Turmalina
1 A minha ida ao museu
Notas iniciais
P.O.V. — Ella
Desci as escadas voando. Morgana pareceu assustada ao me ver, pois arregalou os olhos e se encostou na parede.
— Ella, você ia quebrando o jarro — ela disse, com aquela sua voz calma de sempre.
— Desculpe! — gritei, entrando no banheiro.
Tomei um banho rápido e escovei os dentes. Morgana preparou o meu café — waffles, como sempre — e eu comi como se aquela fosse a minha última refeição. Meu Deus, como ela cozinhava bem!
— Vou sentir saudades... — ela disse, quebrando o silêncio da sala.
— Também vou — eu disse — Também vou. — repeti. Morgana riu. — Lá não vai ter uma empregada tão competente quanto você e que faça waffles tão magníficos — ela deu um tapinha no meu ombro.
(...)
Já na saída, Morgana me deu um abraço que, pelos meus cálculos, deve ter durado uns cinco ou seis minutos. Disse que era para eu me cuidar e ainda ressaltou que eu não deveria provar waffles sem ser os dela quando estivesse fora. Meu pai e eu entramos no carro e partimos rumo ao futuro. Um futuro que procuraríamos pela terceira vez. Imaginei Kennedy e Bianca lá em casa, sozinhos com Morgana, umas três semanas — papai iria buscá-los depois, pois, como todos sabíamos, ele começaria a procurar o quarto "amor verdadeiro" em bares de Los Angeles.
— Ansiosa? — ele perguntou.
— Muito! — respondi, como se fosse novidade.
Passamos o resto da viagem todinha calados; eu lendo e ele — é óbvio — dirigindo.
— Sabe, às vezes acho que não deveria ter deixado sua mãe ir... — ele disse, como um filósofo ou sei lá o que.
— Pai, você paga pensão para ela. É claro que não deveria — respondi, o olhando pelo retrovisor. Ele riu.
— A vida é mais que dinheiro, Ella.
— Olha quem fala.
E mais uma vez, o carro permaneceu em silêncio — um silêncio constrangedor que ia sumindo com o ambiente aos poucos. E com esse silêncio, eu apaguei.
(...)
Acordei com o som do maldito rádio. Meu pai havia ligado na estação de música jovem. O imaginei com uns 20 anos, ouvindo Michael Jackson em sua minivan esfarrapada. Acabei soltando um riso curto e abafado.
— O que foi? — ele perguntou.
— Nada. — respondi, sorrindo.
Uma hora depois chegamos a Los Angeles. Como combinado, meu pai foi me deixar no internato para depois fazer as coisas dele — seja lá o que fossem.
As ruas da cidade eram magníficas. Tudo parecia tão natural que me imaginei em casa, bisbilhotando a vida dos outros pela janela.
O carro parou, em frente à um prédio velho que parecia um patrimônio histórico.
— Nossa, esse museu deve ter uns duzentos anos! — eu disse, o olhando pela janela.
— Museu? — meu pai perguntou surpreso.
— É, aquela coisa enorme ali.
— Filha, você está bem?
E eu, tentando entender aquela pergunta, me aprofundei na imagem do prédio: havia uma placa no meio dos campos esverdeados que atravessavam o local.
I-N-T-E-R-N-A-T-O F-O-N-T-T-A-I-N-E W-I-N-C-H-E-S-T-E-R
— O quê? — exclamei.
— É a sua escola.
— Foi uma pergunta retórica! — gritei — Perdão.
Meu pai assentiu, decepcionado. Dirigiu até a frente do prédio de estacionou. Tirei minhas malas do bagageiro e meu pai me deu um abraço bem apertado — daqueles de espremer os órgãos.
— Tchau, pai. — eu disse, me dirigindo até o prédio. — Olá, futuro.
Entrei no prédio e me deparei com algo bem diferente do que eu esperava: o lugar era bem jovial, com armários e tudo a que se tem direito. As pessoas passaram por mim — todas conversando — e eu confesso que me senti deslocada na multidão.
Vamos, Ella, pensei, você consegue. 359. 359. 359. 359
Caminhei pelos extensos corredores e subi para o segundo andar. Parei em frente a porta com o número "359".
Ao entrar, dei de cara com uma garota. Eu sabia que ia ter uma colega de quarto. Qual seu nome mesmo? Jana, Ana...
— Oi, meu nome é Lana — ela veio em minha direção, esticando o braço.
— Ah, sou Ella — apertei sua mão.
— Estou esperando as outras, Penny e Morgana. — ela disse e seus lábios rosados se movimentaram beeeeem devagar. Ela era linda: tinha olhos castanhos, um cabelo preto que ia até os ombros e pele bronzeada. Confesso que até tive um tiquinho de inveja de sua beleza. Quase não percebi o que ela disse.
— Morgana? — perguntei, curiosa.
— Sim, Morgana Maya Dresch — ela me lembrou — Você leu a carta?
— Ah, sim, li. É que eu conheço uma pessoa que se chama Morgana.
— Ah, sim. — ela sorriu — Pode escolher a cama. A minha é a de cima do beliche da direita.
O quarto era bonito: dois beliches, um de cada lado da parede e havia uma janela na parede do meio. A parede era de uma cor azul bem clara e tinham alguns quadros e pôsteres — deveriam ser de Lana. Acabei por optar pela cama de baixo do beliche da esquerda.
— Ei, você... — ela disse, mas foi interrompida por uma garota de cabelos ruivos cintilantes, seguida de uma garota morena bem bonita.
— Chegueeei! — exclamou a ruiva. A morena riu.
— Oi, você é a Morgana, não é? — perguntou Lana, olhando para a ruiva. A morena respondeu:
— Não, ela é a Penny. Eu sou a Morgana. — sorriu.
Enquanto elas conversavam, coloquei as minhas coisas na mochila e sai para apreciar o ambiente. Umas duas pessoas esbarraram em mim; aquilo parecia uma feira. Entrei no quarto sem aguentar e vi que todas já haviam escolhido os seus lugares: Morgana na cama de cima do beliche da esquerda e Penny na de baixo da direita.
— Onde você comprou essa pulseira? — perguntou Penny, apontando para a pulseira de Lana.
— Ah, foi de presente.
— De quem? — perguntou Penny, com um sorriso atrevido.
— Um amigo. — respondeu Lana.
— Hmmmm...
Penny parecia meio abusada, mas, ao mesmo tempo, parecia ser divertida.
Me deitei e fechei os olhos. Eu já havia dormido no carro, mas ainda estava cansada.
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