Notas iniciais
Preparem o coração...

Capítulo 24 de TIL

Três dias haviam se passado desde que Júnior foi hospitalizado, e Megan ainda tentava se acostumar com a idéia de deixar seu pequeno príncipe sozinho. Durante aquele tempo, ela não tinha aparecido na Empresa nem para assinar relatórios importantes. A sorte era que Vicente, a pedido de Davi, sempre os levava no final do dia para que ela cumprisse com suas obrigações de diretora.

Nunca imaginou que seria uma mãe tão paranóica. Mas quando ela se lembrava do modo como Júnior se debateu naquela noite fatídica, sempre vinha uma certeza grande de que não estava exagerando nenhum pouco em seu cuidado.

Durante esse tempo em que esteve afastada da Empresa, Davi ligava para ela quase todas as horas do dia só para saber como ela e Júnior estavam. Eles não se viam desde que Júnior obteve alta, pois Davi se encontrava muito ocupado com um acordo milionário que estava prestes a fechar. Tudo bem. Ela não se importava. Afinal, a noite que passou com ele no Hospital foi mágica. Tão mágica que ela, não conseguia tirar, um minuto de seu coração, o momento em que acordou no meio da madrugada e pegou Davi dando a mamadeira para seu filho. O jeito como ele o olhava... Tão carinhoso, tão intenso, tão paternal, que ela podia jurar que ele estava emocionado, pois seus olhos esboçavam um brilho diferente.

Mas o melhor de tudo foi que o momento mágico não parou por aí. Pois, aconteceu que — lá pelas tantas da madrugada — quando Júnior finalmente havia adormecido, Davi foi até o sofá onde Megan dormia profundamente e tascou um selinho em seus lábios. Depois se aconchegou junto a ela em posição de conchinha, fazendo questão de entrelaçar seus dedos aos dela, como que para prendê-la ali. Mal sabendo ele que ela já se sentia presa a ele desde que o vira pela primeira vez, há alguns anos, na Empresa de seu pai.

– Dona, Megan, acho que o seu computador fez um barulhinho. — Nina avisou, interrompendo todos os seus pensamentos.

Megan estava encostada no berço de Júnior, observando-o dormir e não havia se dado conta de que Nina havia entrado no quarto.

– Deve ser o Tuca. Ele mandou uma mensagem no meu marraphone avisando que queria falar comigo. — Nina olhou de lado, desconfiada, mas Megan já se dirigindo até o seu notebook, não percebeu nada.

– Vou lá pra cozinha ajudar com o almoço. — Disse Nina educadamente, sabendo que seu lugar naquele momento não era ali. — Com licença. — E foi embora.

Sozinha, Megan abriu o notebook e depois de alguns minutos, Tuca apareceu na tela.

– Hi, Tuca! — Ela cumprimentou com naturalidade, mesmo percebendo que sua expressão não estava das melhores.

– Megan, posso saber quando você pensava em me contar? — Perguntou na lata.

Megan tomou um susto quando ouviu a pergunta e procurou se recompor antes de responder. O problema é que ela não sabia a que ele se referia. Será que ele sabia de seus encontros com Davi? Não. Impossível. Ou será que... Mas que droga! O que ela mais temia, aconteceu. Alguém com certeza contou a ele sobre a hospitalização de Júnior. Mas quem?

– Tuca, eu posso explicar...

– O quê, Megan, que você vai me explicar...? — Ele rebateu antes mesmo dela concluir seu pensamento. — Que você resolveu me excluir da vida do nosso filho sem ter a mínima consideração de me avisar.

– No, Tuca... — Megan começou a responder, angustiada. — Não foi bem assim. I just... Eu só não queria te preocupar e...

– Megan, o Júnior é o meu filho também! Pelo menos, foi o que a gente combinou a um ano atrás, não foi? — Megan assentiu com a cabeça. — Então, como você acha que eu me senti quando eu soube por outra pessoa que o meu filho estava doente?

– Quem te disse isso?

Ela sabia que aquela não era a hora de fazer aquele tipo de pergunta. Mas há muito tempo havia percebendo que Artur ficava sabendo de todos os passos que dava. E estava muito curiosa para saber quem era a droga do espião dele!

– Quem me disse isso é o que menos importa nesse momento, Megan. — Artur afirmou, categórico. — O que está em pauta aqui é a sua deslealdade comigo.

