Tumbeiro
1 Capítulo Único
Notas iniciais
TUMBEIRO
Ano 1583
Os olhos negros de Zarina contemplaram sua liberdade ceifada pelas correntes que lhe prendiam o pulso. A incredulidade desceu sobre sua face ao ver um português bruto, com uma horrenda cicatriz na testa, encarcerar seu corpo na escravidão e na promessa de uma viagem sem volta.
Zarina virou-se para sua meia-irmã, Malika, em muda suplica. Esta permaneceu impassível, um sorriso se pronunciando no canto dos lábios carnudos e cinza.
O português vestiu-a num saco marrom de batatas, levantou-a bruscamente por cima do ombro e se dirigiu a outra negra, que abraçava seu corpo delgado com repentino frio, misto de satisfação e medo.
— Aqui está o seu pagamento. – o português levantou um saco de moedas para ela. – Três moedas de bronze por uma escrava grávida.
— O dinheiro não importa desde que nunca mais torne a vê-la. – disse Malika.
O marinheiro branco confirmou com a cabeça e se dirigiu ao porto de Angola.
Zarina não falou uma única palavra. Aceitou o seu destino. O rancor de uma mulher arrancaria as vísceras de qualquer monstro que se interpusesse no seu caminho. No caso de sua meia-irmã, era a sua felicidade com Afiba.
***
Afiba caminhava pelo porto de Angola com o seu sobrinho, Taú. Passaram por ruas e vielas apinhadas de gente de várias etnias.
— Qual será o nome? – perguntou o mancebo.
— Ainda não sei. Estamos pensando.
O jovem negro observou o sorridente adolescente. Estava tão ansioso quanto ele pelo nascimento do seu rebento. Afiba passou a mão na cabeça de Taú de forma brincalhona, e quando se virou bateu ombro com ombro com um português troncudo.
O português carregava um saco puído, e parecia ser uma pessoa em seu conteúdo. O homem luso tinha uma grande cicatriz na testa e olhar duro de marinheiro.
— Olhe por onde anda angolano, ou não terá mais pés para caminhar! – o homem branco pensou em falar mais alguma coisa, mas interrompeu-se.
Afiba apontava-lhe uma lança no pescoço.
— O que você iria dizer? – sugeriu Afiba, observando os olhos irados do português que, derrotado, recuou.
— Que sujeito esquisito. É um traficante? – falou Taú, encarando o marinheiro se afastar apressadamente.
Mas Afiba estava em silêncio. Jurou ter escutado seu nome de algum lugar. Teria sido do saco que o traficante carregava? Seu coração se compungiu. Um terror abateu sobre sua alma e sua pele ficou fria mesmo com o calor do sol de meio dia. Um pressentimento que o atormentava e que não conseguia explicar.
— Vamos para a aldeia... – sussurrou Afiba com voz rouca, observando o marinheiro entrar no navio Helena, atracado no porto.
***
Afiba entrou na sua tenda gritando pelo nome de sua mulher, Zarina. Ela não estava lá. Entrara na aldeia perguntando por ela, mas ninguém a tinha visto.
Ele sentou-se na esteira e coçou a cabeça, preocupado. Alguém entrou.
— Afiba... – uma voz feminina sussurrou.
O negro sentiu as mãos quentes e suaves de uma mulher no seu ombro, avançando para o peito e músculos dos braços. Ele se levantou de supetão e fitou Malika. Os olhos como os de um gato, sorriso branco e convidativo.
— O que quer, Malika?
— Quero você!
— Nunca tivemos nada. Eu sou casado com sua meia-irmã.
Ela se afastou com um sorriso furtivo. Afiba desconfiou.
— O que está escondendo?
— Nada. – ela sorriu e se deitou na cama de palha e pele de ovelha. – Mas estou aqui por você, meu amor. Sempre te quis e sabe disso.
— O meu amor pertence à outra mulher. É a Zarina quem amo. – ele apontou para a saída. – Vá embora antes que minha mulher chegue e pense bobagens sobre nós. E nunca mais volte aqui!
Malika se levantou com um sorriso maldoso nos lábios. Passou por ele e parou na entrada da tenda com as mãos na cintura.
— Nunca mais verá Zarina. É a mim quem terá que amar!
