Two Broken Hearts
24 Ali e Jas
Notas iniciais
O Audi R8 prata de Jasper reduziu velocidade quando o sol começava a se apagar no horizonte. Observei pela janela o céu assumir uma entonação avermelhada, enquanto a enorme bola de fogo desaparecia atrás do oceano.
Na noite anterior, Jasper havia aparecido no meu apartamento com uma proposta inusitada. Ele havia deixado seus pais na casa de praia onde estavam passando o fim de semana e, agora, queria que eu voltasse para lá com ele.
Eu ainda não conhecia os pais de Jas, por isso, precisei controlar a onda de pânico que ameaçou tomar conta de mim. Afinal, o que eu sabia a respeito dos dois?
De acordo com o filho, Nathan e Ellie Hale praticavam golfe, tênis e bridge no Country Club de Nova York. Os dois frequentavam óperas, museus e vernissages, e gostavam de reunir os amigos para festas íntimas na casa do lago (essa eu conhecia!), na casa de praia e na propriedade de Aspen. Ambos eram católicos anglicanos não-praticantes e tinham uma outra filha, um ano mais velha que Jas, que estudava Medicina na universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Terminei aceitando o seu pedido. Afinal, se estávamos embarcando mesmo em um relacionamento sério, em algum momento eu teria que conhecer sua família. Certo?
Agora, lá estava eu, seguindo pela trilha de cascalho que dava acesso aos fundos da casa de praia dos Hale, onde ficava a garagem. E se a construção era imponente daquele ângulo, eu sentia um frio no estômago só de imaginar o interior.
_ Bem, chegamos _ Jas sorriu, abrindo a porta do carro para eu sair. _ Ou quase. Se importa se a gente entrar pelos fundos?
Eu balancei a cabeça, negando.
_ De quem são os outros carros?
A garagem dos Hale era um pouco menor do que o meu apartamento. Dentro dela, além do Audi de Jas, haviam outros três veículos. Na verdade, três outras supermáquinas recém- saídas de algum filme hollywoodiano futurista.
_ A Mercedes CLA branca é da minha mãe, o Mustang NFS Hero prata, do meu pai. E a BMW M3 vermelha é da minha irmã _ Jasper explicou, apontando uma a uma. Depois deu de ombros. _ Minha família gosta de carros.
_ Ah.
Entramos na casa pela porta da garagem e atravessamos a área de serviço e o corredor. Ele disse que seus pais preferiam dar a volta e entrar pela porta principal, mas pessoalmente achava bobagem. Entrar pela área de serviço poupava tempo. Ele devia ter razão, porque logo as paredes se alargaram e eu me vi dentro do "Palácio de Buckinghan".
Senhor! Aquilo não podia ser, de jeito nenhum, uma casa de praia!
Minhas pernas amoleceram feito gelatina.
_ Ei, algum problema? _ Jasper me olhou, preocupado.
_ Não... ahn, não é nada _ gaguejei, forçando um sorriso amarelo.
Como eu imaginava, a propriedade por dentro era ainda mais espetacular. A sala gigantesca em tons de branco, marfim e dourado remetia a era vitoriana, como Jasper me explicou, com mobiliário especial importado de vários países da Europa. Quadros pendurados pelas paredes, tapetes persas e um lustre luxuoso pendendo do teto arrematavam a decoração.
"Merda. Se a casa de praia é assim, imagina o lugar onde eles vivem o ano todo". Lembrei da casa do lago, onde Jas havia me pedido em namoro. A propriedade pertencera aos bisavós de Nathan, de acordo com o meu namorado, e havia um toque de simplicidade em tudo, apesar do bom gosto evidente em cada objeto. Era uma casa espaçosa e bonita, mas aconchegante.
A casa de praia não era assim. Não havia nada de simples ou aconchegante lá.
Jasper segurou minha mão dentro da sua. Ele parecia calmo e relaxado, mas eu podia sentir a tensão emanando do aperto firme dos seus dedos.
_ Bem, essa é a casa de praia dos Hale. O que achou?
