio. Ele havia visto toda a cena.
Não era como se eu escondesse o que fazia com os outros príncipes, e ele sabia disso, mas eu só conseguia imaginar como deveria ser ver a garota que havia mostrado o futuro quarto de príncipe á ele, havia dado esperanças e mais esperanças — que eu esperava cumprir —, flertando com outro. Devia doer.
Eu só esperava que pudesse melhorar a noite, melhorar seus pensamentos. Mas com isso, com esse pequeno gesto de afeto meu com outro, talvez tudo o que eu tinha construído com Nathan estivesse se esvaindo por meus dedos, e eu não podia fazer nada se não esperar.
Como até mesmo um futuro (provável) governante podia se sentir assim? De mãos atadas?
Relacionamentos podiam ser cruéis com você sem você sequer notar o que estava acontecendo, o que era uma droga.
Enquanto trocava de roupa, minha cabeça ficava martelando isso, mas tive que mudar por completo todos os meus pensamentos quando cheguei na piscina com um roupão enrolado em meu corpo e uma toalha em minhas mãos. Patrick já estava ali, sentado na beira da piscina com os pés na água, os músculos de seus ombros ressaltados por causa do apoio de seus braços.
A piscina era um dos lugares que eu sabia que Alexa mais gostava de ficar — quando não havia tantos príncipes por perto —, era como cavalgar para mim.
Tirei meu roupão, me sentando ao lado de Patrick e colocando os pés na água. Ele disfarçou o olhar, o que eu achei bonito de sua parte, apesar de ser óbvio que ele analisava meu corpo dentro de um maiô.
— Me diga, eu poderia ser expulso da Seleção por fazer isso? — Olhei para ele confusa, até notar suas mãos me empurrando para dentro da água, e tudo que tive tempo de fazer foi fechar os olhos e trancar a respiração.
Ele caiu junto comigo, e submergimos, comigo empurrando ele, mas não pude conter a risada. Certo, ele realmente parecia ser legal. Ponto para a Noruécia.
As duas horas seguintes que eu passei com ele passaram voando, e meus dedos acabaram ficando enrugados, o que fez com que nós dois saíssemos da piscina e ficássemos vendo a noite chegar ao céu cada vez mais rapidamente. A luz da lua já mostrando sua existência.
— Você gosta de Illéa? — Perguntei, á certo tempo.
— É um país interessante. Bem mais que a Noruécia, admito. — Ele riu pelo nariz, e acompanhei ele. — E além do mais, estava cansado de minha família, então receber a ordem de meu pai para vir para Illéa não foi algo tão ruim quanto seria para meu irmão mais velho. — Outro ponto para a Noruécia. Patrick não era um herdeiro, se eu me casasse com ele, e eu tivesse que subir ao trono também, ele seria um ótimo pretendente (e rei).
— Então você é um príncipe. — Ele concordou.
— E serei até meu irmão decidir que pode engravidar sua mulher. — Ele riu fraco de uma piada interna que eu não entendi. — Eu, bem, não gosto de meu irmão. — Ele fez uma pausa, recebendo um olhar curioso meu de volta. — Não por ele ser o futuro rei — explicou rapidamente —, mas por ser... egocêntrico, entende? — Concordei com a cabeça, conhecia meu tio, Kota Singer. — Ele sempre agiu assim. Eu sou o segundo na sucessão, no caso, ele nunca gostou de mim, também, já que caso ele fizesse algo de errado, toda a responsabilidade, e a coroa, que era o que ele mais queria, viriam para mim. E eu sempre fui o filho correto, assim como ele, apesar de suas escapulidas no meio da noite para, bem, você sabe. — Concordei com a cabeça, curiosa com outro mundo que não fosse o meu, e ele parecia aliviado em despejar tudo aquilo. — Ele tentou impedir que meu pai me enviasse para cá, minha mãe me contou isso. Ele queria vir, mas meu pai não queria enviar seu herdeiro para um país que tem tantos problemas com rebeldes, então decidiu enviar o segundo na sucessão. — Concordei outra vez, virando minhas pernas na espreguiçadeira que estávamos, enquanto cobria meu corpo um pouco mais com o roupão, por causa do frio da noite. — Quando Kol descobriu que meu pai já tinha tomado sua decisão sem sequer consulta-lo, ele literalmente enlouqueceu. Ele ficou muito irritado. Claro que deve ser de família, tenho problemas com isso. — Anotado. — Mas, sinceramente, Rose, eu estou feliz por estar aqui, ao invés de lá. Por isso não me importei que você ou Alexandra não tivessem saído comigo, nem me importo com essa questão de coroa. Seja lá se a herdeira for você ou Alexandra, não me importo. Então eu apenas fiquei feliz pelo tempo que continuava aqui, fora o fato de que a saída de Fillipe Astor me fez notar que é melhor não sair com nenhuma de vocês do que sair e ser um idiota como ele foi. — Ri fraco, tendo que concordar.