— O que você disse? – Afiba se aproximou elevando a voz e as mãos. – O que quer dizer?
Ela ficou em silêncio e deu as costas, mas Afiba foi mais rápido e a puxou pelo braço com firmeza.
— Está me machucando... – ela protestou.
— Vai sentir muito mais que isso se não me falar a verdade! Diga!
Ela fez cara de dor. Tentou puxar o braço, mas as mãos de Afiba eram dois anéis de ferro.
— Eu... Eu a vendi como escrava.
Afiba aliviou a pressão. Seu rosto mudo, petrificado de asco por aquela mulher.
— Malika... Vendeu sua própria irmã?
— Ela não era minha irmã! – gritou ela num ímpeto súbito. – Ela roubou tudo de mim. Meu pai, meu amor e minha vida. Nunca deveria ter nascido. Nunca!
Malika recebeu uma tapa de Afiba, que a agarrou de novo pelos braços.
— Diga-me tudo! A quem você vendeu?
— Nunca irá achá-la. O navio partirá hoje mesmo.
— DIGA!
Malika emudeceu ante a ira de Afiba. Nunca tinha visto seus olhos com tanta fúria. Não conhecia este lado dele e não sabia do que seria capaz.
— Um português com uma cicatriz na testa, marujo do navio Helena.
Afiba a jogou duramente no chão, apontou um dedo ameaçador para ela e gritou:
— Não te matarei por que não quero ter o sangue de alguém da família de minha mulher nas mãos. É bom que esteja certa, do contrário te matarei sem piedade. Está mesmo certa desta informação?
Ela fez que sim, assustada e com lágrimas escorrendo pela face.
Sem dizer mais nada Afiba deixou a tenda e correu de volta para o porto de Angola, com necessidade urgente de alcançar seu destino.
***
Afiba não podia crer no que estava acontecendo. Percorreu as vielas e avenidas movimentadas do porto de Angola em total desespero.
Malika entregou Zarina nas mãos de um mercador branco em troca de uma esperança pífia de que Afiba cairia de amor em seus braços!
O ódio alimentava o monstro que nascia dentro de si. Sentiu vontade de esganar a traidora, esmurra-la até não sobrar mais nada de seu rosto. No entanto, não queria o sangue de um membro da família de sua mulher nas mãos.
Ao longe viu as enormes embarcações ancoradas no porto. Estruturas de madeira grande com mastros e centenas de cordas interligando-se como uma teia. Mesmo distante, sentiu o hálito de morte e podridão que exalava das naves flutuantes causadas pela falta de higiene dos tripulantes e escravos, bem como pelas mortes que aconteciam durante a travessia dos oceanos.
Seus olhos se encheram de lágrimas ao avistar a silhueta de um navio ao sol de fim de tarde, tendo por nome Helena gravado no casco. Gritou de angústia, mesmo percebendo que a garganta queria fechar de emoção. Era um navio de bandeira portuguesa, no qual tinha visto o marinheiro com uma cicatriz na testa embarcar.
O rosto úmido, coração aos prantos. O que seria da sua vida sem o seu grande amor?
Ajoelhou-se no chão, as mãos prostradas pendendo sem vida ao lado do corpo como a pedir misericórdia a um deus inclemente.
Mas a esperança fazia parte do seu ser. Não podia desistir agora. Pelo bem de sua mulher e do que ela carregava em seu ventre.
Fechou os punhos na areia suja do porto e divisou o navio a se perder no horizonte. Levantou-se, o coração a martelar o peito com pancadas fortes de medo ao perceber que só tinha uma escolha, e essa escolha o enojava.
Ser escravo e zarpar no próximo navio.
Correu para os navios atracados. Um amontoado de marinheiros andava de um lado a outro, carregando suprimentos, escravos e animais. Sujos, mal cheirosos, truculentos, empurravam-se, gritavam com raiva.
Afiba se aproximou de um grupo de marinheiros que levavam barris para o interior de uma embarcação. O negro bateu no ombro de um deles que se voltou para ele com uma careta de desagrado, fazendo seu imenso bigode tremer.
— O que quer, preto?! – perguntou com um rosnado e de punhos cerrados.
— Quando sai o navio?
O marujo olhou-o de cima a baixo, avaliando-o.
— Por que responderia isso a um negro como você? Chispa daqui, vai, antes que eu te chicoteie.