– Tuca, sorry! Eu juro que ia te contar, but... O Júnior... Ele ficou tão sensível desde que convulsionou que eu nem pensei... — Megan já começava a atropelar as palavras, com a voz embargada pelo choro que não conseguiu segurar. — Sorry, Tuca! Não foi minha intenção. I swear!

Artur silenciou por alguns segundos, ao ver Megan enxugando os olhos. Mas não estava disposto a ceder. Ele estava possesso.

– Megan, o Davi já sabe? — Artur questionou, quebrando o silêncio. — Você contou a ele a verdade?

Megan negou com a cabeça.

– No. O Davi não sabe. Eu prometi que não contaria, remember? Não sem antes falar com você.

– Pois é... Mas foi ele quem ficou o tempo todo com você no Hospital, não foi?

Como ele sabia disso? Megan se perguntou em pensamento. Parece que o espião era mais eficiente do que ela imaginava.

– Yeah. — Respondeu por fim. Não iria mentir. — Foi ele.

– Isso quer dizer que ele está tendo contato com o "meu" filho. — Concluiu.

Com o seu filho? O filho é do Davi! Teve vontade de gritar, mas se segurou.

– E mais ainda com você. — Completou.

– Você sabia disso, Tuca. Eu contei pra você que a gente ia dirigir a empresa de meu dad, juntos.

– Contato na Empresa, eu sabia sim. Você me contou. Mas fora dela... Droga, Megan, eu nunca imaginei que você pudesse ser tão... — Pausou, pois achou melhor escolher bem as palavras antes de continuar. — Será que você não se lembra que ele te trocou pela Manuela? Sem ligar nenhum pouco para os seus sentimentos. E agora você tá aí, outra vez rastejando e implorando o carinho dele. Megan, pelo amor de Deus, esse cara te desprezou, te humilhou, te quebrou inteira! E quem juntou seus pedacinhos? Eu! Mas parece que você se esqueceu de tudo isso, não é? Quer reviver tudo aquilo outra vez? Ou você acha que ele vai deixar a Manuela pra ficar com você?

Megan ficou indignada. Tudo bem. Em certo ponto ele tinha razão. Mas suas palavras estavam machucando-a profundamente. E ele não tinha esse direito. Não tinha.

– Tuca, ele já deixou a Manuela. O Davi e ela estão separados.

– Ele deixou a Manuela ou ela deixou ele? Você já perguntou isso pra ele? Porque, sinceramente, se ele disse o contrário, você é uma trouxa por acreditar!

Megan franziu a testa, com ódio.

– Stop, Tuca! Okay?! Você agora passou dos limites! Eu não tenho nenhuma obrigação de ouvir isso. Você está sendo, like, muito grosso! I don't like it!

Artur arregalou o olhar. Não imaginou que Megan iria revidar. Pelo contrário, seu plano era que ela se sentisse mal e culpada. Então concluiu que se continuasse assim, perderia Megan em um piscar de olhos. Resolveu mudar de estratégia. E rápido. Antes que pudesse ser tarde demais. Baixou o olhar, fingindo tristeza.

– Desculpa, pirralha! Eu não queria ter dito isso... Me perdoa?! É que o fato de saber que você e o meu filho estão a mercê do Davi, me fez falar coisas que eu nunca pensei de verdade. Você sabe muito bem que... Eu amo vocês mais que tudo nessa vida! Quando eu soube que o Júnior estava doente e que eu não estava aí para ficar ao seu lado, cuidar de vocês... — Pausou e fingiu chorar tentando fazer com que Megan se arrependesse de ter pensado mal dele. — Eu... Quis morrer, Pirralha.

O objetivo foi atingido. Megan se comoveu.

– Oh, Tuca... Não fica assim. O Júnior está bem. Foi só um susto. E quanto ao Davi, eu preciso ser sincera com você. Eu...

– Não, Pirralha. — Ele foi mais rápido. Sabia muito bem o que ela ia dizer. E quis ganhar tempo para pensar no que fazer para acabar com aquilo. Megan não ficaria com Davi. E muito menos o Júnior. Pensou ele, antes de continuar sua farsa. — Não precisa dizer mais nada. Eu confio em você. Tenho certeza que você jamais faria algo para me magoar.

Aquelas palavras foram como mil facas no coração de Megan. Ela não sabia mais o que dizer. Estava se sentindo pior do que um lixo.

