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1 I surrender who I’ve been for who you are


— Remus? — Tonks chamou, hesitando como nunca fazia — O que está fazendo? Para onde vai?

Remus parou com uma mão na maçaneta da porta da pequena casa em que morava com a namorada, enquanto a outra segurava uma mala grande, a única que possuía. Diante do silêncio do homem, Tonks se aproximou.

— Remus? – Ela apoiou a mão no ombro dele, apertando o tecido de algodão da camiseta que ele usava. – O que está fazendo, Remie?

Ele fechou os olhos com força. Não queria deixá-la, mas era o certo. Não havia nada que ele pudesse fazer a respeito.

— Me solte, Nymphadora.

Remus falou o mais firme que conseguiu, ainda sem se mexer. Só queria sair enquanto ela ainda estivesse dormindo, seria mais fácil para os dois, mas aparentemente conseguir alguma coisa facilmente era tudo o que a vida não queria para ele.

— Por quê? Por que eu tenho que soltar?

O homem respirou fundo, essa cena já havia acontecido antes.

— Você sabe o porquê. Agora, por favor, me solte.

— Não. Não vou soltar, e você também não vai embora. Não tente insistir nisso de novo.

A mulher colocou os braços ao redor dele e o abraçou por trás. Ele sentiu o corpo dela tremer e quase perdeu as forças, quase se entregou. De novo.

— Nymph... Tonks, pare... por favor – ele sussurrou a última parte, sem forças para continuar com aquilo, estava exausto de tentar fazer qualquer coisa e ser derrubado.

— Eu estou cansada, Moony. — ela murmurou com o rosto enterrado nas costas do homem — Estou cansada de você fugindo de mim, fique comigo.

— Eu não posso.

Remus sentiu frio, e soube que ela havia se afastado. Ele queria se virar, vê-la pequena em sua camiseta com alguma frase cômica. Os pés descalços e os cabelos provavelmente em algum tom escuro e triste, mas não importava porque ele amava aquilo. Os cabelos coloridos que sempre lhe entregavam os sentimentos da mulher e o sorriso. O sorriso que ele sabia estar tirando dela agora.

— Tudo bem, Remus. Se... – A voz dela falhou e ele se deu conta de que ela estava chorando. Sua Tonks, pequena e tempestuosa, estava chorando por ele. – Se é o que quer, vá logo.

Ele sentiu as próprias lágrimas enchendo os olhos quando se virou para acabar com a distância entre os dois. Remus apertou-a contra si, sentindo-se a pior pessoa do mundo por fazê-la ficar daquele jeito. Ela se aconchegou nos braços dele, fechando os olhos ao senti-lo apoiar o queixo em sua cabeça.

— Não chore por mim... – Ele murmurou, rouco.

— E por mim? Você não pode me pedir para não chorar por mim. Estou perdendo o homem que amo, e não posso fazer nada além de chorar.

Remus apertou ainda mais o corpo dela contra si.

— Isso não me parece com algo que você diria.

— Você me deixou sem opções. Eu só quero que fique aqui comigo, que me deixe cuidar de você. Quero que se permita viver e quem sabe um dia ter uma família comigo.

As palavras o despertaram e afastou-se o suficiente para encarar a bruxa.

— Que família eu poderia te dar? Olhe para mim, Tonks. Eu não posso dar metade do que você merece.

— Sinceramente, Remus, eu não sei de onde você tira essas besteiras – Ela se afastou e colocou as mãos na cintura – Qual é o problema em casar comigo?

Os cabelos da garota passaram de azul escuro para diferentes tons de vermelho e Remus quase sorriu. Ele respirou fundo, deixando os braços caírem ao lado do corpo.

— Tudo o que eu quero é que você seja feliz, e com a pessoa certa.

— E por que, por Merlin, essa pessoa não pode ser você? – Ela moveu os braços na direção dele, exasperada.

— Tonks, eu não tenho muito dinheiro e acima de tudo, sou um lobisomen. Que futuro eu daria a você? Se tivéssemos um filho, ele teria que conviver com esse inferno em que eu vivo, e que Deus o livre, poderia ser igual a mim! – Remus elevou a voz, sentindo-se desesperado para achar uma forma de fazê-la entender que aquilo era um erro.

Ela ignorou o homem e encarou as malas perto da porta.

— Você vai ficar? – Perguntou tranquilamente.

Remus colocou as duas mãos nos ombros de Tonks e encarou fixamente os olhos da bruxa.

— Eu não posso fazer isso com você, não posso ficar.

