Tudo tão incerto
1 Tudo!
Notas iniciais
Tudo tão incerto
Poncho. Voo A458 . México -> Los Angeles.
Olhei no relógio pela sétima vez em um tempo de 3 minutos. Estava ansioso, ou quem sabe nervoso. Bom, o meu status era o que menos importava naquele momento.
O voo estava demorando mais do que deveria ou estava durando o tempo certo, o problema mesmo era que eu estava surtando sentado naquela poltrona, sem saber o que me esperava quando eu colocasse meus pés em terra firme.
Talvez eu soubesse, mas como um bom ator, eu sabia muito bem mentir para mim. Ou pelo menos eu tentaria e insistiria em mentir.
Depois de um suspiro eu passei minhas mãos suadas em minhas coxas de tanto nervosismo, transbordava ansiedade, enfiei minha mão no bolso da jaqueta de couro, pegando o endereço dela. Estava devendo uma a Luisillo. Talvez uma semana em Las Vegas como eu o havia prometido há algum tempo atrás pagasse esse favor. Ri de minhas próprias conclusões.
Fechei o sorriso ao olhar a janela do avião do meu lado, o tempo completamente fechado, segundo o comandante as condições de voo não era das melhores, uma tempestade estava preste a desabar sobre Los Angeles. Ótimo. Pensei. Era só o que me faltava mesmo.
Peguei meu celular e tirei uma foto da janela do avião e depois postaria no meu Instagram, de uns tempos para cá, eu postava mais lá do que em qualquer outro lugar, me sentia mais seguro. Não seria tão bombardeado de opiniões.
Faltava pouco para chegar e quanto mais avançava o avião mais a chuva parecia nos acompanhar, nos seguindo, me afundei na minha poltrona e respirei mais profundamente, o homem com quem dividia a poltrona já não aguentava mais de me ver tão inquieto. Eu resolvi ignorá-lo.
Fiquei pensando por um momento que legenda talvez eu colocasse na foto. Talvez a legenda pudesse ser “Meus sentimentos se refletem aqui..." Porque de um jeito ou de outro, minha relação com Dulce se resumia naquilo. Tempestade.
Bufei olhando a janela do avião de novo, coçando minha barba, me lembrei de Perla por um momento e ressentido engoli minha saliva, ela estranhou minha ida repentina para L.A ainda mais quando ela estava tão ocupada no seu trabalho que não pode me acompanhar.
Tentei esquecer ela por um momento, eu precisava fazer aquilo, sabia que minha ferida e a de Dulce se aprofundariam mais por esse corte. Mas, eu definitivamente precisava reencontrá-la e criar uma bolha para que esquecêssemos de todo o resto.
Bem vindos a Los Angeles, senhores passageiros.
O avião tinha pousado e eu sequer percebi tudo que estava a minha volta.
Depois de pegar minha mala segui com pressa até um ponto de táxi, localizado na saída do aeroporto.
: — Céus! – Exclamei preocupado ao ver a chuva que caía sobre Los Angeles. Era o meu dia de sorte mesmo. Tinha como ser pior? Xinguei algumas vezes e fechei mais a jaqueta que eu usava, me dirigindo até o táxi mais próximo, vendo um senhor de aparência latina abri-lo para mim.
Assim que me acomodei, saquei meu celular de meu bolso e digitei um sms rápido para Luisillo explicando a minha situação. Eu sei que já estava ficando chato com aquilo, mas eu tinha que confirmar a mesma coisa pela décima vez.
“Tem certeza do endereço. Luisillo? Ela vai estar lá no apartamento?”
Enviei enquanto via o mundo desabar tamanha era a chuva.
“Vai em frente, Poncho. María jamais sairia hoje com uma tempestade anunciada em Los Angeles.”
Suspirei agradecido ao ler sua resposta. Pedi para o motorista que cortasse o máximo que pudesse o caminho, mesmo que ele fosse pelo mais longo, com essa tempestade o trânsito deveria estar caótico.
Foi o que ele fez, seguindo o meu passe livre feliz já que uma corrida mais longa seria mais lucrativa para ele. Sem pensar muito nisso me deixei levar pelo nervosismo a viagem foi pensada em detalhes, perfeccionista do jeito que eu era, eu cheguei a Los Angeles, justamente quando seu namorado tinha voltado para o México, Dulce estava num dia de folga e Perla não pode me acompanhar.
Cheguei ao endereço paguei logo o taxista e peguei minha mala, saindo do táxi, me molhando completamente. Demorou para o porteiro abrisse a porta para que eu entrasse, graças a ajuda de Luisillo consegui entrar no condomínio sem maiores problemas e melhor sem que Dulce soubesse.
No elevador olhei meu reflexo estava totalmente encharcado balancei a cabeça para tirar um pouco do excesso, mas não teve jeito minha camisa vermelha molhada colada ao corpo, o que me protegeu foi minha jaqueta que não adiantou muito. Enfim, o importante era tudo estava conspirando ao meu favor, na medida do possível.
“…I don't care if it hurts, I want to have control…”
Assim que as portas do elevador se abriram indicando o andar que ela morava, meu coração passou a pulsar forte. Por que desde desliguei aquela ligação, eu desejei chegar nesse momento.
Andei meio incerto até sua porta e toquei a campainha depois de algum tempo, respirando forte e esperando com uma falta de ar que ela logo abrisse a porta.
Segundos que pareceram uma eternidade até que ela finalmente abrisse a porta, eu não estava preparado para aquela visão do paraíso. Não sei se a nossa distância influenciou ou que há muito tempo eu não via uma foto dela. Mas, tudo me fez sentir falta de ar mais evidente, por isso comecei a respirar mais rápido para não me esquecer desse ato importante.
Dulce me encarava surpresa, vestia um short curto, um blusão largo, o cabelo preso num coque mal feito, alguns fios revoltos insistiam em cair no seu rosto, minha mão coçou pela vontade de colocá-los atrás de sua orelha. Sem maquiagem. Porém, suas bochechas evidenciavam um avermelhado. Soltei um suspiro encantado, meu coração estava pulsando tão alto que chegava a me incomodar.
Era a menina por quem me apaixonei há anos atrás, refletida na mulher que me encarava. Seria possível me apaixonar novamente simplesmente por um olhar?
Ficamos naquele olhar descrente sem saber o que dizer ou agir. Apenas nos olhando.
Ela piscou os olhos três vezes e abriu um pequeno sorriso involuntário e desacreditado.
:- Poncho?
:- Sim. – respondi ainda envolvido na bolha que se formou entre nós dois.
Mais um silêncio foi estabelecido. Desde que Dulce abriu a porta ela não deixava de me olhar, era um olhar profundo que me cativava um fixo olhar castanhos intensos que pareciam conversar comigo. Ela me olhava como se eu fosse um pedido realizado dela. E me arrepiei por nossa ligação.
:- Não vai me convidar para entrar? – eu tinha que disfarçar de algum modo e infelizmente quebrei nosso olhar.
Corando violentamente ela deu dois passos para o lado, saindo do meu caminho.
: — Desculpe, eu... O que você faz aqui? — Olhando para trás rapidamente eu pedi licença antes de entrar naquele ambiente calmo e envolvente.
Esquecendo rapidamente da pergunta que ela havia me feito, fechei meus olhos e busquei seu cheiro no ar. Tão delicioso que me senti embriagado, o aquecedor estava ligado deixando tudo aconchegante, isso explicava o porquê dela está com as bochechas vermelhas e vestindo short.
Olhei a janela lá fora a tempestade gelada não dava trégua e tudo contrastava com o clima quente do seu apartamento.
:- O que faz aqui, Poncho? – ela repetiu a pergunta.
: — Eu precisava vir... Te ver. Não tinha como eu correr disso. — Confessei ouvindo seu suspiro alto tomar conta do ambiente fechado. Dulce colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, a mesma que eu havia ansiado amparar, há alguns minutos atrás.
: — Já não conversamos tudo o que tínhamos para conversar? — Sua voz era baixa e sufocada, como se ela estivesse tentando medir o que dizia.
: — Não. Quer dizer, sim... Mas eu... — Passei a mão pela nuca mais nervoso do que antes e fechei os olhos rapidamente, voltando a encará-la. — Já estou aqui, já está feito.
