O barulho das sirenes me acordou no meio da noite.

Eu olhei para o lado e não encontrei Edward. A não ser por mim, a cama estava vazia. Meu velho quarto, no escuro, dava a impressão de lançar sombras ameaçadoras através das paredes.

Uma movimentação chamou minha atenção e o meu coração pulou uma batida. Era Edward saindo do banheiro, enquanto terminava de vestir sua calça de moletom.

— O que está havendo? _ eu perguntei, me erguenodo sobre um cotovelo. Luzes vermelhas dançavam pelo seu rosto enquanto ele me observava em silêncio _ Acabou? Pegaram Esme?

Edward travou o maxilar. Seus ombros estavam tensos e a expressão no seu rosto era apreensiva.

— Não é a polícia que está aí fora, Bella. São os paramédicos _ ele fez uma pausa antes de acrescentar. _ Seu pai teve um ataque cardíaco.

— Como ele está?

Edward apareceu ao meu lado com dois copos grandes de papel. Eu aceitei um, dando um gole que me pareceu interminável e deixando que a cafeína fizesse o seu trabalho, me deixando ainda mais acelerada do que eu já me sentia.

— Os médicos não me deixam vê-lo _ respondi, olhando para a porta do quarto 217 como se realmente pudesse ver Charlie lá dentro. _ Ninguém tem permissão para entrar naquele quarto se não for da equipe.

— É normal que eles proíbam as visitas. Seu pai vai ficar bem, Bella _ Edward envolveu meus ombros com um braço e me puxou para o seu peito.

Eu fechei os olhos e pensei em Charlie numa cama de hospital ligado a uma dezena de aparelhos que o mantinham vivo. De repente, todos os problemas pareceram pequenos. De repente, eu desejei que nós dois tivéssemos mais tempo.

— Esme esteve aqui.

— Eu já imaginava _ Edward grunhiu. _ E como ela se portou?

— Como se estivesse ansiosa por se tornar viúva.

Minha madrasta havia aparecido meia hora antes, como um urubu sobrevoando uma boa carniça. Ela arrastou o médico responsável por Charlie para um canto e o interrogou por vários minutos. Algumas perguntas eu tive o desprazer de ouvir.

Esme queria saber a gravidade do estado de Charlie, as chances de ele sobreviver ao ataque cardíaco. O médico deu a ela a mesma resposta que eu havia obtido quase uma hora antes. Charlie já tinha um estado de saúde debilitado, o que dificultava as tentativas de recuperá-lo. Se ele sobrevivesse àquilo, viveria com graves sequelas.

— Eu sinto muito _ Edward beijou o topo da minha cabeça enquanto acariciava a minha mão num ritmo hipnótico e tranquilizante. _ Sinto muito pelo seu pai.

Assim como a manhã, a tarde passou arrastada e nebulosa, entre lágrimas e pensamentos sombrios.

Esme não voltou ao hospital. Provavelmente estava em casa, imaginando uma forma de gastar todo o dinheiro que herdaria. Pensar naquilo me deixava doente. Eu sabia que as pessoas eram capazes de mentir, trair e até matar por dinheiro, mas as questões de Esme eram ainda mais complexas.

Eu nunca a compreenderia de verdade sobre ela. Sua mente era como um cadeado com senha e ela levaria o segredo para o túmulo.

— Eu estou arrependida, Edward _ admiti, cobrindo os olhos com as palmas das mãos. _ Deus, é tudo culpa minha...

— Arrependida do que, Bella? _ ele perguntou, sentado ao meu lado no banco da sala de espera da emergência. _ Do que você tá falando?

Eu me soltei dos seus braços e olhei para ele, meu peito queimando com a angústia que estava sentindo. Queria que Edward lesse nos meus olhos até aquilo que eu não tinha coragem de dizer em voz alta: que eu nunca havia sentido tanto medo de perder alguém na vida.

Depois que minha mãe morreu, meu pai tornou-se meu único elo próximo. Unidos pelo sangue. Um elo torto e enferrujado, mas ainda assim ele era a minha família. Não era justo que ele partisse quando nós estávamos finalmente nos entendendo.

