Tudo tem seu preço

1 Tudo tem seu preço...


Notas iniciais
Olá, meus amores. Espero que gostem. Enjoy!

Todo adolescente tem um pouco de rebeldia dentro de si, mas a jovem Marrieh tinha uma cota bastante elevada para uma garota de apenas 18 anos. Ela era cruel, intransigente e fria como o mais rigoroso inverno. Bebia, usava drogas, sua média na faculdade era baixa e ela conhecia a prisão como ninguém.

Na maioria das vezes, as prisões eram resultados de brigas de gangues ou de qualquer outro tipo de baixaria que se possa imaginar. Onde houvesse problema, era de se esperar que Marrieh estivesse envolvida. No entanto, ela não passava muito tempo atrás das grades, visto que seu pai, sempre pagava as fianças a pedido da esposa. Thomas nunca concordara com essa atitude maternal da mãe da garota, ele sempre achou que a filha tinha que responder legalmente pelos seus atos.

A mãe, Angelina, não compreendia o fato de seus filhos terem personalidades tão distintas, Marrieh era completamente o oposto de seu irmão gêmeo. Ao contrário da irmã, Michael era um filho prodígio, cursava medicina e queria seguir os mesmos passos do pai.

Os dois irmãos tiveram a mesma educação e as mesmas oportunidades. O garoto seguia à risca os conselhos dos pais para ser um cidadão de bem, mas a irmã deixou de andar na linha e se envolveu com pessoas que não deveria.

O relógio marcava 3h da manhã e a jovem Marrieh estava esparramada sobre o longo sofá da sala de estar. Na busca de uma programação que despertasse o seu interesse, ela zapeava insistentemente pelos canais de sua TV a cabo. Ao perceber que não estava obtendo êxito, uma lufada de ar escapou por entre os lábios da menina, evidenciando a sua total frustração.

Marrieh desistiu de sua procura e levantou-se do sofá. Apanhou a garrafa de uísque que estava sobre uma cômoda e sorveu com determinação os últimos resquícios da bebida. Ela gostava daquela sensação, o líquido ardente que descia pela sua garganta transportava o seu corpo para um mundo de relaxamento. Mas ela não compreendia que era apenas por alguns instantes, que ao passar o efeito, aquela sensação não passaria de uma doce ilusão.

A jovem depositou a garrafa vazia sobre a mesinha de centro e, em seguida, desligou o televisor. Ela seguiu em direção à escada da grande mansão, com a pretensão de ir para o seu quarto. Marrieh subia os degraus com passos largos e pesados, o barulho que os seus sapatos faziam contra o piso laminado ecoava por todo o ambiente. De repente, a jovem percebeu que um barulho estranho se fez presente, e que sem sombra de dúvidas, não havia sido causado pelas solas dos seus sapatos. Marrieh virou minimamente a cabeça, olhou para trás e esperava se deparar com Michael ou qualquer outra pessoa perambulando pelo cômodo, mas não havia ninguém, a sala estava incrivelmente vazia.

A garota meneou a cabeça negativamente, passou a mão nos cabelos e riu ironicamente de seu momento de imaginação. Ela estava prestes a subir o próximo degrau, mas parou imediatamente quando outro ruído rompeu o silêncio do ambiente. Marrieh segurou firmemente o corrimão e ficou pensativa por um breve momento. Ela estava intrigada, seu olhar alternava entre a sala de estar e o topo da escada, pois ela não tinha ideia de como proceder diante daquela circunstância. Afinal, era melhor subir para o seu quarto ou investigar aquela estranha situação?

A curiosidade falou mais alto naquele momento. Determinada a investigar o fato, a garota resolveu voltar para a sala de estar. A partir de então, iniciou uma busca minuciosa, seus olhos e ouvidos estavam atentos a qualquer manifestação. Será que havia algum intruso em sua residência? Era uma possibilidade, pois o fato de sua família pertencer à alta sociedade chamaria a atenção de assaltantes. Por um momento, a garota também se perguntava se havia desligado o sistema de som da sala de jantar.

Marrieh verificou minuciosamente os objetos em sua volta, mas tudo estava em perfeita ordem, não havia nada que poderia ocasionar toda aquela algazarra. Ela coçou a cabeça e deu um suspiro de frustração. A jovem estava prestes a seguir para o seu quarto, mas algo lhe chamou a atenção.

— Tallulah? — Marrieh indagou visivelmente surpresa. — O que você tem, garota?