Afiba se afastou, mas observou o grupo de longe e ouviu o que conversavam.
— O que o escravo queria, Joaquim?
— Queria saber quando o navio partia. – riu. – Acho que ele queria ser um dos tripulantes.
Eles gargalharam.
— Vamos embora logo, amanha antes do sol se levantar partiremos e o capitão não gosta de atrasos.
— Do que ele gosta, Dias? Aquele cão não gosta de nada.
E voltaram a rir.
Afiba pegaria aquele navio.
***
No cair da noite, Afiba se aproximou do navio Esperança de Lázaro atracado num mar calmo e escuro. A tábua de travessia ainda estava suspensa e assim ele a atravessou, agachado, sua pele se fundindo com a escuridão da noite. Furtivo, adentrou o convés e caminhou por alguns marinheiros dormindo. O mar estava calmo e a lua encoberta por nuvens cinza.
Os marinheiros não esperavam qualquer ataque ou fuga, por isso baixaram a guarda e não havia tantos sentinelas acordados. Foi fácil para Afiba passar despercebido entre eles.
Desceu por uma escada ao andar inferior. Viu mulheres grávidas e crianças dormindo acorrentadas umas as outras, amontoadas, numa espécie de viveiro humano.
Ele desceu mais um lance de escadas e neste andar teve que prosseguir encurvado, pois o teto era muito baixo. Aqui apenas mulheres deitadas, num espectral silêncio, olhos confusos e assustados, a encarar as trevas. Aqui ainda não era seu lugar.
Viu um fosso quadrado envolvido por uma escuridão abissal. Desceu com cautela sobre um piso de madeira que rangia insistentemente. As trevas o engoliu e o cerrou a uma morte em vida. Escutou os resmungos das correntes e os roncos dos escravos. Exalava-se uma podridão de suor, urina e fezes. Um calor denso e sufocante. Mas ele não hesitou. Espremeu-se entre dois escravos e lá ficou. Pensou na sua amada e no que ela poderia estar sofrendo.
***
Afiba e os outros escravos sentiram o navio se deslocar sobre a água. As ondulações e as ondas se chocaram contra o casco, causando um som ritmado e sonolento. Os cativos murmuravam, as correntes se contorciam como serpentes e a aglomeração e angústia ecoavam de suas gargantas.
O que será de mim? Para onde eu vou? Minha família?
Afiba escutou choros e uivos de lamentos. Fechou os olhos e decidiu concentrar-se. O desespero poderia atrapalhar o que planejou: capturara embarcação!
Mas para isso, precisaria avistar o navio Helena primeiro, pois de nada entendia de navegar um navio.
***
Não sabia se era noite ou se era dia. Marinheiros desciam, jogavam milho e água, e esfomeados, a carga humana corria para comer com os dedos sujos e trêmulos.
Um dos marinheiros observou que Afiba não possuía anéis de ferro nos pulsos e tornozelos. O negro levou socos e pontapés como castigo e logo se juntou aos outros num elo ligado por correntes.
De tempos em tempos eram levados para o convés para se “exercitarem” em grupos de vinte ou trinta. Eram obrigados a fazer exercícios com o incentivo dos chicotes para que os músculos não ficassem fracos. Era conhecida entre eles como a “Dança Triste”. Muitas vezes obrigados a dançar, correr e pular, sobre os olhos vigilantes e ameaçadores dos brancos.
Afiba percebeu que este seria o momento ideal para planejar um ataque.
***
As correntes o interligavam, os uniam como uma única entidade hedionda de vergonha e asco. Os sobreviventes seguiam acorrentados aos mortos em meio ao odor de putrefação e morte. Olhos lacrimejavam e na língua não existia mais o discernimento de sabor.
Os mortos, depois de dias ao lado dos vivos, quando eram descobertos pelos marinheiros, eram jogados ao mar, formando uma trilha de corpos boiando, devorados por um cardume de tubarões que seguia a procissão de morte.
Pareceu-se passar mais um dia. Um grupo de vinte negros esquálidos subiu ao convés para a “Dança Triste”, dentre eles Afiba. Os anéis foram retirados dos seus corpos e uma breve e falsa sensação de liberdade se abateu sobre os semblantes tristes dos escravos. Eles pularam, caminharam, alongaram-se, assim como era esperado deles.
