Tunnels
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Devo ter pedalado por horas, porque quando decidi voltar para casa, estava começando a escurecer e esfriar mais. Tinha deixado o celular em casa, não sabia que horas eram e, muito provavelmente, minha mãe estaria louca atrás de mim. Mas não estava lá muito arrependida. Pedalar me fez não pensar em nada a maior parte do tempo e isso era muito bom. Evitava muitos problemas junto a draminhas adolescentes de namorada chutada que poderiam vir a aparecer, caso eu pensasse demais sobre o assunto. Ou talvez não, e eu não nascera para ter, pelo menos, esse tipo de draminha adolescente.
— Onde você estava, Senhorita? — ouvi-a atrás de mim enquanto fechava a porta de frente. Devia ter me ouvido guardar a bicicleta.
— Eu disse que ficaria andando de bicicleta por aqui — argumentei.
— Eu e seu pai ficamos preocupados. Você não disse que ia ficar tanto tempo fora e nem levou o celular — ela reclamou.
— Calma, mãe. Não era minha intenção. Eu esqueci ele carregando. — suspirei e dei de ombros. — E o tempo simplesmente voou.
— Okay — revirou os olhos dramaticamente. Depois parou e me observou por um instante — Você está bem? — perguntou um tanto preocupada. É claro que ela ia perguntar isso; eu rompo um relacionamento em um dia e sumo de casa no outro. É claro que ela tinha que perguntar isso.
— Perfeitamente — fui o mais sincera possível. Olhou bem nos meus olhos, me fazendo querer desviar. Ela me conhecia bem, sabia que não estava mentindo.
— Okay — repetiu sorrindo. — Vem, fiz macarrão — assenti e fomos em direção a cozinha, depois que pendurei o casaco.
— Boa noite, garota perdida — brincou meu pai, com a sobrancelha erguida, pondo os pratos na mesa.
— Não estava ''perdida'' — reclamei me sentando.
— Tem razão, ''sumida'' se encaixa melhor. Desculpe — disse sarcasticamente, sorrindo.
— Vocês dois parem — minha mãe finalizou o assunto pondo a panela quente na mesa.
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Acordei com o som estridente do despertador na manhã de segunda. Eu tinha que diminuir o volume daquele troço, definitivamente.
Levantei-me arrastada, prendi o que eu podia das mechas curtas e negras com uma pregadeira e fui tomar um banho quente. Em frente ao espelho do banheiro, encarei as olheiras profundas, o rosto pálido e o cabelo liso preso. Que decadência...
Verifiquei o termostato em meu celular que indicava 10 graus. Já esteve mais frio.
Tomei café com a minha mãe como qualquer dia normal da semana. Meu pai saíra para trabalhar antes de eu acordar, como sempre.
Vesti o casaco vermelho, me despedi dela, montei na bicicleta e segui para o colégio.
Eram oito e quarenta e cinco quando entrei pelo portão e acorrentei a bicicleta no lugar apropriado do estacionamento. Já haviam vários grupos de pessoas em volta de seus respectivos carros, conversando animadamente. E também os mais novos, que não dirigiam, em seus grupos perto da porta, meio que secando os carros dos mais velhos.
Sentei-me em um dos bancos do pátio e abri o mesmo livro que estava relendo domingo, continuando a leitura. Não estava numa parte que realmente me prendesse a atenção, mas fiz um esforço.
Depois de uns minutos sem conseguir me concentrar direito, levantei a cabeça para da uma olhada em volta e reparei a árvore velha e seca do meio no pátio.
Lembrei-me do desenho de Jack. Encarei-a por um tempo pensando sobre ele, como me recordava: as linhas negras e grossas no tronco, as fissuras da madeira, os finos e tristes traços dos galhos que davam um ar de abandono ao triste carvalho, mas que, em termos artísticos, dava sentimento ao desenho. Coisa de artista essa de apreciar a solidão.
Fui arrancada dos meus pensamentos por um vulto de cabelo escuro que passou correndo, se sentou ao meu lado e bateu em meu ombro esquerdo. Isso tudo em uns 3 segundos.
— E aê?! — levei um pequeno susto com Hannah. Na verdade, ela sempre fazia isso, eu que não era muito atenta nesse quesito.
— Oi — respondi rindo.