– Tuca... Eu... — Não. Era melhor deixar o assunto sobre Davi pra depois. — Eu... Quero que saiba que... Eu nunca mais deixarei de contar a você o que acontece com o Júnior. I promissed!

Ele sorriu. Era a primeira vez desde que eles iniciaram aquela conversa. Isso confortou um pouco o coração de Megan.

– Eu acredito, Pirralha. E fico bem mais tranquilo. Você não sabe o quanto estou aliviado em saber que tudo continua em seu devido lugar. Você, o "nosso" Júnior, e eu.

Megan forçou um sorriso amarelo.

– Bom, eu vou indo aqui. Dormir um pouco, sabe?! Estou precisando. Porque desde que soube do que aconteceu com Júnior que... Eu não consigo pregar o olho. Nem trabalhar, eu estou conseguindo, acredita?! — Deu um suspiro e bocejou só para fazê-la acreditar. Era um excelente ator. — Mas, agora vou dormir tranquilo sabendo que meus dois amores estão bem. Te amo. Ligo à noite pra falar com ele. Faz tempo que não ouço sua voz. Tô com saudade.

Megan forçou mais um sorriso.

– Okay. Bye e até a noite. — Ela se despediu, rezando para que ele não continuasse com a tortura.

Suas preces foram ouvidas.

– Até. — Foi tudo que ele disse, para em seguida, a tela ficar preta.

Então Megan desabou. E chorou, agarrada a um travesseiro. Copiosamente. Como nunca tinha chorado em sua vida. E o pior era que ela não sabia se suas lágrimas eram pelas palavras rudes que ouvira ou porque estava se sentindo péssima pela sua deslealdade e infidelidade para com uma pessoa que não merecia. Pelo menos, ela achava que não.

Chorou tanto que acabou dormindo e só se deu conta disso, quando despertou duas horas depois e o quarto estava escuro. Com certeza, alguém havia entrado lá, e ao ver que ela dormia, fechou as cortinas. Fez bem. Ela estava mesmo precisando descansar.

Com um pouco de dificuldade, se sentou na cama. E só aí percebeu que sua cabeça latejava de dor. Precisava de um analgésico com urgência. Lembrou que tinha guardado uma cartela em sua bolsa. Pegou-a no cabide, abriu-a e enfiando a mão dentro dela, começou a vasculhá-la. Foi então que se deparou com um envelope. Curiosa, retirou-o e o mirou com a testa franzida. Não se lembrava dele. Ou será que se lembrava...

Ah, não! Claro! — Exclamou por dentro. — Aquele era o envelope que Davi havia lhe entregado pouco antes de se despedir dela no Hospital. Ele disse que só abrisse quando chegasse em casa. O que ela achou bastante estranho. Mas com tudo que aconteceu, acabou esquecendo de sua existência. E até ignorando.

Arrependeu-se. E se fosse importante?! Por isso, resolveu ver logo do que se tratava. Então, sem mais pestanejar, abriu-o.

Dentro dele havia um bilhete e o que parecia ser uma fotografia. Retirou primeiramente o bilhete. E ao lê-lo, sentiu o coração disparar.

"Megan, eu sei de toda a verdade, e se não acredita é só dar uma olhada na fotografia. Por favor, quero muito conversar com você. Não se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Mas preciso conhecer seus motivos para compreendê-la. Com carinho, Rita."

Megan pousou a mão na boca, que estava aberta, perplexa. Depois pegou a fotografia.

Era de Davi. Ele devia ter um aninho na época em que foi tirada. E sim. Ele era idêntico ao Júnior. Até o sorrisinho travesso não negava.

Ficou perturbada. Agora mais uma pessoa sabia de seu segredo. E o que era pior. Tratava-se de alguém muito próximo a Davi. Então, para ele descobrir tudo, era só questão de tempo. Apavorou-se. Precisava fazer algo. E urgente. Se Davi um dia soubesse, teria de ser pelo menos por sua boca. Talvez assim sua "pena" fosse menor. Porque receber "prisão perpétua" de Davi, seria imensamente doloroso a essa altura do campeonato.

