Two Crowns
4 Capítulo III
Notas iniciais

Devo admitir que a ideia da Seleção já não mais me parecia tão assombrosa. Obviamente que eu não esperava encontrar o amor da minha vida dentre trinta e cinco príncipes escolhidos a dedo, mas parecia uma boa oportunidade para fazer novos acordos políticos. E é a esses acordos que se resume um casamento, lamento dizer. Mas o que mais é uma união matrimonial, além de um acordo entre duas partes?
Tudo bem, talvez eu estivesse lendo muita filosofia política nos últimos... Dez anos. Contudo, a chegada dos príncipes ao castelo na noite anterior foi o estopim para meu organismo. A insônia bateu à porta, os cabelos começaram a cair. Isso não é legal. Ainda mais quando se tem uma irmã gêmea que não se estressa — e, portanto, não está propensa a olheiras, olhos ressecados, nariz sangrando, rugas e derivados —, com a qual é sempre comparada. Para minha sorte, Rosemarie não é um exemplo de vaidade, ainda mais dentro da nobreza.
— Lorena? — chamei a serviçal, que pareceu um pouco assustada por lembrar seu nome. Não é que eu me esquecesse. Apenas não fazia muita questão de saber. — O que achou dos príncipes?
— Senhorita Schreave — ela fez uma reverência, trazendo meu vestido favorito. Era de uma tonalidade de roxo escuro, bem próximo ao azul cobalto. Frente única, destacando-se entre os tão usados tomara-que-caia. Combinava muitíssimo bem com meu tom de pele. Agradeci mentalmente por não ter utilizado em outra ocasião; caso contrário, não teria um trunfo para aquele momento. — Devo dizer que os príncipes parecem ser muito bem portados.
— Tudo bem... Isso é o que deve dizer. Mas o que realmente acha? — sorri, auxiliando as outras duas criadas a passarem o blush em minhas maçãs do rosto. Normalmente eu gostava de me maquiar por conta, mas depois de uma noite em claro, não seria capaz de sequer segurar os pincéis.
— Muitos deles são extremamente bonitos, senhorita. — ela sorriu de volta — Alguns, porém, creio que não lhe agradarão muito nesse quesito. Perdoe-me o atrevimento, mas a senhorita já conhece algum deles de outros eventos?
— De rosto, conheço uma meia dúzia, creio eu. — levantei-me, preparada para por o vestido — Mas só cheguei a conversar com um deles.
Os olhares que recebi foram de extrema curiosidade. Todavia, eu sabia que nenhuma delas teria o atrevimento de me perguntar quem era. Provavelmente elas acreditavam ser mais fácil simplesmente me seguir e procurar descobrir de qual dos príncipes se tratava. Permiti que me vestissem, e logo se retiraram do quarto. Olhei para a bandeja ao lado da cama, sem a menor vontade de comer alguma coisa. Meu estômago revirava, e eu sabia que era ansiedade. Por mais ridícula que fosse a ideia de um casamento semi-arranjado, agradava-me a possibilidade de ser desejada por príncipes do mundo todo.
Saí do quarto sem muita pressa — não conseguiria me manter elegante em um salto alto se tentasse andar muito rápido —, cumprimentando cada guarda e serviçal que passavam à minha frente. Uma das melhores máquinas para impor respeito é o carisma, já dizia meu pai. O súbito pensamento em Maxon Schreave fez-me dar uma passada em seu escritório.
Dei duas batidas na porta e entrei. De tantas vezes que fiz isso nos últimos oito anos, ele já havia se acostumado. Quando seu olhar encontrou o meu, soube instantaneamente: ele também não havia dormido. Suspirei pesadamente e puxei a cadeira à sua frente, sentando-me sem convites. Segurei sua mão e ele sorriu.
— Alguém não parece bem. — comentei — Mamãe disse que alguns problemas da última Seleção estão de volta.
— Não se preocupe com isso, Alexa, está tudo sobre controle. — Papai parecia calmo, mas era sempre assim. Se eu havia aprendido algo em meus 17 anos ao lado de Maxon Schreave, era como esconder bem o nervosismo.
