Turnaround In Love
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ao levantar a cabeça por acaso, os olhos de Megan se depararam com a camada de nuvens que desfilavam velozmente do lado de fora da janela do avião. Levantou um pouco procurando uma posição mais confortável na poltrona, mas com todo cuidado, pois qualquer movimento brusco poderia acordar seu filho que dormia profundamente, encaixadinho em seu peito.
Devagar puxou o cobertor, de maneira que pudesse cobrir ambos. O ar condicionado estava muito forte, e por mais que tivesse vestido seu pequeno com um pijama felpudo, temia que ainda assim sofresse com o frio.
Ao encará-lo, sorriu involuntariamente e levando a mão até a sua bochechinha, acariciou-o de leve, com carinho. Ele deu um suspiro profundo, mas continuou entregue ao sono, tal qual um anjinho. Ela também suspirou mais profundo ainda, se dando conta do quanto amava aquele garotinho.
Naquele momento começou a pensar se sabia em que momento isso tinha começado. Talvez tenha sido no momento em que se descobrira grávida, ou no momento em que ouvira o coraçãozinho dele bater pela primeira vez. Entretanto, sua lembrança mais doce acontecera logo depois de tê-lo dado à luz, bem no exato momento exato em que escutou o seu chorinho pela primeira vez, e sentiu um aperto no coração.
Foi quando a enfermeira, com todo cuidado, o trouxe bem pertinho de seu rosto, fazendo suas peles se roçarem de leve. E ela percebeu que o pequenino parou de chorar quase que no mesmo instante. Era como se por alguma razão desconhecida, ele já soubesse em que confiar... Quem seria sua mãe dali pra frente.
Megan lembrava claramente os sorrisos que se formaram nos rostos das pessoas, diante daquela cena. E do seu próprio, que era uma mistura de cansaço e felicidade incomensurável.
Logo teve vontade de pegá-lo nos braços, mas foi impedida pelo efeito da anestesia. Contudo, antes que pudessem "arrancar" seu filho de perto, Megan aproveitou para tascar um beijinho carinhoso em sua testa molhada, ao mesmo tempo em que uma lágrima descia pelo seu rosto — selando para sempre um compromisso de Amor Incondicional e Legítimo.
E foi a partir daquele instante que Megan soube, jamais seria a mesma...
O sacolejar do avião diante de uma pequena turbulência a fez voltar ao presente. Exausta, e dolorida, ela fechou os olhos e logo seus pensamentos levaram-na para um passado nem tão distante assim.
*Algumas horinhas antes...
Megan terminava de colocar a última peça de roupa em sua mala e já se preparava para fechar o zíper quando ouviu alguém abrir a porta do quarto. Virou o rosto de lado para ver de quem se tratava.
Sorriu ao ver Artur entrando e afrouxando a gravata, como sempre fazia quando chegava de um dia cansativo de trabalho.
Imediatamente ela correu ao encontro dele, e antes que ele pudesse desabotoar os botões da camisa, ou dizer qualquer coisa, ela jogou os braços ao redor do pescoço dele e lhe tascou um beijinho nos lábios.
- Hmm... — gemeu e segurou a cintura dela, impedindo-a de se afastar — Gostei dessa recepção. Se quiser, você pode repetir isso todos os dias. Prometo não ficar mau acostumado.
- Silly boy! Bobinho... Quem ouve você falando assim, pensa que eu nunca fui, like, carinhosa com você.
- Megan, Megan, para de me enrolar! Eu sei que você tá querendo me dizer alguma coisa... Diz logo! Aproveita que eu tô de bom humor hoje.
Megan sorriu um tanto misteriosa, sabia que agora podia entrar no assunto.
- Minha mom ligou hoje. Ela disse que daddy vai sair da prisão amanhã. Parece que conseguiu um Habeas corpus e vai poder ficar em liberdade condicional. Não é like amazing? — Megan abriu um sorriso de canto a canto da orelha.
- É sim, pirralha. Fico feliz pelo seu pai. Principalmente porque sempre me senti um pouco culpado por ajudar naquela investigação idiota junto com o Herval, quando o verdadeiro vilão dessa história era o próprio cara!
