Tunnels

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Olá hehe. Desculpem a demora, aconteceu muita coisa nesse último mês entre: semana de provas, notebook com defeito e afins. Então, lembram q citei q o cap 2 estava tão grande q eu tava pensando em dividir em 2? Bem, a divisão vai acontecer e será em 3 kkkk. Cada parte com cerca de 2.000 palavras, olha q delícia. Essa primeira parte vai ser tipo o ''capítulo para o leitor se situar melhor'', tem umas informações sobre a Lena e tal. Enfim, espero q gostem.

Acordei, não muito tarde, com a sensação estranha e um tanto desconfortável que o Domingo fazia questão de trazer.

Especificamente nesse domingo, o sentimento estava mais exaltado; provavelmente dado aos acontecimentos do dia anterior.

Talvez eu estivesse começando a sentir alguma coisa, afinal. Que Droga.

O problema com Domingos, mesmo sendo meio esquisito, sempre foi a parte calma e tranquila demais. A intenção era ser leve, mas acabou se tornando deprimente de alguma forma. E isso não tinha nada a ver com a Segunda-feira ser no dia seguinte.

Juntando o ambiente gélido e o silêncio ao excesso de tempo para pensar, tornava-o um dia não muito alegre do qual se esperar.

Desci para tomar o café da manhã na mesa, tendo a boa e silenciosa companhia dos meus pais.

Essa, na verdade, era uma parte realmente agradável do dia. Meu pai não trabalhava, então tínhamos a chance de ter todas as refeições do dia juntos. Era meio quieto, confesso, mas não deixava de ser reconfortante a cena dele lendo jornal calmamente, sentado na cabeceira da mesa da cozinha, bebericando seu café e trocando algumas palavras com minha mãe ou comigo. Era aconchegante.

Voltei para o quarto e me espreguicei, olhando em volta, caçando algo para fazer.

Felizmente, ou não, já havia feito todos os deveres de casa no dia anterior, me deixando livre para ficar de bobeira.

Mas de bobeira fazendo o quê? Essa era a questão.

Analisei o quarto em um lento giro de 360 graus. As paredes cheias de fotos, a mesinha com o notebook, o quadro magnético (ironicamente preenchido apenas com recados e lembretes, sem foto alguma), a janela que dava para os fundos, a poltrona em frente a ela e minha cama simples de solteiro, no canto, com mais fotos acima.

Joguei-me de costas nela e encarei o teto.

Memorizei as marquinhas, avaliei o branco, meio gelo, que mudava o tom de acordo com a proximidade da luz vinda da janela.

Dei um longo suspiro.

Havia um mosquito voando meio descoordenado na aresta do teto acima da minha cabeça. Meus olhos o seguiram enquanto aparentava desespero em achar uma saída. Voando rápido e perdido, sempre encontrando uma parede onde quer que fosse. Por algum motivo, talvez hormonal, a cena me deu um pequeno nó na garganta, uma angústia. Lembranças recentes surgiram.

Cenas claras vistas agora, pensamentos ignorados, antigos avisos prévios. Antigas mensagens ocultas de que o que eu estava fazendo era completamente fora de contexto, fora do que eu era. Se eu ao menos tivesse prestado mais atenção, tivesse ouvido quando meu inconsciente me chamava de idiota por estar em meio a pessoas que eu não suportava e, tampouco, gostavam ou se importavam com a minha presença. Incluindo a pessoa que estava bem ao meu lado. Mas que imbecilidade.

Eu sabia como aquele mosquito estava se sentindo. Porém, ele parecia ter muito mais consciência do que eu jamais tive, a de que não deveria estar ali. Fora tudo uma péssima ideia...

Sacudi a cabeça, afastando esses pensamentos. Sem vontade de pensar sobre aquilo naquele momento ― nem em um momento futuro, na verdade.

Acabou de qualquer maneira.

Então, isso é tudo o que vou sentir. Nenhuma tristeza pelo que acabou. Apenas por ter começado.

De repente o cômodo não estava mais tão confortável.

Levantei-me em um rompante e fui até a janela para abri-la. O pequeno inseto saiu rapidamente assim que houve uma fresta, esta que jorrou o ar frio no meu rosto e para dentro do quarto. Respirei mais aliviada.

