Tudo que Poderia ter Acontecido
47 A garota, o homem que não podia morrer, a canção final e a jornada continua
Notas iniciais

Sorria, o pior ainda está por vir
Seremos sortudos se algum dia virmos o sol
Não temos nenhum lugar para ir
Podemos ficar aqui por um tempo
Mas o futuro nos perdoa, então sorria
Estamos tentando tanto acertar tudo
Mas acabamos solitários no final da noite
E eu quero estar em algum lugar longe deste lugar
E em algum lugar um pouco mais perto da graça
Bem, me chame de perdedor
Me chame de ladrão
Diga-me que sou especial quando cuspir em mim
Pois não quero ficar sozinho
Eu quero ser amado
E quero que você me abrace como se eu fosse único
O tempo eventualmente baterá em minha porta
E me dirá que não sou mais necessário por aqui
Mas ele me abraçará tão apertado no fim do dia
Quando estou quieto, posso quase ouvi-lo dizer
Sorria, o pior ainda está por vir
Seremos sortudos se algum dia virmos o sol
Não temos nenhum lugar para correr
Não temos nada além de tempo
Mas o futuro é para sempre
O futuro é para sempre
(Tradução Livre da Música Smile — Mikky Ekko)
O Capitão Jack Harkness estava diante da líder da Proclamação das Sombras, era o responsável final pela execução do plano e tinha algo a fazer, finalmente tinha sua parte naquele grande plano a ser finalizada e isso era tudo que importava agora. Os corpos de Mickey, Martha, Amy, Gween, Rory, Donna, Sarah-Jane e do Doctor permaneciam estendidos no chão cobertos por lençóis.
—Eles estão mortos, isso já foi completamente confirmado — Garantiu a líder da Proclamação — Se deseja seus amigos de volta para enterra-los, pode tê-los.
—Obrigado, eu preciso oferecer um funeral justo a todos eles — Explicou o Capitão.
Os corpos foram devidamente levados para a base de Torchwood 2 pelo Capitão. Todos foram colocados no galpão desprovido de qualquer pessoa ou tecnologia, ali postos sobre o chão com os lençóis brancos cobrindo suas faces até pareciam verdadeiramente mortos. O Capitão se aproximou de cada um, retirou o lençol do rosto e aplicou o adesivo — que os faria acordar — no pescoço de cada um. Ele se sentou em uma cadeira esperando que despertassem.
Não surpreendentemente o primeiro a despertar foi o Doctor. Ele acordou em um rompante puxando todo o ar para seus pulmões e imediatamente se colocou de pé.
—Capitão — Disse o Senhor do Tempo rapidamente colocando o sobretudo.
—Todos conseguiram fazer o que era necessário? — Questionou Jack.
—Sim — Afirmou o Doctor assentindo.
O plano havia sido um sucesso quase absoluto: invadir a Proclamação das Sombras, colocar os dispositivos nas armas Judons e então todo o universo se convenceria de que o Doctor e seus amigos estavam mortos. Jack não participou do plano diretamente porque a Proclamação sempre soube que ele não podia morrer. Desse modo, todos os amigos do Doctor tinham uma mesma missão: matar Judons e colocar o dispositivo nas armas Judons porque seria esse aparelho o responsável por anular o efeito fatal da arma proporcionando em troca o efeito de um sono tão profundo e absoluto que poderia ser confundido com a morte. Para que despertassem desse sono que simula tão perfeitamente bem algo irreversível haviam os adesivos — colocados agora pelo Capitão — que quando em contato com a superfície da pele despertariam o indivíduo. Tudo isso havia sido uma criação conjunta do Doctor com o Capitão Jack Harkness e absolutamente todos os amigos concordaram em fazer parte daquilo.