- Tudo bem... — Megan fez um carinho no rosto do namorado, consolando-o — Águas passadas, right?! O importante agora é que meu dad está livre e vai poder recomeçar a vida de onde parou. Só que tem um little detalhe...
- Qual? — perguntou Artur, com a testa franzida, já temendo o que vinha por aí.
- Daddy quer que todos os filhos dele estejam no aeroporto esperando por ele... In Brazil.
- Quê?! — indignou-se Artur, colocando as mãos na cintura — Vem cá, Megan, você tá pretendendo viajar para o Brasil? É isso mesmo?
- Yeah! Eu também sou filha do Jonas Marra, remember?!
- Lembro. Mas eu também lembro que o Davi Reis é filho dele.
- Yeah. Eu e o Davi agora somos, like, irmãozinhos. — Megan explicou com um tom divertido na voz, apesar de ela mesma não acreditar em uma só vírgula do que acabara de dizer.
- Irmãozinhos...? Megan, eu num sou nenhum trouxa. Você só tá indo pra essa viagem por causa dele, né?!
Agora foi a vez de Megan ficar indignada.
- Of course not! Tuca, o Davi é passado pra mim. Você sabe disso. Larga de ciúme bobo!
- Num é ciúme, mas é que... Caramba, pirralha, eu sei o quanto você adorava aquele cara!
No fundo, Megan entendia o lado de Artur, afinal, logo que eles ficaram juntos pela primeira vez, ela fez questão de deixar bem claro que ele era apenas uma diversão, enquanto Davi era o amor da vida dela. Contudo, com a escolha de Davi por Manuela, Megan acabou por escolhê-lo. Então eles se mudaram para São Francisco e a convivência fez com que eles se conectassem muito bem. Depois veio o filho... Que terminou por selar tudo, deixando a relação deles ainda mais estável; mais madura.
- Tuca, look... — Megan começou a falar, e segurou o rosto do namorado entre as mãos — O Davi escolheu a nerdestina, right?! E eu escolhi você... Não é porque vamos voltar a nos encontrar que isso vai mudar. Don't worry, ok?!
Era engraçado como mesmo depois de todo esse tempo, Megan ainda não conseguia chamar Manuela pelo nome. E esse era um dos motivos para que Artur ainda não se sentisse totalmente seguro do seu amor.
- Sei não, Megan. Eu juro que eu preferia que você fosse comigo para França.
Megan fez uma careta, odiava viajar com o namorado para essas viagens a negócios.
- Oh, noooooo, come on! - resmungou ela, segurando os ombros do namorado com um pouco de força — Você sabe muito bem o quanto eu odeio essas viagens! Desde que você resolveu voltar a ser o rei das frutas orgânicas que nossos passeios se resumem a você enfiado no escritório o dia todo e eu alone, sozinha no hotel. Tuca, eu sou jovem, linda, sexy... Ainda gosto de me divertir e não ficar trancada em um quarto, like, a monja.
- Caramba! Muito obrigado pela parte que me toca! Adorei saber o quanto você ama estar junto comigo — falou com ironia
Megan revirou os olhos sorrindo.
- Tuca, não foi isso que eu falei. Eu só acho que a gente mal começou a namorar e já está parecendo aqueles casais boooooriiiing que já estão juntos há uns... Vinte anos.
- É impressão minha ou a garotinha mimada voltou a atacar e está me chamando de velho? — indagou Artur em um misto de raiva e divertimento.
- De velho não. — Megan respondeu e enlaçou o pescoço do namorado, seduzindo-o — De tiozão.
- Ah é?! Eu vou te mostrar quem é o tiozão aqui! — Ameaçou, agarrando-a e jogando-a em cima da cama. Megan ria, divertida enquanto ele a enchia de beijos por todos os lados de seu rosto.
- Stop Artur! Chega! Sabe que tenho cosquinhas! — Megan parou de rir e resolveu voltar ao assunto — Esse carinho todo é porque resolveu me deixar viajar para o Brazil?!
Artur parou abruptamente de beijá-la, e com esforço, se sentou.
