Twisted Life

8 Esperanças e sonhos


O próximo lugar onde os dois amigos vão é um parque local, conhecido por suas arvores majestosas e o cuidado sob o local por parte da população. Se passaram alguns minutos desde que saíram da pista de boliche e foram direto para o parque, localizado por ali naquela região.

Chegando no parque, o contraste entre o cheiro urbano da cidade e o aroma natural e doce das plantas e árvores do parque fazem tanto Vincent quanto Yusei sentirem-se relaxados e mais à vontade.

"Uwah! Que fresco!" Diz Yusei, olhando para o céu com uma expressão satisfeita.

"Tá vendo aquela pedra lá em cima?" Aponta Vincent, para uma colina ao fundo do local.

Yusei concorda com a cabeça de maneira animada, e Vincent completa:

"Vamos andar até lá. Aproveitar! Eu acho..."

"Certo, claro. Vamos! Vamos aproveitar esse oxigênio puro enquanto podemos!" Termina Yusei dando uma risadinha, enquanto começa a andar na frente de Vincent. O rapaz o segue, e os dois fazem uma caminhada de alguns minutos até a subida daquele local mais elevado do parque.

Enquanto caminham pela subida lentamente, Yusei, na frente de Vincent, para por um instante e olha para o mesmo, fazendo Vincent parar também assim que nota, e pergunta ao garoto:

"Aí, nunca te perguntei, mas... Tu não é daqui, de Quioto, né? Digo, não por você não parecer japonês. Seu sotaque é diferente." Diz Yusei, continuando a andar.

Vincent dá uma risadinha e coça atrás de sua cabeça com o dedo indicador, enquanto volta a andar também, e responde:

"Você percebeu? Haha... Mas sim. Não sou daqui. Sou de Tóquio."

Yusei faz um gemido de surpresa, e responde à Vincent, que apressa o passo levemente e se aproxima do rapaz:

"De Tóquio? Que surpresa! Você é a primeira pessoa de Tóquio que eu conheço."

O garoto fica um pouco sem jeito com a resposta de Yusei, e dá uma risadinha, e por alguns segundos o silêncio toma conta do espaço entre os dois enquanto a brisa fica mais intensa e refrescante.

"Mas, por que você saiu de lá? Achei que as condições fossem melhores, de certa forma, caso eu esteja mentindo." Diz Yusei, falando um pouco mais sério, com um tom de curiosidade.

A mente de Vincent gela por um instante, procurando uma resposta segura e não muito reveladora, e começa a sentir-se nervoso.

"É... uma longa história. Meio entediante... nem lembro direito dos detalhes."

Rapidamente Yusei dá um soco de brincadeira no ombro de Vincent, e incentivando-o, ele diz:

"Qual é! Pode falar. Não vou te julgar! Promessa de dedinho!" Diz o jovem, estendendo sua mão esquerda até Vincent com o dedo mindinho apontando para o mesmo.

Vincent fica levemente assustado, predominantemente surpreso com a rápida resposta de Yusei, e fica sem palavras, encarando Yusei com olhos arregalados. Rapidamente Vincent volta ao normal, e murmura:

"Parece que não dá pra escapar. Não sei nem por onde começar..."

Mas, antes de começar a falar novamente, os dois rapazes percebem que chegaram ao topo. O sol brilha forte subindo pelo horizonte e a brisa está intensa e fresca. Os dois ficam sem palavras com o ambiente e apenas encaram a paisagem.

Voltando para a realidade, Vincent e Yusei andam lentamente até uma pedra larga e plana o suficiente ali na frente e se sentam um ao lado do outro, e enquanto aproveitam a paisagem sem dizer nada, Vincent começa de novo:

"Eu vivi em Tóquio até o auge dos meus 14 anos... Vivo aqui só por 2 anos. Mas tem sinto como se tivesse sido toda uma vida."

Yusei, deixando de prestar atenção na paisagem e vira sua cabeça para Vincent, escutando-o quietamente.

"Minha mãe também era enfermeira, lá em Tóquio... E eu estudava numa das melhores escolas que tinham. Ela sempre quis me proporcionar o melhor, hah..."

