Tunnels
2 Capítulo 1
Notas iniciais
― Acho melhor eu ir agora ― disse, depois de algum tempo nos revezando entre encarar um ao outro, os pés e o mar. ― Só vim dar uma passada rápida mesmo e está ficando tarde, meus pais podem ficar preocupados.
― Eu também vou ― respondeu aparentando alívio. ― Se importa se eu acompanhá-la?
― Claro que não. Mora por Bedminster também? ― comecei a caminhar.
― Sim ― ele se virou me seguindo. ― Dois quarteirões de distância da escola.
― Então moramos perto, minha casa fica em uma rua por ali.
― Hnm... ― ele se limitou a responder.
Andamos a longa rua da praia em direção ao ponto de ônibus, deixando a paisagem para trás. Virei-me para dar uma última olhada, me despedindo. Voltaria na semana seguinte de qualquer forma, mas aquele último momento sempre me incomodava.
Quando voltei a olhar para frente percebi Jack me observando pelo canto do olho, desviando quando percebi.
O caminho foi quieto, com uma distância de um metro um do outro. Ninguém parecia exatamente afim de falar alguma coisa.
Enquanto esperávamos o ônibus, decidi acabar com o comportamento estereotipado inglês, que cansava às vezes, e perguntei inclinando a cabeça em sua direção:
― O que te trouxe à praia?
Arqueou as sobrancelhas, surpreso com o questionamento.
― Quero dizer, quase ninguém vem aqui. Ou conhece.
― É, conheço há algum tempo. Venho pouco, infelizmente. Mas é bom, sabe, respirar novos ares, esvaziar a cabeça ou ter inspiração... ― respondeu franzindo a testa.
― Inspiração? ― questionei. ― Inspiração para quê?
Pareceu ponderar se me contaria ou não. Mas então suspirou lentamente.
— Eu gosto de desenhar ― deu de ombros levemente. ― E essa praia é uma ótima fonte criativa, eu acho.
― Realmente é. ― concordei ― E... eu posso ver os resultados? ― perguntei insegura.
― Eu... eu acho que sim. ― gaguejou. ― Mas não sei se...
― Deixa de bobagem, deixe-me ver ― sorri.
Devagar puxou sua mochila das costas, que agora eu percebia que estava lá, e tirou de dentro um caderno de desenho de capa preta simples e desgastada. Encarou-me por um segundo.
― Okay, apenas um desenho ― disse ele.
― Certo.
Abaixou a mão e abriu o caderno em uma página qualquer, passando as folhas em seguida, decidindo qual me mostrar. Parou em uma especificamente e virou para que eu visse.
Peguei-o de sua mão e analisei: era uma vista conhecida, a grafite, da janela de nossa sala de literatura. Via-se o contorno do vidro da janela e o pátio vazio abaixo, com os bancos de pedra e a árvore seca pelo frio no centro. Seus traços eram precisos, porém delicados. Deixava a beleza simples da visão transparecer do papel. Mas não era perfeito, e isso era bom. Como meu querido Noel Gallagher já brilhantemente escreveu: “A verdadeira perfeição tem de ser imperfeita”. Sorri com o pensamento.
― Você é bom nisso ― falei em voz baixa ― Eu já havia percebido que a vista da sala é interessante, mas não pensei que pudesse ser tão bonita ― levantei a cabeça, ele me olhava em expectativa. Não nos olhos, encarava meu queixo. ― Você tem talento.
Corou e olhou os próprios pés, sorrindo de leve.
― Obrigado, mas não é para tanto...
― Não me venha com modéstia, isso é proibido no seu caso ― arqueei as sobrancelhas.
Levantou a cabeça, me observando – nos olhos agora – pensativo e sustentei o olhar. Senti alguma coisa faltando em seu rosto, mas ignorei, encarando os olhos que pareciam marrons a distância, mas que eram esverdeados de perto.
Depois de um tempo, comecei a sorrir e ele retribuiu de leve, mas logo baixou os olhos novamente e fiz o mesmo.
Fomos salvos de mais um silêncio embaraçoso pelo nosso ônibus, que virou a esquina da rua.
Entreguei seu caderno, que foi guardado rapidamente de volta na mochila e fizemos sinal. Nos sentamos lado a lado em dois bancos no final do ônibus quase vazio.
Fiquei olhando pela janela enquanto a paisagem passava pelo vidro. As casas, as árvores, depois prédios baixos e lojas. Pubs e lanchonetes. Bairros que eu só via quando ia e voltava da praia de ônibus. Os 40 minutos do trajeto me permitiam ver bastante da Bristol que sempre morei, mas sentia não conhecer tão bem. Observar suas curvas e esquinas, cantos desconhecidos e diferentes feições.