- É. Acho que não tenho escolha, né?! — Megan sorriu com os olhos — Você pretende levar nosso filho?
- Yeah. Course. Ele ainda é muito pequenininho pra ficar longe da mom. E também vou levar a babá para que me ajude com ele.
- Tá certo. Eu só sei que vou morrer de saudades... — suspirou — Mas assim que resolver os negócios na França, vou buscar vocês no Brasil.
- Yes, sir! — Megan respondeu colocando a mão na testa, tal qual um soldado faz diante de um capitão.
Artur deu uma gargalhada alta.
- Caraca, pirralha, você não existe. — Ele disse em meio à gargalhada, mas então, de repente sua expressão mudou para séria. Megan não entendeu até o momento em que ele segurou sua mão e olhou-a fundo nos olhos — Megan, mesmo indo para o Brasil, você vai cumprir a promessa que me fez, não vai?!
- Of course! Claro que vou! Tuca, eu jamais faria alguma coisa pra te prejudicar. I swear.
Artur sorriu triste — Que bom. Brigado... Mesmo. — disse e segurando o rosto de Megan lhe deu um beijo nos lábios.
Ela sorriu e para quebrar o clima tenso que se formou, ergueu-se com ímpeto e levantou-o, segurando suas mãos.
- Let's go, come on! Tenho de terminar de arrumar a mala e com você aqui é, like, impossível! Vai! Vai lá no quarto do nosso filho brincar com ele. Go, go, go! — Megan dizia enquanto o puxava pela mão em direção à porta.
- Peraí, cê tá me expulsando do meu próprio quarto?!
Megan balançou a cabeça pra cima e pra baixo — Yeah. Estou. — abriu a porta e enxotou-o pra fora — Get out!
Depois ficou gargalhando do lado de dentro enquanto Artur resmungava alto do lado de fora, furioso.
"Tripulação, preparar para o pouso. Senhoras e senhores, dentro de instantes pousaremos no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro... "
Começou a anunciar o comandante da aeronave, trazendo Megan de volta à realidade. Ela espreguiçou-se e olhando mais uma vez pela janela, deu um suspiro profundo e sussurrou para si mesma:
- Brazil, o lugar onde amei pela primeira vez, just like, sofri a pior das decepções...
Dito isso, uma lágrima furtiva escorreu em sua face.
*******
- Então, Dorothy, o que achou desse look, hã?! — Pâmela perguntou à amiga se referindo a um vestido verde musgo que de tão colado no corpo, valorizava inteiramente suas curvas como nenhum outro.
Dorothy estava como de costume sentada elegantemente no sofá, com suas pernas cruzadas, bebendo sua champagne em uma taça de cristal. Contudo, no momento em que viu a amiga, levantou-se e foi ao seu encontro, com o maior de seus sorrisos.
- Oh my God! Pâmela, darling, você está simplesmente deslumbrante. — elogiou-a com sua voz esganiçada e rouca, segurando suas mãos para que melhor pudesse apreciá-la.
- Ów, Dear, thanks! — agradeceu, alisando o vestido — Mas será que Ernesto irá gostar?
- Eu tenho certeza que ele vai like amar! — disse uma voz feminina bastante conhecida, vinda de detrás das duas.
Ao reconhecer a voz, Pâmela foi a primeira a virar-se em direção à porta e tal qual não foi seu espanto quando seus olhos se depararam com ninguém menos que Megan, seu maior tesouro.
- Oh, Megan Lilly, sweetie! — gritou Pâmela já correndo com os braços abertos em direção a filha que a aguardava ansiosa para um longo e forte abraço. E foi exatamente o que aconteceu. — My baby dear, que saudade que mummy estava de você. — Pâmela completou segurando o rosto da filha entre as mãos.
- Eu também, mom! Estava com muita saudade! — Megan sorria feliz olhando nos olhos de sua mãe.
- Oh, God! Será que um pouquinho dessa saudade também foi de mim, dear?! — perguntou Dorothy que tinha esperado o momento mãe-filha para pronunciar-se.
- Sure! Claro que sim. — Respondeu Megan voltando-se para Dorothy e lhe dando um abraço, que recebeu com todo carinho.