Afiba parou por um momento e avistou no horizonte um ponto escuro triangular. Estava meio embaçado, pois sua visão a muito se desgastara, mas reconheceu o navio português. Sentiu um aperto no peito e um frio na barriga. Chegou o momento.
Observou um marinheiro descansando meio sentado no batente do navio. Estava distraído, olhando o mar calmo. Em sua cintura um florete embainhado. Aproximou-se lentamente, alongando os braços que ainda conservava um pouco de músculo e energia. Com um bote rápido desembainhou a espada e empurrou o distraído homem para o outro lado, numa queda até o mar, para satisfação dos tubarões.
Escravos e traficantes olharam confusos e surpresos para o acontecido, pois era algo que fugia da rotina. Aproveitando a distração, Afiba aproximou-se do segundo branco e o golpeou na garganta, fazendo jorrar sangue como chuva no convés.
Escutaram-se gritos e correria. Um disparo de trabuco gritou no silêncio do oceano.
Afiba cortou a barriga de um marinheiro de um canto a outro e suas tripas caíram para fora como um vômito de espaguete. Outro correu com uma faca em sua direção, mas o negro furou seu olho e o chutou para longe.
Os outros escravos tentaram reagir. Um deles chegou a esganar um branco com as próprias mãos, mas todos foram mortos por espadas ou balas em questão de segundos.
O rebelado correu para uma das cabines, perseguido por uma turba de homens brancos. Fechou-a e colocou uma tora de madeira na porta para retardar a entrada deles. Era tempo suficiente para o seu ritual!
Afiba cortou o seu braço e deixou o sangue escorrer da ferida. O líquido vermelho tocou o chão de madeira e se espalhou formando uma poça. Ele rasgou um lençol de uma das camas e enrolou no braço. O pano ficou empapado de sangue. Enquanto isso, os marinheiros batiam com raiva e insistência na porta, arrancando pedaços de lascas e madeira.
O negro se ajoelhou e soprou a poça de sangue. Seus olhos já não eram negros, mas sim dois braseiros vermelhos como fogo. O líquido ficou escuro e uma imagem disforme se formou. Um rosto hediondo emergia, a esticar-se numa espécie de membrana preta como uma placenta. Uma cabeça se formou. Em seguida um corpo negro. Logo uma criatura de garras se materializou do seu sangue. Era mais alto que Afiba. Uma criatura envolvida em sombras, garras no lugar das mãos, olhos vermelhos como as do seu criador e a bocarra como as de um tubarão.
— Ordens... – sibilou a criatura.
— Matem eles, Jujau! – disse Afibia apontando para os invasores.
Neste instante os traficantes adentraram na cabine. Assustaram-se com a criatura da noite e tentaram fugir, mas ela pulou sobre eles desferindo golpes das garras e dos dentes.
O cheiro de sangue e carne crua se espalhou. O feiticeiro africano arremessou o florete que empunhava sobre um sobrevivente que tentava escapar, cravando-o nas costas.
Afiba soprou em mais uma gota de sangue que restava no chão e fez-se uma espada negra. Empunhou-a e arremeteu-se para cima dos traficantes de escravos.
Os gritos dos homens brancos alcançavam todos os compartimentos dos navios. Os mais bravos tentaram enfrentar o Jujau, mas eram ceifados sem piedade. O negro feiticeiro entrava nas cabines e cortava peles e músculos dos traficantes.
O capitão do navio Esperança de Lázaro empunhou um trabuco e disparou contra a criatura. A bala atravessou, mas a enfraqueceu. Ela estava diante de centenas de corpos, uma massa de sangue e restos humanos.
— Maldito! – gritou o capitão, apanhou uma tocha e a acendeu. – Não vai pegar meu navio, todos vão morrer!
Afiba apareceu por trás dele e enfiou a espada negra que atravessou o corpo, a ponta da mortal arma visível do outro lado. O homem grande e de barba branca se virou e acertou a tocha na lateral do rosto do feiticeiro africano. Este, pego de surpresa, caiu atordoado.
O capitão segurou a ponta da espada negra cravada no seu corpo. Seus dentes tortos e imundos molhados de espuma e sangue, numa careta de dor. Gritou de raiva, mas foi firme e retirou a amaldiçoada espada, jogando-a no chão.