Um dia eu iria a cada um desses bairros e cantos, só para olhar e descobrir como realmente eram esses lugares por dentro, do outro lado do vidro. E teria o prazer de fotografar esses órgãos esquecidos da cidade.
― Posso também perguntar o porquê de estar lá?
A pergunta me sobressaltou um pouco, ou só o fato de ele ter dito alguma coisa, e me puxou de volta a realidade; dentro de um ônibus voltando para o meu bairro de sempre, ao lado de um garoto que eu praticamente acabara de conhecer.
E, infelizmente, sua pergunta também me trouxe a lembrança do motivo de eu estar numa praia deserta e fria, em pleno sábado à tarde.
― Claro ― inspirei fundo. ― Fui pensar um pouco na vida. ― limitei-me a responder.
Ele franziu o cenho e sorriu.
― E o que tem de tão engraçado na vida? ― levantou uma sobrancelha.
Pensei um estante e comecei a sorrir.
― Várias coisas, se você for analisar ― ri de leve. ― É só que, sei lá, a vida é bem irônica. Às vezes, coisas acontecem e você não sabe como reagir, sabe? Aí você acaba apenas não reagindo e não compreende a sua “não reação”. Principalmente quando você ouviu por aí que essas coisas doem muito — sorri enviesado.
― Entendo... ― franziu o cenho. ― Na verdade não, mas vamos supor que entendi ― fez um gesto com a mão. ― O que aconteceu foi alguma coisa muito ruim?
― Achei que fosse pior ― ri sem ânimo.
Não pareceu haver mais nada a se dizer depois disso, mas nos 30 minutos que ainda nos restavam para chegarmos, o silêncio não foi desconfortável. Na verdade, eu não gostava de chama-lo assim. Óbvio que, às vezes, era necessário, mas geralmente o silêncio era meu amigo de longa data – e como qualquer outro velho amigo, ele pode constranger, irritar e confortar. Olhei Jack pelo canto do olho e ele parecia igualmente feliz abraçado a este meu companheiro.
O alívio me tomou ao constatar que ele não parecia querer fazer mais perguntas. E seja como for, segunda-feira no colégio, ele e o resto das pessoas já iriam começar a saber, ou perceber. Não era algo que eu pudesse impedir ou adiar por muito tempo. Culpa minha escolher justo o popular para namorar. Estremeci internamente.
Saltamos no ponto perto da escola e iniciamos uma caminhada novamente, percorrendo as ruas da vizinhança, com pouco tráfego para um sábado.
Não havia ruídos altos e os sons dos carros eram quase inaudíveis, mas ainda podiam ser ouvidos ao longe. Nossos passos faziam o som mais alto e próximo de nós, por algum motivo me relaxando.
― Sua casa fica nessa direção também? ― perguntei virando a cabeça e o olhando de lado.
― Fica ― disse ainda encarando o chão que andava. ― Eu te levo até a sua.
― Não precisa.
― Está no meu caminho, não vai fazer diferença ― esclareceu ainda sem me olhar, pensativo.
Fiz uma análise rápida. Era alto, não muito, mas bem mais do que eu. Tinha cabelos castanhos e cacheados não muito longos, fazendo um pouco de sombra no rosto quando se inclinava. E os olhos, talvez uma mistura de verde e castanho, mas teria que me aproximar mais para ter certeza.
Pelo que me lembrava, os professores gostavam dele, não sei se por ser estudioso, ou apenas esforçado. Era meio introvertido, sempre com seu caderno e lápis próximos, mas não solitário – já o vira com os amigos, então era sociável. O que eu lembrava de ver nele eram coisas que eu via na maioria das pessoas, quando as observava de longe, como um telespectador. Talvez até tivesse uma foto dele, mas não sabia realmente.
É engraçado como de longe vemos as pessoas mais claramente, ou só diferentemente, porque quando estamos perto, nos entretemos tanto que esquecemos de reparar o resto. À distância, se vê a pessoa sorrir, mas logo depois desmanchar o sorriso; rir imperceptivelmente; pensar... Talvez esse fosse o pensamento de quem vivia atrás de uma câmera, mas eu considerava válido.
― Quê? ― olhou-me, interrompendo, novamente, minha linha de pensamento.
― Eu parecia tão mal assim? ― indaguei repentinamente. Vi a confusão em seu rosto e esclareci. ― Quando você me viu lá, eu parecia assim tão maluca?
― Eu nunca disse que você parecia maluca ― levantou as sobrancelhas.
― Mas pensou. Sério, diga o que o fez vir falar comigo.