— Por que estava encarando a Deslocada? — perguntou com sotaque forte. Irlanda.
— Quem? — franzi o cenho.
— A árvore — apontou e olhei de volta. — Eu a chamo de Deslocada — riu no final da frase e estreitou os olhos, um gesto comum.
— Por quê? — encarou-me.
— Cara, olha — obedeci e ela me acompanhou. — Uma árvore desse tamanho crescendo do chão no meio de um pátio onde só há concreto ao redor. Mas ela continua ali e ninguém se importa com a sua presença, ou sequer a nota. O que ela é? — levantou uma sobrancelha.
— Uma deslocada? — murmurei ainda meio surpresa com a reflexão.
— Exato — Hannah sorriu satisfeita. — Agora responde por que a estava encarando.
— Eu só gosto da...Deslocada. Ela é legal.
— É sim. Uma fofa invisível. Um pontinho preto no chão cinza. Bem, é bom saber que mais alguém liga para ela.
— É — ri de leve pensando na outra pessoa que liga.
O sinal tocou alto e estridente como meu despertador, nos tirando do momento das reflexões.
— Vamos? — Hannah perguntou se levantando.
— Claro — disse baixo, e seguimos em direção as escadas para nossa primeira aula.
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O dia seguiu em sua normalidade lenta e fria.
Os primeiros tempos eram sempre os mais chatos e vazios. Em algumas aulas ainda havia Hannah para me entreter com suas histórias estranhas, que lembravam um pouco as teorias mirabolantes e conspiratórias de Lia.
Na verdade, não sei por que comparo as duas, é como ver semelhanças entre... Eu não sei, Lia e Hannah. Cada uma é de um jeito, mas confunde no termo maluquice. ''Qual mais inventa merda?''. Eu não saberia responder.
O almoço veio trazendo uma sopa morna e torradas para começar a melhorar o dia. A comida não era tão odiável, graças a Deus, podia até ser elogiada. Alguns dias eram melhores que os outros.
Sentei-me em uma das mesas no refeitório com Hannah e uns outros amigos nossos, que conversavam meio isoladamente. Puxei uma cadeira ao lado de Olívia e tentei acompanhar a conversa.
Uma coisa que eu gostava no grupo eram as diferenças. De interesse, personalidade, o que fosse. E de como isso não impedia de ser, ainda assim, uma convivência divertida.
— Hey, Lena! — Emma chamou minha atenção. — O Harry não vem sentar com a gente hoje? — perguntou tranquilamente, apontando com o queixo para além de mim. Virei-me e vi Harry se sentando na mesa de uns amigos mais populares dele.
Que beleza, esqueci de comentar isso com eles.
Um dos grandes problemas sobre relacionamentos quando acabam: você tem que explicar para todo mundo que não se está mais junto com tal pessoa, e isso é chato e cansativo.
Ainda mais quando você sabe que sempre esteve errada.
— Oh, esqueci de falar, é que... — hesitei, mas suspirei e disse de uma vez. — Nós terminamos....
— O quê?! — Emma me interrompeu antes mesmo de eu terminar de falar
— Não! Não pode ser! Por quê?
— Graças a St. Andrew, St. George e St. Patrick! — Hannah jogou as mãos para cima aliviada.
— Sinto muito, Lena — Charlotte lamentou. Seguida de Eleanor. Mas eu sabia que no fundo elas estavam felizes. Nenhum deles, além de Emma, realmente gostavam de Harry e eu juntos. Achavam estranho. E olhando agora, sim, era estranho. O que deu na minha cabeça de vento para começar isso? Não sei. Realmente. Não. Sei.
— Que que houve? — Joseph perguntou se virando; as lamentações de Emma deviam ter desviado a atenção dos meninos do trabalho de química.
— A Emma tá fazendo drama porque a Lena e o Harry terminaram — explicou Eleanor apontando para a amiga debruçada na mesa choramingando.
— Cara... Parabéns Lena! — Evan exclamou.
— É, eu achava que teríamos que aguentar aquele garoto por mais tempo! Você facilitou as coisas! — Andrew concordou, junto com Adam que balançou a cabeça sorrindo e Tyler que mostrou o polegar positivamente.
— Na verdade foi ele que terminou comigo — esclareci, e todos na mesa me encararam com o cenho franzido, até Emma saiu do estado sofrido para me olhar. E veio a enxurrada de adolescentes indignados.