Sempre muito dócil e manhosa, a pequena Tallulah era o bichinho de estimação da família. Mas naquele momento, a gata estava sobre uma das cadeiras da sala de jantar, os pelos estavam visivelmente eriçados e ela rosnava assustadoramente. Marrieh não compreendeu aquele comportamento incomum da gatinha, ela esperava pelo ronronar manhoso ou até mesmo por um afago vindo do rabo peludo de Tallulah, mas nada aconteceu.

A gata intensificou os seus rosnados e o corpinho ficou em posição de alerta, como se quisesse se proteger de alguma coisa. Os olhos felinos encaravam a cozinha de maneira obstinada.

Marrieh virou o corpo e deu alguns passos até a cozinha. E finalmente, ela encontrou o motivo do comportamento atípico de Tallulah e dos barulhos estranhos que havia ouvido. Por um momento, ela desejava que os barulhos realmente fosse o eco de seus passos na escada ou até mesmo do sistema de som ligado. Ela também preferia que o comportamento anormal de Tallulah fosse ocasionado por qualquer outro motivo, mas não por aquilo.

Marrieh era uma garota destemida, gostava de desafios e nada era capaz de assustá-la. Mas, naquele momento, ela sentiu algo que nunca sentiu antes: medo. Definitivamente, nada no mundo teria preparado a jovem para aquela cena.

Em sua frente, estava a perfeita personificação de uma criatura de filme de terror. Era algo monstruoso, com uma pele asquerosa e com garras e chifres imundos. O rosto da criatura trazia olhos ferozes e flamejantes. Os dentes eram afiados e poderiam fazer um verdadeiro estrago. A figura altiva e aterrorizante estava rodeada por labaredas de fogo.

A garota ficou em choque, as mãos tremiam e seu coração batia ruidosamente contra a caixa torácica.

— Ora, ora. Realmente está surpresa em me ver, minha querida? — indagou a criatura.

A voz da entidade era horripilante. E, automaticamente, fez com que a jovem levasse as mãos aos ouvidos, em uma tentativa de proteger os tímpanos.

— Eu devo ter bebido mais do que o habitual. Não, isso não é real. — murmurou a jovem.

— Engano seu, minha querida. Você está completamente lúcida. Sou mais real do que você imagina. — disse a entidade.

— Quem é você? — questionou a jovem.

— Sou um entre os vários demônios que lhe rodeiam. Ultimamente, suas atitudes estão aproximando a sua alma cada vez mais do nosso mundo. Está na hora de se juntar a nós.

— Isso é loucura! — Marrieh gritou. — Eu não faço nada! São as pessoas que me impedem de viver a vida como eu quero. Por que eu teria que ser levada?

— Vejamos... Você tem uma lista bem vasta. Envolveu-se no mundo das drogas, pratica violência nas ruas e comete outras barbaridades que eu não teria tempo para mencionar. Houve um momento que você furtou para alimentar o seu vício e também tem uma tentativa de homicídio.

— Tentativa de homicídio?

— Querida, esse não é o momento de se fazer de ingênua. — a figura sobrenatural riu com deboche. — Realmente não lembra? Então eu vou refrescar a sua memória. Você tentou matar um ex-colega porque ele não quis dividir com você aquela porcaria que você gosta de cheirar. É incrível, você está disposta a pagar o preço que for para consumir essas imundícies. Pobrezinho do seu colega Anthony, ele estava completamente fora de si, pois no dia seguinte, ele nem se lembrava do que havia acontecido. E você teve sorte, pois ele poderia fazer uma denúncia formal e isso teria resultado em uma tremenda enrascada.

Enquanto a criatura maligna ponderava, suas unhas hediondas tamborilavam sobre o balcão da cozinha. O barulho daquele movimento gelou a espinha de Marrieh.

— Mas sabe qual é o pior de todos os seus erros? — a voz da entidade subiu algumas oitavas, demonstrando indignação. — Sua desobediência e a humilhação que os seus pais passam por sua causa. Você desonra constantemente o seu pai e a sua mãe. E isso é imperdoável!

As pernas de Marrieh tremiam e elas não foram capazes de sustentar o seu corpo. A jovem se desequilibrou e caiu no chão. Em seguida, encolheu-se e abraçou os próprios joelhos, como se aquilo lhe protegesse da presença daquela criatura nefasta. O demônio começou a rodear em volta do corpo pequeno e indefeso da garota.

— Queremos apenas uma brecha para se infiltrar na vida das pessoas. Você foi um alvo tão fácil. Não estamos em sua vida por escolha própria, nossa presença foi inteiramente desencadeada pelos seus atos. A sua ira, a deslealdade, suas atitudes impensadas, a desonestidade, a sua busca por vingança contra aqueles que apenas querem o seu bem... Somos alimentados dia após dia por conta de cada uma de suas atitudes.

