Tudo que Poderia ter Acontecido
13 A garota que ouviu o silêncio cair
Notas iniciais
Rose ainda sentia a vertigem do teletransporte. Ainda assim, Rose, se colocou de pé tentando compreender como o interior daquela nave podia ser praticamente idêntico ao da TARDIS. O homem diante dela sorria com uma esperança triste, quase perdida e os olhos dele eram tão velhos mesmo que seu corpo fosse jovem. Ela se viu sendo abraçada por ele com enorme força, aquele homem alto com a coluna levemente curvada agora a segurava em seus longos braços com a força evidente de uma ausência há muito sentida e então quando ele finalmente se afastou segurando o rosto de Rose entre as mãos e a garota pôde fita-lo sentiu que o coração de ambos se desmoronava de várias ou talvez todas as maneiras terríveis. Rose quis dizer alguma coisa boa, mas não sabia exatamente o que dizer, ou melhor, como dize-las.
–Eu me regenerei – Disse o Doctor percebendo que a garota finalmente começava a compreender.
–Esse é o futuro? – Rose olhou para o interior da TARDIS sorrindo amplamente – Onde eu estou? Acho que não devo me encontrar comigo mesma.
–Sou duzentos anos mais velho Rose – Respondeu ele com a expressão pesada, mexendo as mãos – Eu sinto muito.
–Estou morta – Rose já sabia desde o momento o que olhou nos olhos dele, mas quis ter esperanças de que poderia ser diferente – Como eu morri?
–Eu não posso dizer, pode alterar toda a realidade e toda a coesão temporal– Garantiu o Doctor mais uma vez colocando as mãos nos ombros da garota – Eu senti tanto sua falta.
–Eu cumpri minha promessa? Eu fiquei com você até meu último suspiro? – Rose o encarava suplicante agora em busca da resposta.
–Até o último suspiro – Garantiu ele com o olhar tão infeliz que pareceu injusto perguntar.
–É como se esperasse por isso... – Disse Rose tocando cautelosamente o rosto dele.
–Eu me lembro do dia do nosso casamento há tanto tempo – Começou com um leve sorriso – Me lembro de que queria joga-la na cama e então você sumiu. Fiquei absolutamente atordoado buscando uma maneira de te encontrar e eu consegui depois de três dias. Mais exatamente depois de 80 horas.
–Então daqui três dias estarei com o meu Doctor – Disse Rose sem se dar conta da crueldade daquelas palavras, o homem diante dela também era o Doctor, era o mesmo homem que procurava por ela– Mas estamos juntos agora.
–Estamos – Respondeu ele empolgado beijando a testa de Rose com força – Eu encontrei, ou melhor para você, encontrarei uma maneira de te trazer de volta, não se preocupe.
–Não temos que fazer nada? – Rose voltou finalmente a sorrir.
–Fique com o anel – O Doctor respondeu pegando a mão da garota e verificando o anel que ela havia acabado de receber – Não o tire...tudo isso aconteceu por causa dele e apenas ele pode faze-la retornar para o tempo correto.
–O que quer dizer? – Perguntou Rose agora caminhando para a porta.
–Havia uma energia de teletransporte no anel, ligado diretamente a TARDIS e como no momento você já estava aqui, nessa nave, a energia te levou para a próxima opção possível...uma viagem através do tempo. Felizmente a trouxe para ao futuro.
–Qual o problema do seu passado? – Disse Rose se lembrando do Doctor de olhos azuis que a trouxe para a Tardis e a mostrou todo o tempo e espaço.
–As minhas fases mais rebeldes não são atraentes – Garantiu o Doctor colocando um casaco preto não muito longo e oferecendo o braço para a garota.
–Estou vestida de noiva – Assinalou Rose segurando a lapela do Doctor – Quero me trocar, inclusive em que lugar do tempo e do espaço estamos?
–Era vitoriana, Terra – Garantiu o Doctor em voz mais elevada enquanto Rose seguia rumo aos corredores da TARDIS em busca do guarda-roupa – Eu já vi o seu vestido de noiva!
