No dia seguinte, me despedi das duas dando um abraço de urso em cada uma delas e agradecendo pelo final de noite que salvara todo o resto do dia.
Confesso que dormi durante todo o vôo, acordei com os tapinhas suaves da aeromoça tentando me despertar para avisar que aterrissamos. Apenas mais um momento vergonhoso para adicionar a lista de momentos embaraçosos de Susana Pevensie, nada fora do normal. Desembarquei indo em direção à esteira, cogitando em abandonar a bagagem na lixeira mais próxima, o que não fiz por pura preguiça. Segui ate as portas do aeroporto onde, para minha surpresa, minha mãe já me esperava com o maior sorriso que conseguia. Corri em sua direção abraçando-a fortemente.
Dizem que o abraço de mãe cura qualquer ferida e naquele momento não pude discordar, era reconfortante poder sentir seus braços ao meu redor novamente. Podia sentir os últimos resquícios de angústia e cansaço indo embora.
— Ah meu amor! – disse me abraçando – Conte-me tudo! Ele gostou da surpresa?
— Nós terminamos. – disse vendo seu sorriso se desfazer em poucos segundos, contei à ela tudo que acontecera omitindo apenas a parte que encontrara Caspian, enquanto caminhavamos em direção ao café próximo ao aeroporto.
— Eu sempre te disse que aquele menino não prestava! Eu conseguia ver o olho junto daquela criatura de longe, mal caráter! Eu avisei que não era boa coisa, mas você não me escuta! – De fato, ela não aprovara nosso namoro no início, meu pai falava que era apenas implicância por ela achar que eu estava crescendo rápido demais, mas no fim ela estava certa. Como sempre.
— Tudo bem, tudo bem! Não adianta chutar cachorro morto! – disse mexendo o canudo do milkshake – cadê?
— Cadê o quê? – perguntou dissimulada
— As cartas, foi por isso que você veio. – disse sorrindo – Não aguentou mais esperar e veio me encontrar aqui. Eu conheço você, dona Amélia!
— Tá bom!– disse tirando as cartas da bolsa – Está pronta? – assenti.
Haviam três cartas de admissão para o curso de arquitetura nas melhores faculdades do país. Dividimos as cartas, sendo que a última abriríamos juntas. Abri a primeira pulando todo o texto formal e indo direto para informação que realmente importava
— E ai? – acenei negativamente e ela começou a abrir o envelope da segunda carta. Passou o olho rapidamente pelo papel, adiquirindo uma expressão pesarosa. Eu já sabia o resultado.
E por fim, a última carta. Sentei-me ao seu lado com o nervosismo tomando conta de meu corpo. Era minha última carta. Era minha última chance esse ano.
Rasgamos, cada uma, um lado do envelope. Ela cedeu a chance de ler a carta, entregando-me o papel com um pequeno sorriso. Comecei a ler as primeiras frases em voz alta, até que minha voz sumira completamente. Eu havia sido aprovada e eu não conseguia acreditar. Fiquei encarando o papel embasbacada por no mínimo um minuto enquanto minha mãe tentava me trazer de volta a terra estalando os dedos em minha frente.
— Susana! Susana o que a carta está dizendo? Susana!
— Eu passei – sussurrei em descrença
— O que?
— Eu passei – disse desviando os olhos do papel e a encarando – Eu passei! – gritei abraçando-a o mais forte que pude. Eu mal conseguia acreditar! Ao que aparentava, minha sorte finalmente estava mudando.

2010

— Vou estar em casa a tempo do filme, Lú! Não se preocupe, eu só preciso deixar esse trabalho com Eustáquio e estou indo! Não comece sem mim! – gritei a última parte mas ela já havia desligado na minha cara.
Eu tentava segurar a mochila, o celular , um copo de café e o amontoado de folhas que eram para ser meu trabalho e não estava conseguindo me virar muito bem até agora.
Para melhorar a situação, um vento forte batera em minha direção levando algumas das folhas soltas a se espalharem pela rua. O universo novamente conspirava contra mim, nada de novo. Me esforçava para correr atrás das folhas tentando não derrubar mais nada e já havia recuperado a maioria, quando um par de mãos me oferecera o restante de meu trabalho que poucos momentos antes estavam do outro lado da rua.
