Two Broken Hearts
68 Kerouac e o Príncipe no Cavalo Branco
POV Bella
— Eu te peço desculpas pelo meu amadorismo, Bella. Eu odeio trabalhar com coisas que não conheço e aquilo que eu te dei... bom, é novidade até pra mim. Eu devo ter errado na dose, porque a expectativa era a de que você dormisse profundamente, mas... _ Jacob consultou o relógio _ como você pode ver, não foi bem o que aconteceu.
Ele havia amarrado meus pulsos e tornozelos e, agora, eu estava sentada no chão do quarto, as costas contra a cama, com as pernas encolhidas.
A minha melhor chance era o que eu havia escondido dentro da mão direita. O sangue descia lentamente do caco de vidro que cortava a minha carne, machucando ainda mais a palma lacerada. Era o mesmo vidro que havia rasgado o rosto de Jacob. Num golpe de sorte, eu havia conseguido recuperá-lo antes que ele me tirasse da sala.
A sensação de irrealidade havia desaparecido quase completamente. Eu ainda me sentia tonta e fraca, porém, o que me deixava numa situação difícil. Eu estava alerta o suficiente para entrar em desespero, mas não o bastante para reunir forças e enfrentar Jacob.
Jacob consultou o relógio.
— Chegou a hora _ ele anunciou com um sorriso perverso. _ Você vai ver um espetáculo como nunca viu.
Ele enfiou a mão no bolso de trás da calça e tirou de lá, um isqueiro zippo prata, similar a um que eu já havia visto Edward usando. Por um segundo, eu pensei: "Faz sentido eles serem velhos amigos. A R1 e a postura badboy, entre outras coisas". Mas o brilho nos olhos de Jacob me fizeram renunciar a ideia. Ele era cruel, egocêntrico e desumano, não tinha o menor respeito por ninguém.
Eu não soube o que Jacob faria quando o vi se mover pelo quarto. Num primeiro momento, eu girei o pescoço sobre o ombro, tentando acompanhar os seus movimentos, o que se mostrou impossível. Ele havia se posicionado em algum ponto exatamente às minhas costas. Mas, no momento seguinte, eu senti o cheiro de queimado no quarto e o desespero tomou conta de mim.
— Jacob, o que você está fazendo?! Jacob!
Eu continuei ouvindo-o se mover em silêncio, enquanto encarava a porta aberta do quarto e lutava para me libertar das amarras. Quanto mais esforço eu fazia, mais elas se tornavam apertadas. Aquela não era a solução. Mas qual seria?
Eu firmei os pés no chão e dei um pequeno impulso para cima, testando a solidez das minhas pernas. O controle sobre o meu corpo havia voltado. Se eu conseguisse me soltar, poderia correr para a porta e deixar Jacob e todo aquele pesadelo para trás.
O cheiro de queimado tornou-se mais forte e eu ouvi o fogo crepitar atrás de mim. Tossi algumas vezes quando a fumaça atingiu meus pulmões.
— Jacob, por favor _ eu grunhi, suplicando ajuda. _ Jacob...
Ele apareceu a minha frente com um sorriso gelado no rosto. Como, algum dia, eu poderia tê-lo achado confiável? Como podia tê-lo deixado se aproximar de mim? Alice estava certa o tempo todo. Jacob era um maldito maníaco e permitir que ele entrasse em minha vida havia sido um erro gigantesco.
—--------------------------
POV Edward
Perto dos limites da fazenda, nós ouvimos o motor engasgar e o taxista foi reduzindo a velocidade até parar completamente.
Henrietta e eu nos entreolhamos, surpresos.
— O que aconteceu? _ eu perguntei ao motorista, que já abria a porta para sair do veículo.
— Alguma coisa no motor _ ele justificou. _ Eu não sei o que é, mas vou averiguar.
Nós esperamos, impacientes, até que ele retornasse menos de cinco minutos depois. Tinha as mãos sujas de óleo e estava molhado da chuva que ainda não havia cessado.
— Eu sinto muito, mas o carro não vai andar.
— O que aconteceu? _ Henrietta quis saber.
— O motor enguiçou. Eu acabei de ligar para o reboque e eles vão chegar em alguns minutos. Não vai demorar nada _ ele assegurou, secando o rosto na toalha que trazia pendurada no bolso da calça. _ Eu diria para vocês irem andando até a estrada principal, mas com o tempo desse jeito... bem, se vocês preferirem, eu posso ligar para o serviço de táxi e ver um outro veículo disponível. Mas, com o tempo assim, isso pode demorar mais.
Eu fechei os olhos e recostei a cabeça contra o banco, bufando. É claro que deixar a fazenda não seria assim tão fácil. Eu já deveria estar esperando que meteoros atingissem o planeta no exato momento em que eu atravessasse os limites daquelas terras. Era quase como se o Coronel tivesse poder até mesmo sobre o clima e as intempéries da natureza.
— O que vamos fazer? _ Henrietta se voltou para mim, desconsolada _ Meu vôo sai em quinze minutos.
— Eu não sei _ ainda não tinha uma passagem de volta para Nova York, mas aquilo não seria um problema. Vôos para lá saíam a todo momento. Talvez eu tivesse que aguardar por volta de uma hora nas poltronas da sala de embarque, não mais do que isso. _ Acho que devemos esperar o reboque. O taxista garantiu que não vai demorar.
— É a solução mais rápida _ o homem repetiu, aproveitando o gancho da conversa. _ Eu sinto muito. O táxi foi vistoriado há poucas semanas, eu realmente não sei o que aconteceu.
Henrietta encostou o ombro contra a janela, assistindo a chuva se tornar mais forte do lado de fora. Eu permaneci apoiado contra o encosto do banco, sem conseguir relaxar.