"Eu tinha vários amigos. Muitos mesmo... Da minha turma, de outras turmas. Eu tinha uma namorada que me amava muito... E eu também amava ela, é claro. Minha vida era ótima, o contraste é forte comparado a hoje em dia." Completa Vincent, respirando fundo, acessando as mais obscuras memórias de seu passado uma vez esquecido enquanto Yusei escutava atentamente.

"Eu era até um pouco popular, de certa forma. Quer dizer, eu era conhecido. Aquela sensação... Era muito boa."

O rapaz se cala por um segundo, fechando os olhos e inalando o ar antes de voltar a dizer.

"Soa bastante clichê, olhando hoje em dia... Mas, houve o fatídico dia onde tudo mudou diante dos meus olhos." Continua Vincent.

"A parte acadêmica da escola sempre foi um problema pra mim, sempre fui um aluno meia-boca... Mas aquele era o menor dos problemas."

"As pessoas... O espaço... tudo mudou do dia pra noite e eu não percebi, fiquei atrasado."

"E esse atraso foi oque me condenou. Comportamentos uma vez respeitados se tornaram inapropriados, e as pessoas começaram a se afastar de mim gradualmente, e eu não entendia o porquê."

"E acredite, eu tentei mudar para me encaixar novamente. Tentei e tentei, mas era tudo inútil. Começaram a vir boatos, brincadeiras de mal gosto e inimagináveis coisas... Em praticamente 2 meses, minha vida se tornou um inferno naquela época."

"Os amigos que eu tinha, que eu tanto confiava, passei a desconfiar e os mesmos revelaram-se nem ligar pra mim o tanto que eu achava que se importavam. Minha namorada eventualmente terminou comigo pelo meu estado deplorável da época... E eu não a culpo. Ela estava lá em cima na hierarquia daquela escola... e ser namorada de um zé ninguém que até sofria bullying não faria bem para a reputação dela."

"Mas enfim. Naquela época, eu fiquei sozinho e despedaçado. Não é atoa que por aqueles meses eu precisei visitar ao psiquiatra, e eventualmente minha mãe achou melhor que nos mudássemos para Quioto."

"Quando eu saí de Tóquio... Eu tinha morrido. E renasci assim que pisei em Quioto. Sou quem você vê agora." Termina Vincent.

Vincent então vira sua cabeça para Yusei, e o mesmo está de boca aberta, sem reação e claramente tocado ao ouvir a história de Vincent. Da expressão melancólica e nostálgica que havia tomado a face de Vincent, tornou-se em uma leve preocupação e nervosismo, e diz:

"E-Ei! Tá tudo bem...? Devia ter ficado quieto..."

Yusei volta a realidade, e chacoalha a cabeça para os lados rapidamente, e diz:

"Não, não! Tá tudo bem... É só que... Nossa. Eu estou chocado."

"Eu diria "Eu sinto muito"... Mas eu nem tenho esse direito."

Vincent dá uma risadinha ao perceber que Yusei está bem, e apoia os dois braços para trás, deixando a brisa bater em seu corpo mais livremente, e diz:

"Por que diz isso?"

Yusei então se inclina levemente na direção de Vincent, e diz:

"Bom, é que a minha vida sempre foi muito fácil. Não que eu esteja falando isso pra te dar inveja ou nada disso, de verdade."

"Não, tá tudo bem... Eu não dou importância pra inveja mais." Diz Vincent.

"Eu sempre fui popular... Entre todo mundo, principalmente com as garotas e também tinha muitos amigos. Sempre fui um bom aluno e nunca passei por dificuldades, muito menos financeira."

"Meus pais são donos de uma empresa multimilionária, e sempre me deram tudo que eu quisesse, mas pra não acabarem me transformando num mimado qualquer, eu tinha que me esforçar pra me darem oque eu queria, por isso eu sempre tirava notas boas."

Vincent, de maneira relaxada e mais à vontade, diz, enquanto ajusta seu cabelo, mesmo com a ventania:

"Que legal, cara, de verdade."

Vincent viria a dizer algo, complementando sua fala, mas Yusei o interrompe e diz:

"Mas bom, pelo menos você se livrou dos otários que te estressavam lá em Tóquio, né?"

Vincent dá uma respirada, e inclinando sua cabeça para o lado, ele diz:

"É... Sim. Mas não fiquei em paz aqui não."