— Muito obrigada! – levantei a cabeça para agradecer e me surpreendi ao ver quem era
— Não tem de quê! – de todos que eu poderia imaginar o menos provável estava parado em minha frente. Caspian estava em pé olhando-me com um pequeno sorriso e, nossa! Como ele havia mudado em tão pouco tempo! Seu corte de cabelo estava diferente, suas mechas estavam menores e a barba por fazer, deixando seu rosto com aparência um pouco mais velha do que deveria. Os músculos haviam crescido um pouco desde a última vez que nos vimos, delineados pela camisa preta e pela jaqueta jeans – Vejo que continua com sua mare de azar! – brincou dando uma leve risada
— Acho que ela realmente gostou de mim!– dei um meio sorriso, pude perceber que o mesmo me analisava da mesma forma e por breves segundos fiquei sem fala– Mas o que faz por aqui?
— Estava indo para casa, moro em um prédio aqui perto. E você? – perguntou dando um breve sorriso
— Indo entregar um trabalho para meu amigo. Trabalhos em grupo raramente dão certo – levantei o amontoado de folhas com uma careta em meu rosto.
— Quer companhia? – perguntou cordialmente – É meio perigoso andar sozinha por aqui a noite. – disse e lembrei do que ocorrera quando sai do apartamento de Corin há alguns anos atrás, por sorte não fora um assalto de verdade mas sempre era bom prevenir.
— Não precisa, é logo ali. – disse e me amaldiçoei por dentro – Mas... Se você não tiver nada melhor para fazer...– continuei dando um meio sorriso Mas que diabos eu estava fazendo? Eu realmente parecia gostar de sofrer!
— Parece que vai ter que me aturar por alguns minutos, então. – disse piscando e fazendo meu coração palpitar por meio segundo. A verdade é que não havia me esquecido de nosso encontro. Pensar em que em todo esse tempo, eu não arara de pensar nele e que ainda sentia algo fazia com que me sentisse totalmente estúpida. Todo esse tempo pensei no momento em que esbarraria com ele na rua e vinha tentando me preparar para parecer o mais natural possível, até que tal momento chegara. E bom, não tinha nada a ver como eu pemsara que seria – Mas então, o que te traz novamente à Nova York? – disse tirando a mochila de minhas e apoiando nas suas. Tentei protestar, mas não adiantara. – Não vou ter que quebrar outra janela, certo? – sorriu.
— Sem mais delitos, por favor! – gargalhou, realmente tinha sentido falta daquela risada – Estou fazendo faculdade de arquitetura, me mudei já tem um tempo. Na verdade, vão fazer cinco anos mês que vem. Estou morando com Lúcia, numa casinha aqui por perto. Até hoje não consigo decorar o nome do bairro. – disse enquanto apontava na direção de onde morava . Me mudara um mês depois de receber a carta de admissão, fora uma tremenda correria no começo para achar um lugar para morar, até que Lúcia oferecera o quarto vago da casa dela. Era uma pequena vizinhança muito pacata, morar com ela era praticamente um sonho realizado já que a mesma era minha amiga desde o ensino fundamental e sempre fomos muito grudadas – E sua vida, como está? – virei para encara-lo
— Bem, tudo na mesma para ser sincero. – disse chutando uma pedra – Na verdade, fui promovido e agora cuido da parte administrativa do bar, a faculdade ajudou bastante com isso. Adotei um cachorro e ele praticamente destruiu toda minha mobília mas fora a isso. – soltou uma leve risada
— Preciso parar para esperar aqui – disse apontando para um parquinho o que fez ele me encarar – Ele está voltando da casa de uma amiga minha e aqui é caminho. – expliquei dando de ombros
— Aqui? – perguntou – Em um parquinho?
— Não reclamou quando paramos naquele parquinho daquela vez – arqueei as sobrancelhas em um tom divertido sentando na base da casinha de madeira e ele fez o mesmo
— Na verdade, eu tenho pensado muito naquele dia e eu..– sei que não deveria mas eu o cortei, fora um ótimo dia mas não queria lembrar da última parte. Era deprimente
— E... Como está sua namorada? – perguntei tentando soar naturalmente
— Eu não... – mas ele não conseguiu terminar sua sentença. Eustáquio gritara meu nome do outro lado da rua, fazendo com que eu voltasse minha atenção para ele.
— Preciso ir! Foi bom te ver – disse dando um pequeno sorriso
— Foi bom ver você também! – disse e eu pude sentir uma pontada de frustração em sua voz. O abracei, demorando um pouco mais do que esperava, apenas tentando gravar aquele momento em minha memória. Separei-me dele o mais rápido que consegui, indo em direção a Eustáquio entregando o trabalho.
— Quer carona? – disse pela janela do carro
— E você ainda pergunta? – perguntei soltando uma risada, abrindo a porta do carro e antes de entrar olhei uma última vez para Caspian que ainda estava sentado e acenou quando reparou que eu o encarava.
— Quem era o bonitão? – disse manobrando o carro – peguete novo?