: — A merda já está feita. — Ela riu sem vontade, levando as mãos à cintura e andando até o meio do cômodo. — Pensei que eu tivesse deixado às coisas claras na ultima ligação que me fez Poncho. Te pouparia uma viagem até Los Angeles. – ela mudou completamente de quem havia me recebido agora pouco.
Eu tentava me concentrar em alguma resposta, mas a música que rolava no ambiente estava dificultando para que eu pensasse, dei uma olhada rápida onde tinham vários papéis espalhados e outros amassados na sala, ela deveria está compondo.
Dulce se dando conta para onde eu olhava foi no local e começou a recolher todos os papéis antes que eu lesse algo do que estava escrito, era impressão minha ou ela não queria que eu soubesse o que ou sobre quem ela estava escrevendo?
: — Estava compondo? — Perguntei apenas para mudar o ritmo da conversa e a vi acompanhando meu olhar ate os papéis.
: — Sim. Estou sim.
: — Eu posso ver? — Eu disse intrigado enquanto ela recolhia os papéis com certa pressa.
:- Não! Por que você não me diz logo o que quer em Poncho? — ela terminou de recolher tudo e guardar dentro de uma pasta.
: — Porque você não sai só um pouquinho da defensiva? – eu falei tirando minha jaqueta que estava me incomodando pelo peso. Percebi um olhar de relance de Dulce ao ver que estava molhado.
:- Como conseguiu meu endereço? – Ela ignorou minha pergunta e permaneceu na defensiva.
:- Nós temos amigos e fãs em comum, Dulce — Eu ri sem vontade e neguei com a cabeça, a vendo revirar os olhos. — E não faz tanta diferença saber isso, já estou aqui mesmo.
: — Deveria fazer, porque afinal, Poncho, foi no meu apartamento que você apareceu do nada sem avisar.
Eu a responderia, mas uma tosse incontrolável tomou conta de mim. E Dulce hipocondríaca do jeito que era.
: — Além de chegar no meu apartamento sem avisar você ainda é um burro por ter pegado essa chuva. Está todo molhado. Eu vou pegar uma toalha para se secar, espere.
Eu riria se parasse de tossir, mas... Até assim ela me atacava. Era incrível. Após ela sumir em algum corredor do seu apartamento eu me senti cansado não só emocionalmente, tudo estava conspirando até a porta do apartamento ser aberta.
Eu fiz aquela viagem para falar tudo o que eu sentia sobre aquela nossa situação insustentável, dizer que tudo estava saindo errado por que não havia encontrado nenhum tipo de paz desde a última vez na qual nos falamos, por conta de Dulce.
:- Pronto aqui está! – Ela voltou sem que eu percebesse. Peguei a toalha branca que ela me estendia.
E comecei a passar a toalha bruto no meu rosto, sentindo raiva por que as coisas saíram do meu controle, refletindo minha irritação ao me secar. Quando terminei de tirar o excesso involuntário tirei a camisa. Decidido a trocar de roupa, quando abri minha pequena mochila para pegar alguma outra roupa me frustrei vendo que a chuva foi tão forte que molhou tudo. Me levantei derrotado.
Dulce me encarava estática, as bochechas tão vermelhas quanto tomate.
: — Não vai vestir outra camisa seca? — Ela me perguntou confusa, me fazendo soltar um suspiro abafado.
: — Essa porcaria de tempestade molhou todas as minhas roupas. Não há santo que ache qualquer peça seca aqui dentro agora. — Exclamei mais irritado ainda e taquei a camisa molhada em algum lugar.
“...Los ojos aún cerrados para no afrontar…”
Dulce pareceu pensar por alguns minutos e logo voltou a falar.
: — Eu tenho umas camisas do Lu...
: — Não! — A interrompi na hora, inalando com tanta força que senti meu pulmão arder. Qual era a dela? Queria mesmo me dar camisas do namoradinho para que eu vestisse?
: — Prefiro ficar assim, obrigada.
: — Não seja patético. São só camisas. — Soltei uma gargalhada irônica e joguei as mãos nos bolsos do jeans molhado que eu usava me afastando um pouco da minha mochila.
: — Patético eu seria se vestisse uma camisa do seu namorado. Faça-me o favor, Dulce. Não me julgue de ridículo.
:- Você está sendo ridículo, Poncho. – ela bufou revirando os olhos.
: — Ridículo? — Eu ri novamente. — Seria o mesmo que eu te desse um conjunto de sutiã e calcinha de Perla para você usar.
:- Por favor, não seja infantil. – apesar de suas palavras ela ficou séria me encarando feio ao escutar nome da minha namorada.
:- Por favor, digo eu! Ele também deixa calças por aqui? – eu perguntei irritado e ciumento – Por que meu jeans está molhado e o melhor que faço é tirá-lo para não ficar doente. – fiz menção de desabotoar meu jeans e tirando meu tênis ficando descalço.
: — Não... Ouse. — Ela disse baixo e grosso, uma ordem. Seus olhos me fuzilavam de uma forma que senti frio na espinha. Me fuzilavam cheio do desejo que eu tanto sentia saudade.
: — Que pena, talvez ele carregue todas as calças dele. — Continuei com toda aquela brincadeira e a vi passar a mão pelo rosto, nervosa... Demais.
:- Eu não acredito que você fez uma viagem tão longa para fazer essa ceninha aqui. — ela balançou a cabeça — Não é possível.
Eu já estava distante do meu objetivo mesmo, lidar com Dulce é como brincar com fogo e eu estava em brasa aquele momento, sentia uma necessidade de voar no pescoço dela e fazê-la engolir todas aquelas malditas palavras.
Foi o que eu fiz andei rapidamente até onde ela estava, ficando próximo demais, ultrapassando o limite involuntário de “seguro” para nós dois.
:- O que queria que eu fizesse Dulce? – tão perto dela eu estava — O que queria que eu dissesse?
Ficamos nos encarando em silêncio deixando que o barulho estrondoso da tempestade mesclasse com a voz de Bebe, que seguia cantando suas músicas e nos embalando com sua voz.
: — Você já disse... — Engolindo a seco ela soltou todo o ar pelo nariz, piscando pesado. — Disse que não queria mais.
: — Porque você me desprezou primeiro, você Dulce. — Gritei tornando a me afastar. Eu estava transtornado. Podia sentir o sangue pulsando rápido em meu pescoço. — Você quem escolheu nos jogar no lixo, não eu.
:- Eu? – ela falou ressentida – Quem foi que se afastou primeiro de nós dois? Quem passou a nos ignorar? Quem? – Ela se reaproximou para me apontar – Você! Talvez eu só tenha fechado a lata de lixo, Poncho, por que se estamos nela foi por você ter nos atirado primeiro.
: — Ah, por favor, Dulce...
: — Por favor? Não sabe ouvir a verdade, não é Alfonso? — Ela riu cínica, negando com a cabeça enquanto apontava o dedo incriminador para mim. — O teu problema é que você não gosta de ouvir a verdade. Você sabe me julgar, me apontar acusações, mas ouvir a verdade você não sabe.
: — Qual que é a verdade pra você, Dulce? A que eu estou namorando a Perla? A que eu nos ignorei durante um bom tempo ou que eu te amo apesar de tudo? Que eu malditamente ainda amo você? Qual é a droga da verdade pra você? – explodi gritando com ela.
E de novo como quando ela me viu chegar, ela piscou descrente umas três vezes, nas palavras que eu cuspia nela! Ela abaixou o olhar e de cabeça baixa falou comigo.
:- Vai embora... Por favor. – Foi baixo demais eu quase não pude ouvir não me deixei abalar, se eu não sabia ouvir a verdade Dulce também tinha essa dificuldade.
:- Não, eu quero que me responda, eu quero que me diga qual dessas verdades vale pra você?
“…Que el aire es de cristal, que puede estallar…”
:- Vai embora! – Ela falou voltando à agressividade. – Qual é o seu problema? Enche o peito para falar que namora e bla bla bla. Então, volta para sua namorada, Poncho! Se ela é tão merecedora assim. É muito fácil se afastar e construir sua vida me deixando lidar com a perda, depois que eu construí a minha vida e te superei você voltar para falar de sentimentos.