Rose enquanto se trocava colocando um vestido negro sentiu certa decepção pelo casamento não ter acontecido antes do teletransporte, mas também sentiu certa felicidade em conhecer a versão futura daquele que em breve seria seu marido. Honestamente a garota estava feliz por ter sido a única a morrer, pelo Doctor ter seguido em frente mesmo com a dor de mais uma perca. Ela estava aliviada por não ter arruinado para sempre a chance daquele velho Senhor do Tempo ter uma vida completa e de ter de fato algo como o amor. Foi então que a garota notou o silencio na TARDIS, um silencio já estabelecido e caído, ele estava sozinho. O homem que nunca podia estar sozinho, estava no completo silêncio e nada poderia ser mais assustador do que isso. Que caminho ele havia traçado?
–Amy e Rory, onde estão? – Perguntou o Doctor invisível para a Bad Wolf enquanto seguiam Rose que caminhava de volta para os braços do Doctor em sua décima primeira regeneração.
–Eles não aconteceram nessa realidade – Respondeu a Bad Wolf com seriedade – Amy e Rory tiveram uma vida incrível, mas uma vida sem um Doutor. Eu os mostrarei para você, em breve.
–Tem algo aqui que eu precise ver? – Perguntou o Doctor invisível.
–Há algo que seus juízes precisam ver, então você também precisa – Garantiu a garota Bad Wolf – Algo que os fará ter misericórdia quanto ao destino de todos.
Rose aceitou o braço do Doctor, abriram a porta da TARDIS e então estavam nas nuvens. Literalmente. Essas nuvens eram especiais e enquanto desciam a escada invisível e se deparavam com a neve abaixo deles simplesmente parecia certo que estivessem juntos naquela noite de Ano Novo e finalmente estavam. Caminharam rumo a algum lugar que o Doctor queria ansiosamente leva-la, mas Rose apenas queria sentir como era estar em meio a neve com um estranho que tanto conhecia.
–Por que está isolado em uma nuvem? – Rose não resistiu e teve de perguntar.
–Os séculos de solidão não tem sido os mais fáceis – Garantiu ele com um sorriso triste – Houve uma garota, uma garota impossível.
–Houve? – Perguntou Rose genuinamente interessada, quando ela havia se tornado tão pouco egoísta?
–Ela morreu, ela morreu para me salvar pela segunda vez – Rose enrugou a testa e então notou que o Doctor também não entendia – Se chamava Clara Oswin Oswald.
–Tenho certeza que se ela é impossível dará um jeito de voltar para você – Afirmou a garota sorrindo levemente – Doctor, nós fomos felizes?
–Foram os melhores tempos Rose – Garantiu ele agora encarando os próprios sapatos – Eu não pude te salvar, eu nunca posso salvar os mais importantes.
–É o único homem pelo qual se vale a pena morrer – Rebateu Rose tranquilamente.
O Doctor sorriu tristemente enquanto caminhavam rumo a casa da Madame Vastra e de sua esposa humana. Rose ouviu todas as histórias sobre Vastra, Strax e Jenny com alegria sincera e quando finalmente chegaram a casa da estranha anfitriã não ficou surpresa com a aparência dela tampouco com a de Strax, contudo todos ao ouvirem o nome “Rose Tyler” ficaram perplexos e encaravam como um evento errado e terrível. Vastra foi a primeira a entender as anomalias do tempo e simplesmente perceber a garota que deveria estar morta como um presente justo para o homem que havia salvo o universo tantas vezes. Afinal, ao menos finalmente conheceriam a única humana que tocou os corações do Doctor e isso teria de bastar. O jantar foi agradável, cheio de conversas e a garota notou surpreendida que havia alguma alegria secreta naquele novo Doctor tão diferente de seu próprio Doctor. Entre as histórias brilhantes e as coisas perdidas todos pareciam cuidadosos para não revelarem nada sobre como Rose partiu ou as consequências mais terríveis de sua morte. Ela estava feliz em conhecer aquele novo homem ao mesmo tempo tão jovem e tão velho, ao mesmo tempo um completo companheiro e um absoluto desconhecido.