— Amigo de infância – disse escorando a cabeça no vidro
— Ah, aquele que se mudou e você ficou arrasada, ai você encontrou ele há algum tempo e quase realizou seu sonho mas descobriu que ele tinha namorada? – perguntou voltando para me encarar
— Eu preciso parar de contar as coisas para Jill – bufei. Conheci Jill na faculdade junto com Eustáquio. Os dois namoravam e estavam cursando arquitetura junto comigo, Jill se tornara minha confidente em poucas semanas, mas tinha um pequeno defeito: Ela não conseguia não contar as coisas para Eustáquio.
— Não tem nada demais nisso, – ele disse – só porque ele quebrou seu coração duas vezes involuntariamente...
— Já disse como você é ótimo consolando pessoas? – o cortei – Não faz diferença, somos só amigos que se encontram sem querer de vez em quando. Não sinto mais nada por ele. – disse e ele riu – Na verdade, não temos contato desde aquela vez.
— Aham, e eu sou o Batman. – disse rindo – Tá estampado na sua cara desde que você chegou na faculdade.
— Não está não! – quase gritei indignada
— Então por que você descarta qualquer garoto que tenta chegar perto de você sem nem mesmo dar uma chance para eles? – respondeu no mesmo tom
— Primeiro, o único cara que tentou se aproximar foi Rabbadash e ele foi extremamente grosseiro! – falei encarando-o – Segundo, você já parou para pensar que talvez eu só esteja tentando focar nos meus estudos?
— Então por que você fala nele sempre que tem a oportunidade? – falou com tom vitorioso enquanto estacionava o carro
— Eu... Ah, vai pro inferno, Estaquio! – disse saindo do carro batendo a porta com o máximo de força que tinha deixando-o gargalhando dentro do carro.
Entrei em casa bufando e batendo a porta com a mesma intensidade que fechei a porta do carro, assustando Lúcia que cochilava no sofá. Eustáquio sabia ser irritante quando queria, como ele tinha a audácia de jogar aquilo na minha cara? Tudo bem, ele não estava completamente errado. Sempre que podia dava um jeito de trazer meu amigo de infância para a conversa, mas nada mais do que ele falara era verdade, me fazendo perder a paciência. Ao ouvir o baque forte da porta a mesma caiu do sofá me encarando assustada
— A porta não tem culpa de nada! – disse massageando a bunda com cara de dor, me fazendo soltar uma pequena gargalhada – Cadê o chocolate? – ela havia comprado a pizza e eu fiquei incumbida de comprar duas Barras de chocolate para noite de filmes que fazíamos toda sexta.
— Está dentro da minha mochila. – disse distraidamente, quando me dei conta que minha mochila havia ficado com Caspian. – Droga! Minha mochila ficou com ele! – disse, todo o meu material estava dentro da mochila
— Eustáquio?
— Não, Caspian.
— Espera, encontrou com ele? – perguntou levantando e eu assenti – Ligue para ele e peça de volta.
— Funcionaria se eu tivesse o telefone dele. Ou com meu telefone aqui. – disse desabando na cadeira com a cabeça entre as mãos.
— Não pensa nisso agora, o filme vai começar. A gente pensa numa solução depois! – disse me puxando.
Eu tinha perdido toda a animação para ver o filme o tal filme. Me repreendia mentalmente por ter sido tão descuidada a ponto de esquecer a mochila com ele. Era praticamente um beco sem saída já que não tinha o telefone dele e nenhuma outra forma de contatá-lo, pensei em voltar até o parquinho e ver se ele ainda estava lá mas essa ideia fora descartada quando ouvi o barulho de um trovão do lado de fora. Havia começado a chover muito forte alguns minutos atrás e ele provavelmente já tinha ido para casa muito antes disso
— Ela não pode ser tão burra a ponto de entrar ali dentro! – Lúcia falava indignada sobre a cena do filme de terror que estava tão ansiosa para ver – Puta merda, ela entrou! É muito burra, puta que pariu! – ela se indignação cada vez mais quando a protagonista entrou no galpão abandonado seguindo o barulho que ouvira – Tá atrás de você, cara! Olha para trás! – continuava conversando com a tv, tentando alertar Emma que o assassino estava bem atrás da mesma.
Alguém batera na porta fazendo com que ela pulasse do sofá e eu soltasse uma risadinha. O problema era que Lúcia adorava filmes de terror mas ao mesmo tempo morria de medos deles. Ela ameaçou levantar para atender a porta mas eu a impedi, afinal ela estava muito mais interessada no filme do que eu. Levantei preguiçosamente indo em direção a porta. Fiquei sem reação quando me deparei com Caspian totalmente encharcado na varanda segurando minha mochila
— Oi – ele disse – você esqueceu isso. – disse me entregando a minha mochila, que estava enrolada em seu casaco preto, completamente seca.