Pâmela ainda enxugava as lágrimas que derramou durante o abraço, quando Megan olhou para trás certificando-se de que aquele era o momento certo para o que ia dizer em seguida.
- Ok, everybody! Preparem-se para grande surprise que trouxe comigo.
Dorothy e Pâmela franziram a testa sem entender do que se tratava até que, de repente, uma garota que devia ter mais ou menos 18 anos, entrou segurando um garotinho lindo nos braços. As duas arregalaram os olhos. Sabiam de quem se tratava, mas vê-lo ali na frente delas fez com que a emoção tomasse conta de seus corações.
Megan pegou seu filho do colo da babá e levou-o até onde estava as duas.
- Mom, Dorothy, quero apresentar pra vocês o Júnior... Meu filho.
As duas ficaram sem palavras, mas logo um sorriso se formou nos lábios de ambas e elas começaram a pular de alegria diante dos olhos de Megan que se sentia extremamente feliz por proporcionar tamanha felicidade para as duas.
- Oh, my God, sweetie! Ele é lindo! — falou Pâmela já esticando os braços com a intenção de pegar seu netinho nos braços — Come on! Vem aqui com sua grandma.
O garotinho que até então olhava aquelas duas mulheres com estranhamento, rendeu-se ao sorriso emocionado de sua avó, e estendeu os bracinhos em sua direção.
- Oh, so cute! — exclamou Pâmela pegando o netinho nos braços e apertando-o em meio aos inúmeros beijos que tascava por todo o rostinho do pequeno.
Como toda criança dessa idade, o pequeno incomodou-se com tanto aperto e beijo e quis logo voltar para os braços da mãe.
- Mamã, baço! Hãããã... Baço, mamã! — pediu Júnior esticando os braços para Megan que tratou logo de pegá-lo antes que ele abrisse o berreiro.
Nos braços de Megan, o pequenino esfregou os olhinhos e ficou emburradinho, evidenciando claramente sua vontade de ir dormir.
- Sorry, mom. Mas os paparicos vão ter que ficar para amanhã. Esse little prince aqui precisa dormir senão vai começar a ficar booooriiing. E ninguém aguenta. Dica de especialista.
- Ok, sweetie! Eu entendo perfeitamente. Você era exatamente assim quando era uma baby. O quarto de vocês já está preparado bem do jeito que você me pediu pelo Marraphone.
- Oh, Thanks, mom! Então eu já vou indo. Night, mom, Dorothy. — Despediu-se e junto com a babá foi para o quarto. Júnior já quase adormecido.
- Night, sweetie! — Pâmela disse acenando com a mão, seguida por Dorothy que disse o mesmo.
No momento em que se encontraram sozinhas, Pâmela encarou a amiga e seu olhar não expressava mais felicidade, e sim preocupação.
Estranhando, Dorothy foi até onde estava a amiga e segurando uma de suas mãos, perguntou:
- O que foi, dear? Parece preocupada...
- No. Não é nada... Deixa pra lá.
- Pâmela Parker Avelar, você não me engana, hã. Está acontecendo algo sim e eu quero saber... Now!
- Oh, Dorothy, é que acabei de me lembrar do tornozelo de Aquiles de Megan.
- Oh, God, dear. É calcanhar. Não tornozelo.
- Oh! Whatever! — Pâmela exclamou, envergonhada.
- Ok! Fine! Mas eu não entendi. A que, ou a quem você se refere?
- A quem mais? A Davi Reis, of course!
Diante daquela resposta, Dorothy arregalou os olhos e instintivamente colocou a mão sobre o peito. Ela compreendia perfeitamente o que sua amiga queria dizer com aquilo e agora também começava a ficar preocupada.
***********
No dia seguinte, alguém parecia muito ansioso ao bater na porta da casa de Rita. Matias que, por coincidência estava ali, imediatamente correu.
- Já vai! Já vai! — Gritava ele já sem paciência pela insistência das batidas.
- Ô meu irmão, dá pra esperar não?! Tá maluco?! — Resmungou Matias ao abrir a porta, mas ao se dar conta de quem estava batendo, calou-se e arregalou os olhos — Caraca, muleque! É tu mermo?! Tô nem acreditando!
