Notas iniciais
Em primeiro lugar, eu gostaria de explicar porque o capítulo simplesmente sumiu: eu o deletei. Como não tive aulas ontem, achei que fosse sábado. Publiquei em TC, e levei o maior fumo da Cams. Mas ok, cá estamos de novo. Esse capítulo está um pouco maior, em torno de 3.300 palavras. Creio que os próximos da Alexa terão esse tamanho, salvas algumas exceções. Muito obrigada pela recomendação, Anyx! E Lets, NÃO OUSE ESQUECER O COMENTÁRIO DESSE. Brincadeiras a parte, pessoal, o número de comentários de TC está cada vez menor. Por favor, comentem mais! Não é como se vocês pudessem reclamar da demora ou atraso, até porque nos comprometemos a publicar todo sábado. Então por que não comentam? Não gostam da história? De qualquer forma, espero que gostem do capítulo. — Drama Queen

Querida Lexi,

Se minha memória não falha, essa a sexta carta que lhe escrevo. Perdão por isso, mas simplesmente não consigo resistir à necessidade de lhe enviar quatro dessas num único dia. Essas quase seis mil milhas que nos separam sufocam-me. É como se durante a Seleção, meu mundo passasse a girar ao redor do seu. E agora, longe de você, ele não girasse mais.

Newton diria que é porque a força centrípeta agora é imensamente, menor. Einstein diria que é porque o seu mundo causa uma deformação tão pequena no espaço ao meu redor que eu simplesmente não orbitaria o planeta Alexandra. Ah, Deus, como Einstein é um tolo. O que sabe de física, não sabe de amor. Não sabe como a saudade que me estilhaça afeta meu espaço-tempo. Entretanto, convenhamos que em algo ele era sábio: tudo é relativo.

Londres é linda, diria o mais tolo dos humanos. Eu, pelo contrário, acho-a horrível. Acho horrível o modo como o céu azul lembra o de Angeles, como o Tâmisa parece o lago que costumávamos nadar e como o ar gélido da noite me remete às nossas escapadas noturnas: seu corpo frio contra o meu, já ardendo em brasas pela sua mera presença.

Odeio o verde das árvores inglesas, e o modo como sei que é dessa cor vibrante que meus olhos ficavam ao encontrar os seus. Odeio as tortas e os croissants que servem aqui, e que possuem o gosto amargo das lembranças que me corroem a cada dia.

Einstein acertou em outra, também: confirmou que o Universo está sempre em expansão, e que há algo nele — também conhecido por energia escura — que o mantém se expandindo cada vez mais. Meu amor por você é assim: infinito e crescente. E assim como a energia escura, pouco se sabe a respeito do que me mantém assim.

Eu poderia dizer que é a energia dos seus olhos, tão perfeitos e falantes. Ah, sim, minha Alexa, você fala pelos olhos. Esconde o sorriso por trás da repulsa, a felicidade por trás da superioridade e a compaixão por trás da amargura. Tem os olhos do mar de ressaca: prende-nos, puxa-nos, envolve-nos. E assim como a mais bela das sereias, mergulha-nos em seu mundo, para nunca mais dele retornar.

Leve-me de volta a seu mar límpido, minha doce Alexandra. Pois aqui, longe de você, afogo-me em petróleo.

Com amor, e tudo o que me resta,

Aaron Edward Thompson.

Enxuguei as lágrimas, esboçando uma resposta. Eu havia respondido a todas as cartas do inglês, minutos depois de lê-las. Aquela não seria uma exceção. Considerando que ele ainda não havia mencionado ter recebido alguma delas, as cartas possivelmente ainda estavam em envio. Era complicado ter que enviar pelo correio comum, uma vez que Maxon m proibira de usar o correio real para tal finalidade.

Olhei pela janela e observei que o sol já nascia. Uma noite insone, nada demais. Tomei um longo banho quente e permiti que minhas criadas me vestissem. Apenas Lorena e Iris estavam lá, e eu definitivamente não queria saber que fim fora imposto à Violet. As empregadas trouxeram-me um vestido cinza claro, quase branco. Talvez pensassem que fosse deixar meu humor melhor.

Coitadas.

Nem tomei café. Fui direto à biblioteca. Precisava trabalhar no projeto, já que de fato não o abrira desde o começo da Seleção. Eu sabia que não teria grandes avanços com ele, mas precisava mostrar a meu pai que, ao menos, estava tentando.