"Eu tinha só um amigo na escola que eu frequentava, e ele nem era meu amigo de verdade, só era o mais próximo do que eu poderia chamar de um "amigo"."

"Eu sofria um pouco de bullying e por aí, mas não é nada que eu já não tivesse passado."

"Cacete, que merda, cara." Diz Yusei, colocando sua mão contra sua cabeça e franzindo as sobrancelhas.

Mudando totalmente de atitude, Yusei, se inclina para Vincent novamente e fecha seu punho, e fazendo uma expressão raivosa, diz:

"Vou achar esses caras e dar um sarrafo neles!"

Vincent solta uma risada sincera, e nega, dizendo:

"Haha! Não precisa, de verdade. Seria épico... Mas se eu não precisar mais ver eles, por mim já tá perfeito."

O silêncio se alastra por um instante entre os dois, e Vincent então diz, tentando mudar a direção da conversa:

"Mas, mudando de assunto... Eu estava curioso com um negócio. Teu cabelo é naturalmente assim ou é pintado?"

Yusei faz um leve sorriso enquanto passa a mão entre os fios de seus cabelos, e responde:

"Isso? É uma historia da época da escola... Acho que eu tinha uns 13 anos."

"Era época de um evento, e eu precisava me vestir de um personagem aí, que eu até esqueci quem era, mas ele tinha cabelo laranja, bem, bem claro."

"Me sugeriram que eu usasse uma peruca, mas eu sempre fui de entregar tudo o que eu podia, sabe? E acabei pintando o cabelo. Acabaram gostando, e eu gostei também. Acabou que eu continuei pintando e ficou por assim." Termina Yusei.

"Daora! Seu cabelo fica legal desse jeito, eu acho, pelo menos. É sua marca." Diz Vincent, dando um soco de brincadeira igual Yusei faz com ele, imitando-o.

Yusei ri e agradece, mas antes de que pudesse falar algo, seu celular vibra em seu bolso esquerdo, e o mesmo se move e pega o aparelho, aparentemente incomodado.

"Kaori? O que diabos ela quer uma hora dessas?"

Vincent observa atentamente, sem falar nada assim que Yusei atende a ligação e coloca o celular contra sua orelha.

"Eaí, minha consagrada! O que te traz a me ligar?" Diz Yusei, mudando completamente de entonação e atitude.

Ele fica quieto por uns segundos, escutando e garota falar do outro lado da linha, Vincent consegue apenas escutar ruídos agudos da voz de Kaori e espera pacientemente.

"É serio? A Akiko não poderia fazer isso pra você não, hein? Tô um pouco ocupado agora."

"Ahhh. Tá bom, tá bom. Tô aí em alguns minutos."

Yusei afasta o celular de sua orelha e termina a ligação, e olha para Vincent com uma expressão de incômodo, e diz para o jovem:

"Foi mal aí cara, vou ter que atrasar nossa próxima programação por alguns minutos, a Kaori precisa que eu vá falar com ela num salão aí que ela tá."

"Tudo bem, tudo bem. Eu tenho o dia todo... e a semana também. Vamos lá, eu te acompanho."

Os dois então se levantam da rocha que estavam sentados, e refazem todo o caminho da subida, porém dessa vez descendo e saindo do parque, caminhando até a localização de Kaori. Durante a caminhada, Vincent reflete sobre sua conversa com Yusei, e, pensando sobre isso depois, uma semente é plantada na mente de Vincent. Uma pequena sementinha, que cresce a cada segundo. Uma sensação confortante e realizadora. Que deixa o garoto genuinamente feliz, como nunca havia se sentido em anos.


Vincent agora espera do lado de fora do salão. Um salão de beleza de excelente qualidade. Fazem mais de 10 minutos desde que Yusei entrou no salão e até agora não saiu. Vincent desistiu de ficar apenas esperando e puxa seu telefone e procura algo para fazer.

Zero notificações.

Mas, mesmo assim, ele abre suas redes sociais, uma por uma, mas não há nada de interessante acontecendo, e Vincent só descansa a cabeça na parede do lado de fora do salão, e fecha seus olhos.

Alguns minutos depois, ele houve alguém saindo do salão e abre seus olhos quase imediatamente. Ao seus olhos encontrarem Yusei no seu campo de visão, uma sensação de conforto toma conta de Vincent, e o garoto diz:

"Demorou, hein. O que ela queria?"