Sabia que só me sentiria confortável quando estivesse longe dali. De preferência com Isabella em meus braços, me dizendo o quanto me amava.
—--------------------------
POV Bella
Com os braços amarrados torcidos para trás do corpo, eu rolei o caco de vidro pela mão até posicioná-lo de encontro às cordas.
— Eu sempre vi algo muito bonito na morte através do fogo _ Jacob assinalou. Eu ainda não podia ver as chamas, mas podia imaginá-las lambendo as cortinas do quarto, tocando a outra extremidade do lençol da cama. O quarto se tornou quente, abafado, a medida que o cheiro de fumaça empesteava o ar ao meu redor. Bastariam alguns segundos para que chegassem até nós. _ Espero que você saiba apreciar o espetáculo, Bella. Eu preciso ir.
— Não, Jacob... por favor _ eu implorei. E comecei a serrar mais depressa, o caco ferindo minha mão mais do que a própria corda _ Por favor, não faz isso... eu estou suplicando _ eu precisava continuar tentando. Lutar até o fim. Mesmo sabendo que as amarras não cederiam, o príncipe não chegaria a tempo e eu morreria ali, vítima da loucura e da ganância de alguém que sequer sabia quem era. _ Quem mandou você fazer isso... quem? _ perguntei, com a voz esganiçada.
O calor se tornava insuportável. O ar estava pesado, denso, e a fumaça fazia minha garganta arder e os meus olhos lacrimejarem. O suor pingava da minha pele. E, a todo momento, eu só pensava em Edward. Eu não teria tempo para dizer o quanto era sincero o meu amor por ele e que, sim, eu queria o para sempre e um conto de fadas inteiro ao seu lado. Eu morreria sem sentir, uma última vez, os seus braços ao redor do meu corpo, os seus lábios deslizando suaves pela minha pele enquanto ele fazia amor comigo.
Jacob caminhou, depressa, em direção a porta, mas, chegando lá, ele interrompeu os seus passos e se voltou para mim com um olhar sombrio no rosto.
— Adeus, Bella. Sua madrasta mandou lembranças.
Esme.
O fogo crepitava atrás de mim, se aproximando cada vez mais, enquanto Jacob deixava a casa às pressas, sem nenhuma lesão. Aquilo não parecia justo. Nada daquilo era justo. Eles eram os vilões, os bandidos. Por que coisas ruins aconteciam a pessoas que nunca haviam desejado o mal a ninguém?
Enquanto pensava nisso, lutando inutilmente contra a corda ao redor dos meus pulsos, os versos que Edward havia sublinhado em caneta preta no livro de Kerouac vieram a minha mente.
“Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.”
—------------------------------------------
POV Edward
Quase uma hora havia se passado. O taxista se desculpava sem jeito, com o aparelho celular na mão, alegando que o mau tempo havia impossibilitado a chegada do reboque.
— O senhor conhece essas terras? É quase impossível chegar a fazenda do Coronel com tanta lama e buracos na estrada! _ ele retrucou, na defensiva.
Um clique soou dentro da minha cabeça e eu senti minha boca apertar nos cantos. Henrietta, ao meu lado, endureceu a postura subitamente. Seus olhos tornaram-se distraídos e ela começou a tamborilar com os dedos na bolsa sobre o colo.
— Aguardar o reboque foi uma ideia sua _ eu concluí, sentindo os músculos do meu corpo retesarem, enquanto me inclinava para frente e via o taxista estremecer. _ O tempo já estava ruim antes de entrarmos no táxi. Por que disse, com tanta segurança, que a melhor solução seria aguardar o reboque se já sabia que a estrada estaria um lixo?
O motorista ficou mudo como se, de repente, o gato tivesse roubado sua língua. Do outro lado do carro, a porta se abriu bruscamente e Henrietta escapou para fora, tropeçando nos próprios pés e caindo de joelhos na lama.
— Desgraçados.
Eu saí atrás dela e, antes que a governanta e capacho leal do Coronel conseguisse se erguer, eu mesmo a levantei do chão pelo pulso.
Ela gemeu, com um olhar de pânico no rosto.
— Vocês armaram pra mim! Por que fizeram isso? O que o Coronel quer comigo?
— Ele quer você, Edward _ ela alegou, a respiração entrecortada enquanto tentava soltar o braço. _ Quer o neto querido dele de volta. Nós todos queremos. Você sempre foi tão bom menino, tão obediente... a cidade grande está mudando você.
— Sua maldita mentirosa!
— É verdade, Edward. Eu juro _ Henrietta assegurou, o cabelo desgrenhado pela chuva e o vestido sujo de lama. _ Agora me solte, está me machucando.
— Edward!
Eu olhei para trás e vi Dustin e Ethan se aproximando. Eles estavam posicionados para não permitir que eu escapasse dali. Tudo não havia passado de um jogo. O serviço que o Coronel havia destinado a eles na cidade... a partida de Henrietta... meu avô não deixaria que eu fosse embora facilmente.
— Tudo bem _ eu assenti, largando o braço da mulher que se desequilibrou, indo direto para o chão de novo. _ Vai ser do jeito difícil.
Ethan e Dustin me cercaram. O Gladiador franziu o cenho, me olhando diretamente nos olhos.
— Eu sinto muito, irmão. Ordens são ordens.
— Você se lembraria disso, se não tivesse virado para o time deles _ Dustin completou, cuspindo no chão, as mãos em punhos, pronto para a briga.
Para os garotos do Coronel, só havia dois times no mundo.
Eu, claramente, fazia parte da equipe rival agora. E, portanto, precisava ser colocado no meu lugar.
Fale com o autor