Coloquei minhas pastas sobre a mesa central da biblioteca e transitei entre as prateleiras de política econômica, procurando por alguma alternativa que me fizesse salvar o país. Ainda que eu já tivesse lido noventa e cinco por cento de todos os livros daquela sessão, esperava algum tipo de milagre nos cinco por cento restantes.

Suspirei pesadamente, antes de procurar por mais um livro. Na lateral lia-se algo como A Monarquia do Século XVI, mas eu não poderia afirmar com certeza, pois o tempo desgastara as letras em dourado. Tentei alcançá-lo sem precisar ir atrás da escada, mas nem mesmo meu metro e setenta era o suficiente.

— Precisa de ajuda, princesa? — uma mão alva estendeu-se até o livro e o entregou a mim. Deus, se a voz de Aaron embriagava meus melhores sonhos, a de Matheo queimava em meus piores pesadelos.

— Não sua. — resmunguei, pegando o livro e me sentando à mesa. Já quase havia me esquecido da aproximação dele e de Rose. Quase. — Aliás, você poderia me ser útil.

— E como? — ele sorriu com o canto dos lábios, bebericando o café momentos depois.

— Em primeiro lugar, é proibido consumir qualquer alimento aqui. — revirei os olhos. — Em segundo lugar, exijo que mantenha uma distância segura de Rosemarie. Ela já tem alguém em mente, aposto que você sabe disso.

— Não tenho interesse em sua irmã, Alexandra. — ele se sentou à minha frente, segurando apenas uma prancheta com um bloco de papel e um lápis. — O palácio inteiro sabe que meus olhos só procuram por você.

— Não. Seus olhos só procuram pela coroa. — bufei. — Já lhe disse, Matheo, não é minha. E, ainda que fosse, não seria sua. Eu odeio você.

— “Meu único amor nascido do meu único ódio! Cedo demais o vi sem conhecê-lo, e tarde demais o conheci! Prodigioso é para mim o nascimento do amor para que deva amar meu inimigo abominado!” — ele citou, ainda com um sorriso travesso nos lábios. Contudo, seus olhos não fitavam os meus.

— Não ouse citar Romeu e Julieta para comparar ao meu ódio por você.

— Qual a diferença? — ele continuava sem me olhar. Eu odiava isso. Não era capaz de traduzir suas intenções por trás das palavras ácidas.

— Não é como se eu o amasse e minha família o odiasse. Está mais para o contrário. — abri o livro. Se ele iria evitar um contato visual, não seria o único.

Delacroix permaneceu quieto por longos minutos. Até mesmo cheguei a acreditar que ele tivesse saído e finalmente me deixado em paz. Suas mãos pareciam trabalhar em algumas anotações, mas o que tanto anotava? Eu tinha medo da resposta. Voltei o olhar para meus livros, grifando e acrescentando ao projeto algumas coisas. Mesmo assim, estava longe de ser terminado.

— Eu só não entendo seus motivos. — ele suspirou, seus olhos hazel encontrando os meus de igual cor. — Não que é como se eu algum dia tivesse a usado, iludido, ou algo do tipo. Sempre deixei claro minhas reais intenções, e mesmo quando as omiti, você sabia quais eram.

— Talvez eu o odeie por isso. Talvez eu o odeie por você me ver como um troféu.

— O mais belo deles. — ele tomou mais do café. — Mas são muitos talvez e poucas respostas concretas.

— Não gosto das suas intenções. — bufei. — Respondido?

— Minhas intenções com outras garotas não são as mesmas que com você. — Matheo sustentou meu olhar. Era, possivelmente, a conversa mais séria que conseguiríamos ter pelos próximos dezoito anos. — Eu quero decifrar você.

— Você quer me levar para cama.

— E quero acordar ao seu lado depois de cada noite.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Eu não confiava nele. Não seria com palavras como aquelas que ele iria me conquistar, ainda mais por ele estar, nitidamente, aproveitando da minha situação frágil.

— Eu não quero. — soltei as palavras, fechando o livro e pegando minhas pastas. — Estou muito feliz com Aaron, Delacroix.

— E eu estou feliz que ele não esteja aqui.

O Suíço arrancou a folha da prancheta e a dobrou ao meio duas vezes. Colocou-a entre meus dedos e meus papéis, tocando minhas mãos com leveza. Seus lábios sussurraram outra citação se Shakespeare: Se a minha mão profana este sacrário, pagarei docemente este pecado.