Ele apanhou a tocha, que ainda estava acesa, cambaleou para o interior da cabine e desceu um lance de escadas aos tropeços.
Afiba se recobrou, apanhou a espada e correu atrás dele.
O capitão do Esperança de Lázaro caminhava sem forças no andar de baixo, onde mulheres negras e crianças, todas abraçadas numa massa de mãos, corpos e correntes, se instalara. Ele olhava para os escravos e para um barril de pólvora encostado na parede.
— Se entregue e o deixo viver. – falou Afiba, cauteloso, descendo do convés e se aproximando da loucura do homem.
— Não há mais salvação para ninguém, seu preto nojento! O oceano será seu túmulo, se antes não for devorado pelos tubarões.
O capitão abriu a tampa do barril, fechou os olhos e jogou a tocha dentro.
***
O capitão do navio Helena estava nu dentro de sua cabine quando escutou o som de uma explosão ao longe. Ele correu até a janela, amedrontado, e viu um clarão de fogo.
— Aquele navio... ? – ele coçou o queixo barbudo. – É Esperança de Lázaro. O que será que aconteceu?
Ele se virou para uma escrava nua deitada em sua cama de mãos amarradas, e gritou imperioso.
— Desça, mulher! É tempo de voltar para seu lugar!
Sem dizer palavra ela pulou da cama e correu dali. Ele se vestiu e prendeu o cinto com o florete embainhado. Saiu para o convés e viu a euforia dos marinheiros que gritavam e gargalhavam admirados, apontando para a bola de fogo e fumaça.
— É o Esperança de Lázaro, capitão. – disse um.
— Capitão, acho que eles estão sendo atacados. – disse outro.
Pedro se aproximou. Era o primeiro imediato e o homem mais alto da embarcação.
— Acredito que seja uma rebelião dos negros, Barrosa.
O capitão contemplou as chamas do outro navio e sorriu. De certa forma era seu concorrente e apreciava isso. Por outro lado, revoltas de negros era algo perigoso. Era um navio fácil de ser atacado e espoliado, não seria uma má ideia para os seus cofres.
— Vamos nos aproximar com cautela e avaliar a situação.
— Mas capitão, se o navio foi realmente tomado por escravos não seria aconselhável.
— Você vê problemas, Pedro, eu vejo oportunidades. – e se dirigiu aos demais marinheiros gritando. – Içar velas marujos, vamos ao encontro daquele navio!
***
A explosão fez vibrar a superfície do oceano. Afiba conseguira correr na direção oposta, mas foi jogado contra cordas e lonas no convés. Ficou inconsciente por muito tempo. Levantou-se com dificuldade, a cabeça ardendo em dor. Rapidamente, procurou avaliar os danos do navio.
O navio Esperança de Lázaro tinha um grande rombo no casco lateral, no qual a água do oceano entrava em grandes goles.
Ouviu gritos de desespero vindos do interior do navio. Pessoas estavam se afogando! Ele desceu os dois andares e viu a borda do alçapão coberta de água do mar. Empalideceu ao ver as mãos dos companheiros entre as grades, tentando sair em vão. Mãos de homens mortos, jazidos na tumba de água.
Não adiantaria tentar tirá-los dali.
Subiu para o outro nível e as mulheres, as sobreviventes, estavam assustadas e de olhos tomados pelo terror. Partiu as correntes que as prendiam.
— Subam e fiquem nas cabines. Procurem alguma coisa para comer.
Elas correram subindo as escadas, desesperadas. Afiba soltou as grávidas e as crianças, a maioria chamuscada e abalada pela explosão. Muitas sangravam pelo nariz e ouvido, outras despedaçadas pela explosão. O feiticeiro virou o rosto para o canto do compartimento que entrava água do mar em torrentes. Ele subiu para o convés, olhou para o navio Helena e percebeu que ele se aproximava lentamente.
Teria que agir rápido.
***
Afiba, com a ajuda dos sobreviventes, pelo menos aqueles que ainda tinham força, juntou os marinheiros mortos no pátio central. Exausto, posicionou o último. Seu corpo manchado de sangue dos cadáveres sentiu o peso das semanas trancafiado no porão sem uma alimentação e higiene adequadas. Sua vista escureceu por um momento e então se sentou no chão imundo, apoiado em uma caixa de madeira.