Em algum momento da noite Rose e o Doctor decidiram voltar para TARDIS, o Doctor decidiu desse modo discretamente, mas o motivo era explicito: permanecer tanto tempo com pessoas que sabem o que ocorreu poderia resultar em alguma revelação. Rose não deveria conhecer seu próprio futuro porque o impulso de muda-lo seria intrínseco a ela, qualquer humano tentaria mudar o que ainda pertence ao futuro. Jenny abriu a porta acenando em despedida e quando Rose e o Doctor já haviam caminhado cinco passos Rose notou que deixara o casaco na casa de Madame Vastra.
–Não se preocupe – Disse o Doctor com a voz amena erguendo o indicador inseguro– Eu buscarei, preciso pedir para Vastra manter o Strax calado sobre tudo isso.
–Tudo bem – Sorriu Rose sendo deixada a poucos passos da casa de Vastra em meio ao movimento de todos aqueles que iam e vinham numa noite de ano novo.
O Doctor invisível e a garota Bad Wolf permaneceram ao lado de Rose enquanto percebiam aquele aparente jovem homem de gravata borboleta adentrar a casa de Madame Vastra. Rose colocou as mãos sobre os próprios braços sentindo frio e então encarou o próprio anel com alguma esperança inevitável de que sua vida valeria a pena. Rose não percebeu a aproximação do estranho, apenas o notou quando ele cobriu sua boca e a arrastou para a escuridão. Doctor invisível e a garota Bad Wolf seguiram impotentes os passos do estranho que arrastava uma Rose que não parava de lutar, ele entrou em uma casa aparentemente abandonada e a jogou no chão. Rose estava prestes a se erguer em fuga quando notou que aquele vilão era diferente dos demais, usava um tapa olho negro e a chutou na barriga. A garota Bad Wolf assistiu impassível Rose Tyler ser espancada enquanto que o Doctor invisível diante da cena apenas se recostou na parede olhando diretamente para mulher que um dia havia amado tanto gritar e se debater enquanto os chutes e tapas a deixavam cada vez mais marcada. O sangue que escorria no chão caminhava rumo a ele, ao Doctor, que em sua invisibilidade sentia o peso de não poder intervir em nada enquanto fitava os olhos em pura dor e tormento de Rose Tyler que gradativamente já perdia a consciência, o homem a serviço do silêncio pisou na mão estendida de Rose enquanto ela tossia com o sangue incapaz de falar.
–Por que? – Foi a única coisa que Rose foi capaz de perguntar sabendo que sua cabeça sangrava.
–Porque precisamos impedir o Doctor e a única coisa capaz de pará-lo é aquilo que ele ama – Garantiu o homem pegando o anel de Rose e se afastando – Vamos tirar cada coisa dele, inclusive as coisas que ele já não possui mais. Ele nunca a achará novamente.
Rose sentiu mais um chute na barriga e fechou os olhos com a certeza abrupta que perderia tudo. A garota despertou em um quarto completamente branco, estava deitada em uma cama penosamente desconfortável. Rose Tyler em sua confusão inicial não percebeu imediatamente a camisa de força, mas quando a notou sentiu seus olhos se encherem de lágrimas desesperadas já que sua última lembrança havia sido desmaiar. O Doctor invisível e a garota Bad Wolf que seguiam Rose apenas a viram ser tirada da casa abandonada, estranhos cuidaram dos ferimentos mais profundos e a jogaram quase que imediatamente em uma camisa de força num hospício distante de Londres. Rose começou a murmurar “Doctor, doctor, doctor” e então se colocou de pé ainda mais desesperada.
–DOCTOR! – Gritou a garota se aproximando da porta branca que possuía uma pequena janela de vidro – DOCTOR!
Rose Tyler notou finalmente ao se aproximar da pequena janela de vidro da porta que haviam muitas outras portas iguais a dela e muitos outros gritos. Foi então que compreendeu que aquele homem a havia prendido no único lugar no qual gritar “Doctor” jamais seria alto o bastante. Rose soube que estava presa em um lugar em que ele, em que nenhum de seus Doctors, jamais poderiam ouvi-la e então a garota ficou em silêncio. O silêncio sempre cai, de um modo ou de outro.
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