Deixei todo o material sobre a escrivaninha do meu quarto, guardando o papel ainda dobrado de Matheo dentro de um dos livros. Não tinha cabeça para abri-lo agora, ainda mais se o conteúdo fizesse-me arrepender de tê-lo odiado por anos. Lavei o rosto e desci para a piscina, na esperança de encontrar Arthur. Eu precisava conversar com alguém que estivesse interessado na minha irmã, e puxar assunto com William Davis ou Caleb Vermont não parecia a melhor opção.

— Psiu. — sussurrei por trás do dinamarquês, que riu junto comigo. — Ouvi uns boatos por aí de que o senhor tem trabalhado pesado no quesito: ganhar músculos para conquistar a irmã gêmea da melhor amiga. Confere?

— Se fosse esse o ponto, aquele moldávio estaria algumas eras à minha frente. — ele sorriu, apontando discretamente com a cabeça para o garoto Ken.

Um ponto para quem adivinhar o que ele estava fazendo.

Sim, pegando um bronzeado.

— Como andam as coisas com Rose? — perguntei, sentando-me em uma das cadeiras ao lado da piscina e vendo-o fazer o mesmo.

— Algo entre nada bem e péssimas. — ele suspirou. — Tenho medo de me aproximar demais dela e tomar aquele fora que tem duração de décadas.

— Ela é boa demais para isso. Talvez dure só umas semanas. — dei de ombros. — Deveria investir mais nela, Arthur. Você conhece nós duas melhor do que qualquer príncipe que está aqui.

— Não mais do que Aaron conhecia. — ele suspirou. — Ele estava me ajudando com isso, sabe? Esse lance de conquistar sua irmã, aos poucos. Agora estou sozinho nessa.

— Aaron faz falta. — respirei fundo, olhando para o alto, a fim de evitar que as lágrimas rolassem pelo meu rosto. — Muita falta.

— Você tem que esquecer isso, Alexa. — Gravesen se recostou mais à cadeira, olhando-me fixamente por longos instantes. — Aquele norueguês gosta mesmo de você. Precisa ver o modo como ele lhe encara durante as refeições. Parece estar louco de vontade de correr atrás de você, mas procura respeitar seu espaço. Se passar a ver essa Seleção como uma oportunidade, e não um martírio, sofrerá menos.

— Eu já me decidi, Arthur. — suspirei. — Vou esperar por Aaron, não importa o tempo que levar para voltarmos a ficar juntos.

— Só estou a aconselhando a ter sempre uma segunda opção. — ele vestiu a calça por cima da sunga já seca, e colocou a camisa de qualquer jeito. Estendeu-me o braço e eu o acompanhei de volta ao palácio. — Você pode esperar por ele, mas nada, nem mesmo a palavra de Thompson, é capaz de assegurar que ele esperará por você. Não confie demais nas pessoas, Alexandra.

— Eu não confio. Esqueceu que sou a gêmea racional? — brinquei, fazendo o loiro sorrir.

— Não se engane. Muitas vezes, nós acabamos confiando muito nas pessoas erradas. — o dinamarquês me encarou, sério. Parecia um irmão mais velho nessas horas.

— Eu confio em você. Você não é errado.

— Então me diga o que há de certo em mim.

Com um sorriso, ele partiu para seu quarto.

Quando subi em direção ao meu, notei um olhar preocupado de Gabriel. Raramente aqueles olhos verdes pareciam tensos. Não fazia ideia do que se passava, e a advertência em seu olhar ordenou meu bom-senso a não perguntar. Em troca, apenas o abracei com força e o senti desmanchar. Havia horas em que nem mesmo o mais forte dos guardas aguentava a pressão.

— Como está? — ele perguntou, ainda escondendo seu rosto na curva de meu pescoço. Eu sabia que, se alguém nos visse, estaríamos em problemas, mas que se dane. — Com toda aquela questão de Aaron e tudo o mais?

— Lidando. — respondi. — Lidando é, definitivamente, a melhor palavra.

— Lidando a gente vive. — ele comentou. — E, vivendo, a gente lida.

— Deveria virar filósofo. — brinquei, apertando-o firme uma última vez e adentrando meu quarto.

É estranho como a ausência de alguém faz você achar que em tudo falta algo. A sensação estranha percorre seu corpo constantemente e sem interrupções, como quando se esquece de algo, mas não sabe bem ao certo o quê. As paredes pareciam brancas demais, o chão marrom demais, as janelas douradas demais. Os espelhos pareciam pequenos demais, a cama grande demais e o coração... Vazio demais.

Passei os dedos pela caligrafia perfeita de Aaron. Algo nela lembrava os bilhetes que meu pai costuma deixar na capa de cada livro cuja leitura era obrigatória. Senti a alma pesar. Meu pai, minha mãe. Um casal perfeito. Com seus problemas, é claro, mas, ainda assim... Perfeitos juntos.