— Ele realmente foi um pouco... difícil de lidar. Nada impossível. — Ele concordou, comigo me perguntando como os príncipes já sabiam dos motivos da saída de Fillipe. O príncipe provavelmente havia conversado com alguns outros príncipes, espalhando a notícia de sua saída, e também provavelmente dando dicas para seus amigos mais próximos aqui dentro. Fazia sentido, e era algo que eu também pensaria em fazer.
— Ok, vamos mudar o assunto, e você? Pode me falar alguma coisa? — Soltei um suspiro, olhando as poucas estrelas que se mostravam no céu de Angeles.
— Bem, eu sou a irmã rebelde, se isso ajuda em alguma coisa.
— Oh. — Ele falou, um pouco chocado. — Eu achava que era Alexandra, sério. — Ele acompanhou minha risada. — Você parecia mais responsável que ela na festa de aniversário.
Tenho certeza que sim.
— É, bem, Alexa teve alguns problemas emocionais nessa festa. — Ele concordou. — Bem, apesar de tudo, eu também amo cavalos, animais no geral, e acho que devo ter herdado essa característica da família de minha mãe, mas eu adoro tortas de morango. Adoro mesmo. — Ele riu, acompanhando minha risada fraca.
— Isso é sério? — Perguntou, como se não acreditasse.
— Claro que sim! As tortas do nosso chefe são divinas, você já experimentou? — Ele negou com a cabeça, enquanto eu fazia um bico. — Precisamos mudar isso, Sr. Hampson.
— Absolutamente. — Ele concordou, sorrindo. — Rose, olhe, eu preciso lhe perguntar isso. — Ele mudou completamente de assunto, o que me fez ficar com o pé atrás. Apenas concordei com a cabeça, esperando ele continuar. — Há fofocas de que você já tem sua elite montada. Ninguém entende sobre Alexandra, porque ela saiu com muitos príncipes, mas com certeza muitos príncipes já se garantem que fazem parte da sua lista. Ela realmente está pronta? — Olhei para ele um pouco desconfiada, e ele entendeu o que eu estava pensando. — Não estou perguntando para fazer fofocas, eu estou perguntando para saber se ainda tenho chances. Me abri com você, e fico feliz que tenha falado um pouco sobre você, o tanto quanto pode, mas também preciso saber se tenho alguma chance de poder fazer parte de suas escolhas. — Eu poderia dizer a verdade, é claro, que sequer me importava com a Elite e que não havia nada formulado no momento, ou eu poderia mentir, dizendo que a elite já estava formada e poderia mantê-lo ali por pura vontade de conversar com alguém sincero, ou então, poderia mentir dizendo que a Elite ainda não estava formada — uma verdade, é claro —, e que meu coração ainda não havia sido ocupado por completo.
— Não, minha lista da Elite ainda não está pronta, e, acredite você ou não, meu coração não está ocupado. Pelo menos não ainda. — Uma pequena mentira, mas o que faria mal? Precisava manter alguns príncipes, para que eu e Alexa ao menos pudéssemos formar uma Elite.
Ele sorriu, concordando.
— Fico feliz em saber disso, Rosemarie. — Sorri de volta, e então alguns minutos depois meu mordomo apareceu, desesperado. A janta já havia começado e eu e Patrick estávamos atrasados.
Uma hora e meia depois eu caminhava com Caleb pelos corredores do primeiro andar, seu braço segurando o meu, enquanto eu podia sentir o contorno de seus músculos sob o terno.
— Você sabe que eu me sinto excluído, não? — Brincou, sorrindo, mas logo em seguida o sorriso se fechou. — Você parece ter me ignorando nos últimos dias, Rose.
— Bom, eu não ignorei, se isso serve de consolo, apenas estou um pouquinho ocupada com tudo o que está acontecendo no momento. Alexa está um pouco triste, tenho novas tarefas pra fazer pelo meu pai, tenho que sair com alguns príncipes, já que muitos deles eu ainda não saí, e semanas já passaram. Então, me desculpe, mesmo, mas fico feliz por termos conseguido um tempo. — Ele concordou, sorrindo.