Eu refleti por um segundo. Tentei me imaginar parte de um lugar com aquele. Eu... a filha de Jonathan e Stephenie Brandon, que fediam a cerveja e cigarro, assistiam tv o dia inteiro e se espancavam sempre que discordavam em relação ao controle remoto.
Senti meu coração murchar como um balão de gás.
_ É... grande.
Jasper soltou uma gargalhada e eu olhei para ele, sentindo uma pontada de mágoa e irritação.
Então, ele me surpreendeu, enlaçando meu corpo em um abraço caloroso e apertado.
_ Eu também não gosto, Ali _ Jas me prendeu em um olhar profundo e eu saboreei o momento como se fosse o último. Ele encostou o nariz no meu, seu hálito fazendo cócegas no meu rosto. _ Eu sabia que você era uma garota especial... estou apaixonado por você.
As palavras ficaram presas na minha garganta. Uma onda de emoção forte, quase esmagadora, me invadiu. Como fazer Jasper entender? Como fazê-lo compreender que eu não era boa o suficiente para ele?
Deitei a cabeça em seu ombro, sentindo um misto de felicidade e coração partido. O homem que eu amava estava apaixonado por mim, mas o que ele conhecia sobre o meu passado? Eu havia contado que Gwen e eu tínhamos deixado nossa casa e seguido para Nova York atrás de um sonho de independência. Mas sempre que as perguntas de Jasper eram direcionadas a minha família, infância ou qualquer parte obscura da história de Alice Brandon, eu fugia rapidamente do assunto.
Eu já gostava demais dele para deixá-lo correr assustado para longe dos meus problemas. Mas também sabia que não seria justo mentir. De todas as pessoas do mundo, Jas era aquela que menos merecia ser enganada.
_ Também estou apaixonada por você, Jas. Obrigada.
_ Obrigada? _ seu tom de voz era surpreso, embora eu não conseguisse ver sua expressão.
_ É, sabe? Por gostar de mim.
Senti um aperto delicado nos meus ombros. Jasper nos afastou o suficiente para que pudesse ver o meu rosto.
Então, a porta principal abriu e um casal de meia-idade entrou em trajes de banho.
_ Jas, querido! Você perdeu o passeio de veleiro com os Collins. Você imagina que seu pai... Oh, quem é essa menina?
Procurei desfazer minha expressão anterior e abri o melhor sorriso que pude.
_ Boa noite, senhora. Sou Alice Brandon.
Os Hale se aproximaram com sorrisos gentis. A mãe de Jasper não parecia ter mais de quarenta anos, embora eu soubesse que beirava os cinquenta. Seu marido era pelo menos dez anos mais velho. Eles haviam se casado após a morte da primeira esposa de Nathan, há vinte e dois anos. Ellie logo engravidou da primeira filha e, no ano seguinte, estava novamente grávida, agora de Jasper.
_ Pai, mãe. Essa é Alice, minha namorada.
Nathan e a esposa se entreolharam, sem disfarçar a surpresa.
Lancei um olhar de súplica a Jasper ao meu lado, mas ele apenas abriu um sorriso nervoso que dizia nitidamente “me desculpe por isso”. Eu continuei sorrindo com simpatia e aparente calma, fingindo que não estava me sentindo como um gnomo cor de rosa bem no meio da sala da casa do meu namorado.
Ótimo. Eu poderia matar Jasper depois por aquilo.
_ Nós não sabíamos que você estava namorando, meu filho _ Nathan justificou a reação de ambos. _ Nós conhecemos os seus pais, Evelyn?
_ É Alice _ eu corrigi, alargando tanto o meu sorriso que já estava começando a parecer uma caricatura do Coringa.Terrível, mas inevitável. _ Achei que Jas já tivesse conversado com vocês a respeito.
_ Não, não conversou _ Ellie negou, direcionando toda a sua atenção ao filho. _ Por que você não nos contou que estava namorando, Jas? E onde vocês se conheceram? Na faculdade?
_ Não _ o filho respondeu com um sorriso tenso. _ Mas Ali cursa Medicina, também em Columbia.
Se Jasper estava esperando por uma salva de palmas, deve ter ficado decepcionado. Seus pais permaneceram imóveis, olhares frios como gelo e sorrisos calculadamente educados, aguardando o restante da história.