E minha perfeição fora arrancada de mim.

Sentei-me, peguei o tinteiro e continuei o rascunho de carta, passando a limpo logo depois. Não porque a primeira versão contivesse erros e rabiscos, mas sim, lágrimas. As folhas estavam até mesmo amassadas devido à umidade, e eu não entregaria meus sentimentos, descritos em linhas tão precisas e com tamanha exatidão, numa folha qualquer.

Assim que selei a carta, entreguei-a a Gabe. Ele colocou o envelope no bolso interno da farda, guardando como se fosse seu bem mais precioso. Tínhamos essa coisa de doar a vida. Essa coisa de sofrermos juntos, um pelo outro e um com o outro. Talvez Gabe fosse o irmão que eu e Rosemarie nunca tivemos.

Desci para almoçar, sem realmente apreciar a comida. Eu sabia que precisava me alimentar, contudo, ver todos aqueles rostos e não encontrar o inglês dentre eles era como uma facada no peito. Tentava sorrir quando notava olhos curiosos sobre mim, mas sem dúvidas que todos naquele castelo sabiam o quão terrível era meu estado.

— Preciso de ajuda. — Rose sussurrou, tirando-me de meus devaneios. — O pai disse que os rebeldes estão de volta, e...

— E? — perguntei, após sua pausa súbita.

— Será que você poderia me ajudar com a mira? — minha irmã não me olhou nos olhos. Com certeza, queria evitar a humilhação de ter de pedir alguma coisa, ainda mais se considerarmos que ela estava naquela fase de querer ser autossuficiente. — Por favor?

— É claro. — respondi, tentando deixar transparecer alguma animação em minha voz. — Mas vai ter um preço.

— Não vou ficar longe de Matheo. — ela bufou, e tanto seu olhar quanto o meu voaram para a mesa do suíço. — E não adianta falar que não é isso.

— Tudo bem, quero metade dos seus chocolates belgas, então.

Fazia muito tempo que eu não passava uma tarde inteira com Rosemarie. Eu sei que provavelmente teria que treiná-la com arco e flecha, todavia tinha a noção que, numa guerra de verdade, arcos e flechas são paus e pedras. Peguei duas metralhadoras e duas pistolas, todas com silenciadores removíveis. Maxon não ficaria feliz em ver as duas filhas andando por aí e atirando com armamento pesado.

Invadimos o centro de treinamento dos guardas com certa facilidade: aparentemente, era o lugar menos frequentado por eles durante a tarde. Coloquei as armas em um balcão diante dos alvos. Minha irmã já levava a mão à metralhadora quando lhe dei um tapa no braço.

— Não precisa fazer isso! — ela bufou, pegando a pistola e apontando para mim. Comecei a rir.

— Atire. — mordi o lábio. — Sério, pode puxar o gatilho. Não vai sair nada.

Ela me olhou, com certa desconfiança. Com certa dificuldade, e utilizando-se de provavelmente todo seu conhecimento sobre armas, retirou o pente.

— Mas está carregada! — Rose começou a ficar irritada. Recolocou o pente e voltou a apontar a arma.

— Está travada. — ri, pegando a outra pistola e lhe ensinando como destravar. — É bem simples, você só puxa aqui e...

Atirei. 10cm distante do cento. Nada mal.

— Ah... — ela repetiu o movimento e também atirou. Dois metros do centro. — Nem foi tão longe, vamos combinar.

— Quatro centímetros de margem são o suficiente para matar um refém. — suspirei. — Mas você está no caminho certo, o importante é tentar.

Atirei outra vez, dessa vez, mais concentrada. Dois centímetros do centro. Rosemarie parecia determinada. A distância reduziu significativamente. De dois metros, para um.

— Como você faz? — ela perguntou, já se preparando para outro tiro.

— Penso no Matheo. — Bem no centro. — Pelo menos ele é útil para isso.

Pelo sangue que subiu ao rosto dela, estava pensando em Arthur. Quarenta centímetros. Mais um tiro. Trinta centímetros.

— Por que infernos eu não consigo?! — ela surtou.

— Agora é treino, Rose. — coloquei a mão em seu ombro, tirando a pistola e lhe entregando a metralhadora. — Diga-me que estou ficando louca.

— Se está, ou não, não me importo. — ela suspirou. — Aqueles chocolates são um preço alto demais a se pagar, sem ao menos me deixar brincar com uma dessas.