— Pare, por favor, pare! — a garota gritou desesperadamente e tapou os ouvidos.

— Seu pai até tentou um centro de reabilitação diversas vezes, mas você nunca colaborava. Você teve diversas chances para mudar, Marrieh. Mas infelizmente, todas elas se esgotaram. E agora, está na hora de se juntar a nós! — esbravejou o demônio.

O demônio rodopiou em uma velocidade que os olhos de Marrieh não conseguiam acompanhar. E logo, a figura maligna havia se transformado em uma grande espiral em movimento. À medida que a criatura girava e esbravejava em uma linguagem incompreensível, uma cratera se abria no centro da cozinha. Automaticamente, a jovem arrastou-se pelo chão, em uma tentativa de se afastar da cratera que aumentava a cada palavra proferida pela entidade.

A cratera era ladeada pelo fogo, era como se um vulcão tivesse sido implantado no meio da cozinha. Marrieh ouvia perfeitamente os gritos atormentados que provinha da abertura consumida pelas chamas.

— Não adianta fugir, Marrieh. É tarde demais e não há nada que você possa fazer em relação a isso. Chegou a sua hora!

E em uma velocidade impressionante, a figura perversa lançou Marrieh dentro daquela emboscada flamejante.

— NÃO! NÃO! — a jovem gritou em desespero.

O demônio apenas ria de maneira debochada e tenebrosa. Ele se deliciava com os gritos de desespero de Marrieh. As gritarias de uma alma sendo atormentada pelas chamas do inferno eram músicas para os seus ouvidos.

De repente, a cozinha voltou ao que era antes. O piso estava plano novamente e tudo estava na mais perfeita ordem, como se nada houvesse acontecido naquela madrugada.

[...]

Ao amanhecer, Michael desceu as escadas rapidamente e seguiu para a cozinha. Ele estava atrasado para a faculdade e iria preparar um lanche rápido. Ele foi em direção a geladeira, mas acabou tropeçando em algo no meio do caminho.

— Que droga, Marrieh! Estava tão bêbada assim que acabou dormindo na cozinha? — proferiu Michael enquanto olhava para o corpo da irmã caído no chão da cozinha. — Levante-se!

Michael deu um tapinha no ombro de Marrieh para despertá-la, mas percebeu que seu corpo estava frio. Ele observou o tórax e não detectou nenhum movimento que pudesse confirmar que a irmã estava respirando. Michael levou os dedos até o pescoço da jovem e não havia mais a pulsação que ele esperava encontrar.

— PAI?! MÃE?! — Michael gritou de maneira desesperada.

Angelina desceu as escadas e estava visivelmente assustada.

— O que houve, querido?

Michael não precisou responder, Angelina teve a sua resposta quando viu o filho chorar ao lado do corpo inerte da irmã.

Angelina correu em direção ao corpo, e em desespero, começou a balançá-lo.

Thomas adentrou a cozinha e se surpreendeu com a situação.

— O que está acontecendo aqui?! — o pai interrogou.

— Marrieh está morta, pai. — respondeu Michael.

Thomas balançou a cabeça e não queria encarar a realidade dos fatos. O pai aproximou-se do cadáver da filha e examinou por um momento.

— Provavelmente foi de overdose. — disse Thomas.

Ele balançou a cabeça negativamente e abraçou a esposa.

— Meu bem, eu sei que é impossível. Mas você precisa ser forte. — ele acariciou o rosto de Angelina e a beijou na testa.

Thomas não tinha ideia de como agir, ele sabia que mais cedo ou mais tarde, aquilo aconteceria com sua filha. Contudo, ele não sabia que a situação seria bem mais difícil do que imaginava.

— Ela está em um mundo melhor, querida. — sussurrou o marido para a esposa.

Thomas havia cometido um ledo engano ao dizer aquilo para a esposa. Infelizmente, sua filha estaria presa eternamente em um mundo cruel.

Tudo na vida tem seu preço, e em algum momento a natureza vai vir cobrar. Mas cuidado... Se a dívida for alta como a da jovem Marrieh, é no inferno que terá que pagar.

Notas finais
Admito que eu tive que ter sangue frio para escrever essa história. Eu tive pena do fim que teve a personagem, mas foi necessário. E se em algum momento alguém lembrou do filme Arraste-me Para o Inferno, estava com razão. Rsrsrs.. Eu me inspirei no filme. E eu gostaria de ressaltar a importância de honrar um pai e uma mãe. O maior erro de Marrieh foi a sua constante desonra em relação aos seus pais. É uma história simples com apenas uma pequena mensagem. Enfim, espero que tenham gostado. Com amor, Lê. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!