A mulher o encarou com raiva e tristeza no olhar. Ele sempre gostou do quão expressiva Tonks era, mas agora, enquanto ela se desvencilhava dele, doía ver tudo o que ele próprio causava de forma tão clara.

— Por que está sendo tão covarde? Tudo o que peço é que você seja feliz e você corre disso como se eu estivesse atirando lâminas na sua direção! Está cavando o próprio poço e indo cada vez mais fundo com essa ideia absurda de ter que ficar sozinho. Pare de fugir, Remus. Pare de se esconder e viva.

Os cabelos da mulher passaram a mudar de tom rapidamente, como os sentimentos confusos dentro dela. Tonks deu alguns passos para trás e então aparatou, deixando o homem estático para trás.

Por alguns minutos, Remus continuou parado no meio da sala. As palavras da mulher ecoando na mente, se projetando na pequena sala vazia. Seus pés o guiaram até o cômodo seguinte, onde ficava a cozinha, e suas mãos trabalharam sozinhas no café que ele então carregou até a janela da sala, a de madeira pintada pessoalmente por Tonks de azul. Observou o parque trouxa para o qual a vista dava, e pouco depois resolveu sentar-se na abertura.

Remus se sentia como um barco flutuando sem direção. Já tinha perdido tanta coisa, tantas pessoas. Tudo sempre escorria entre seus dedos como areia, escurecia de repente como se alguém soprasse a única vela que iluminava o ambiente e ele ficava ali, parado no escuro esperando pacientemente a dor passar. Mas não era isso que mais o afetava em relação a Tonks, seu maior medo era aprisionar a mulher na vida que tinha, nas noites de lua cheia quando ele não conseguisse uma poção de Wolfsbane.

Uma pequena sensação de felicidade o aquecia sempre que lembrava da inconsequência dos amigos ao se transformarem em animagos para acompanhá-lo. Nunca pedira qualquer coisa a eles ou a Tonks e no entanto, estavam sempre dispostos ao perigo para estar com ele. A mulher que até pouco tempo atrás estava deitada ao seu lado insistia em amá-lo e em ficar perto mesmo que Remus constantemente se rebelasse contra isso. Mesmo quando ele negou e se afastou. Mesmo quando passou a evitar qualquer pequeno encontro com ela. Ele sorriu de lado, imaginando o que Sirius e James diriam sobre suas missões quase suicidas há pouco tempo.

Remus sempre viveu as margens do que a vida oferecia, acreditando que suas limitações eram maiores do que ele. Mas Tonks era seu convite para ir bem ao centro, para ter o que sempre se convenceu de que não poderia. Ela era sua luz, seu encanto em uma época fria e sombria, e ele sabia que a mulher também seria sua força nos tempos que se aproximavam. A necessidade de protegê-la se equiparava ao tamanho do amor que sentia por ela, e talvez a melhor forma de por as duas coisas em prática fosse estar por perto.

O homem escorregou de volta para dentro, disposto a trazer Tonks para o lugar que sem ela não seria uma casa, apenas um espaço com cores e móveis que gritavam sua presença. Recolheu pequenas flores de um vaso na mesinha de centro e usou a varinha para formar um anel firme com elas, se ia pedir que Tonks voltasse, precisava provar que ficaria ali com ela. Pegou o casaco que ela esquecera atrás da porta, colocou o anel no próprio bolso e estava prestes a aparatar quando alguém bateu na porta.

Remus hesitou, considerando se deveria ou não abrir.

— Sou eu. – A voz de Tonks do outro lado trouxe de volta toda a bagunça que ele acabara de organizar na cabeça. Apertou o anel com uma mão e a varinha com a outra, ainda sem ter certeza. – Remus, chamei você de covarde e o mandei viver umas três horas atrás. Sou eu, pode abrir.

O homem foi até a porta, para então abri-la devagar.

— Temos lembranças um pouco melhores que essa. – Falou, sorrindo sem graça.

Ela olhou para baixo por alguns segundos e depois mexeu no cabelo antes de voltar a encará-lo.

— Shackerbolt me mandou um patrono, precisamos ir até A Toca.

Remus acenou com a cabeça, mas continuou parado. Ele percebeu o olhar de Tonks no casaco apoiado em seu braço e se apressou a devolvê-lo.

— Você esqueceu.

Ela murmurou algo que Remus não ouviu enquanto pegava o casaco e o vestia. Os dois aparataram juntos fora dos feitiços de proteção da casa dos Weasley que agora servia de sede para reuniões. Assim que chegaram, os olhos do bruxo foram atraídos para o céu. Havia pouca luz ao redor, então as estrelas pareciam pedir por toda a atenção disponível. Remus não se importaria em sentar-se para deixar o tempo passar, porém mais do que as estrelas, um cabelo azul escuro afastando-se dele desviou seu ponto de admiração.