- Sou eu mesmo, rapá! Tá me reconhecendo não?! — disse Davi, que logo em seguida foi puxado para um abraço apertado do irmão que não via a alguns meses.
- Meu irmão, entra aê! — Ele deu espaço pra que Davi entrasse em casa. Os dois entraram e Davi seguiu Matias que se dirigiu à cozinha — Espera só a galera saber que tu tá de volta... E a Luene? Ela vai surtar! Acredita que a gata ainda arrasta um caminhão por tu?! Ontem mesmo ela perguntou do campeão dela. — Davi sorriu de lado, tímido — Mas, diz aí, cara! Quando tu chegou?
- Ontem a noite. Agora... Só deu pra aparecer aqui hoje porque a viagem foi cansativa pra caramba! Só pra cê ter uma idéia, a Manuela ainda tá dormindo. Mas, vem cá, e a tia Rita, cadê?
- Ih, num tá sabendo não?! Meu pai comprou uma passagem irada pra Fernando de Noronha, os dois foram pra lá para uma segunda lua de mel, acredita?!
- Caramba! O tio Dante mandou benzão, heim?! — Davi elogiou e com um salto, sentou em cima do balcão pra continuar a conversa.
- Né isso, rapá! Mas aqui pra nós, num te engana não, porque acho que foi pra limpar a barra com a mãe, que tava pirada com ele. Semana passada ela até mandou ele dormir no cafofo do Bira, tá ligado?! — Matias explicou e Davi sorriu, balançando a cabeça, entretanto logo depois franziu a testa quando viu Matias abrir a geladeira e vasculhá-la a procura de algo — Ei, cara, mas tu precisava ver a cara de Dona Rita, tava que num se aguentava de tanta felicidade. — Continuou ele, com a voz abafada, pois continuava com a cabeça enfiada dentro da geladeira.
- Imagino... — Davi disse, com a testa ainda mais franzida, curioso com o que Matias estava fazendo — Os tios merecem... Matias, quê que tu tá procurando aí?
- Pitomba. — Matias respondeu como se fosse a coisa mais natural a se responder.
- Pitomba, cara?! Tá maluco?! Pra quê que tu quer pitomba?
- Num sou eu, cara. É Danuza. Acredita que ontem ela me acordou às três da madrugada com desejo de beber suco de pitomba. — Fechou a geladeira e encostou as costas na porta, suspirando de cansaço e decepção por não ter encontrado nada — Mano, tô pra ficar doido com esses desejos de grávida dela. Cada hora ela me vem com uma parada pior do que a outra. Dia desses ela cismou com o cheiro do meu perfume... Logo eu que zoei tanto com a cara do pai, tive que ir dormir no cafofo do Bira, acredita?!
Sem conseguir segurar mais o riso, Davi soltou uma gargalhada daquelas.
- É. Vai rindo. Espera só quando tu passar por isso... — Davi tentou se conter no riso — E vou logo avisando que tu é o padrinho.
Diante daquele comentário, o semblante de Davi se tornou sombrio, pois ele se lembrou de todas as vezes que entrou no assunto de tentar ter um filho com Manuela. Mas ela não quis saber e até mudava de assunto. Nas raras vezes que ele conseguia alguma resposta, ela dizia que não estava preparada ainda ou argumentava a falta de tempo.
Mesmo pensando naquilo com tristeza, Davi disfarçou se mostrando feliz pelo convite.
- Sério, cara?! Eu vou adorar. Cê sabe que eu sou maluco por criança. Mas, vem cá, e a madrinha, quem é?
- Ih, ó o cara aí! Tá querendo saber porquê, heim?! Tá querendo dá uns pega na gata, é?
- Respeita rapá! Tá doido? A Manu me mata!
Agora foi a vez de Matias gargalhar.
- Mas, falando sério, a madrinha quem vai escolher é a Danuza. E ela tá no maior mistério. Num diz nem pra mim.
- Ih, já vi que vem bomba por aí.