Em meio aos pensamentos, ela se levantou bruscamente. Foi até o espelho e retocou a maquiagem. Megan Lily nunca sairia naquele estado deplorável. Depois disso, escolheu sapatos de salto que combinavam com sua roupa. E pegando sua bolsa e chaves, saiu do quarto em direção à cozinha. Precisava deixar Nina ciente de sua saída. Mas pela primeira vez em sua vida, não disse a ela para onde iria. Pois, concluindo que as paredes tinham olhos e ouvidos, resolveu ser cuidadosa com quem quer que fosse. Mesmo que esse "quem" em questão fosse Nina, a quem confiava de olhos fechados.

Por fim, deu instruções precisas em relação ao Júnior e colocando seus óculos escuros no rosto, saiu, rumo à Gambiarra.

***

– Hi, Rita! — Megan cumprimentou, quando abriu a porta dos fundos que dava na cozinha da casa de Davi.

Rita estava lavando a louça. E ao ouví-la, desligou a torneira, enxugou as mãos no avental e se virou em sua direção.

– Oi, Megan! Finalmente você apareceu. Já estava achando que...

– Sorry, Rita. É que só agora li o seu bilhete. — Megan explicou, interrompendo-a. — Você... Queria falar comigo?

– Sim. Mas antes de começar, acho melhor a gente ir para um outro lugar. Porque aqui pode aparecer alguém. — Alertou.

Megan concordou com a cabeça. E Rita, retirando o avental da cintura, partiu rumo ao quarto garagem de Davi, com Megan logo atrás.

Chegando lá, as duas se sentaram no sofá, uma de frente para a outra. Mas antes de começarem a conversar, Megan retirou a bolsa do ombro e colocou-a em uma mesinha lateral ao sofá.

– Megan, o que você está esperando para contar pro Davi que o Júnior é filho dele? — Rita perguntou sem preâmbulos.

– Sorry, Rita, mas é mais complicado do que você imagina...

– Complicado, por quê? Eu vi que vocês agora estão se entendendo tão bem. O Davi tem se sentido tão feliz desde que você voltou que... Sinceramente, eu não entendo por que você ainda não falou nada pra ele. Além disso, você sabe que o Davi adora crianças. Tenho certeza que ele ia ser o melhor pai do mundo pro Júnior.

– I know. O Davi ia ser o melhor pai do mundo, eu sei. But... Passou muito tempo, Rita. Não sei se o Davi ia gostar de saber que eu escondi esse segredo dele durante todo esse tempo... — Argumentou ela, aflita.

– Pode até ser... Mas o Davi tem o direito de saber, Megan. Ainda mais agora que... O Júnior chamou ele de papai.

O mundo parou para Megan durante alguns segundos, até ela conseguir processar o que Rita acabara de dizer.

– What?! O Júnior chamou o Davi de Papai? Quando?

– Foi no Hospital. Quando ele deu a mamadeira pra ele. — A cena veio como um raio na mente de Megan. E só agora ela conseguia compreender a expressão tão paternal de Davi naquele momento. — Você precisava ver, Megan, a alegria com que ele me contou. Ele parecia uma criança, tipo... Quando ganha um brinquedo novo. Ele sabe, Megan. No fundo do coração, ele sabe. Só que ele acha que seria bom demais pra ser verdade, então prefere esconder de si mesmo.

Megan deu um sorrisinho terno.

– Eu percebi isso. And... O Júnior também parece sentir. Ele é louco pelo Davi. Os olhinhos dele chegam a brilhar quando ele o vê. Engraçado é que com o Tuca, eu nunca tinha visto isso. Apesar de que, eu não vou mentir, eles se davam muito bem. Mas nunca foi como com o Davi. — Pausou e deu um risinho como se tivesse lembrado de algo engraçado. — Não quero nem imaginar a cara do Tuca quando ele souber que o Júnior chamou outra pessoa de papai.

– Pois é. Mas... Voltando ao assunto... Quando você pretende contar?

Megan baixou o olhar, sem conseguir mais encará-la.

– Era isso que eu tava pensando no caminho de casa até aqui. E tomei um decisão.

Rita segurou as duas mãos de Megan, forçando-a a olhar pra ela. Então, depois de respirar fundo, ela soltou a bomba.

– Eu vou voltar pra San Francisco.

Rita soltou as mãos dela abruptamente, perplexa.

– O que você disse?

Megan deu outro suspiro profundo. E respondeu, confiante.