— Como assim?
— Mas que babaca!
— Não sabe o que deixou passar!
— Eu mato aquele garoto!
— Quem teria coragem de terminar com você?
— É, você é demais!
— Não se preocupa que você consegue alguém muito melhor!
— Gente! — interrompi, elevando a voz. — Eu estou ótima. Vocês que não se preocupem, eu estou bem.
— Tem certeza? — Eleanor perguntou uma última vez.
— Absoluta — dei ênfase, olhando cada um nos olhos sorrindo, os tranquilizando. — E você — apontei para Emma — Chega de drama.
Depois disso, Evan mudou de assunto e não se tocou mais no nome de Harry durante o almoço. Graças a Deus.
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O sinal tocou e todos levantaram, seguindo para suas respectivas aulas. O dia de verdade começou a partir daí, com as melhores aulas.
Primeiro com Francês, em que a aula em si foi a única coisa que me agradou. Era cansativo ter um casal não assumido, leia-se Olivia e Evan, tagarelando enquanto você tenta ter uma amigável conversa sobre a matéria. Enfim, nem foi tão ruim. A aula compensou.
Depois, Literatura, que além de ser o último tempo de uma arrastada segunda-feira, era a minha aula mais adorada.
A sala ainda estava parcialmente vazia quando entrei. Vi Amy, a professora, sentada em cima de sua mesa, lendo um livro grosso e velho, com os grandes óculos de armação vermelha. Ela era a melhor professora do colégio — meio repetitivo a melhor matéria ter a melhor professora, mas fazia todo o sentido para mim. Depois de 2 anos de aulas extra curriculares, ela já virara até uma amiga. E tê-la nas aulas fixas era maravilhoso.
— Boa tarde, Amy — disse me aproximando. A chamava assim as vezes para implicar, nas aulas extras podíamos chama-la pelo nome, mas nas normais era aquela idiotice de ''Senhorita'' e ''Senhora''.
— Shh — ela levantou a cabeça fingindo seriedade. — Aqui é Srta. Davies, já disse.
— Não deveria ser ''senhora'' já? — sorri e levantei uma sobrancelha.
— Bem, sim, mas só porque estou casada não significa, necessariamente, que vocês são obrigados a me chamar de Senhora. Só tenho 26 anos e acabei de me casar. Ainda estou muito jovem para isso — sorriu, levantando o queixo e jogando as ondas caramelo para trás dos ombros.
— Claro que está, Srta. Davies — dei ênfase a última palavra. Ri de leve e fui me sentar perto da janela.
Tirei o material da mochila e me virei para a esquerda para encarar o pátio enquanto esperava a aula começar, vendo minha cara amiga Deslocada lá. Bem paradinha, um tanto seca para a estação, um tanto triste para o ambiente. Tão bonita. Ergui imperceptivelmente os cantos da boca e lembrei do desenho de Jack novamente. O que me fez lembrar que o veria, agora mesmo. Virei o rosto para a porta, quando o vi pela primeira vez desde sábado. O corpo esguio de cabeça baixa passou pela mesa de Amy – que já pousara o livro a seu lado e esperava a turma – e veio se sentar na carteira a minha frente, a qual eu lembrava vagamente de ser o natural.
Engraçado, já encarei o nada tantas vezes devaneando quando, na verdade, encarava a nuca dele.
Apoiou a mochila quando levantou os olhos e me viu. Sorri levemente e levantei a mão.
Demorou um segundo para retribuir com um sorriso quase imperceptível também acenar. Pude ver sua palma suja de grafite em todo o lugar, o que me fez rir um pouco e levantar as sobrancelhas. Franziu o cenho e voltou as palmas para si, sorrindo mais e corando um pouco. Virou-se e se sentou de uma vez enquanto Amy se levantava.
Pôs os óculos em cima da cabeça e pediu.
— Queridos, vamos fazer silêncio, por favor — aos poucos todos foram se sentando e sessando o burburinho quase por completo. — Bom, vamos começar.
Quando olhei novamente para a minha frente, vi Jack ajustando um par de óculos de armação fina e simples nos olhos. Esse era o detalhe que eu esquecera no sábado. Mas não conseguia lembrar direito como era os usando. Abaixei a cabeça para meu caderno.
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