— Tonks! – Ele chamou, fazendo-a parar e virar-se para ele.

Remus passou a mão pelo cabelo, ansioso. Não sabia ao certo como começar, então juntou toda a sinceridade que tinha em si e deixou as palavras saírem.

— Eu sei que tenho feito tudo errado, que já falhei só Deus sabe quantas vezes. – Ele respirou fundo sob o olhar atento da bruxa. – E sei que não sou o melhor para você...

Tonks abriu a boca para contestar, mas Remus a impediu.

— Não adianta me dizer o contrário, eu sei que não. Mas se sou o que você quer, o que você escolheu, eu posso lidar com isso. Tonks, eu tenho me sentido sozinho e perdido há muito tempo, já estava habituado com a ideia de viver distante, de lugar em lugar tentando descobrir como deixar um pouco de paz se aproximar de mim sem que a quietude me lembrasse como é o mundo sem todos que perdi. Até eu voltar pra cá, até encontrar você.

Ele mexeu a varinha entre os dedos, procurando as palavras para continuar.

— Você veio e mesmo sabendo de tudo, de quem eu sou, do que sou, quis estar ao meu lado. No começo achei que era inconsequência e que logo passaria, mas você está sempre lá, sempre me lembrando do que seria viver de verdade, de como é ser amado. – O bruxo falava com força, desejando que as palavras retirassem o peso que carregava no peito. — E eu te amo com a minha vida por isso. E por essa mesma razão, sempre que me vem a cabeça o que eu poderia causar a sua vida, tenho vontade de virar as costas e aparatar para o mais longe possível porque a ideia de vê-la machucada não é suportável para mim.

— Mas estaria me machucando indo embora. – Tonks falou, um sussurro baixo que quase se perdeu no ar.

Ele concordou com a cabeça.

— Eu quero ficar, Tonks. Quero aceitar toda a felicidade que nós dois podemos ter em meio a todo esse caos se formando. Quero ficar por perto e protegê-la de todo o mal que venha a acontecer, mesmo sabendo da sua capacidade de cuidar de si mesma. Saiba que isso me tranquiliza bastante. – Ele riu e depois voltou a expressão séria — Eu ficarei, se você me permitir ficar.

— Se eu permitir? Está brincando comigo? Meu Deus, Remus!

Tonks acabou com a distância entre os dois quando jogou os braços ao redor do pescoço de Remus e o beijou. Naquele momento, Remus não se sentiu pequeno como uma fadinha, se ele olhasse pra cima se sentiria tão grande quanto o céu acima dele. Então o bruxo lembrou-se do anel e sua mão já escorregava para dentro do bolso, quando Tonks se afastou para encará-lo.

— Eu quero que fique, mas antes preciso saber de uma coisa.

Ele esperou.

— Remus, você vai casar comigo? Quero dizer, você aceita casar comigo?

O bruxo piscou, surpreso.

— Está me pedindo em casamento?

— Estou, não é?

Ele riu e beijou a testa dela antes de se afastar um pouco mais, colocou uma das mãos no bolso e deixou a outra na cintura da mulher. Ao retirar o anel, a expressão confusa de Tonks se iluminou.

— Eu ia perguntar exatamente a mesma coisa, mas deveria ter imaginado que você faria primeiro, de um jeito ou de outro.

Os dois riram enquanto ele encaixava o anel no seu lugar, no dedo anelar de Tonks.

Na manhã seguinte, mais ou menos na metade dela porque haviam chegado tarde em casa, Tonks encarava o homem dormindo tranquilamente ao seu lado. Não tinha a mesma habilidade e paciência que Remus com as palavras, então era difícil achar algo que descrevesse o que sentia por ele. Tudo o que Tonks sabia dizer era que queria Remus perto dela, com o maior sorriso que ela conseguisse por em seu rosto cansado. Ela se aproximou devagar, aconchegando-se nele com todo o cuidado para não acordá-lo, mas percebeu que falhou quando ele gemeu e passou o braço ao redor dela.

— Remus? – Chamou.

— Hmm?

E então Tonks repetiu o que ela sabia com toda a certeza em relação a Remus, a mesma coisa que dissera na noite anterior quando estavam caminhando de mãos dadas até A Toca.

— Eu te amo.

Notas finais
ultimamente meu amor por remus tem falado tão alto que resolvi fazer isso. tinha que fazer ele sendo feliz depois de tudo o que ele passou, mesmo que não tenha durado muito.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!