– É isso mesmo que você ouviu, Rita. Ontem eu tive uma conversa com o Tuca que me deixou muito triste. So... Eu acho que já está na hora de acabar com tudo isso. O Tuca e eu precisamos botar os pingos nos is, como se diz aqui in Brazil. Eu não aguento mais viver nessa mentira. Preciso me libertar... Estou really me sentindo sufocada.

– Mas você volta, não é? — Perguntou Rita, esperançosa.

– Yeah. Assim que resolver tudo, eu volto pra contar tudo pro Davi. I promissed!

Então foi a vez de Rita dar um suspiro, só que nesse caso, de alívio.

– Que bom, Megan. O Davi não suportaria ficar longe de vocês. Disso, eu tenho certeza.

– Eu também não suportaria. Pode acreditar.

Rita sorriu.

– Posso te dar um abraço? — Rita pediu. E Megan foi pega de surpresa.

– Sure. — Respondeu, emocionada.

Então quando as duas se puseram de pé, Rita abriu os braços e Megan se lançou neles para recebê-lo.

– Desculpa, Megan, por nunca ter acreditado no seu amor pelo Davi. — Rita sussurrou em meio ao abraço. — Por ter achado que a Manu era o melhor pra ele, quando na verdade o melhor pra ele sempre foi você.

– Rita, não precisa se desculpar. Naquela época eu era, like, maluquinha. So... Para uma mãe, eu nunca seria uma boa opção. Só agora eu entendo. Porque também sou mom, right?!

Rita deu uma risadinha e segurou o rosto de Megan entre as mãos, encarando-a com os olhos marejados.

– É. E uma excelente mãe, diga-se de passagem. — Elogiou. — Está fazendo um ótimo trabalho com o meu "neto".

Ao ouvir aquela palavra vinda da boca de Rita, Megan não conseguiu mais conter as lágrimas. Então, vendo isso, Rita deu um beijo bem estalado na bochecha de Megan. E as duas voltaram a se abraçar. Bem forte.

Minutos depois, já recomposta, Megan disse para Rita que estava ficando tarde, e ela tinha de ir embora. Afinal, havia muitas coisas a resolver para a viagem, que seria naquela noite mesmo. E embora Rita ainda tivesse dúvidas quanto a decisão de Megan, ela sabia que não adiantava argumentar, por isso, mesmo não concordando, ela desejou toda a sorte do mundo para Megan.

Depois disso, ela pendurou a bolsa no ombro e saiu da garagem em direção ao portão. Mas ao cruzá-lo, quase esbarrou em Davi, que naquele instante, tinha acabado de chegar em casa do trabalho. Estava exausto. Mas nem isso o impediu de abrir um sorriso lindo ao vê-la ali.

– Megan?! O que você tá fazendo aqui?

Megan ficou desconsertada, olhando de um lado para o outro a fim de esconder seus olhos vermelhos.

– Eu vim pra falar com a sua tia. Mas já estava indo embora. Bye, Davi! — Falou, enquanto passava rápido por ele, com a cabeça baixa. Mas Davi conseguiu ser ainda mais rápido que ela, quando segurou seu pulso e a impediu de ir embora.

– Calma aí, Megan! Por que você tá fugindo assim de mim?

Megan olhou primeiro para a mão de Davi que segurava seu pulso. Depois olhou fundo em seus olhos. E só aí Davi se deu conta que Megan havia chorado.

– Me solta, Davi! Eu preciso mesmo ir.

– Não, sem antes você me explicar o que aconteceu.

– Nothing. — Megan tentou fingir sinceridade. — Não aconteceu nada, okay?! Now... Me deixa ir embora, please!

Diante daquela súplica, Davi desconfiou de algo que o deixou inteiramente apreensivo e angustiado.

– Pra onde, Megan? Pra onde você tá indo? — Questionou ele mesmo temendo a resposta.

E no meio disso tudo, alguns pingos de chuva começaram a cair em suas cabeças. E pelas nuvens negras no céu, dava pra perceber que vinha um temporal por aí. Mas ele não estava nenhum pouco preocupado com isso. Por ele, o mundo poderia desabar porque tudo que importava pra ele naquele momento era o motivo de Megan estar tão arredia e estranha com ele.

– San Francisco. — Megan respondeu, fingindo uma naturalidade que não existia. E Davi sentiu como se Ela tivesse lhe rasgado o coração.

– Quê?! Que história é essa, Megan? Tá louca?!

Os olhos dele começavam a ficar marejados.