Deus, se Rosemarie Schreave era péssima com a pistola, era ainda pior com a metralhadora. Digamos que minha irmã poderia ser um ogro na hora de cavalgar, mas era uma perfeita dama na hora de atirar. Coitada, ficaria com o ombro doendo por dias devido aos trancos. Mesmo assim, não desistia. Tinha atirado doze ou treze vezes, sempre gemendo de dor a cada tiro. Não conseguiu quebrar sua melhor marca, mas seus tiros estavam ficando mais regulares.

— Isso é definitivamente mais divertido que aula de línguas. — ela comentou, colocando a arma sobre o balcão. — O que me lembra de que terei que pedir alguma ajuda ao senhor Blue.

— Falando no diabo... — sorri e procurei disfarçar o fato de estar encarando o príncipe aparentemente perdido. — Senhor Blue, o que faz aqui?

— Senhoritas. — ele nos reverenciou, beijando a mão de ambas. — Ouvi algumas risadas doces, não pude deixar de conferir. Perdoe-me, senhorita Alexandra, mas isso em sua mão é uma Delta Fox com silenciador?

— A própria. — sorri. — Segundo modelo, apresenta recuo mais leve. Tente.

Joguei a arma para ele, que não demorou a se colocar em frente ao alvo. Seus dedos percorriam demoradamente nas junções fundidas da arma, apreciando-a como uma obra de arte. Considerando que Illéa era o único país que fabricava esse modelo específico, e apenas para a guarda real, de fato era algo raro.

Mesmo não tendo tanta flexibilidade por conta do terno, Daniel tinha uma habilidade incrível. Acertou a exatos quatro centímetros do centro — sim, eu fui lá conferir —, uma marca notável por se tratar de armamento pesado.

— Nada mal. — Rose sorriu. — Bom, tenho uns deveres para fazer, e aparentemente estou sobrando nesse assunto de armas, então...

Nem tive tempo de protestar.

— Então é um admirador de armas, senhor Blue? — sorri, pegando as duas pistolas. Daniel passou uma metralhadora por cima dos ombros e carregou a outra nos braços. Aparentemente, não me livraria dele tão cedo.

— Definitivamente. Tenho uma vasta coleção, mas é a primeira vez que vejo uma Delta Fox. Tem noção da raridade delas?

— Na verdade, não. — brinquei. — São fabricadas aqui, cresci vendo os guardas manipulando-as. Entretanto, senhor Blue, ficaria honrada se aceitasse uma delas como presente. Tenho algumas sem uso, caso haja interesse.

— Deus, Alexa, eu não poderia. — ele mordeu o lábio. — Quero dizer, sou eu quem tenho que lhe encher de presentes, não o contrário.

— Até parece. — revirei os olhos. — Precisaria de duas ou três dessas para somar o preço de um vestido daquela coleção.

— Coleção que por sinal, não parece ter agradado a seu gosto. — ele me encarou, seus olhos percorrendo toda a extensão do vestido cinza.

— Claro que agradou. — sorri, colocando as armas de volta à prateleira e pegando uma caixa sob elas. — Apenas não encontrei uma situação importante o suficiente para usar algum deles.

— Cada dia é um presente. — ele sorriu. — Carpe Diem, querida Alexandra.

— Carpe Diem.

Entreguei-lhe a metralhadora, vendo-o sorrir. De fato, era bom conversar com Daniel. Nem notara que havíamos passado pela biblioteca secreta, nem pela passagem para a sala de armas. Eu não deveria ter levado nenhum príncipe lá, mas que se danem as regras da seleção.

O príncipe italiano me acompanhou de volta ao salão principal, e só então notei que já anoitecia. Sua mão tocou a minha durante a caminhada, e ele a segurou com ternura. A Seleção ainda não havia acabado, repeti comigo mesma. Não para eles, ao menos. Eu não poderia, simplesmente, culpar Daniel por tentar.

— Creio que nos vemos no jantar. — ele sorriu, virando-se de frente para mim.

— Na verdade, acho que irei me deitar mais cedo hoje. — suspirei. — Boa noite, senhor Blue.

— Boa noite, senhorita Schreave. — Seus lábios tocaram as costas de minha mão, e logo depois, minha bochecha. Não pude deixar de corar.

Subi as escadas, arrastando-me andar acima. Dei um sorriso fraco para Gabriel, que só me segurou tempo o suficiente para entregar mais uma carta de Aaron. Cansada demais, deixei-a sobre o criado mudo e caí num sono profundo. O último sono tranquilo em semanas.

Notas finais
O que acharam? Nos vemos nos comentários.