Me superar? Eu escutei isso mesmo. Aquilo machucou e muito por isso eu queria fazer o mesmo com ela, queria machucá-la para que nos igualássemos naquele momento.
:- Por que quer que eu vá embora? Seu namorado vai chegar por acaso?
:- Sim, ele volta amanhã à noite e vamos jantar juntos.
:- Então é por isso que você namora ele, Dulce, por que ele paga jantares e compra coisas caras para você?! – Exaltado eu gritei com ela, incontrolado e transbordando de ciúmes.
Eu não sei muito bem o que aconteceu no segundo depois, onde tudo o que senti foi sua mão descendo com força em um tapa no lado esquerdo do meu rosto. Cheguei a ficar surdo por alguns segundos. Minha cabeça queimou não tanto quanto meu coração.
Dulce havia me batido, havia acertado em cheio o meu ego.
:- Eu te odeio. Isso sim. – ela gritou comigo raivosa jogando todo o seu rancor em mim. – Não sei se tenho mais pena ou asco de você. – ela continuou falsamente calma.
Eu perdi a cabeça, o tapa que ela me deu ainda ardia no meu rosto e pela forma que a sua mão estava vermelha, eu vi que ela também sentia, então era assim estávamos aprofundando a nossa ferida? Que assim seja então.
A maldita música não deixava de tocar.
Eu atravessei a nossa distância e a encurralei na parede, feroz. Soquei com as duas mãos a parede com Dulce no meio, ela levou um susto, que foi tão grande que a fez respirar ligeiramente.
Estava achando tudo tentador demais, estávamos tão grudados que seu blusão roçava no meu peitoral frio pela camisa molhada que usei há pouco. Aproximei meu rosto do dela ainda sentido pelas suas palavras, disposto a fazer ela se contradizer.
Encostei meu nariz na sua orelha, a senti arrepiar eu ainda estava molhado e frio, e fui o deslizando pelo seu rosto, absorvendo o seu perfume enquanto isso, encostei a pontas de nossos narizes. Arfando, fazendo ela arfar também e a olhei nos olhos parando com tudo que fazia e quando ela me olhou eu continuava a ver ódio nos olhos.
Mas, além do ódio. Me deixei afogar no castanhos dos olhos dela. E com ela ainda me olhando colei minha boca no seu lábio inferior o mordi suavemente e arrastei meus dentes apertando conforme deslizava até o fim. Foi inexplicável o que vi nos seus olhos me encarando.
“…Que aunque parezca extraño, te quiero devorar…”
:- Isso embora pareça estranho, eu quero-lhe devorar.
Mantendo meu rosto bem próximo do seu, percebi quando ela engoliu a saliva mais algumas vezes. O coração batendo rápido e feroz por debaixo da blusa que ela usava. Eu podia ver a veia exaltada em seu pescoço bombeando sangue. Meu corpo queimava interiormente, minha razão me mandava ir embora. Mas porque ir embora se estávamos tão perto?
: — Me solta. – Sua voz saiu baixa e falha, nossos olhos se fuzilando de segundo a segundo. Agarrei seus punhos e os ergui a cima de sua cabeça, impedindo que ela se soltasse quando se remexeu na minha frente. – Me larga, Alfonso... Está me machucando.
Com fome e tentado ao pior, grudei minha boca em seu pescoço, ouvindo-a arfar.
: — Me solta. – O último pedido saiu como um murmúrio, comprovando que assim como eu, ela não queria que eu me afastasse. Então eu ergui minha cabeça mais uma vez para olhá-la assim que afundei uma de minhas mãos na pele quente de sua cintura, vibrando por antecipação.
: — Cala a boca, Dulce... – Rocei nossos lábios e ela os separou um pouco, arfando longamente. – Por favor. – sussurrei. Enquanto acariciava sua barriga por debaixo do blusão que ela vestia. Minha mão gelada incontrolável subiu por sua barriga chegando a um de seus seios, o apertando com vigor, sem espaço para gentileza.
Arfei junto com Dulce. Ela fechou os olhos brutalmente e levantou a cabeça mordendo os lábios se condenando. Nitidamente ela estava se controlando, lutando para não se entregar para mim. Soltei um sorriso de lado, contemplando minha visão privilegiada.
Aproximei meu rosto do seu levantado, colei minha boca em sua orelha, não falei nada apenas deixei que ela sentisse minha respiração batendo contra ela. Fazendo-a sentir minha necessidade dela, que aumentava cada vez mais.
Ela respirou profundamente, não sei se fez isso para me provocar ou foi involuntário, mais seu seio aumentou em minha mão e eu soltei um baixo gemido, ela me acompanhou soltando outro mais baixo ainda, ela estava se rendendo aos poucos.
Soltei uma risada em sua orelha, por que eu não mexi minha mão, deixei-a imóvel. E isso parecia provocar Dulce.
: — Você sente a minha falta, desse jeito, não sente? — perguntei para ela e sua resposta foi mais um gemido baixo, por que agora eu comecei a massageá-la.
: — Hum... — Ela murmurou ao invés de me responder quando apertei seu mamilo entre meus dedos. Eu estava morrendo de desejo, fazia tanto tempo que não a tocava daquele jeito que eu já sentia algo crescer dolorosamente dentro das minhas calças. Rugi.
Soltei a mão que eu prendia dela e me apoiei na parede.
: — Diz pra mim o quanto você sente a minha falta. — Mordi seu queixo, sentindo seus dedos se deslizarem para entre meus cabelos. — Eu sei que você sente...
: — Sinto... — Sorri ao ouvi-la, a voz banhada daquela excitação que eu adorava. Mais um passo, havia mais dela entregue a mim.
: — Muita... — Em um movimento rápido e bruto ergui seu blusão acima de seus seios, os deixando a mostra para mim. Mordi os lábios, respirando ferozmente. Dulce me apertou, se apertou contra mim. Seus poros estavam tão dilatados por conta dos arrepios que eu me deixei sorrir. — Muita, Poncho...
Seria a cartada final para que ela se entregar por inteiro para mim. E por fim matarmos a saudade que tínhamos.
Deslizei me esfregando no corpo de Dulce ficando na altura de seus seios, respiramos juntos antes de qualquer coisa, era ansiedade. Com as duas mãos apertei forte sua cintura grudando no meu corpo, queria que sentisse o quanto quente eu ficava por ela.
Vibrei quando toquei meu lábio no seu seio, deixei toda a calma de lado e começando a estimulá-la agressivamente, eu queria que ficassem marcas no seu corpo. Queria que quando eu fosse embora ela se visse nua e me visse ali, tatuado. Eu faria tudo de um jeito que ela sentiria saudade depois.
Eu percebi que havia ganhado o primeiro round da noite, quando uma de suas mãos se apoiou no meu ombro e me apertou, descontando sua marca também em mim. Com a outra mão ela apertava meu cabelo me dirigindo às vezes para eu fazer como ela queria eu ignorava totalmente seus comandos de propósito, deixando ela com raiva, como falei para ela antes. Eu a estava devorando.
Num movimento rápido e prático, em torno de todo o desespero que nos encontrávamos, rasguei seu blusão e o tecido deslizou de seu corpo como água, caindo ao chão quando a ergui pela bunda, me dirigindo pelo corredor com ela esbarrando em tudo o que eu via pela frente.
O quê? Ela não havia me dito onde era seu quarto, então eu acharia enquanto minha cabeça e meu corpo pediam-se nos deliciosos arrepios quando sua língua quente e aveludada vez ou outra marcavam meus ombros em chupões.
Seus seios inchados de mamilos rígidos estavam plasmados em meu peito também nu, moviam-se o tempo todo quando pelo meio do caminho eu a chocava contra as paredes frias de seu apartamento, para beijá-la e marcá-la, para tatuar na pele dela o meu desejo, ou talvez para marcar o meu lugar.
: — Me diz onde...? – Perguntei afoito em meio a um beijo, arrastando-a por uma das paredes. Dulce ofegou em bom som, apertando minha nuca com força, movendo sua cabeça para cima, puxando o ar que eu havia retirado se seus pulmões.
...You're just like an angel, your skin makes me cry, you float like a feather, in a beautiful world. I wish i was special so fucking special…
: — Atrás de você. – Sua voz era um poço, um poço banhado por água de tesão, prazer, fúria, medo, receio... Mágoa.