— Eu deveria ter aceitado a proposta de Charlie. Deveria ter dito sim quando ele me pediu que cuidasse da empresa.

— Isso não teria impedido que o seu pai estivesse naquele quarto agora _ Edward me confortou. _ Além disso, colocaria você ainda mais em evidência. Se você tivesse aceitado administrar a empresa de Charlie, Esme abria uma temporada de caça contra você.

— Talvez _ eu olhei para ele, considerando. _ Mas saber que ela vai colocar as mãos naquilo que o meu pai batalhou anos para construir faz o meu estômago revirar do avesso. Você não?

Edward segurou a minha mão em silêncio. Ele não tinha um argumento para rebater aquilo.

Perto da hora do jantar, Edward me convenceu a ir para casa tomar um banho e comer alguma coisa. Após catorze horas no hospital, eu estava precisando daquilo para me sentir humana novamente.

Os médicos ainda não tinham notícias mais precisas acerca do estado de saúde de Charlie. Àquela altura, até eles estavam aguardando por uma espécie de cura milagrosa. Eu também estava. Os minutos se passavam no relógio e eu ainda não sabia como me sentir ao certo. Tinha medo de ser otimista demais e acabar me machucando. Mas também não me parecia certo esperar pelo pior.

Meu pai era forte. Ele sempre parecia estar enfrentando um gigante. A morte de Rennè, a própria doença... Charlie era sim capaz de superar tudo aquilo.

— Alice e Gwen estão esperando você no apartamento. Eu posso ficar aqui, de guarda, até você voltar _ Edward se ofereceu, prestativo.

— Não precisa _ eu agradeci, beijando o seu rosto carinhosamente. _ Vamos sair daqui juntos. Quem sabe, quando eu voltar, Charlie já não abriu os olhos e está todo irritado por estar usando só um avental?

Edward sorriu de canto.

— Gosto de ver você toda positiva. Eu amo você, Bella.

Eu sorri de volta do melhor jeito possível.

— Eu amo você, Edward. Obrigada por enfrentar isso tudo ao meu lado.

Ele me abraçou com força, me fazendo sentir segura.

— É o único lugar onde eu quero estar a partir de agora.

Eu tomei um banho quente e demorado, depois tentei comer um pouco da salada verde com peixe que Alice tinha feito para o jantar. A comida parecia não ter gosto, embora cheirasse muito bem e Edward tivesse feito um elogio à culinária de Alice.

— Peguei a receita na internet _ ela deu de ombros, com olhinhos reluzentes. _ Os pais de Jas vém jantar aqui no sábado, então estou fazendo algumas experiências.

— Eu fico feliz por você _ sorri, tentando parecer entusiasmada. _ Que bom que está dando tudo certo.

— Mais ou menos _ ela fez uma careta. _ É a nossa primeira tentativa de aproximação depois daquela viagem desastrosa. Além disso, a irmã dele vai estar aqui também e eu não gosto muito daquela esquisita.

— Rose? _ Edward riu, se espreguiçando lentamente na cadeira como um gato _ Ela é gente boa.

— Que tipo de gente boa? _ eu cravei meus olhos nele com um ciúme agressivo que nem eu mesma entendi.

Edward franziu a testa, confuso.

Nós entramos em um modo silêncio congelante. Alice percebeu e saiu da sala com a desculpa de lavar a louça.

— O que foi, Bella? _ ele estendeu a mão para acariciar meu ombro e eu me esquivei como uma criança de cinco anos _ Está mesmo com ciúmes da Rosalie?

Eu respirei fundo, desviando o olhar para o outro lado, os cotovelos apoiados sobre a mesa.

— Eu não sei. Me desculpe _ pedi, envergonhada. _ É só que... eu não quero ter que pensar em você com outras mulheres. Não agora, nem nunca.

Edward me olhou por um longo momento. Eu me segurei ao assento e me engasguei quando ele arrastou minha cadeira pelo chão até estarmos um diante do outro. Seus olhos eram verdes e inebriantes, faziam eu me sentir protegida e na beira de um penhasco, tudo isso ao mesmo tempo.