O domingo estava rapidamente se transformando em um desastre e tudo o que eu desejava era sumir dali para sempre!
Jas suspirou, enfiando as mãos nos bolsos de trás da calça pálida de brim. Agora eu percebia o quão pouco havia me contado sobre sua família. E o quanto também havia falado para eles sobre mim.
Jasper e eu fugimos para a praia assim que conseguimos nos desvencilhar do interrogatório feito pelos seus pais. Os dois haviam atirado tantas perguntas sobre mim que eu ainda estava me sentindo tonta enquanto Jas e eu caminhávamos de mãos dadas pela areia.
_ Eu sinto muito por isso. Você deve estar me odiando agora.
Levantei os olhos na sua direção. Ao meu lado, ele era bem mais alto que eu. Seu cabelo louro se agitava pelo vento que soprava do oceano, ondas rebeldes teimando em cobrir seus lindos olhos verdes. Enfiado em uma camisa verde oliva da Lacoste, seu olhar estava sério, muito grave, como se procurasse descobrir na minha alma o tamanho do estrago causado.
Suspirei, aborrecida. Jasper parecia diretamente retirado das páginas de um conto de fadas. E o pior é que eu também estava me sentindo assim... mas diferentemente dele, eu estava regredindo, me transformando da Cinderela em uma estúpida Gata Borralheira.
Desisti de andar, soltei sua mão e me sentei na orla. Passava das 20h. O mar e o céu estavam igualmente escuros, formando uma bela composição. Era difícil controlar minha irritação naquele momento, assim como estava se tornando cada vez mais difícil controlar qualquer tipo de sentimento em relação a Jasper Hale.
Ele se sentou ao meu lado e pelo seu suspiro, percebi o quanto estava chateado.
_ Me desculpe, Ali. Eu fui um idiota! Achei que, trazendo você aqui sem contar a eles, os dois teriam a chance de perceber a pessoa maravilhosa que você é antes de começarem a julgar.
_ Você estava errado.
_ Eu sei. E eu sinto muito, de verdade. Se eu soubesse que colocaria você nessa situação... eu não quero perder você _ ele estendeu a mão para tocar o meu ombro, mas eu me esquivei. _ Por favor, Ali. Não faz isso comigo! É a primeira vez na vida que eu me apaixono por alguém e está tudo tão... difícil.
_ Então desista _ eu disse, seca.
_ Não!
_ Jas, me escuta. Nós somos pessoas muito diferentes... água Perrier e vinho barato _ soltei uma risada sem humor. _ Não se misturam. Seus pais não vão me aceitar nunca! Provavelmente, a Sra Jasper Hale está esperando para ser descoberta enquanto passeia pela cidade em seu Porsche vermelho fazendo compras na Bloomingdales! A gente pode continuar fingindo, pode continuar se enganando... mas essa não sou eu, Jas.
_ Ali, eu sei que essa não é você _ ele segurou meu queixo com a ponta dos dedos. Pressionei os lábios um contra o outro com força, mas meu maxilar tremia e, em breve, eu estaria desabando. _ Eu não estou procurando a droga de uma boneca plastificada para ser minha mulher. A mulher da minha vida, a mãe dos meus filhos, não precisa de um carro ou de uma bolsa de grife. Ela tem que ser doce e carinhosa... sincera e ter um gênio difícil. E ela precisa ter o sorriso mais lindo que Deus já colocou no mundo.
Ele abaixou o queixo e, de repente, estávamos nos olhando direto nos olhos. Então eu fiz o impensável. Me atirei nos seus braços e o beijei da forma mais honesta e apaixonada que uma mulher poderia fazer em relação a um homem.
Jas correspondeu, me abraçando como se quisesse reter o momento para sempre.
Quando nos separamos, meu coração ainda palpitava e uma centelha de esperança reluzia em seus olhos.
_ Ali, eu já estou amando você. Não pode ser nenhuma outra.
Eu sorri, secando uma lágrima solitária com as costas da mão.
_ Estou começando a acreditar que Nova York tinha planos quando me trouxe para cá.
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