Afastando-a da parede, cambaleei para trás com ela grudada em minha cintura, chocando-me contra a porta encostada daquele que deveria ser seu quarto. Não me importei em acender a luz.
Para que? Precisávamos nos sentir, não nos enxergar. Eu não queria ver nos olhos dela aquilo que eu deixava transparecer nos meus. Eu não podia voltar atrás.
Com os dedos ágeis e pequenos, Dulce abriu o fecho do jeans que eu usava assim que a deitei sobre a cama, mantendo um joelho de cada lado de sua cintura.
O ambiente escuro me impedia quase cem por cento de ver, mas eu conseguia decifrar como ninguém sua silhueta saliente movendo-se embaixo de mim em um pequeno esforço, onde pude escutar murmúrios de ansiedade para que eu terminasse de fazer o que ela havia começado.
Sem pensar duas vezes fiz o que ela queria. Pela forma que ela ofegava, estava fazendo do jeito que a deixava louca, eu abaixava devagar não por que queria, mas por que a calça estava molhada e pesada, fora que estava com algo me incomodando.
Dulce ergueu um dos braços para o lado e eu pisquei pesado quando a luz fraca e envolvente surgiu de um pequeno abajur. Tremi quando encontrei seus olhos, ardentes como fogo, maldosos, dilatando-se enquanto eu retirava o jeans.
Apoiando-se nos cotovelos ela me observou, os seios subindo e descendo em movimentos deliciosos por conta da respiração furiosa.
Quando terminei, joguei o jeans em qualquer canto e me curvei sobre ela, forçando seu corpo para baixo até que a tivesse deitada novamente. Encarei seus olhos.
: — Diz pra mim que ama quando eu te toco desse jeito. – Desci minha mão por uma de suas coxas e apertei com força, roçando meu corpo no calor que emanava do seu. Dulce fechou os olhos, afundando os dedos na pele das minhas costas.
: — Alfon...
: — Olha pra mim. – A interrompi com raiva e excitação, forçando a ereção que eu mantinha presa dentro da cueca, bem no meio de suas pernas. A ouvi gemer, baixinho, daquele jeito resignado a mim. – E diz que você gosta quando eu te toco assim, quando eu faço desse jeito.
Baixei minha cabeça e lambi desde seu pescoço até o pé de seu ouvido, sentindo seu corpo se contorcer.
: — Que ninguém faz mais gostoso do que eu faço. Eu quero ouvir. Diga.
Dulce abriu seus olhos sob mais um gemido, curvando a coluna o bastante para que eu capturasse um de seus mamilos entre os lábios, sugando do jeito mais profundo que consegui. Eu estava tão turvo no prazer que me envolvia que cada rajada de ar que soltava sentia meus pulmões arderem.
: — Ninguém... – Sua mão caiu em um pequeno tapa em minhas costas quando eu mordi seu mamilo, ouvindo-a gemer em um tom mais intenso. – Ninguém faz melhor que você... Ah! – Sorri contra sua pele e puxei os lençóis macios que cobriam sua cama, entre os dedos. – Ninguém.
Sem que eu ordenasse mais uma vez, ela continuou.
: — E amo seus beijos... – Fui descendo por sua barriga suada, marcando a pele alva com chupões e mordidas. – Amo quando me toca assim, quando... Huum...
Passei a pontinha da língua no interior de sua coxa para logo depois cravar meus dentes no mesmo lugar, arrancando um pequeno gritinho de sua garganta, observando sua coluna se curvar novamente.
: — Quando o que? – Perguntei levando uma de minhas mãos até a beirada da sua calcinha, pronto para retirá-la. Ansiando, desejando.
:- Amo quando você é bruto desse jeito... Merda! Amo. – Entorpecida e com a voz repleta daquela raiva que me excitada, Dulce rugiu baixinho, puxando o travesseiro que embaixo de sua cabeça aprimorava a visão que ela tinha de mim quase a seus pés.
Entorpecida e com a voz repleta daquela raiva que me excitada, Dulce rugiu baixinho, puxando o travesseiro embaixo de sua cabeça aprimorava a visão que ela tinha de mim quase a seus pés. Senti seu corpo se contrair e olhei seu rosto ainda contorcido, onde ela rapidamente me puxou para cima, fazendo meus olhos se dilatarem.
Forçou os seus dedos nas minhas costas, me arranhando de leve, já que suas unhas não estavam grandes, chegando na minha box ela deixou as pontas dos seus dedos adentrarem atiçando.
E ela ofegou pelo trajeto, do jeito que pode se levantou e quando estávamos com as respirações se tornando uma. Abaixou o rosto e mordeu com vontade meu queixo.
:- Assim como eu sou única para você! – olhei para ela surpreso, sabia que ela não deixaria por menos. Se ela cederia, também provocaria até não suportar mais. – Ela não sou eu.
Respirei fundo e tentei tocar seus seios, onde ela me impediu rapidamente, quase rosnando pra mim. A respiração forte fuzilando meu rosto, o hálito delicioso me deixando tonto, os seios inchados roçando em meu peitoral. Eu estava entrando em combustão.
: — Ela não tem o meu nome. – Me encarando, Dulce enfiou sua mão mais ainda dentro da minha cueca, apertando meu membro com força. Gemi, torcendo o lençol gostoso entre os dedos. — Ela jamais vai ter o que eu tenho.
Seus dedos pequenos moveram-se para cima e para baixo, e eu ofeguei quando seus dentes morderam minha orelha, e seu gemido de satisfação por me ver entregue sacudiu meu corpo. – Nunca vai ser a mesma coisa com ela.
Abri meus olhos para encará-la, morrendo por tocá-la.
: — Eu sei que eu faço melhor.
Além de me arrancar o ar, ela havia me deixado sem palavras. Com quem mesmo que estava o comando, Alfonso?
: — Ela nunca terá o que era nosso.
Arquejei. Totalmente sem ar, revirando um pouco os olhos abaixei minha cabeça e apoiei em seu ombro. Em minha mente eu tinha vontade de rir por que eu concordava com ela, talvez não admitiria isso em voz alta.
Aproveitei que estava apoiado em seu ombro e distribui beijos molhados no seu pescoço até chegar em sua orelha, ela não se deixou abalar pela minha distração e uma parte minha também não queria isso. Gemi em sua orelha com uma carícia mais intensa sua e senti ela arrepiar.
:- Tira..- Eu ofeguei.
Dulce não entendeu o que eu quis dizer, foi diminuindo a intensidade que me bombardeava e apesar de que fosse isso que eu quisesse, não gostei daquela sensação. Como forma de punição eu marquei com os dedos apertando forte sua coxa, deixei um rastro vermelho.
:- Tira minha cueca e eu vou te mostrar algo só nosso! – E me afastei para ver seu rosto, ela me olhava me desafiando ainda me estimulando com menos frequência, quando seu contato chegou a ser nulo. Ela apertou os olhos e depois ergueu uma das sobrancelhas, passando suas mãos para minha bunda.
Ela se contorceu se abaixando mais na posição que estamos e encontrou o elástico da minha cueca e puxou para baixo rápida o máximo que pode e voltou acariciando o mesmo caminho até parar no meio de minhas costas e descer arranhando, apertando, do mesmo modo que fiz com sua coxa. Ela desceu até o final de minha bunda.
Fazendo tudo isso me olhando. Revirei os olhos sem poder me conter, a ajudei a tirar minha cueca da forma mais apressada e desajeitada, me arrancando gemidos, possível.
Não sei como ela olhou em meus olhos e identificou que assim que me visse livre, eu a atacaria. Então, ela se adiantou. Assim que minha cueca foi jogada em algum lugar no chão, ela com uma forma incomum para um ser pequeno como aquele me jogou na cama e sentou em mim.
Gemi de surpresa e desapontado, ela sentou, mas não do jeito que eu desejava.
Subindo suas mãos desde minha barriga até meu peito, seguindo pelos meus braços ela foi se abaixando e rosto próximo ao meu, ela olhou em meus olhos e sorriu divertida. Mas, eu via o quanto ela também estava envolvida e abalada quanto eu.
:- Algo só ... – ela foi acariciando meus antebraços, deixando o sorriso de lado, ela chegou em minhas mãos e as entrelaçou. – Nosso.