- Pode esperar... Ei, mas mudando de assunto , o que te deu pra tu voltar pro Rio? E nem vem dizer que foi saudade da família que isso num cola.
Davi sorriu diante da desconfiança do irmão. Deu um salto e desceu do balcão, então cruzou os braços.
- Jonas Marra. — respondeu rouco e seco, deixando Matias ainda mais curioso. — O cara me ligou e disse que tá vindo pra cá. Parece que saiu da prisão e tá na condicional. Num entendi direito. O pior é que ele me pediu pra vir pra cá porque quer reunir os filhos, aí já viu né?! A Manu tá botando a maior cara feia por causa disso!
- Ah é?! E por que isso agora? Num era ela que era a maior fã do Jonas Marra?
- Era, né?! E ainda é. Só que o problema dela é com outra Marra... — Matias fez cara de interrogação, então Davi respondeu sem mais delongas — Megan.
Matias arregalou os olhos, compreendendo tudo agora. Foi até Davi e batendo nas costas dele, falou: — Ih, meu camarada, então ferrou. Porque nem que você não queira, tu vai ter que topar com a gata mais cedo ou mais tarde, né?! E do jeito que as duas são, vai acabar se engalfinhando de novo pelo Nerd Encantado.
Davi fez uma careta e esfregou as mãos no rosto, agoniado com a possibilidade. — Ih, cara, fala isso nem brincando... Deus me livre! Mas isso num vai acontecer não. A Megan tá em outra. Eu espero, né?!
Matias riu e pra tentar acalmar o primo, voltou pra geladeira, abriu-a e de lá tirou duas garrafas de cerveja — Quer uma? Tu tá precisando... — disse e jogou a garrafa para Davi que aparou-a com as mãos. Então depois de abrir com a ajuda da camisa, Davi levantou a cabeça e tomou quase metade da garrafa num gole só.
Matias riu, passou o braço ao redor dos ombros do primo e conduziu-o até a sala, onde os dois se sentaram no sofá. Davi recostou-se bem, quase deitando nele.
- Vem cá, Davi! E você, o que tá achando disso tudo? Digo... Encontrar a Megan de novo? Tu tá mexido, num tá, irmão, fala a verdade...?
Davi inclinou-se para a frente. Apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou os dedos. Gesto que fazia sempre que estava nervoso — Sei lá, cara... Acho que eu só tô com medo do que pode acontecer com meu relacionamento com a Manu... Só isso. — Davi respondeu, mas nem ele mesmo acreditou no que disse, e muito menos Matias, que ficou extremamente desconfiado.
- É só isso mesmo? Por acaso, num teria outro motivo?
Davi franziu a testa, indignado. Levantou de supetão e colocou as mãos nos bolsos.
- Qual foi, Matias?! Tá achando o quê? Que eu tô querendo me meter outra vez com a Megan? Que eu tô com saudade, ou coisa parecida?! — Matias ficou sem entender todo o nervosismo do irmão com aquela mera pergunta. Sua desconfiança foi ao ápice.
- Ih, relaxa, Davi. Só te fiz uma pergunta. Nada demais! Num precisa ficar nervoso desse jeito não. Só queria saber como tu tava pra poder te ajudar.
- Me ajudar com o quê?! Davi indagou e começou a gesticular com as mãos, nervoso — Só porque estuda psicologia, acha que agora pode entender a mente dos outros?
- Caramba, Davi, baixa as armas aí, meu irmão! Eu tô de boa aqui.
Davi ficou extremamente arrependido em ter descontado o estresse no irmão. Tentou se redimir. Foi até o irmão e apertou o ombro dele, então murmurou: — Desculpa eu ter pegado pesado, cara?! Mas é que desde que o Jonas ligou que eu tô assim... Nervosão.
- Tá desculpado, irmão. Eu só acho que você ia se sentir bem melhor se botasse isso pra fora.
- Botar o quê?! Se nem eu mesmo sei o que tá acontecendo comigo.