Ainda assim o plano era arriscado já que sempre houve a chance de serem acertados pela arma dos judons antes de terem colocado o dispositivo nelas. Outro detalhe importante era que o tiro fatal era anulado apenas uma vez por isso ao colocarem o dispositivo já deveriam assegurar que aquele mesmo judon atirasse primeiramente neles próprios. Foi um excelente plano que tirava o Doctor do alvo da Proclamação das Sombras e todos os seus amigos do alvo de Nêmesis. Todo o universo acreditava que eles estavam mortos.
—Eu fui atingido por quatro tiros e três desses tiros não foram anulados com o nosso dispositivo — Explicou o Doctor olhando para as próprias mãos que antes feridas agora estavam cicatrizadas.
—Isso significa que… — Jack Harkness não queria terminar a frase.
—Eu vou me regenerar — O Doctor sentia o processo começando — Ainda tenho algum tempo, esperarei todos despertarem para ter certeza que estão bem.
Jack Harkness assentiu e abraçou o Doctor em um ímpeto e o abraço apenas foi interrompido quando Sarah Jane despertou e o Doctor foi até ela, usou a chave de fenda sônica para ter certeza que ela estava bem, a ajudou a se levantar e então a abraçou. Ele repetiu isso com cada um de seus muitos amigos: Martha, Donna, Gween, Mickey, Rory e finalmente Amy Pond. Depois de algum tempo todos já estavam de pé, todos já conversavam sobre a vitoria do plano e sobre como teriam de começar a planejar a próxima etapa da missão.
O Doctor se encostou na TARDIS, cruzou os braços e sorriu levemente enquanto todos conversavam, ligavam para as próprias famílias e riam das novas identidades que possuíam graças a Jack Harkness. Todos eles apenas prontos para começarem de novo em algum Planeta Colônia Humano futurístico para que o universo continuasse acreditando que estão mortos…todos eles já estavam preparados para uma próxima missão. A missão de encontrar e resgatar Gabrielle, Evey e John.
O Doctor sabia que deveria deixa-los ir, que jamais deveria ter envolvido os amigos em algo tão perigoso, mas ao mesmo tempo tinha certeza que fizera a coisa certa. Eles nunca quiseram partir, eles ficaram ao lado dele e eles persistiram por uma vida de aventuras, uma vida nova e uma vida melhor.
Aquele velho Senhor do Tempo apenas não era mais o tipo de alguém que privaria aqueles que ama de algo tão magnífico quanto o universo. Ele demorou toda uma vida para compreender que as coisas poderiam ser melhores quando não se está sozinho.
O Senhor do Tempo entrou na TARDIS. Sentia muita dor agora e sentia que estava próximo do final…as armas que o atingiriam haviam sido fortes demais. Ele teria de partir, ele teria de se regenerar, ele teria que começar novamente. O Doctor abriu o pequeno pacote entregue por Amy Pond e o abriu se surpreendendo ao compreender que era um drive. Ele colocou o aparelho na TARDIS, olhou para a tela e esperou o vídeo se iniciar.