E eu soltei um palavrão entalado em minha garganta completamente excitado, por que não percebi quando ela subiu novamente e quando ela entrelaçou nossas mãos, nos unificando, ela também sentou em mim. Fazendo que com eu penetrasse tão profundo que podia tocar sua alma, naquele instante.
Sim, aquilo fodidamente era só nosso.
: — Tão apertada... – Coloquei para fora, minha garganta estava seca, meus olhos fechados com força enquanto eu sentia ela começar a se mover malditamente devagar sobre mim. – Que saudades eu tinha disso.
: — Eu sei... – Dulce gemeu, apertando mais meus dedos entre os seus. Seus cabelos pesados roçando em meu peito, me arrepiando mais, cada vez mais. – Eu sei que ninguém faz isso com você melhor do que eu.
: — Não faz. – Gemi movendo o meu quadril embaixo do dela. Meus pulmões ardiam. – Você é única pra mim.
Quando abri meus olhos pude ver o sorriso que ela tinha nos lábios. A testa franzida por conta do esforço, os olhos fechados, os lábios separados, os gemidos fluindo enquanto ela ia e vinha, ia e vinha, cada vez mais rápido, mais forte, mais intenso, do jeito que éramos, do jeito que torna aquilo cada vez mais nosso.
Soltei nossas mãos e agarrei sua bunda, dando tapas com certa força conforme ela me arrancava gemidos cada vez mais longos com seus movimentos. Estávamos descontando a raiva que sentíamos naquilo, e não havia maneira mais gostosa que aliviar a tensão, do que daquele jeito.
Estamos juntos dando continuidade há um ciclo nosso, aquele que não importa quando lutamos, sempre acabamos nos braços um do outro. Tudo era intenso demais, gostoso demais tanto que dava até raiva.
:- Você me ama, não ama Alfonso? – sua voz saiu sofrida e roucamente. Mal consegui escutar conforme a velocidade e intensidade que ela estava.
Deitei minha cabeça na cama e fechei os olhos de novo bem apertados, ainda acompanhando seus movimentos frenéticos. Minhas veias saltaram e sentia meu sangue ferver no meu corpo inteiro, meu coração batia descompassado. Tudo que sentia e tentava demonstrar corporalmente, respondia sua pergunta. Me concentrei em dar a resposta que ela queria.
:- Amo, eu amo você! – saiu em um gemido, Dulce voltava a diminuir seus movimentos, me fazendo frustrar, desesperado.
:- Confessa de novo? – Ela estava muito devagar, me incomodava e ao mesmo tempo me atiçava, eu apertei sua bunda abrindo os olhos e voltando a encará-la.
:- Eu te amo, Dulce... muito. – Olhei em seus olhos e após minha resposta ela voltou a acelerar e com a nossa brutalidade. – Esse é o meu problema.
Mais uma vez estávamos naquela nossa antiga bolha. Que sempre criávamos para ser o nosso mundo. Onde éramos ali nós mesmos, mas como uma bolha de sabão na vida real ela não durava muito tempo e aquilo se refletiria em nós dois. Nossa bolha estourou quando chegamos ao orgasmo juntos.
Avassalador, fui às nuvens e voltei, sensação de plenitude era inigualável. Somente Dulce faria sentir assim pleno, exausto, feliz e completo. Estava tão transtornado que até escutando sua voz. Alucinando.
:- Eu também amo você.
Isso mesmo que ela disse? Ou eu realmente estou louco? Devia estar louco, mas um louco feliz.
Ofeguei satisfeito quando senti sua cabeça bater contra meu peito, abandonada. Tudo o que eu conseguia escutar naquele momento eram nossas respirações descontroladas.
Abri os olhos para olhá-la e abaixei meus olhos, sorrindo com a visão de seu corpo molhado de suor jogado sobre o meu, ainda naquele encaixe, ainda naquele acolhimento, ainda naquele tormento. Meu tormento, nosso tormento.
Minha cabeça doía com a intensidade dos meus pensamentos. Eu queria chorar, mas não sei se de felicidade, cansaço ou magoa, mas tudo o que fiz foi erguer meus braços para envolvê-la, em um gesto desespero pelo medo de vê-la ir embora.
Conforme os segundos foram passando, os minutos se fazendo longos, meus dedos corriam sua coluna de cima a baixo, circulando as pequenas marcas vermelhas presentes lá, que com toda a certeza ficariam arroxeadas pela manhã.
Por certo momento me senti culpado e suspirei, pressionando a marca de leve e encolhendo meus dedos quando ela gemeu baixinho, apertando os olhos pelo incomodo causado. Pensei em pedir desculpas, mas contive a vontade quando ela ergueu a cabeça para me olhar.
Nada do que falássemos naquele momento desculparia tudo o que fizemos, nada arrancaria das nossas peles as marcas do prazer que desfrutamos juntos.
Nada tiraria do corpo dela as provas de que eu estive ali, de que habitei em seu corpo da forma mais selvagem e acolhedora.
Dulce ficou me olhando por um tempo, os olhos já calmos e quentes, seu coração batendo denso contra seu peito e eu apenas ergui minha mão para retirar uma mecha de cabelo que caia sobre seu rosto.
: — Vai ficar roxo. – Eu disse baixo desviando nossos olhares, tocando um círculo vermelho formado em seu ombro. Dulce apenas suspirou, encolhendo o ombro quando apertei de leve a marca.
Tornei a passar o dedo por cima, acariciando e minha vontade era de beijar cada marca vermelha que havia deixado em seu corpo. Como se pudesse me desculpar.
: — Somos tão fracos. — Ela disse baixo com um sorriso tão triste que fez um nó crescer em minha garganta.
Juntei meus lábios fazendo alguma expressão estranha. Era verdade, éramos fracos, durante muito tempo fomos e o pior era permanecer sendo. Mas, eu não me arrependo, o que Dulce definia como fraqueza, me fez revelar verdades que eu reprimia dentro de mim.
Desde que comecei namorar Perla. Balancei a cabeça tentando esquecê-la, aquele não era o momento. Pelo menos não deveria ser, fiz uma careta por que sequer arrependimento eu sentia.
Dulce me olhava curiosa, por um momento esqueci que ela me observava, eu passei a mão que acariciava seu ombro passando pela suas costas, fazendo o caminho de sua coluna.
Ainda sem respondê-la nem sobre nossa fraqueza, menos sobre meu devaneio, levantei minha cabeça e lhe dei um selinho, sem explicação mesmo. Os dois com olhos abertos e quando fui me afastar, ela também me beijou sem querer perder nosso contato.
Talvez devêssemos conversar como pessoas adultas que éramos, porém eu não queria perder o tempo precioso em discutir algo que era nítido e doloroso. Falar sobre nós dois.
“...You're so fucking special...”
: — Eu gosto... — Sorri ao ouvi-la, ainda sim erguendo minha sobrancelha como em uma interrogação. Seus olhos brilhavam com a baixa luz do abajur, dando um tom alaranjado em seu rosto.
: — De que?
: — Quando você me beija do nada. — Tornei a beijá-la e suspirei, sentindo os pelinhos de suas costas se arrepiarem com as pontas de meus dedos.
: — Eu gosto de tantas coisas que você faz... Mal posso dizer.
Os traços de mágoa e raiva que tínhamos antes foram embora, sabia que era momentâneo, por que esses sentimentos nos rondavam como se fossem fantasmas prontos para nos persuadir e nos tomar.
Estávamos inconscientes dando espaço ao carinho esquecido no passado e a saudade que tínhamos de estar assim juntos.
Com calma e soltando um suspiro agoniado ela tocou a marca de seus dedos do lado esquerdo do meu rosto com a palma da mão. Marca essa causada pelo tapa descontrolado que ela havia me dado. Fechei os olhos.
: — Às vezes parece que você gosta das coisas erradas também... — De leve ela acariciou, causando uma leve ardência. — Como isso, como tudo. – Ela beijou o mesmo lugar que levei um tapa dela. Ela aproveitou e com suas mãos apertou minhas bochechas, gesto tão nosso.
Olhou para sua mão esmagando minhas bochechas, sem se importar pela careta que eu fazia, deu um sorriso entristecido e os olhos encheram de lágrimas, fiquei confuso.