Sentiu uma mão tímida tocar seu ombro. Abriu os olhos. Uma linda menininha negra, desnutrida, faminta, mas de olhos radiantes de alegria que toda infância preservava. Sorriu. Quanto tempo não sorria? Ela oferecia um pedaço de pão, em silêncio. O feiticeiro africano aceitou e comeu.
— Vá para sua mãe, pequenina.
Ela confirmou com a cabeça e partiu.
Afiba levantou-se com dificuldade e caminhou entre os corpos. Em cada um agachava-se e soprava a boca deles com um hálito que trazia magia e mistérios da África antiga. Seus olhos queimavam vermelhos como lamparinas.
Instantes depois os corpos se levantaram em fileiras organizadas como um exército fúnebre. Corpos talhados em garras, feridas expostas, desmembrados pelo ataque inclemente do feiticeiro e do Jujau enfurecido.
Um dos traficantes deu um passo trôpego a frente, olhos em órbita, corpo mole e sem vida.
— Ordens... – grunhiu o zumbi.
***
Era meio da tarde quando o tumbeiro, como também eram conhecidos os navios que traficavam escravos, aproximou-se do outro danificado. Os marinheiros do capitão Barrosa empunhavam espadas e gritavam impropérios prontos para o combate. Outros seguravam cordas com ganchos para alinhar o navio ao deles, assim as ondas do mar não o afastariam no calor do combate.
Barrosa sorriu com a possibilidade da fortuna que o esperava. Gritou para o primeiro imediato.
— Pedro!
— Sim capitão?
— Espere o meu comando para iniciar o ataque. Vá pelo flanco norte e mande outro grupo pelo sul.
Este entendeu o comando e se afastou correndo entre os outros marinheiros gritando ordens.
O navio Esperança de Lázaro ficou mais próximo e o capitão pôde ver um único homem no convés. Um negro alto e, apesar de magro, aparentava ser forte e possuidor de algum músculo. Seus olhos pareciam irradiar chamas, o que fez estranhar de inicio. O chão do convés estava coberto por uma camada vermelha de sangue e apresentava indícios de ter acontecido alguma carnificina. Mas não tinha corpos, apenas alguns pedaços de membros humanos aqui e ali.
— E onde estão os outros escravos? Será que apenas este sobreviveu?
Observou o estrago da explosão no casco do navio. Seria questão de horas para que o navio sucumbisse na solidão do oceano, levando suas riquezas e seus lamentos.
O negro solitário levantou uma bandeira branca. O capitão Barrosa sorriu em seu íntimo. Não conversava com negros. A utilidade da boca de um era apenas para gritar e lamentar. Porém, estava por demais curioso com a audácia daquele escravo que tomara o navio aparentemente sozinho.
O navio estava apenas a alguns metros do outro.
— Eu quero apenas a minha mulher que está neste navio! – gritou o negro com as mãos em concha em torno da boca. – O navio será seu e tudo que há nele, mas eu a quero comigo.
— E quem seria sua mulher, negro? – perguntou de volta Barrosa, achando engraçada a situação.
— Ela estava grávida quando partiu de Angola. Estou aqui por ela. Seu nome é Zarina. Entreguem-na e não terá maiores problemas.
— Do contrário?
— Todos vocês serão comida de tubarão.
Uma agitação indignada se espalhou como pólvora entre os tripulantes brancos do navio Helena. Quem ele pensava que era para ameaçar ele e seus subordinados? Fechou os punhos com raiva diante de tanta ousadia.
— Tragam todas as escravas grávidas aqui para o convés! – gritou o capitão.
Alguns marujos arremessaram as cordas com gancho, prendendo ao parapeito da outra embarcação. Quando firmes, os homens puxaram a corda enquanto seus músculos eram retesados pelo esforço, trazendo o outro navio para perto, alinhando lateral com lateral.
— Puxem! Puxem! – gritavam em uníssono.
O som oco e forte de madeira contra madeira se fez ouvir, tremendo a tudo e a todos de ambos os navios tumbeiros. A adrenalina se apoderou deles.
— Pedro! – gritou Barrosa. – Traga-me o negro com vida e mate tudo que encontrar dentro daquela carcaça.