Busquei um livro que estava lendo na mesinha ao lado da cama e continuei a leitura, encolhida dentro do cobertor em minha poltrona, em frente à janela ainda aberta; respirando o ar fresco e frio da grande abertura, tentando tornar o ambiente menos aflitivo.

A atividade meio que contribuía com a apatia do domingo, mas me distraía de pensar em qualquer outra coisa desagradável que estivesse fora do enredo de dentro das páginas.

Até realmente não aguentar mais as quatro paredes.

Troquei-me e desci as escadas, seguindo para a cozinha novamente. Já era hora do almoço.

Aproveitando a presença integral do meu pai, minha mãe trabalhava em um almoço mais elaborado em família, mesmo sendo apenas nós três. Ela dizia que a lembrava da casa dela de antes, no Brasil. Eu, sinceramente, não via muita semelhança.

Eu sabia, e meu pai também, como ela sentia falta do país quente e acolhedor onde nascera. E, principalmente, da família no Rio de Janeiro.

Não que nunca os visitássemos, mas ver sua mãe e seu pai uma ou duas vezes por ano durante as férias não chega a ser lá muito satisfatório. Adicionando o fato de minha mãe ser tão apegada. Era um saco.

Eu também gostava muito de lá. Meus avós maternos, os parentes, alguns amigos. Muito mais gente que na família do meu pai. Pessoas mais aquecidas também, diria.

― Vai sair hoje de novo, filha? ― minha mãe perguntou entre uma garfada e outra, quando me percebeu já de jeans e camiseta.

― Vou. Estou lendo há tanto tempo no quarto que está me dando dor de cabeça ― franzi a testa, evitando seus olhos. Ela me conhecia bem o suficiente para saber que eu estava mentindo. ― Não se preocupe, devo ficar andando de bicicleta por aqui pelo bairro mesmo.

― Tudo bem ― ela sorriu docemente.

― Só não vá muito longe, okay? ― meu pai acrescentou balançando o garfo para mim.

― Pode deixar ― respondi e voltei a comer.

Senti uma pitada de bondade em excesso no curto diálogo, mas ignorei. Contanto que me deixassem sair, estava tudo bem.

Calcei os tênis, coloquei meu casaco vermelho ― mesmo sendo primavera ainda estava bem frio do lado de fora ― e sai.

Não levei nada além de um pouco de dinheiro e uma velha câmera compacta no bolso para o caso de, bem, algo que chamasse a atenção. Nem preparei uma mochila ou me importei demais com o que levaria e quanto tempo ficaria fora. O objetivo era outro.

Desci os poucos degraus da fachada e peguei minha bicicleta. Comecei um trajeto, meio sem rumo, pelas ruas próximas; não querendo me afastar de casa, como havia prometido.

Andar de bicicleta era bom para espairecer a mente em dias de Domingo deprimentes. Ou qualquer outro dia ruim. E andar no bairro era ótimo. Nossa área não tinha muito tráfego. Dava para pensar em nada muito importante, sem um risco alto de ser atropelada. Só pedalava, desviava de poucos carros e sentia a brisa gostosa no rosto.

Eu nasci aqui mesmo, em Bristol, quando minha mãe tinha 23 anos e meu pai 24. É, não foi planejado. Mas, de acordo com minha mãe, não deixou de ser uma boa surpresa. Sinto que ela não foi muito verdadeira nessa parte, porque, sinceramente, nunca ouvi dizer de alguém feliz por engravidar quando ainda nem resolveu a própria vida direito.

Ela dizia que “se você acha a pessoa certa e as coisas acabam se apressando, nem sempre é tão ruim”. É um pensamento adorável, mas ainda acho que ela leu romances demais.

Bem, ela tem todo o direito de acreditar nisso. Funcionou com ela. E eu gostava de pensar assim também. Fazer o que, quem sabe está no sangue relacionamentos darem certo? Eu rezava para que estivesse.

Quando minha mãe me deu a luz, eles viviam em Easton, um bairro mais subúrbio, onde passei os primeiros 3 anos da minha vida. Até que meu pai arranjou um emprego melhor em uma agência de advocacia e nos mudamos. Minha mãe era professora e fazia uns bicos de fotógrafa em casamentos e festas, não teve tanto problema com a mudança.