:- Desejei tanto fazer isso de novo, esses tempos, é tão nosso isso, Poncho. – Ela me olhava, me tocava com seu olhar profundo. – Mata minha saudade, também?
Fechou os olhos quando eu passei minha mão de suas costas para esmagar suas bochechas. Ela estava aproveitando para matar a minha saudade daquilo também.
Soltei suas bochechas e acariciei seu braço indo até seu pulso, constatei a falta de algo que indiretamente era importante para nós dois.
Suspirei alto levantando meu peito com ela em cima, mostrando para ela o lamento que eu sentia.
:- Você tirou. – falei baixo olhando para o seu pulso onde eu acariciava com o indicador a marca de sol da pulseira que não estava mais ali.
:- Você também, tirou. — Ela também suspirou também acariciando onde antes estava uma pulseira frágil que eu usava no pulso esquerdo.
Algum dia no ano passado, talvez antes de quando eu voltei para o Brasil ou depois agora eu não me lembrava. Encontrei com um grupo de fãs após sair de um restaurante no DF, uma delas puxou meu braço e afastou a manga da minha camisa e foi colocando uma pulseira vermelha.
Seria até normal se ela não tivesse falado o significado.
“Vermelho, significa amor, amor é o motor da vida ele que nos guia nesse mundo, sem amor não somos nada. Essa pulseira é para que você não esqueça disso, não se esqueça do amor. Poncho.”
Quando ia agradecê-la por aquele gesto ela me cortou.
“A pulseira está do lado esquerdo, lado do coração, é como uma extensão de uma veia dele. Farei o mesmo com Dulce, também darei uma pulseira vermelha para que ela não se esqueça do amor.”
Fiquei sério a olhando, não vou negar que pensei em tirar a pulseira por um momento, ainda mais, por não naquele momento estava procurando distância de tudo que me levasse a Dulce.
Entretanto, não tive essa coragem não depois de todo o significado que a menina me falou, talvez uma pulseira não fosse algo tão importante me enganei ao ver que dias depois Dulce também estava com a mesma pulseira no lado esquerdo. Me apeguei aquilo, não posso negar, tudo tão indiretamente nos ligava.
“...I'm a weirdo...”
A pulseira era como uma linha invisível que nos ligava.
: — Eu tive que tirar... – Respondi baixo e incomodado, relando o dedo de leve na marquinha perfeita que a pulseira havia deixado no punho dela.
: — Porque teve que tirar? – Ela perguntou curiosa erguendo uma das sobrancelhas.
: — Por causa da minha peça. – Menti desviando nossos olhos. Não que eu não tivesse tirado também por causa da peça, mas eu não confessaria tão fácil o verdadeiro motivo. Ou ia? – E você, porque tirou a sua?
Dulce pareceu pensar um pouco e só depois respirar fundo voltou a me encarar.
: — Eu queria me afastar... Digo, me desligar de tudo e qualquer coisa que me ligava a você. E também porque vi que você tirou a sua e...
: — Tá. – A interrompi rindo tristemente, negando com a cabeça. – Eu também tirei porque queria me separar de tudo o que me lembrava você. Talvez eu tenha cometido um grande erro, pois sinto falta do peso leve que ela fazia em meu punho e na minha memória.
E lá estava eu, confessando o que há segundos atrás eu disse que não iria confessar. Previsível demais. Dulce sorriu tímida e abaixou a cabeça rapidamente, pressionando os lábios.
: — Pelo visto não adiantou muito, não é? Pois olha só onde você está...
: — Na sua cama. – Eu disse com um nó na garganta e ela concordou rapidamente. – Ah! Dulce... Tem algum palpite de quando tudo isso vai acabar?
Ela riu, naquele momento um pouco mais divertida e suspirou, levando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
: — Eu dei um palpite na época do RBD de quando isso terminaria e errei feio, então eu não me arrisco mais...
:- Nem eu, sempre quando tenho certeza de algo, vem à vida ou o destino ou você e muda todas minhas certezas.
Confessei meio frustrado e a vi se erguer um pouco nos cotovelos, subindo mais um pouco sobre meu corpo. Ofeguei baixo quando seus seios nus tornaram a se chocar contra meu peito e tudo que fiz foi levar as mãos até sua cintura.
: — Acho que não tenho outra saída e não ser concordar. – Rimos juntos e ganhei um beijinho nos lábios. Tão doce... Tão ela. – E eu me pergunto nesse momento onde foi que toda aquela raiva foi parar. Nunca me senti tão previsível.
Não pude conter um sorriso ao ouvi-la e em um movimento rápido me virei por cima dela, deixando seu corpo ainda unido ao meu. Dulce riu corando violentamente, onde pude ouvir seu gritinho de surpresa. Acariciei sua bochecha.
: — Un dia nos odiamos y otro nos amamos... – Sussurrei um pedacinho da musica ao pé de seu ouvido. – Isso te lembra alguma coisa?
: — Que memória você tem. – Ri triste. Infelizmente em relação a ela, a minha memória nunca se apagava. Talvez se ela desse uma trégua, eu conseguiria pregar meus olhos a noite para poder ao menos dormir. – Mi guerra y mi paz.
: — Você deu tão na cara com essa música, eu me lembrei agora de lhe falar sobre isso.
: — Quem disse que ela é pra você? – ela perguntou risonha e eu rolei os olhos, enfiando meu nariz nas suas mechas de cabelos cheirosas
: — Só cego não vê, Maria. – revirei os olhos abaixando a cabeça para dar um beijo estralado no seu pescoço.
: — Você é um imbecil convencido. – Ri baixinho e tornei e olhá-la, dedilhando sua sobrancelha com o dedo indicador. – Mas ok, foi pra você mesmo. E você não é a primeira e nem a segunda pessoa que me diz que eu a escrevi pra você.
: — Sério? Quem foram às outras? – Perguntei curioso e ela riu, subindo as pequenas mãos por minhas costas em um carinho gostoso.
: — Huum... 1° foi Marisol, que até foi ousada demais e riu na minha cara, a 2° Ivalu e a 3° luisillo.
Cai na gargalhada e ganhei um tapa no baço. Aquilo era hilário demais. Eu disse que ela havia dado na cara.
Olhei para ela e fiquei pensando no quanto isso me fazia falta. No quanto ela fazia falta.
:- Poncho...
:- Não. – A cortei, vendo nos seus olhos que ela queria conversar. – Por favor, não. Sei que devemos isso a nós dois. Mas, agora não. – abaixei minha cabeça sentindo o cheiro gostoso da sua pele.
:- Precisamos conversar.
:- Eu sei, mas não agora. – voltei a olhá-la. – Não quero estragar esse momento com palavras que machucam, Dulce. Quero aproveitar de outra forma, não é você que faz agora e se arrepende depois?
:- Sim, mas....Ai, Poncho. – Ela me deu um tapa forte nas costas. Tinha me esquecido como ela batia forte.
:- Au, pequena. – reclamei em falso por que eu gostava daquilo e voltei a mordê-la no ombro – Eu ainda te quero devorar.
Sem deixar ela pensar no que eu disse ou tomar qualquer ação. A beijei. E recomeçamos tudo de novo. Voltei para onde havíamos parado, fiz de novo e de novo da forma mais intensa que pude tudo o que ela havia implorado para fazer antes. Talvez tivéssemos perdido a conta de quantas vezes transamos e transamos naquele momento, naquele quarto. Mas o fato era que de memória perdida aquilo não sofreria nunca.
Após nos nossos corpos voltarem a calma da nossa última vez, ficamos em silêncio os dois, Dulce passava os dedos no meu cabelo, mas quem estava sonolenta era ela.
Eu não deveria ter me calado definitivamente, por que aquele momento a realidade me bateu de frente. E eu cai das alturas com seu golpe. Um flash veio a mente com tudo que vivi desde a nossa ligação até aquele momento e eu percebi o quanto imbecil estava sendo com ela, mais uma vez, eu a machucaria de novo.
Estava sendo egoísta colocando minha saudade em primeiro lugar. No meu pensamento eu chegaria aqui e faria ela confessar que me amava, o que isso talvez tenha acontecido, eu não tinha certeza. Faria ela ver que estava errada o nosso não terminou, mas era mentira, apesar de tudo, era mentira.