— São os rebeldes. — não foi uma pergunta, mas sim uma afirmação. Ele não parecia tão surpreso quanto eu esperava que fosse ficar, mas seus olhos exigiram uma explicação. — Rose pegou o diário de mamãe um tempo atrás, assim que vocês sugeriram a Seleção. Mas é claro que ela não leu, só pediu pra eu fazer um resumo dos tópicos mais importantes.
— Não sei o que fazer com a sua irmã... — ele suspirou, nitidamente mudando de assunto.
— Tente trocar a fechadura do escritório, e lhe dar calças novas de montaria. Aposto que vai ficar livre dela por uns dois meses. — comecei a rir, embalada pela gargalhada de papai. — Mas não se preocupe... Sobre os rebeldes... Eu vou dar um jeito de acalmar a situação.
— Era sobre isso que precisávamos conversar, Alexandra. — Droga. Nome inteiro. — Durante a Seleção, vou liberar você dos deveres políticos oficiais. Ainda continuará com as aulas, mas Illéa ficará apenas na minha mão por um tempo. Quero que dedique esse tempo livre a conhecer rapazes novos. Deus, não acredito que estou falando isso para minha menininha, mas você precisa de um namorado.
— Não sei se vou encontrar alguém, pai... — suspirei — Sabe como sou pra essas coisas. Talvez a pessoa certa não esteja simplesmente aqui.
— Eu conheço a filha que tenho, Alexa. E foi você me pediu uma oportunidade de escolha, caso não se lembre. Quero que, antes de qualquer coisa, você seja feliz. Pode desistir da Seleção quando quiser, só dê uma chance... — ele sorriu de um modo afetuoso que não pude negar seu pedido. Notei que ainda segurava sua mão quando ele apertou a minha, com um pouco de força. — Tive muito trabalho em convencer o velho Charles a adiar as propostas com relação a Aaron. Mas fiz isso por você, vejo o jeito como se comporta quando está com ele. Sou homem, mas não sou cego.
Corei instantaneamente. Estava assim tão óbvio que a presença do príncipe inglês era a única coisa que me animava para o evento? Sorri, ainda boba com a percepção de meu pai, e me levantei. Acenei da porta, fechando-a logo em seguida e só então soltando a respiração. Eu não sabia que a havia prendido. Tentei acelerar o passo, como se ao me afastar do escritório, os problemas se afastariam junto. Ledo engano.
Parei subitamente ao ver pela janela alguns príncipes caminhando no jardim; obviamente que muitos já se conheciam, e trocavam uma conversa descontraída. Será que eles ainda não haviam percebido que eram concorrentes? Revirei os olhos por impulso, e subi em direção ao terceiro andar, sabendo que teria um pouco de paz ao menos em meu quarto. Certo? Errado. As serviçais o limpavam e pediram encarecidamente que eu não permanecesse lá durante esse tempo. Ótimo.
Peguei o livro que estava próximo à cama e voltei ao salão principal, no primeiro andar. Felizmente, os príncipes não haviam me visto: em teoria, só os conheceríamos dali duas horas, quando eu provavelmente já eliminaria duas dúzias, se apenas de mim dependesse. Olhei pelo local, notando a presença dos convidados ao jardim a oeste. Sem pensar duas vezes, saí pela porta leste e me encaminhei até uma árvore, banhada pelo sol da manhã. Sentei-me no balanço que se pendurava dela e comecei a ler.
“Duas casas, iguais em dignidade — na formosa Verona vos dirão — reativaram antiga inimizade, manchando mãos fraternas sangue irmão. Do fatal seio desses dois rivais um par nasceu de amantes desditosos, que em sua sepultura o ódio dos pais depuseram, na morte venturosos. Os lances desse amor fadado à morte e a obstinação dos pais sempre exaltados que teve fim naquela triste sorte em duas horas vereis representados. Se emprestardes a tudo ouvido atento, supriremos as faltas a contento”.
A verdade é que sequer havia terminado o prólogo quando uma sombra se pôs entre mim e meu livro. Já disposta a lhe dizer algumas palavras de baixo calão, fui hipnotizada pelo belo par de olhos verdes sobre o cabelo cor de areia. Fechei o livro e sorri.
