Two Broken Hearts
62 Reencontro
POV Edward
"O Coronel está esperando no escritório", foi o que Henrietta disse quando me descobriu, no hall de entrada, em meio aos rostos dos Cullen que me encaravam em acusação.
O Coronel mantinha quadros de todos os seus antecessores espalhados pelas paredes, desde o seu próprio bisavô, Charles Jacobs, o primeiro Cullen a administrar a fazenda e, também, o homem que dera origem àquela fortuna incalculável.
Jacobs chegara à Maryland, ainda criança, em 1865, o mesmo ano em que o presidente Abraham Lincoln fora assassinado. O ano em que os EUA começavam a ascender a uma das maiores potências militares, políticas e econômicas do mundo. Filho de John Cullen e Ethel Jacobs, dois agricultores da Carolina do Sul, desesperados, despedaçados pela impiedosa guerra civil americana. Após ter suas terras destruídas pelos conflitos, os dois buscaram refúgio na cidade de Baltimore, que deixava a guerra para trás e caminhava a passos largos rumo a imperiosa revolução industrial.
John e Ethel rapidamente empregaram-se em uma das fábricas da região, onde o salário era baixo e o trabalho exaustivo. De saúde naturalmente fraca, Ethel, que tivera uma paralisia quando criança, adoeceu apenas um ano após chegar a Baltimore, os pulmões enfraquecidos pela fumaça inalada na fábrica. John acabara por criar os seis filhos. Charles Jacobs era o caçula deles.
Enquanto relembrava a história dos Cullen, eu sentia uma ponta de orgulho se inflamar no meu peito. Jacobs havia saído da mais completa miséria para se tornar um pecuarista importante e respeitado no condado de Baltimore, uma atividade já considerada ultrapassada naquela época.
O governo havia entregue uma compensação financeira aos Cullen pelos prejuízos causados pela guerra. John havia morrido há quase oito anos na ocasião, vítima de um acidente na mina de carvão onde estava trabalhando. O dinheiro, então, tinha sido dividido entre os quatro herdeiros de John e Ethel. O irmão mais velho e a irmã do meio de Jacobs haviam morrido de tuberculose, aos dezesseis e doze anos, respectivamente.
Os três irmãos vivos de Jacobs, todos adultos na ocasião, utilizaram a quantia para tentar se manter com o mínimo de dignidade enquanto permaneciam trabalhando nas fábricas e minas da cidade. Mas alguma coisa dizia ao caçula da família que valia a pena investir onde ninguém acreditava. Jacobs comprou o seu primeiro pedaço de terra e, a partir daí, seguiu-se uma história incrível de superação que deu início à dinastia Cullen em Maryland.
Eu caminhei com firmeza até o escritório do Coronel nos fundos da casa, seguido de perto por Henrietta, que me analisava com um olhar reprovador.
Eu sabia muito bem o que todos pensavam sobre mim, desde que eu saíra de Maryland. E Henrietta, a cuidadora da casa de moral firme e costumes rígidos, não podia ser diferente. Ela nunca havia passado a mão em minha cabeça e, exatamente por isso, fora imprescindível durante o meu crescimento. Educar um garoto sem mãe e com um pai problemático, além disso, o jovem e único herdeiro de uma soma incomensurável, com certeza, não tinha sido uma tarefa fácil.
— Entre.
O Coronel havia escutado o som dos meus passos pelo corredor, porque mandou entrar assim que eu parei à porta do escritório.
Eu observei Henrietta, que se afastava pelo corredor, provavelmente de volta à cozinha, onde daria as ordens do almoço aos empregados. A vida na fazenda começava cedo. E não parava. Nunca.
Eu empurrei a pesada porta de madeira e entrei no escritório. O chão, na mesma madeira escura da porta, refletia a minha sombra no piso impecavelmente encerado. Na parede oposta, uma estante cobria o espaço por completo, repleta de livros de administração, matemática financeira e obras clássicas da literatura americana. Meu avô era um patriota nato. E era esse homem que, agora, me encarava com um brilho otimista nos olhos.
— Edward Cullen _ ele saboreou o nome com entusiasmo evidente.
Eu coloquei minha mala no chão, olhando em volta e fingindo um desprezo que não podia sentir.
— Achou que eu não viria _ não foi uma pergunta. Eu estava orgulhoso por conseguir surpreendê-lo.
O Coronel sorriu torto, os olhos verdes como duas esmeraldas cintilando com a astúcia de uma velha raposa.
— Pelo contrário. Tinha certeza de que sim.
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POV Bella
Eu não achei que fosse voltar tão cedo para casa. Nem que, ao fazer isto, subiria as escadas rumo ao quarto de Charlie, tendo Esme liderando logo a minha frente.
— Como ele está?
— Ele não quer ver ninguém _ ela suspirou, o cabelo preso em um rabo de cavalo sedoso, que ondulava conforme saltitava pelos degraus acima.