Seu namorado chegaria em pouco tempo pelo o que ela falou e eu voltaria para casa, para Perla. Tudo voltaria como antes, ou não, na verdade eu voltaria machucado por ter aprofundado ainda mais minha ferida.
Suspirei decidido eu deveria cortar mais uma vez tudo entre nós dois, eu deveria ser o carrasco de nossa relação. Dulce nunca conseguiu realmente ser, apesar de ter tentado. Eu precisava fazer com que ela me odiasse e quisesse distância de mim. Não era uma decisão madura, não existe essa opção, apenas uma decisão desesperada.
Abracei Dulce bem apertado, ela reclamou um pouco por estar cansada, não me importei e me afundei meu rosto no seu pescoço, queria que aquele momento fosse marcante para ela quanto para mim.
Quando ela ficasse ali no quarto e houvesse silêncio fraco sendo enfraquecido apenas por sua respiração, ela se lembrasse desse abraço apertado. E se lembrasse de como minha respiração batia sobre seu corpo calma.
Eu levantei o rosto para confirmar, realmente ela estava dormindo senti pela forma que sua respiração passou a ser tranquila e despreocupada, mesmo com meu corpo pesado em cima dela. Aproveitei o momento para guardar aquela cena em minha memória, por que eu sabia que isso não voltaria acontecer mais, não depois que eu estava preste a fazer.
Fechei os olhos, pedindo Deus forças, por que ele sabe o quanto eu desejava sede a uma voz que implorava para eu ficar ali e amá-la até o último minuto. Infelizmente eu não podia, abri os olhos para olhá-la, eu deveria começar um novo capitulo dessa história, um do qual cada um seguia o seu caminho, era o melhor para os dois.
Afinal de contas, não existe felizes para sempre, só amor não basta.
:- No passado eu prometi dar tudo a você, mas eu só te dei o que eu tinha, e isso ainda não é suficiente para você, pequena. – eu sussurrava próximo ao seu rosto calmo – Nosso amor é muito grande, mas não é o bastante. Você é muito especial, — passei meus dedos no seu rosto – preciso deixar você voar, por que é necessário.
“...I want you to notice, when i'm not around, you're so fucking special…”
Com muito custo me afastei dela que virou para o lado sonolenta, murmurando algo, derrotado eu levantei ainda me guiando pela luz fraca do abajur pelo seu apartamento buscando minhas roupas espalhadas.
Achei tudo menos minha camisa onde será que estava, comecei a ficar irritado e começando a fazer barulho e o que eu não queria era acordar Dulce, sou um covarde mesmo.
Vestindo com meu jeans e tênis apenas achei na minha mochila uma outra camisa azul escura molhada pela chuva, azul era a cor favorita dela. Bufei frustrado, pegando minha jaqueta e colocando, eu poderia muito bem, simplesmente sair seria o melhor para mim. Porém, eu não conseguiria sem vê-la pelo menos uma última vez ainda.
Enquanto eu estava procurando minhas roupas eu achei sua pasta, eu não deveria mais a curiosidade foi maior. A peguei e abri olhando as folhas que quando cheguei ela rapidamente escondeu de mim.
Eram músicas, composições, poemas e até desenhos dela. Aquilo doeu ver tudo, machucou, encontrei uma caneta sabendo do quanto isso a machucaria a nós dois eu comecei a escrever, mentiras verdadeiras que nem eu mesmo acreditava, me esforcei a parecer convincente e real.
Reli a carta no final curta, grossa e mentirosa. Sobretudo necessária. Vi um desenho dela ali e meio a toda minha covardia, brotou uma chama pequena de esperança num futuro, sorri entristecido, poderia ser o seu namorado, mas a minha sensação era que eu estava ali, desenhado com ela.
Não sei como Dulce interpretaria minha atitude, talvez eu a confundisse, não sei. Mesmo assim eu tirei de um bolso de minha jaqueta uma pulseira vermelha, na verdade uma fita frágil e junto com sua pasta levei para o quarto onde ela estava.
Entrei no quarto derrotado, suspirei ao vê-la da mesma forma que a deixei, andei até o lugar onde eu estava e deixei sua pasta ali, aberta e revirada, para que ela visse que eu mexi ali, deixei o seu desenho em primeiro e por cima do casal ilustrado deixei a fita vermelha, desejei que ela pegasse essa fita como um sinal de esperança, a mesma que eu deixei depositada ali também.
E por cima do travesseiro deixei minha carta, foi como se eu recebesse uma facada também, sem deixar de pensar nisso dei a volta na cama e me aproximei dela para me despedir.
:- Te amo. Eu precisava dizer isso mesmo que não me escute. – falei baixinho muito perto do seu rosto e dei um beijo demorado em sua testa carinhoso. – Espero que me perdoe, Dulce. – olhar seu rosto tão de perto e ver o que eu estava fazendo com ela, com a gente, era doloroso demais.
E deixei cair uma lágrima por que eu sentia que essa era realmente uma despedida. Dei um selinho nela, que não acordou. Me levantei se eu tivesse que sofrer seria longe, bem longe dali. Andando resignado até minha mochila eu sai de seu apartamento e de sua vida.
…Whatever makes you happy, whatever you want. So very special, i wish i was special, but i'm a creep...
Dulce .:
: — Não faz isso, Poncho. – Eu disse alto e contive uma risada quando ele tornou a morder meu ombro. Maldição, eu acordaria na manhã seguinte em estado terminal se ele continuasse com suas mordidas.
: — Não faz isso o que? – Cínico ele ergueu uma sobrancelha, colocando-se de quatro em cima da cama como um tigre, pronto pra atacar.
Arregalei meus olhos e engoli a seco, chegando meu corpo um pouco mais para trás sobre o colchão.
: — Me morder... Não me morde mais. – Ele riu baixinho e avançou um pouco, me fazendo recuar.
: — Tá com medo, baixinha? – Seus olhos verdes brilhavam tanto que eu me perguntei qual era o sentido dele conseguir me hipnotizar até quando a minha vontade era sair correndo dali.
: — Eu? Não to com medo, não. – Foi tudo o que eu disse antes de dar um pulo para fora da cama, fazendo com que o lençol caísse de meu corpo conforme eu corri em direção ao banheiro. Soltei uma gargalhada e ele veio atrás de mim, completamente nu, os cabelos fora do lugar e o peito suado.
Soltei um pequeno gritinho quando ele me agarrou pela cintura, puxando-me em direção a ele com tanta força que me vez quase que engasgar.
: — Não foge, ardilla. Porque toda vez que eu te pegar vai ser pior. – Sua respiração quente e ávida acertou em cheio a área da minha nuca, me arrancando um arrepio. Fechei meus olhos, subindo minhas mãos pela parede a nossa frente.
: — Eu gosto... – Coloquei para fora em um murmúrio. Suas mãos quentes se apossando de meus seios de forma possessiva e alucinante. Deixei-me fechar os olhos.
: — De fugir? – Neguei com a cabeça rapidamente e ofeguei alto, levando uma de minhas mãos até sua nuca, apertando.
: — Do pior...
Ele riu rouco e excitado, ciente da forma entregue que conseguia me deixar. Safado! Eu mal podia dizer naquele momento o quanto gostava daquilo.
: — Vamos ver até onde você consegui ir. – Depois disso ele tornou a morder meu ombro, com força e exatidão, me fazendo gemer em contradição com duas coisas. Dor e prazer.
O senti soltar minha cintura e como estava na ponta dos pés para conseguir tocar sua nuca, prendi a respiração quando percebi meu corpo ir pra frente e aquilo me fez dar um pulo na cama, uma sensação terrível de... Espera! Cama? Mas… Abri os olhos com pressa e respirei fundo, piscando rapidamente enquanto olhava ao meu lado.
Todo meu corpo estava tencionado, nu e exausto sobre meu macio e famoso colchão de molas. Ri sozinha e neguei com a cabeça.
: — Malditos sonhos. – Sorri e deixei que meu corpo caísse novamente sobre a cama, onde bocejei por segundos longos.
Estava sentindo uma leve ardência no ombro e logo levei os dedos até lá, arregalando os olhos para a marca de uma certeira arcada dentária presente lá. Respirei fundo e a cocei de leve, virando-me de lado na cama. Tudo o que consegui presenciar foi o vazio. Ergui a cabeça para ter certeza de que não estava com problemas de visão.