— Eu tenho um jogo de poker com William marcado em dez minutos. — Admitiu, fazendo uma careta. — Mas ele pode esperar.
— O que? Não! — Bufei. — Eu estive ocupada durante os últimos dias, e você tem o que fazer sem mim, aproveite com ele, não me importo, você precisa melhorar suas relações sociais.
— Eu também tenho tempo com ele, e não com você. — Nathan estava no meu quarto, minhas criadas logo estariam lá. Não ia ser bonito o que ia acontecer.
— Caleb! — Bufei, com ele revirando os olhos pra mim. — Tudo bem, prometo que vou encontrar alguma coisa pra fazer com você amanhã durante a manhã, que tal? — Ele me olhou, enquanto me avaliava.
— Tudo bem, teimosia em pessoa. — Ele me deu um beijo na testa, enquanto eu sentia meu coração dar um pulo. Havia pedido sem muito contato... de bocas, e ele estava respeitando isso, mas nesse momento eu adoraria receber um beijo do francês.
Céus, eu me sentia usando todos os homens que estavam sob meu teto. Principalmente o meu futuro príncipe.
Tudo bem, certo, eu podia tentar resolver tudo sem surtar, e sem usar ninguém.
Ele se afastou, seguindo pelo corredor que levaria á sala que meu pai havia usado como salão dos homens. Como minha mãe tinha seu salão das mulheres, Maxon havia julgado que merecia um para os homens, também. E levando em conta que só tinha filhas mulheres, imaginou que futuramente precisaria daquele salão com seus genros. Maxon tinha algum tipo de visão futurística correta, no final das contas.
Subi as escadas correndo, e abri a porta do quarto, vendo ele em silêncio. A varanda estava aberta, como eu havia garantido que ficaria, assim como minha cama estava perfeitamente arrumada, tudo em seu devido lugar. A única coisa que se movia no quarto era as cortinas, que esvoaçavam com o vento.
Segundos após minha entrada, minhas criadas entraram apressadas.
— Senhorita, quer que à preparemos para dormir? — Uma das criadas, que eu achava que o nome era Ester, falou. Eu sentia meu coração doer.
— Não, eu tenho uma coisa para fazer antes de ir dormir. Não me esperem, por favor. — Carmiryn me parou, cuidadosa.
— Pelo menos podemos arrumar seu cabelo? Você não conseguirá tirar todos os grampos, Alteza. — Soltei um suspiro, cedendo. Me sentei em minha penteadeira, com Ester e Carmiryn trabalhando rapidamente em meu cabelo. Assim que terminaram, saí rapidamente de lá.
Ao invés de seguir para qualquer lugar óbvio, segui diretamente para o corredor que Caleb havia pego minutos atrás.
E alguns minutos após isso, eu estava parada em frente as portas, com dois guardas me olhando preocupados.
— Senhorita, você não pode entrar aqui, a entrada é permitida apenas para homens, exceto com aprovação de seu pai. — Olhei para o guarda, cruzando os braços e apoiando meu corpo em um de meus pés, sentindo o salto machucar sem dó alguma o pé.
— Tenho certeza que ele não irá se incomodar com uma de suas filhas tentando melhorar o relacionamento com alguns príncipes, não é mesmo? Já com guardas que não seguem ordens é outro assunto que ele provavelmente não gostará de ser incomodado. O que acham? — A ameaça pairou no ar antes de um dos guardas ir até a porta.
— Quer que anunciemos a Alteza? — Neguei com a cabeça, e ele abriu apenas um dos lados da porta, ao meu pedido.
Tinham seis príncipes ali, e todos eles me encaravam abismados.
Ignorei os olhares, e me sentei junto á mesa, com Caleb, William e Arthur Gravensen.
— Como vai a noite, senhores? — Os três me encaravam em choque, e foi quando eu notei um pequeno detalhe.
Eles nunca haviam me visto com meu cabelo naturalmente solto. Mesmo com ele solto, sempre tinha detalhes, até mesmo uma única presilha.
Bom, ao que parece, essa era uma noite de escolhas e primeiras vezes.
E também uma noite que com certeza definiria grande parte de meu futuro.
Nathan Archbald havia ganhado meu coração, mas não queria dizer que ele tivesse ganhado minha mão, e principalmente que ele não estava participando de uma competição por uma coroa. Coroa á qual inúmeros homens no mundo matariam. Alguns dos quais estavam na mesma sala que eu.
Com certeza, essa era uma noite de escolhas.
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