Imaginei que fosse encontrar minha madrasta vestindo camisola e um roby de seda elegante, empenhada no papel mais dramático da sua vida, o de viúva inconsolável. Mas ela estava usando jeans Calvin Klein e uma camiseta branca, e parecia muito mais saudável do que no dia em que eu saíra dali com Edward. Aparentemente, o filho era o seu veneno. Na sua ausência, a vitalidade havia sido devolvida ao seu corpo como num passe de mágica.
— Quer dizer, quase ninguém _ Esme se corrigiu, dando uma olhadinha para trás, sobre o ombro, para checar minha reação._ Charlie pediu que eu ligasse para você.
Quando alcançamos o terceiro andar, eu vi o corredor se estender, como uma pista de boliche, até a porta branca de maçaneta dourada que encerrava o quarto de Charlie. Atravessamos o espaço em silêncio. Secretamente, eu me sentia como a ovelha negra que retornava para casa no leito de morte do seu pai.
— Você se importa se eu não entrar com você? _ Esme perguntou, girando a maçaneta com o sorriso amistoso que lhe era característico _ Tenho aula de spinning às oito. De qualquer jeito, acho que seu pai vai preferir conversar com você sozinho.
Eu assenti, com aquela sensação horrível de quem flutua pelo infinito numa bolha de ar. Anestesiada, era essa a palavra. Esme agia como se nossa última conversa nunca tivesse ocorrido, mas as palavras estavam gravadas no meu coração a ferro em brasa.
Tão logo eu entrei no quarto, a porta se fechou atrás de mim.
Meu pai jazia pequeno e pálido naquela cama enorme, perdido no azul frio dos lençóis e cobertores de seda. O restante do quarto era decorado em tons de branco e marfim, incluindo a confortável chaise longue no canto da janela. As pesadas cortinas estavam fechadas e eu me senti, exatamente como deveria me sentir, entrando na alcova de um homem doente.
— Bella _ ele murmurou, quando eu dei o primeiro passo para dentro, embora os seus olhos estivessem fechados e eu tivesse me preocupado em fazer silêncio. _ Você cheira como a sua mãe.
Eu me aproximei da sua cama, mas não sentei ao seu lado. Os olhos de Charlie estavam abertos agora, mas ele olhava para longe, para a parede ou através dela. O castanho era vivo e brilhante, como eu nunca tinha visto.
— Rennè era incrível. Quando nos conhecemos, ela não aceitou sair comigo por um mês. Durante cada dia, eu enviei um buquet de íris e um de jasmim, as flores preferidas dela.
— Como sabia que eram suas flores preferidas? _ minha voz soou frágil como uma borboleta em um recipiente de vidro.
Charlie sorriu, debilitado. A saudade que eu vi dentro daquele sorriso fez o meu coração se despedaçar.
— Seu perfume... shalimar. A fragrância mais profundamente apaixonante que eu tive o prazer de sentir. Você se lembra?
Eu fiz que sim com a cabeça, embora ele não pudesse ter visto. Charlie olhava para a janela fechada, agora, disfarçando os olhos marejados.
Sim, eu me lembrava de shalimar, uma recordação doce entre tantas outras que eu gostaria de poder apagar, como a perda terrível da minha mãe, a rejeição do meu pai ou Brahms nº 4 ecoando furiosa pela casa. A sinfonia da morte, como os empregados a chamavam.
— Por que ela não queria sair com você? _ eu perguntei, dando alguns passos adiante e me sentando na beira da cama.
Charlie sorriu, embora algumas lágrimas teimosas cruzassem o seu rosto naquele momento.
— Rennè tinha um namorado.
— Ah _ eu me surpreendi. Nunca tinha pensado nos relacionamentos anteriores dos meus pais, que sempre haviam sido o casal perfeito, mas é claro que haviam existido.
— Robert Davenport _ ele pronunciou o nome com desprezo, estalando a língua, de um jeito adolescente que me fez rir de canto. _ Hoje em dia, é um banqueiro extremamente bem sucedido, mas, naquela época, era um filhinho de papai do curso de biomédica.
— Eles estudavam juntos _ eu arregalei os olhos, desejando não sentir tanto prazer naquela conversa, mas sentia. Era a primeira vez que conversávamos tão abertamente sobre a única coisa que possuíamos em comum, o elo que nos mantinha ligados: nosso eterno amor, Rennè Swan.
— Sim, e eu a roubei dele _ ele disse, com um certo orgulho. _ Quando vi sua mãe, pela primeira vez, trancando seu pequeno armário desorganizado no campus da faculdade... Deus, quanta bagunça aquela mulher era capaz de fazer!... o armário mais ridiculamente meigo que eu já vi, coberto de adesivos e fotos de bandas... eu soube que ela precisava ser minha. Ou eu morreria _ ele endireitou o pescoço para olhar para mim, pela primeira vez desde que eu entrara, e minha voz falhou quando eu tentei interrompê-lo, as lágrimas incendiando a minha garganta _ E agora eu vou morrer, Bella. Eu estou morrendo, minha filha... eu estou morrendo. De desgosto, de saudade, de remorso... e de uma culpa tão grande que eu não sou capaz de conviver com ela por mais um dia sequer. A culpa de saber que, depois de Rennè ter partido, eu não fui capaz de cuidar da única coisa que ela amava mais do que a própria vida... você.
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