- Pois eu acho que eu sei... E mesmo que você não queira ouvir, eu vou te dizer. Davi, tu tá mexido sim com esse reencontro com a gringa. Sabe por quê? Por que no fundo tu nunca se permitiu saber o que tu realmente sentia por ela. Se apaixonou pela Manuela, daí veio a parada do FBI, se separou dela, ficou com a Megan, mas nunca se deixou viver intensamente com ela porque no fundo alimentava a esperança de que não estivesse errado com relação a Manu — Davi escutava tudo atentamente, pois não é que o garoto dava pra coisa, pensou consigo, enquanto Matias continuava sua tese — Claro. Manu era tua alma gêmea, tua parceira no vídeo game, nerd que nem tu. Já Megan era uma menina riquinha e mimada que só se metia em encrenca. Como gostar da patricinha ao invés da Nerd? Ou seja, você quis gostar da Manu e fez seu coração se fechar pra gringa gata, daí você quis ficar cego para as qualidades da garota. Lembra? Foi ela quem primeiro te deu força com a Brazuca e o Júnior, e ficou indignada quando o pai dela te demitiu. Foi ela também quem virou às costas para o próprio Dad, dando até uma de São Francisco e aparecendo aqui só de lingerie. — Davi deu um sorrisinho de lado e corou lembrando da cena — Sem mencionar as vezes que ela deu aula de inglês pras crianças da Plugar, tudo bem que no começo foi só pra te fisgar, mas depois a gata vinha por livre e espontânea vontade e as crianças eram amarradonas nela. Cara, a garota aprendeu a sambar, toda desajeitada, vamo combinar, mas imagina... Ela literalmente desceu do salto por você. Além de tudo isso, ainda se misturou com a galera da Gambiarra, que tem um perfil completamente diferente do dela, chegando até a ficar amiga do Vander, Mosca e da Luene, cara! E a Manu, o que fez??? Te ajudou a programar o Júnior, deu uma bolada de dinheiro pra que o projeto seguisse em frente e... Só, né?! Nunca foi na plugar, nunca enfrentou o pai bandido por você, nem muito menos o irmão doente e ainda te levou pra Recife, pra longe da Gambiarra, teu lugar de origem, o lugar onde teus amigos e tua família que te adora moram. E ainda por cima, te fez abandonar a Brazuca que era um projeto teu, da Megan e do Ernesto, que por sinal desistiu de tudo pra escrever roteiro pra princesa Shelda. Mas também, continuar um projeto sem o sócio amigo é mó paia, né?! Sem contar a tragédia com a Plugar... — Parou de falar, arrependido, quando viu Davi arquear as sobrancelhas — Caraca, a mãe num te contou não?
- Não me contou o quê? Fala Matias!
- Fica calmo, tá?! — Matias disse, mas ocorreu o contrário, Davi ficou ainda mais nervoso — Tacaram fogo na Plugar. Não sobrou quase nada. Trabalho bem feito. Nem a polícia tem pistas de quem foi.
Davi ficou enfurecido e colocando as mãos na cintura, esbravejou: — Como é que é? Calma aí! Tacaram fogo na Plugar e só agora eu fico sabendo? Matias, você e minha tia tinham de ter me contado. Eu merecia saber. Vocês sabem muito bem o quanto aquele lugar é importante pra mim.
- Acho que foi por isso que a mãe num te contou. Não quis te preocupar.
- Me preocupar?! Caraca, meu irmão, se eu pego esse otário que tacou fogo na Plugar, eu sou capaz de... — Davi trincou os dentes, apertando os punhos, cego pela raiva — Eu sou capaz de acabar com a raça dele! E essa polícia incompetente que não descobre nada. Se eu começar a investigar, eu descubro esse cara em dois tempos, aposto!
- Aposto também. E tô contigo, pode acreditar!
A fúria de Davi deu lugar a um sorriso fraterno — Eu acredito... Você sempre foi meu parceirão, meu melhor amigo, meu irmão... — Puxou Matias para um abraço bem apertado, batendo nas suas costas com um pouco de força. Matias retribuiu com o mesmo carinho.
Então, de repente em meio ao abraço, eles escutaram um latido muito alto vindo de fora da casa.
- Quê isso? — quis saber, Davi — Num me lembro de ter ouvido o latido do Linus tão alto assim... Será que ele se assustou com alguma coisa?