― Bem... ― pensou por um segundo. ― Primeiro que eu meio que já te conhecia, então foi mais fácil. E além do mais, como eu disse, você parecia... perdida — depois hesitou e confessou. ― E talvez eu tenha realmente achado que você tivesse bebido um pouco.
Dei uma gargalhada.
― Mas não pensei que fosse se matar nem nada ― deixou bem claro. ― Só te achei meio alta mesmo. Queria ajudar.
― Bem, de certa forma, ajudou sim.
Viramos a esquina da minha rua, cada um olhando os próprios pés, eu ainda sorrindo um pouco. Realmente estava mais aberta hoje do que de costume; mais uma coisa incrivelmente errada. Mas já estava cansada de esperar que algo que realmente não viria, aparecesse. Só viveria o resto do meu dia naturalmente, como se nada tivesse acontecido, além, claro, de estar “solteira” (palavra desagradável) e de ter, pelo visto, feito um amigo novo.
Ri internamente com o termo “amigo novo”. Parecia frase de jardim de infância: “Mamãe, fiz um amiguinho novo!”, dizia. “Que legal, querida” minha mãe respondia na cozinha. Sentia falta dessa época.
Percebi que passávamos por minha casa e parei abruptamente. Jack fez o mesmo com um olhar interrogativo.
― Eu moro aqui ― apontei atrás de mim.
― Oh, sim ― observou a construção pintada de branco com janelas e porta de madeira azul. ― Casa legal.
― Obrigada ― sorri também. ― E obrigada pela ajuda.
― Eu não fiz nada ― riu de leve e acompanhei.
― Então... ― comecei a subir o primeiro degrau e me virei. ― Tchau e, a propósito, prazer em conhece-lo... Melhor.
― O prazer foi meu ― acenou e se virou, continuando a andar.
Subi o resto dos degraus e entrei em casa, indo direto para o meu quarto.
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A hora do jantar me obrigou a sair do quarto e encarar um momento que eu temia. Contar para os meus pais sobre o que acontecera não seria exatamente agradável, já que, 5 meses antes, meu pai e eu discutimos muito por ele ser completamente contra o relacionamento. Além disso, minha mãe havia me apoiado muito, o que acabou gerando uma certa briga entre os dois.
E agora que minha mãe estava esperando a resposta à simples pergunta “Como foi o dia?”, a culpa bateu.
― Bem ― respondi monossilábica e tensa. Remexendo a comida.
Ela me olhou desconfiada.
― Mesmo?
Suspirei e larguei o garfo.
― Bem, na verdade, o Harry terminou comigo hoje à tarde ― disparei. ― Ah e fiz um amigo novo! ― Não acredito que você usou a piada do amiguinho como distração, minha mente reclamou.
Meus pais me olhavam de maneira engraçada. Meu pai havia interrompido enquanto mastigava e sua boca estava torta. E minha mãe com os lábios entreabertos e os olhos arregalados.
― Como assim? ― ela murmurou.
― Certo, ele me chamou para sair, conversamos e decidimos que não estava dando certo, depois fui a praia e fiquei amiga de um garoto da aula de literatura. Não é engraçado? Sabe, ele estava justo naquela praia ― disse o mais estranhamente natural possível.
― “Não estava dando certo”? ― meu pai falou sobressaltado. ― Você me fez ter que aguentar o fato de estar namorando aquele idiota, me fez discutir com a sua mãe e quase te colocar de castigo, por nada?
― Eu sinto muito, mas basicamente sim ― olhei para baixo. ― Não era para ter acontecido mesmo. E nem estou triste.
― Não? ― minha mãe perguntou.
― Não, nem um pouco.
― Então... Acho que está tudo bem ― disse ela indecisa e olhou para o meu pai, que pareceu meio confuso mas deu de ombros.
― Eu estou feliz que aquele garoto não tenha mais motivos para vir aqui — disse ele voltando a comer.
Minha mãe riu e eu fiz uma careta.
― Sim ― fiquei aliviada por não ter mais que falar sobre isso. Nem foi tão ruim assim.
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Olhava o teto branco do meu quarto, enquanto esperava o sono, ou alguma ideia do que fazer, vir. Nada. Palavra do dia.
Dentes escovados, todos os deveres feitos, todas as fotos checadas, todas as despedidas noturnas realizadas, toda a mente vazia. Bufei irritada e me virei pegando o celular na cabeceira.
Por favor, possa conversar, roguei enquanto mandava a mensagem.
Helena: Lia?
Amélia: Oi anjo. Já não está mt tarde ai não?