"Veio me pedir conselho amoroso, acredita?" Diz Yusei, fazendo bico e franzindo as sobrancelhas.

"Ela vai sair com um garoto da universidade dela, e veio me pedir conselho." Termina Yusei.

Vincent sente-se genuinamente surpreso, e responde:

"Eu achava que ela seria daquelas com muita experiência nesses negócios de relacionamentos..."

"É por causa da atitude dela. Mas ela quase não sai com cara nenhum. Imagina uma garota com tipo difícil, é ela." Diz Yusei, colocando sua mão esquerda na cintura.

"Credo..." Murmura Vincent.

Yusei, dando um passo a frente, e se preparando para ultrapassar Vincent e dar continuidade à programação dos dois, diz:

"Mas enfim, vamos retornar à nossa programação..."

Mas, no mesmo instante que Yusei termina de falar, novamente, seu celular vibra. Yusei grunhi com raiva, e diz:

"Que... merda! Não dá nem pra sair com os amigos hoje em dia..."

Mas, assim que Yusei pega o telefone e olha para a tela, sua expressão de raiva se torna neutra, encarando a tela. Mas no mesmo instante, Yusei atende a ligação e coloca o telefone contra o ouvido, e diz em tom de incômodo:

"Oque você quer, velhote? Tô no meio de uma coisa muito importante."

Vincent encara a situação com surpresa e neutralidade, como se fosse algo natural, e apenas assiste, esperando o resultado.

Yusei ouve a pessoa do outro lado da linha dizer enquanto anda lentamente para a frente, ultrapassando Vincent, que o segue com os olhos.

"Sim, eu ouvi. Me dá 30 minutos que eu estou aí."

Yusei então afasta o aparelho e termina a ligação, e olha para Vincent com uma expressão de arrependimento. E Vincent entende no mesmo instante, a felicidade que havia conquistado, começa a gradualmente desaparecer novamente.

"Eu preciso ir, Vin. Foi mal, de verdade. É urgente."

Vincent concorda com a cabeça, e diz:

"Tá... tudo bem. Pode ir. A gente pode marcar outra hora."

Yusei continua a olhar para Vincent com arrependimento, e diz, preparando-se para se virar e ir embora:

"Certo, certo... Então eu vou indo... Valeu pelo tempo, cara! Eu te ligo, ou algo assim."

Mas, antes do jovem começar a se afastar, Vincent grita:

"Yusei! Calma aí.."

Yusei se vira e o olha com atenção, enquanto Vincent se aproxima lentamente, ficando apenas com alguns metros de distância de Yusei.

"Eu andei refletindo enquanto caminhamos para cá... E, bom... Como eu posso dizer isso?"

"Sinto que você é a única pessoa que posso chamar de amigo desde muitos e muitos anos."

"Então... Obrigado, por hoje. Eu acho."

Vincent, hesitantemente e bastante nervoso e ansioso, ele estende a mão aberta para Yusei, enquanto o mesmo o encara atenciosamente, por outro lado, Vincent não consegue manter o contato visual e apenas permanece naquela posição.

Até que, dando um passo e se aproximando o suficiente, Yusei joga sua palma aberta na direção da de Vincent com força e o impacto faz um barulho alto. E assim que suas mãos se conectam, Yusei segura a mão de Vincent com força e o puxa para perto, abraçando-o com o outro braço, fazendo o rapaz ficar muito surpreso e ficar sem palavras, tentando processar a situação.

"Não precisa agradecer." Diz Yusei, perto do ouvido de Vincent.

Afastando-se do garoto, Yusei dá alguns passos para trás com um sorriso no rosto, enquanto Vincent o encara de boca aberta, ainda chocado com momento passado.

"Eu te ligo depois! Ou mando mensagem, tanto faz! Até mais, Vin! Qualquer coisa me liga!" Diz Yusei, antes de se virar e apressar o passo na direção da rua que estava andando até.

Vincent permanece lá, ainda processando a situação. Pode parecer bobo para outros, mas é um momento de choque para o garoto. Um momento de realização. Um momento de mudança. Um momento de crescimento. Cada vez mais, um futuro não tão distante se aproxima do garoto, um futuro que vai mudar tanto sua vida, quanto de todos os outros que estão ao seu redor.