— Sim capitão. Escutaram homens! – se dirigiu aos outros marinheiros e, agarrados a cordas, deslizaram para o navio inimigo.
Cercaram sem maiores problemas o negro e deram socos em seu rosto e estômago. Três marujos o levaram para o capitão, o resto saiu correndo pelo interior da nau aos berros, loucos por sangue e morte.
***
Afiba levantou os olhos para o capitão. Diante dele, quatro mulheres grávidas e subnutridas, olhar fundo e petrificado.
Barrosa sorria enquanto alisava a barba negra e crespa.
— E então, negro, qual destas é a sua mulher? Outras morreram durante a travessia, e os tubarões tiveram sobremesa. – ele riu.
O feiticeiro africano olhou para cada uma delas atentamente. Nenhuma se parecia com sua esposa. Engoliu seco, o coração desacelerando os batimentos num pânico que tentava ocultar de sua face. Ficou trêmulo. Nada parecia importar agora, pois tudo fora em vão.
Uma das negras levantou os olhos para Afiba. Na cabeça apenas alguns tufos de cabelos crespos, o olhar distante. No rosto, marcas de violência cicatrizadas, os lábios rachados e com escorbuto. Ela ensaiou um sorriso tímido de dentes marrons, mas perfeitos em simetria.
— Afiba, é você? – ela sussurrou.
O jovem negro sentiu que seu estômago se fechava e que seu coração se comprimia numa manopla. Estava tão diferente. O que esses desgraçados fizeram com ela?
— Zarina? – perguntou incrédulo.
Ela fez que sim com a cabeça quase desmaiando de emoção.
— Você veio me salvar?
— Sim. Estou aqui por você e pelo nosso filho.
— Filho? – ela não compreendeu de imediato. Há muito tinha desistido de sonhar, desistido da vida. Entretanto, nos olhos de Afiba, ela enxergou uma centelha de esperança. Mesmo que morresse agora, morreria feliz.
Afiba levou um tapa no rosto e caiu vendo estrelas. Piscou rapidamente até a vista se normalizar. Levou um chute nas costelas e a dor lacerante o despertou à realidade. A sola da bota do capitão Barrosa encostou duramente na bochecha dele e com firmeza o comprimiu ainda mais empurrando para baixo.
— Seu negro de merda. Acha que pode fazer rebelião num navio escravo e sair impune? Você será uma lição para todos os outros que tentarem fazer o mesmo. – Barrosa cuspiu nele. – Porco imundo! Vou matar seu filho e sua mulher bem na sua frente. Vou abrir a barriga dela, tirar seu filho e matá-lo!
Barrosa escutou um grito do marujo atrás de si. Em seguida, do navio Esperança de Lázaro, os gritos de horror e morte se espalharam numa sinfonia hedionda e funesta que carregava medo e aflição.
— Mas o que diabos...?
Afiba se virou e, com os punhos, retirou a bota de seu rosto. Jogou-se contra o capitão e eles se engalfinharam no convés, arremessando socos e pontapés.
Barrosa empurrou o negro com a sola dos dois pés contra um conjunto de barris, que se espalharam com o impacto do corpo. Afiba gritou de dor e se embolou, livrando-se das estocadas da arma branca empunhada pelo agressor.
Zarina, impotente, contemplava seu marido ser agredido. Tentou retirar as amarras do seu frágil pulso, mas estava esgotada demais da viagem e do tratamento desumano. Viu um cutelo fincado no piso de madeira e se arrastou até ele.
O capitão Barrosa deu um chute em Afiba. Este caiu pelas escadas do convés, embolando-se. O homem branco observou o caos que se instalara ao seu redor e temeu.
No outro navio seus subordinados eram atacados por duas sombras com garras e olhos de fogo. Elas cortavam, mordiam e saltavam sobre eles com fúria assassina. Membros e sangue eram jogados pelo ar, pelo ímpeto dos arautos das sombras, ceifando a vida daqueles homens que tentavam fugir, mas que eram subjugados numa dança de morte.