— É um belo livro. — Aaron sorriu, sentando-se no balanço ao lado. — Romeu e Julieta morrem no final.
Suas expressões assumiram um tom maroto, algo que era típico do inglês. Desde os treze anos que ele sempre tentara estragar os finais dos livros que eu lia. Infelizmente, para ele, isso nunca funcionou. Desviei meu olhar do seu, subitamente envergonhada, notando seu nome no broche prateado que ele dispunha no bolso do terno. Ele não deveria estar aqui, papai já havia me deixado ciente disso.
— Já é a quarta vez que leio. Você se atrasou alguns anos. — dei de ombros, encarando a grama à minha frente. — Achei que não fosse vir.
— Eu também achei que não. — ele acrescentou, balançando-se levemente. Nem parecia o garoto de dezenove anos que se tornaria rei dentro de poucos outros. Rei Charles tardou a se casar, e já estava velho quando Aaron, seu primogênito, nasceu. A verdade é que ninguém esperava que ele durasse mais três anos sequer. — Mas eu queria.
Não disse mais nada. Não me atreveria a perguntar seus motivos para querer vir, porque no fundo eu já sabia quais eram. Durante os últimos quase cinco anos, eu e ele nos víamos três ou quatro vezes todos os anos, sempre fazendo companhia um ao outro nas festividades políticas. Inglaterra e Illéa sempre andaram muito juntas. Enquanto nós debatíamos sobre Marx, Voltaire e Maquiavel, Rose brincava de boneca com as irmãs mais novas de Aaron: Heidi e Emma. E com bonecas, digo: bonecas e seus unicórnios. Rosemarie sempre foi obcecada por hipismo.
— Tecnicamente, só poderíamos nos conhecer daqui uma hora e meia — sorri, ainda evitando seu olhar. — Sabe, as regras e tudo o mais...
— Estamos burlando faz um tempinho, então. — a gargalhada do loiro se espalhou pelo ar, preenchendo melodiosamente meus ouvidos, e fazendo as batidas de meu coração acelerarem — De qualquer forma, sou meio propenso a quebrar as regras.
— Aaron... — olhei no mais fundo de seus olhos, sabendo que não tão cedo conseguiria me libertar da prisão deles — Só me prometa que vai tentar não quebrar nenhuma. A última coisa que quero é ter que tirar você daqui.
— Lexi, eu não sou idiota. — sua mão tocou a minha. Era quente. Mesmo ciente dos olhares dos guardas, permiti que ele a segurasse. Era reconfortante.
— Como sabia que eu estaria aqui? — perguntei, no momento em que ele se levantara.
— Porque todo mundo não está.
Era uma resposta simples e que resumia completamente quem sou. Alguém que evita multidões, que prefere as poucas companhias, porque são sinceras. Suspirei. Minhas tentativas de voltar a ler foram incrivelmente falhas; a toda hora, a Seleção preenchia-me a cabeça. Eu poderia simplesmente desistir, como Rei Maxon já havia comentado, mas algo na expressão de Aaron me fez querer ficar. Por mais complicado que fosse um relacionamento entre mim e ele, talvez tentar não fosse egoísmo.
Foi perdida em pensamentos que quase me atrasei. Ainda com o livro em mãos, encaminhei-me de volta ao salão principal, onde Silvia nos aguardava. Já não era a moça que mamãe descrevia em seu diário, já que agora estava na faixa dos cinquenta, mas era uma mestra excelente. Ela sorriu ao me ver chegando pela porta leste, coisa que Rose fez exatamente ao mesmo tempo pela porta oeste. Às vezes, essa coisa de gêmeas era um tanto quanto assombrosa.
Sentamo-nos em uma mesa de três cadeiras, de modo que a terceira fosse ocupada pelo príncipe em questão. Mamãe nos instruiu para que não levássemos mais do que cinco minutos com cada um, e assim foi. Cada uma com uma planilha em mãos, deveríamos marcar um xis naqueles que gostaríamos de dispensar. Os príncipes que recebessem xises das duas princesas seriam eliminados.
Minha planilha tinha trinta e três xises.
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