— Como chegou aqui? – perguntei ainda um pouco incrédula e com uma pontinha de pena. Ele estava completamente molhado, correndo o risco de ficar doente – Como achou minha casa?
— Não foi muito fácil, tive que bater de porta em porta perguntando por voce, ate que sua vizinha me disse que morava aqui. – disse olhando para a rua e apontando para casa de dona Deise, que era nossa vizinha da frente – Ela é uma senhora muito simpática – sorriu
— Veio até aqui só para devolver minha mochila? – perguntei e ele assentiu – Eu nem sei como te agradecer! Obrigada mesmo, todo o meu material está aqui dentro. – disse. Um silêncio embaraçoso se formou depois daquilo. Nós nos encaravamos sem desviar o olhar um do outro, eu queria dizer tudo que sentia, mesmo que ele já tivesse alguém. Eu só queria tirar aquilo do meu peito de uma vez por todas.
— Bom, está entregue! – sorriu e devolvi seu casaco – Acho que vou indo, foi bom te ver. De novo! – disse virando as costas. Fiz menção em fechar a porta quando sua voz me impediu – Na verdade, não vim só por isso. – ele estava parado no meio da chuva quando virou de volta – Não tenho uma namorada! – soltou um riso nervoso – terminamos uma semana antes que eu te encontrasse naquele dia. Eu tentei falar, mas você saiu correndo e não deixou nenhum meio de eu te encontrar. Tentei ligar para seu número antigo e caiu em um restaurante mexicano, deduzi que tinham trocado – disse e eu me aproximei do final da varanda – Esse tempo todo não consegui parar de pensar em você e foi um inferno! Na verdade, nunca esqueci o que senti por você e nunca voltei a sentir o mesmo por ninguém, sempre foi você! Eu imaginava como você estaria, o que teria mudado e se seus olhos continuariam com o mesmo brilho travesso quando você pensava em fazer alguma coisa errada, se você ainda votaria se recebesse algum elogio e se ainda olharia para mim como se eu continuasse sendo seu melhor amigo. Até eu te ver hoje de novo e ter esperanças de poder finalmente te beijar porque naquele dia tudo conspirou contra mim. Ate você me perguntar sobre meu suposto namoro e entrar no carro de um cara aleatório não me deixando explicar de novo, então não, eu não tenho namorada – disse olhando dentro dos meus olhos – mas gostaria de ter. – disse me puxando para seus braços e acabando com a distância entre nós, me beijando apaixonadamente.
Depois de todo esse tempo imaginando como seria se o vigia não tivesse aparecido naquela hora, ou se o celular não tivesse tocado, eu finalmente pude descobrir como seria beija-lo e era muito melhor do que eu pensava. O beijo começara calmo, minhas mãos automaticamente indo em direção à sua nuca e se embrenhando em seus cabelos negros, uma de suas mãos seguravam minha cintura enquanto a outra estava apoiada em minhas costas, segurando meu corpo perto do seu, a chuva dançava entre nós dois fazendo com que a cena parecesse ter saido de uma comedia romantica hollywoodiana. Cortei o beijo com um suspiro e apoiando minha testa na sua, sorri pensando no que acabara de acontecer e ele sorriu de volta. Aquilo fora totalmente diferente de qualquer outro beijo, com qualquer outra pessoa. Simplesmente parecia certo, éramos as duas metades de um inteiro.
— Acho importante deixar claro que também estou solteira – disse e ele riu – e também gostaria de não estar. – falei com a respiração ainda descompassada voltando a beija-lo, dessa vez com um pouco mais de intensidade. Acho que aquela foi a resposta que ele esperava, pois quando cortamos o beijo novamente ele me abraçou forte.
— Sabe, isso tá muito melhor do que o filme! – uma voz suave veio de trás de nós chamando nossa atenção. Lúcia estava parada na varanda com um balde de pipoca em mãos e um sorriso brincalhão no rosto – Por que vocês não entram e evitam pegar uma pneumonia? – disse virando-se para dentro de casa e sumindo em direção ao sofá. Não pude deixar de rir e ele fez o mesmo. Entramos logo após do jeito que estávamos, ensinando o chão limpo de casa e sentando no chão para terminar de ver o filme
Minha mãe sempre dissera que o que está destinado a ser nosso, independente de qualquer um ou qualquer coisa, vai ser. Nada no mundo poderia impedir uma força tao grande quanto a força do universo, ela falava. Creio que toda nossa história prova exatamente isso, eu não estava destinada a Corin e ele não estava destinado a Lilliandill. Nós éramos um do outro, desde pequenos e sempre seremos.

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