No seu navio, zumbis saíram do outro lado do convés, subindo com os próprios dedos entre as fissuras que encontravam na escalada do casco. Percebeu se tratar dos marujos pertencentes ao Esperança de Lázaro. Molhados, algas nos cabelos e nas roupas, ferimentos abertos e roxos, caminhavam trôpegos e com os braços estendidos. Eles gemiam um lamento rouco e desumano, lançando-se contra os poucos homens na sua embarcação, de forma lenta, mas extremamente fatal.
— Que insanidade é está? Estarei ficando louco? – gritou Barrosa.
— Não está louco. – disse Afiba subindo as escadas até o convés. Em sua mão uma espada negra.
O capitão Barrosa jogou sua adaga para longe e desembainhou o florete, avançando sobre o oponente com estocadas e golpes em diagonais. Afiba defendia, recuando e jogando objetos que encontrava pelo caminho no agressor.
— Não adianta fugir, cão dos infernos! Você vai morrer!
Os dois esgrimistas trocaram fortes golpes numa dança de espadas que qualquer erro sentenciava a morte. Afiba defendeu um golpe, mas com o punho Barrosa acertou-lhe um soco no rosto. O negro caiu para trás, o olho atingido inchado, e levantou-se atacando ferozmente desferindo sequências rápidas e potentes.
Com extrema habilidade Barrosa defendeu o ataque e, num golpe súbito, cortou o braço de Afiba. O sangue molhou seu braço e seus dedos. A espada negra caiu e se desfez em pó.
— Magia. – falou admirado o capitão, mas sem nenhum medo na voz. – Reconheço essas magias africanas. Trata-se de um feiticeiro, então?
Afiba encarou-o em silêncio.
— Audacioso. Mais corajoso que muitos cães covardes que encontrei nos sete mares, contudo o destino quis que você nascesse preto e meu inimigo!
Barrosa levantou o florete para um ataque final. Ele desceu a lâmina sobre o pescoço do feiticeiro africano. Ele se abaixou, ficando de joelhos, e soprou o seu sangue empapado no chão. O capitão acertou uma joelhada no nariz de Afiba que caiu para trás com o nariz sangrando. O capitão levantou a espada e penetrou na coxa do negro, atravessando músculos e fincando-se na madeira do chão. Apanhou outra lâmina e foi até Zarina, que tentava desamarrar suas mãos com um cutelo.
— Feiticeiro. Contemple a morte de sua mulher...
Uma sombra com garras arrancou a cabeça do capitão com um único golpe. Do buraco no pescoço, sangue jorrou como um chafariz. O corpo caiu de joelhos e depois para frente, sem vida.
Afiba estremeceu de dor, mas conseguiu retirar a espada que o prendia ao chão. Correu mancando para a mulher e a abraçou com volúpia.
— Amor da minha vida! – sussurrou Afiba.
— Sol da minha vida. – ela murmurou enquanto lágrimas escorriam dos seus olhos.
Afiba levantou-se e contemplou o massacre ao redor. Mais corpos, mais mortes e mais desolação.
— Liberte-nos... – grunhiu um dos marinheiros transformados em zumbi do navio Esperança de Lázaro, abrindo os braços para o que fez com a tropa de Barrosa. – Está feito!
Afiba contemplou, com menosprezo, o traficante de escravo e deu um sopro.
Os zumbis caíram como bonecos de pano e morreram pela segunda vez.
O jovem feiticeiro ajudou sua esposa a se levantar. Ela olhou-o amorosa. Dos olhos, irradiavam um amor puro e verdadeiro. A esperança fez seus olhos brilharem com vida renovada.
Afiba sorriu. Todo o esforço, lutas e mortes, tinha valido a pena, pois estava diante da mulher que trazia sentido a sua vida. Com os dedos ásperos, limpou as lágrimas que escorriam dos seus olhos.
— Para onde iremos, meu amor? – ela perguntou.
— Para onde iria esse navio?
— Para um novo continente chamado Brasil, disseram um dos marujos.
— É para este lugar que iremos. Começar uma nova vida.
Eles se abraçaram com amor e afeto. A testa dela tocando no ombro dele, seus braços a apertando de forma protetora.
Afiba sentiu que seu filho chutava a barriga de sua amada. Sorriu e a abraçou mais forte. Nunca deixaria que nada acontecesse com eles.
Ao longe, uma floresta tropical se insinuou no horizonte, enquanto o vento sul guiava o navio Helena para o continente chamado Brasil.
Fim.
Fale com o autor