Eu sentia as batidas do meu coração desrreguladas quando estava com ele. Eu nunca havia me sentido assim como ninguém e tinha absoluta certeza de que jamais me sentiria assim de novo com outra pessoa. O que tínhamos era especial e ia além da eternidade.

— Então não pense _ ele disse, segurando o meu queixo entre os dedos. _ Porque, para mim, você foi a primeira e será a única. Ninguém foi capaz de tocar em mim como você tocou. Muito além do meu corpo, direto na minha alma. Dentro do meu coração.

— Edward...

Meu celular tocou sobre a mesa, interrompendo o que eu ia dizer. Edward e eu nos entreolhamos.

— É do hospital _ eu disse, olhando o numero no visor. _ Devem ter notícias sobre o Charlie.

— Você quer que eu atenda?

Eu aceitei a oferta, aguardando enquanto Edward escutava com o semblante tenso. Os segundos se arrastavam como se fossem horas. Eu estava pronta para arrancar o aparelho das mãos de Edward, quando o vi murmurar um obrigado e desligar.

Eu sentia um peso enorme esmagando o meu peito e tive certeza que minhas mãos estavam geladas quando ele as segurou entre as suas.

— Eles querem que você vá agora.

— Charlie acordou? _ eu perguntei, a esperança reacendendo.

Ele hesitou por um breve momento, então negou com a cabeça.

— Eu sinto muito, Bella, Charlie teve outro ataque cardíaco. Os médicos precisam de você lá _ Edward apertou os lábios antes de acrescentar. _ Eles vão desligar os aparelhos.

Balancei a cabeça, sem querer acreditar.

— Não, Edward...

— Se acalma, por favor. Não há nada o que eles possam fazer agora.

— Por favor, não...

— Eu não consigo ver você sofrendo_ Edward rosnou, ficando de pé em um rompante e me puxando para os seus braços. _ Porra de destino! Me diz o que eu devo fazer, Bella...

Um nó na minha garganta me impedia de dizer qualquer coisa. A minha relação com meu pai nunca havia sido um conto de fadas, mas nos últimos dias eu havia me iludido completamente. Eu realmente achei que nós dois teríamos uma segunda chance. Um recomeço.

Eu mordi o lábio, secando as lágrimas a medida que elas escapavam. Estava magoada. Mas não havia a quem culpar por isso.

— Tem outra coisa, Bella _ a voz de Edward parecia frustrada. _ Porra. Eu estou me sentindo um merda por ter que dizer.

— O que?

Ele não disse imediatamente. Em vez disso, enterrou os dedos nos meus cabelos na altura da nuca, massageando suavemente. O contato era bom. Quente e reconfortante. Mas não o suficiente para me fazer esquecer.

— Eles encontraram vestígios de alguma substância no sangue do seu pai _ Edward revelou.

O choque fez com que eu me afastasse bruscamente, encarando-o perplexa.

— Substância? Que substância?

— Eu não sei. Eles só vão falar pra você _ ele explicou, tentando me abraçar novamente. Eu dei um passo para trás, assustada demais para dizer qualquer coisa _ Eu sei que é demais pra você agora... e eu odeio te pedir isso, mas precisa ir, Bella. Porque se for o que eu estou pensando, então...

— Esme _ eu concluí, apertando os braços ao redor do meu corpo. _ Ela, ela...

— Isso _ ele assentiu, com um olhar sombrio. _ Ela pode ter provocado o ataque cardíaco do seu pai.

Notas finais
Boa tarde, meninas! Fiquei afastada por conta dospreparativos para o aniversário da minha filha. Não pensei que fosse me consumir tanto e nem imaginei que fosse precisar desaparecer do mundo por uns tempos, mas precisei. Aí está mais um capítulo, algo que nós até desconfiávamos que pudesse acontecer, não é mesmo? O próximo será o antepenúltimo capítulo (me empolguei no final e no destino dos nossos vilões hehe) e também teremos um epílogo. Estou escrevendo muito e vou liberando os capítulos assim que forem surgindo. Espero que gostem. Mil beijinhos!