Ela era minha cara “amiga cruzando o Oceano”. Morava no Rio de Janeiro, justo de onde minha mãe e toda minha família materna eram. Foi uma coincidência meio engraçada eu acabar conhecendo justo ela há alguns meses pelo tumblr.
A coisa legal do nosso “relacionamento” era o jeito como a distância nos tornava próximas. No começo, claro, houve desconfiança de ambos os lados. Algo mais impessoal. Mas depois de um breve período de tempo, simplesmente funcionou.
Eu não convivia realmente com ela para saber tanto, e nem ela comigo, e isso tornava as coisas muito mais perfeitas. Não sabendo os defeitos de verdade – ou sabendo e se limitando a entender, porque não sabia como era conviver com eles – dava muito mais certo. Além do fato de que as duas preferiam, estranhamente, contar sobre seus problemas da vida com uma pessoa estranha do outro lado do oceano, do que com um amigo do seu lado.
Uma era a utopia da outra. Um suporte a centenas de milhas de distância
Helena: Um pouco haha mas é que eu queria te contar uma coisa antes do resto das pessoas. A não ser meus pais, eles já sabem.
Amélia: Sabem o q??
Helena: Eu e o Harry terminamos.
Demorou 2 minutos até eu receber uma resposta.
Amélia: Graças a Deus!!! WOHOO! Eu sairia com vc pra comemorar mas vc sabe das nossas limitações de contato hahahahaha.
Ela sempre detestou o Harry, então já esperava esse tipo de reação – talvez não tão animada, mas, com certeza, contente.
Helena: “Muito obrigada”? haha.
Amélia: Ops desculpe, como está querida? Foi mt ruim?
Helena: Não finja que se importa, sei que amou a notícia.
Amélia: Confesso, amei mesmo, mas quero saber se VOCÊ está bem.
Helena: Estou mt bem na verdade. Vc tinha razão, ele não era “o cara”. Só era um cara.
Amélia: Ainda bem q percebeu.
Helena: Foi meio estranho. Eu não senti nada msm, como se com ou sem ele não houvesse diferença.
Amélia: pq não há, pq ele não é o garoto da sua vida e pq eu sempre estou certa hahaha.
Helena: não exagere hahaha.
Amélia: Mas vc ta bem msm?
Helena: Acho que sim. Só sinceramente me sentindo mal por ter começado isso tudo, sem necessidade alguma, entende?
Amélia: Sim. Mas querida, tente não ficar pensando muito nisso.
Helena: Okay (:
Amélia: Mas mais alguma coisa além do milagre hoje?
Helena: Nada haha
Pensei de novo.
Helena: Bem, na vdd eu meio q fiz um amigo, foi legal. Sabe a praia onde costumo ir?
Amélia: Sei.
Helena: Ele estava lá e meio q me ajudou, não sei.
Descrevi esta parte do meu dia inteira para Lia, desde quando cheguei a praia até a despedida em frente à minha casa. Não sabia exatamente porque estava contando isso, mas me pareceu um assunto bom. E divertido. Esperou eu acabar de contar para fazer algum comentário.
Amélia: Jesus, isso foi meio inesperado. Pretende falar com ele na segunda ou ignorar?
Helena: Não vou ignora-lo! Ele parece legal.
Amélia: Gente, já shippo vcs dois, mesmo achando q ele deve estar te achando uma maluca agora.
Helena: OQ?!
Amélia: Cara amei, já vejo fanfics. Vão casar, ter 3 filhos e um cachorro chamado Picasso. Ele que perdoe as maluquices.
Helena: Hahahaha Isso é falta de sono, vá dormir, amanhã conversamos menina.
Amélia: Nossa, me despachando? Que “ótima” amiga vc é.
Helena: Não estou te despachando, apenas dando ao seu cérebro o merecido descanso, tb vou dormir. Amanhã a gente se fala pelo skype.
Amélia: Okay. Mas estou sem sono ainda, nem ta tão tarde aqui. Ah e amanhã vou chegar tarde da casa da minha avó então vai estar ainda mais tarde ai, não quero q vc fique dormindo de madrugada por minha causa.
Helena: Q fofa, se preocupando comigo haha, então tá, vemos isso depois.
Amélia: Tá certo, boa noite meu anjo.
Helena: Boa noite Lia.
Desliguei o celular e me aconcheguei melhor na cama, voltando a olhar para o teto. Minhas pálpebras se tornaram pesadas, depois de alguns minutos. Pensei em meu dia: o almoço, o encontro com Harry, a praia, Jack, o desenho, o ônibus, a paisagem, a conversa com meus pais, minha conversa com Lia, o desenho de novo... E adormeci sem lembrar no que exatamente estava pensando, como sempre.
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