- Nada cara! Esse cachorro late até com o vento.
- Não... Tá estranho. Eu vou lá fora ver o que tá acontecendo. Já volto! — Davi se dirigiu até a porta que dava pra rua, mas antes que pudesse abrí-la, ouviu Matias falar e se virou pra ele para entender melhor.
- Vai lá! Mas oh, num esquece de pensar no que eu te falei, tá?!
Davi teve vontade de dizer que era quase impossível esquecer de tudo que ele disse, mas se limitou a apenas concordar — Tá. — Abriu a porta e fechou-a atrás de si.
Chegando lá fora, procurou por seu cachorro que continuava impolvoroso, latindo como um louco.
Encontrou-o perto do portão, tentando arrancar a corda da coleira em que o amarraram. Davi se agachou e começou a passar a mão pelo pêlo dele, numa tentativa de acalmá-lo. Em vão. Linus parecia estar querendo dizer alguma coisa.
- Calma aí, cara! Quê que foi, tá com fome? Peraí, que eu vou te soltar pra você comer alguma coisa. — Davi começou a retirar o nó da corda com dificuldade, contudo quando conseguiu, Linus, sentindo-se livre, correu atravessando o portão como um foguete em direção ao portão da garagem de Davi.
- Ué, quê que deu nesse cachorro? — perguntou Davi para si mesmo, se levantou e foi atrás dele — Calma aí! Linoooooos! Volta aqui garoto! Linooooos!
Correu e também atravessou o portão. Olhou de um lado para o outro — Caramba! Onde será que ele se meteu? — resolveu tentar o lado direito e correndo, procurou-o por toda parte. Nada. Parecia que o cão tinha sido abduzido. Tentou mais um local, o último que lembrava. Linus adorava se lambuzar na lama de um parquinho infantil que ficava ali perto. Arriscou ir até lá, andando a passos largos.
Então quando dobrou a esquina, sentiu um grande alívio ao avistá-lo ainda um pouco longe. Mas quem era aquela loira que estava agachada acariciando seu cachorro? Pensou, e riu lembrando da vez em que Linus sujou o casaco de Megan, e ele acabou descobrindo a preferência do seu cachorro por loiras. E agora depois dessa, ele não tinha mais a menor dúvida de que era verdade.
Resolveu se aproximar. Não podia deixar seu cão ali. Vai que ele tivesse incomodando a estranha. Andou devagar e silencioso, até chegar bem perto dos dois.
A garota estava com a cabeça baixa e nem se deu conta da presença de alguém. Até ouvir a sua voz. Uma voz que para ela, era simplesmente inconfundível.
- Desculpa, moça! É que o Linus costuma ser super afetivo, mesmo com estranhos.
Um frio começou a ganhar o ventre daquela garota. Suas pernas tremularam e seu coração disparou. Droga! Isso não podia está acontecendo! Esse garoto não podia está causando essa reação nela. Não de novo. Pensou ela, com ódio de si mesma.
Respirando fundo, e juntando todas as suas forças, resolveu revelar-se logo e que acontecesse como Deus quisesse.
Lentamente foi virando o rosto para Davi, que já começava a reconhecer de quem se tratava. Mas foi quando a garota se levantou, ficando de frente para ele, que pôde ter certeza. E mal podia acreditar em quem estava ali... Bem na sua frente.
Um sentimento bom e quase elétrico tomou conta do coração de Davi ao se deparar com aqueles olhos amendoados, brilhantes e cheios de vida. Teve de engolir a seco para sucumbir o desejo que emanou de seu corpo. Então como que para espantar aquilo tudo, disse a única palavra que lhe veio à mente.
- Megan?!
Ela sorriu, de forma sexy, como ele lembrava que ela sempre fazia. E falou quase num sussurro:
- Hi! Filho do Jonas Marra.
Então o mundo pareceu desaparecer, pois para Davi, a única pessoa que existia ali era Megan Lily Parker-Marra. E que se danasse o resto!
Será que Matias tinha mesmo razão? Pensou consigo, ainda hipnotizado pelo olhar e pelos lábios beijáveis daquela garota à sua frente...
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