Foi dela que tirei a inclinação para a fotografia, como já deve ser previsto. E outras coisas como independência, gentileza, feminismo. Mas isso não é assunto para agora.

Nos mudamos para cá, Bedminster, quando eu tinha 10 anos, depois de uns 3 bairros diferentes até meus pais se darem por satisfeitos. Eu gostava muito, na verdade. E foi mais ou menos nessa época que comecei as ondas de bicicleta, fotografia e unhas multicoloridas.

As unhas de arco íris foram deixadas para trás. As velhas câmeras emprestadas e a bicicleta antiga pichada de azul marinho, não.

Passei pelas ruas em volta, em frente à casa de uma amiga; contornei a quadra do colégio e segui dando voltas e mais voltas, atenta apenas em desviar do resto dos poucos veículos e não ir muito longe.

Era uma bela cidade. Interessante, bege e calma, eu descreveria. Por vezes, havia sua agitação, mas sempre mantendo a quietude. Eu fui esculpida para lugares assim. Os adorava, até porque havia algo de muito underground nesse papo.

Contudo, no meio do conforto, da sensação de lar e amor, é onde existe o tal desejo da liberdade.

Ver agora a minha querida cidade bege passar, me permitia acabar divagando em estar em algum outro lugar. Lá longe, ou aqui perto. Fotografando o que havia fora dos contornos do conforto, com os olhos e, claro, uma boa câmera. Era o sonho mais clichê que eu tinha, e também o que eu mais me agarrava. Mas não me julgue, sonhar é bom ― principalmente pelo fato de que dentro do sonho você não falha e isso é incrivelmente divertido.

De vez em quando vinha, em meio aos pensamentos leves, algo incômodo. Um momento constrangedor do dia anterior, uma pequena angústia, ansiedade, culpa, meu cérebro me chutando por ser tão tapada, essas coisas. Mas logo os afastava, pensando no que comer no jantar, se deixara o celular carregando, se havia alguma probabilidade de um mosquito cometer um mesmo erro estúpido duas vezes, outras coisas.

Pedalava com o objetivo de não ter absolutamente nenhum de verdade. E essa era uma das sensações mais prazerosas que eu tinha na vida.

Parei em uma loja de conveniência perto de um parque infantil para comprar uns caramelos e um pouco de água, cerca de uma hora depois.

Olhei para o relógio na parede: duas da tarde. Suspirei. Ainda não era hora de voltar. Não sentia que fosse.

Sentei-me em um banco no estacionamento, do lado de fora, junto a minha bicicleta e encarei o céu, mordiscando o doce.

Estava um tanto nublado, cinza quase branco, deixando o dia com uma aparência clara e esquisita.

Olhando em volta, reparei num Pub do outro lado da rua. Devia ser recém construído, pois não lembrava dele ali antes. Uma construção de apenas um andar, com janelas de vidro transparente. Estava fechado e meio escuro, mas ainda era possível ver umas mesas, uma área que possivelmente era a pista de dança e um bar com uma fileira de cadeiras de couro. “June's Cash” podia ser lido no letreiro, logo acima da porta, em letra cursiva preta; sorri de leve e atravessei a rua levando a bicicleta comigo. Inclinei-me para a frente do vidro para observar mais de perto, curiosa. O ambiente era em um estilo de anos 60/70, com direito a Vinis pendurados nas paredes, símbolos hippies e retratos em preto e branco de ícones da época por todo lado.

Identidade falsa me servia para conhecer lugares como esse. E isso até me tirava um pouco do remorso de tê-la.

Aproveitando que nenhum carro passava na rua, me afastei um pouco para ter um ângulo melhor. Tirei a câmera do bolso interno do casaco e fotografei a fachada do lugar. Ficaria uma foto bem legal mais tarde, com um efeito mais envelhecido e ''apropriado''. Essa iria para a parede.

Dei meia volta e subi na bicicleta. Se fosse um filme antigo, talvez um western, eu deixaria um último olhar para trás e, então, tocaria de leve na aba do meu chapéu como se dizendo “Até mais ver”. Mas não era um filme, eu não era um forasteiro e eu estava em público. E eu possivelmente nunca viveria uma cena de cinema tão legal a esse nível. Então, só segui em frente para a próxima esquina.

Notas finais
Sério, por favor, comentem. Por favor mesmo < 3