– No. Eu estou precisando ir para resolver umas coisas... E acredite em mim, vai ser melhor pra nós dois que eu vá.

Antes de falar, Davi soltou um riso sarcástico. E finalmente soltou seu pulso.

– Melhor pra nós dois?! — Repetiu, perplexo. — Desde quando o fato de você ir embora é melhor pra mim?

Megan já nem sabia mais o que responder. E o fato da chuva ficar cada vez mais forte, atrapalhava ainda mais o seu raciocínio. Então no desespero, segurou o rosto de Davi entre as mãos.

– Davi, look at me! — Pediu.

– Não, Megan, olha pra mim, você! — Rebateu ele, retirando as mãos de Megan de seu rosto. Para em seguida, segurar o rosto dela entre as mãos. — Porque agora você vai me ouvir. E se depois do que eu disser, você ainda quiser ir embora, dane-se! Mas agora eu vou dizer tudo que tá entalado na minha garganta desde que a gente se reencontrou.

Megan se angustiou. Não. Ele não podia fazer isso. Não agora que ela iria resolver tudo com Artur.

– Davi, no... Não faz isso, please! — Implorou ela. — Deixa eu ir... Tá chovendo muito. — Foi o único argumento que conseguiu encontrar naquele momento.

– Não, Megan. — Negou com veemência, depois enlaçou sua cintura e puxou-a para si com ímpeto. Então seus corpos molhados se grudaram. — Lembra quando a gente se despediu no aeroporto e eu disse que tinha me arrependido e tinha voltado...

– Yeah. — Respondeu Megan, tentando compreendê-lo, mas até vê-lo estava impossível com toda aquela chuva. — Lembro, but...

– Não, Megan, deixa eu terminar. — O olhar que ele lançou pra ela, silenciou-a. — Eu voltei e fiquei lá parado feito um idiota, olhando pro nada. Depois eu fui atrás da Manuela e fiquei com ela. — Megan apertou o olhar, com ciúmes. Pra que mencionar o nome dessazinha? Mas logo ela entenderia aonde ele queria chegar. — Mas a grande verdade, Megan, é que o Davi que saiu de lá pra ficar com a Manuela não era eu. Porque o Davi verdadeiro tá lá parado no aeroporto até hoje. — Megan franziu a testa. Mas no fundo já começava a entender. — E se você for embora de novo, esse Davi — o verdadeiro — nunca vai conseguir sair de lá. — Megan franziu ainda mais a testa. Mas as lágrimas que desciam no rosto de Davi, desciam também no rosto dela, se misturando com os pingos de chuva. — O que eu tô querendo dizer com tudo isso é que eu não vou cometer o mesmo erro. Se você viajar, eu vou atrás. Nem que eu tenha que montar barraca na porta da sua casa. Eu não vou ficar longe de você. Nunca mais! Eu juro!

Diante daquela declaração, Megan conseguiu abrir um sorriso choroso. Os olhos presos aos dele.

– Em frente a minha casa, é?

Ele também sorriu, com ternura.

– É. E eu só vou sair de lá quando eu conseguir fazer você me amar de novo. Porque eu te amo, Megan. Te amo, muito. Te amo demais! Eu te amo, te amo, te amo, te amo, te amo... E se você deixar, eu vou continuar dizendo até que você volte a me amar. — Ela desatou a rir com o exagero dele. E ele estranhou a reação dela. — Que foi? É tão difícil assim, pra você, voltar a me amar?

Ela assentiu com a cabeça.

– Yeah. É muito difícil. — Ela disse de forma natural. Então, decepcionado, ele afrouxou os braços em volta de sua cintura. — Porque pra uma pessoa voltar a amar, ela tem que ter deixado de amar. E quem foi que disse a você que eu deixei?!

O sorriso que Davi deu diante da declaração foi de orelha a orelha. E seu coração disparou tão rápido que ele quase podia imaginar, ele saindo pela boca.

– Isso quer dizer que você...

– Yeah. Eu te amo, Davi. I mean... Eu nunca deixei de te amar.

Os dois sorriram de felicidade. Então Davi içou Megan nos braços e rodopiou com ela, deixando-a quase tonta.

E com a chuva caindo, e com as cartas finalmente na mesa, tudo pode acontecer...

Notas finais
E no próximo, acho que vocês já devem desconfiar o que vai acontecer, né?! ;) :* Muitas reviews, senão demoro kkkkk