: — Poncho? – Chamei apenas uma vez, minha barriga com aquele estranho formigamento familiar, aquela sensação de deja-vú filha da puta. – Você não fez isso...
Fui tentar me mover para fora da cama e senti dor, dor de verdade. Meus braços, minhas pernas, meu pescoço, meus ombros, minha barriga... Tudo doía, mas o que doía mais era a minha consciência, a minha cabeça.
Com cautela eu me levantei, puxando o lençol para me enrolar. Comecei a enfiar na minha cabeça que ele deveria estar tomando banho, fazendo café, que foi na rua em qualquer fast food do inferno comprar meu sanduíche preferido, mas que logo voltaria.
Comecei a dizer para eu mesma que ele não havia me deixado sozinha depois da noite que passamos juntos, comecei a malditamente dizer em voz alta que ele voltaria, que não, que não havia feito aquilo comigo, que não havia ido embora, que não havia sido mais uma vez um filho da puta.
Foi praticamente cuspindo para a merda da minha consciência que ele me ligaria e diria que já estava voltando, que não havia pisado daquele jeito em mim, que não havia me tratado como uma vadia imunda e saído no calar na madrugada depois de gozar quantas vezes eu pude lhe fazer, que eu esmaguei o pequeno papel deixado sobre minha pasta revirada antes mesmo de chegar a ler.
Por fim eu comecei a me dizer que eu era sim uma idiota, uma estúpida que se deixou levar pela milésima vez na lábia daquele que...
: — Me diz que to errada... – Sussurrei de olhos fechados enquanto apertava o papel entre meus dedos, parada de pé em frente ao espelho. Abri meus olhos e pude sentir ali uma Dulce que há muito tempo eu não via. Uma Dulce exausta, cansada, satisfeita, marcada...
Deixei que o lençol caísse e subi meus dedos livres por cada marquinha presente em minha barriga, por cada roxo plasmado em meus seios, meu colo, meus ombros. Por cada marca de dedos longos, dedos esses que na noite anterior fizeram-me alcançar estados que há muito tempo eu não conseguia...
E daí, comecei a sentir nojo, desespero, fraqueza. Nojo de mim, do meu amor, dos meus desejos. Comecei a ver uma Dulce magoada, ferida, morta. E foi ai que eu pude me dar conta de que estava realmente sozinha.
Quando você estiver lendo essa carta, é por que eu já estou muito longe, talvez até no voo de volta para o México, que era um lugar da onde eu não deveria ter saído. Não sei o que me deu na cabeça ir para Los Angeles e simplesmente ir atrás de você.
A noite que tivemos foi ótima, Dulce, maravilhosa como há muito tempo eu não tinha. Mas eu cometi um erro, essa noite foi um erro. Não deveria ter mexido numa ferida que já cicatrizou, seguimos outra vida estamos felizes nela, não existia razão para o que eu fiz, fui um tolo. Afinal, eu não pertenço mais a você e você não é mais minha.
Você quis me dizer antes, eu não quis escutar, mas agora eu concordo. Devemos manter a distância um do outro, esse é o melhor para os dois. Hoje não existe mais espaço sequer para amizade e eu vou acatar seu pedido do passado, Dulce, vou me afastar definitivamente de você.
Por isso estou voltando para casa, para Perla que é de onde eu nunca deveria ter saído. Obrigado, pela noite e... Se cuida.
Sendo invadida por tremores da cabeça aos pés, comecei um processo de avaliação. Sim, comecei a me avaliar, a me controlar, a me focar em uma áurea que já não existia mais, apenas para dissipar a vontade de me matar, de matá-lo, de chorar, de me humilhar, de me arruinar, me afundar naquela cama e nunca mais sair.
: — Ah! – Levei à mão a garganta e arfei uma, duas, três vezes. Sentia-me engasgada, as lágrimas furiosas brotando no canto dos meus olhos.– Ai!
Exclamei alto quando meus joelhos doeram. Naquele momento foi como se todos os roxos presentes em meu corpo começassem a dor ao mesmo tempo.
Uns turbilhões de choques elétricos passavam por meu corpo quando me deixei chorar, gritar, espernear, rasgar... Em pedaços aquele maldito papel com aquela maldita letra, com aquele maldito cheiro.
: — Burra, burra, burra. – Gritei para mim mesma enquanto ia a direção à cama. – Burra!
Dei um tapa na pasta presente em cima do travesseiro que ele havia dormido e a vi cair no chão, fazendo com que todos os papeis com minhas composições voassem, espalhando-se pelo chão de meu quarto.
: — Droga.
Solucei algumas vezes e escorreguei pela cama, sentando-me no chão, aos pés dela, escondendo minha cabeça entre meus joelhos. Eu achava que já tinha visto de tudo entre eu e ele, mas depois de tudo aquilo eu pude perceber que ele sempre seria capas de mais, de me ferir mais, de me matar mais. Porque?
Já não bastou todo o sofrimento que me causou antes. Me deixei chorar, era o que mais queria, liberar toda a adrenalina que sentia no corpo. Chorei até não poder mais, até meu corpo cansar. Me enganei que aquela sensação de perda fosse embora, estava mais que presente, mas ao mesmo tempo eu sabia que isso aconteceria.
Muito típico, deveria ter previsto desde quando abri a porta para ele. Era típico dele também passar uma noite de entrega como essa, me fazer confessar, fraquejar e depois ir embora. Ele deve ter conseguido o que desejava agora deve está rindo de mim.
Cada vez que o refletia sobre tudo isso sentia o ódio me dominar, foi por ele que parei de chorar, por ele que me levantei e decidida fui para sala para confirmar tudo. Ele realmente foi embora, realmente fui abandonada.
A parti daquele momento eu decidi fazer algo por mim.
Eu vou me desapegar do amor que sinto por Poncho de vez, esse apego que me faz sofrer, que me limita, que me mantém aprisionada ao nosso ciclo. Assim como na carta que ele me fez, não será apenas, ele que se afastaria eu também, ele vai se tornar mais um. Mais um cara, mais um amigo, mais um colega e queria ser hipócrita comigo e dizer que mais um amor, nem eu mesma acreditaria. Ele depois de anos seria realmente meu passado.
Sabendo da minha derrota emocional me virei para voltar para meu quarto, mas eu vi algo estranho embaixo do sofá, me aproximei e puxei. Gelei quando o cheiro veio junto.
Maldito. Ele não tinha o direito de fazer isso comigo, era cruel demais. Esmaguei com a mão o tecido da camisa de Poncho de quando chegou usava ela ainda estava úmida. E tudo que desejava era machucá-lo como eu fazia com sua camisa, como ele fez comigo.
Voltei para meu quarto com raiva, raiva maior por senti saudade, simplesmente por que eu sentia o cheiro dele e seu perfume na camisa. Eu poderia me livrar dela, mas não conseguiria.
Eu a vi no meio da bagunça que eu fiz. Não sei como ainda respirava depois de tantos golpes que eu levei até aquele momento. Ele veio aqui para me enlouquecer só poderia ser isso. Peguei a fita estremecida, era mais simples que a que tinha antes.
“Ela é vermelha e está do lado esquerdo lado do coração, é quase uma veia, é como uma extensão do amor.”
Não balançava a cabeça feroz, eu não poderia ceder, continuava balançando mesmo me lembrando do que a fã me disse. O que Poncho queria afinal? Me confundir? Por que não joga as claras, por que eu estou cansada desse joguinho.
Aparece do nada querendo me ver, brigamos, amamos e ele desaparece depois de tudo, quer colocar um ponto final em nossa história e ao mesmo tempo deixa sua camisa e uma fita, para que me lembrasse dele. Deixei a fita no mesmo lugar de antes, em cima de um antigo desenho que fiz meu e dele.
E me deitei na cama, ainda com sua camisa na mão, estava decidida. Ainda posso amá-lo e não tenho como controlar isso, nem a intensidade. Mas, eu me desapegaria a ele, me afastaria de todas as formas possíveis que conseguisse.
De uma vez por todas eu lutaria para colocar um ponto final em nossa história conturbada e intensa. Ou me frustraria tentando.
Fin?
Eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências.
Caio Fernando Abreu.
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