A imagem que surgiu na tela foi de Rose Tyler, ela tinha os cabelos loiros cacheados longos e sorria levemente para a câmera, a garota suspirou profundamente e começou a falar:
—Se está vendo isso significa que eu morri- Começou ela seriamente — Significa também que Amélia Pond cumpriu a promessa que me fez aos oito anos de idade e te entregou todos os itens que eu deixei..sim Doutor eu sei que quebrei as regras usando o manipulador de vórtex para descobrir quando estaria morta, para descobrir onde a TARDIS estaria exatamente para que Amy entregasse todos aqueles itens, mas eu precisei fazer isso porque a ideia de deixa-lo sem poder dizer adeus era terrível demais. — A garota tinha a voz séria, mas seus olhos eram felizes — Consegui tudo isso com a ajuda de Nêmeses, ela aparentemente é nossa filha e ela me visitou naquilo que é o meu passado…ela me disse que fez coisas pelas quais se arrependeria para sempre, ela disse que se voltou contra você e ela me contou que um dia seria responsável pela minha morte. Eu não sei nada mais além disso, mas sei que ela um dia poderá ser salva, um dia ela será digna de redenção porque vejo nos olhos dela que há esperança. Vejo uma garota muito mais velha que voltou no tempo para pedir perdão. Vejo que mesmo que agora ela esteja fazendo coisas horríveis talvez um dia no seu futuro as coisas mudem e ela volte no tempo apenas para permitir que tudo isso aconteça. Um dia ela vai se arrepender tão profundamente que voltará para me procurar através de um espelho que se quebrará, ela irá me pedir perdão e dizer que sente muito — Rose tinha a voz embargada — Eu ainda não sei qual será o nosso futuro juntos, é ainda muito cedo para mim, mas tenho certeza que agora você já descobriu e isso significa que talvez tenha sido fantástico. Espero que tenha sido absolutamente fantástico. Eu sei que tudo pode ter acabado, mas o fim da canção nunca significa o fim da jornada e espero que continue, que siga em frente e que ache tudo que foi perdido. Eu te amo, te amarei até o fim com todas as minhas forças e por favor… Seja bondoso, seja corajoso, simplesmente seja o Doctor.
A garota no vídeo sorriu amplamente e desligou a câmera fazendo a mensagem chegar ao fim. O Doctor encarou a tela agora apagada e sorriu, sorriu amplamente antes de fazer a TARDIS viajar para o passado. Ele voltou para a noite em que o ano de 2004 se tornou o ano de 2005, se recostou em uma parede escura nas sombras, estava próximo ao conjunto habitacional onde uma garota rosa e amarela de dezenove anos vivia.
Rose Tyler apenas percorria as ruas conversando com sua mãe. Jackie foi para outra direção mas Rose caminhava para casa até ouvir o som de alguém nas sombras. Eles trocaram algumas palavras sem que Rose Tyler soubesse de quem se tratava, ela subiu as escadas de casa e o Doctor sorriu porque viu o rosto daquela mulher pela última vez. Porque a viu viva, cheia de possibilidades e repleta de chances. Sorriu porque ela estava pronta para o que viria e ele também estava.
O Doctor entrou novamente na TARDIS e ele pôde sentir a energia que tentava desesperadamente sair de seu corpo. Ele tinha os olhos aflitos pelos débitos de uma regeneração, mas estava pronto.
—Eu preciso ir — Isso foi tudo que o Doctor disse antes que tudo mudasse. Foram suas últimas palavras.
Foi então que a energia imensa deixou seu corpo, a regeneração estava concluída e em um segundo ele era uma coisa e no segundo seguinte ele era outra. Um novo rosto, uma nova vida e ainda assim o mesmo homem. Era sempre o mesmo homem. O Doctor viu a TARDIS em chamas, mas mesmo perante isso puxou a alavanca viajando com a máquina do tempo para outro lugar. Quando a TARDIS pousou em um estrondo ele viu que havia parado do lado de dentro de Torchwood 2.
Ele deixou a máquina do tempo, fechou a porta com cuidado e sussurrou algo secreto para a TARDIS. Ele caminhou para o lado de fora do galpão ainda surpreso por não encontrar ninguém e foi então que ele viu aquela garota ruiva, sentada em um degrau da escada do lado de fora, encarando as estrelas como se esperasse.
—Amélia Pond — Disse o Doctor como se fosse um nome de contos de fada.
A garota olhou para trás perplexa. Se colocou de pé assustada perante o homem maltrapilho e então fez sua expressão mais corajosa e mais desafiadora.
—Eu não sei quem é você homem maltrapilho, mas me deixe em paz! Todos os meus amigos estão aqui e…meu marido também! — Amy movia os braços como se pudesse se defender.
—Sou eu! O Doctor — Disse o Senhor do Tempo assinalando para a própria face e então negando com a cabeça — Eu sei que pode não parecer…mas ainda sou eu.
—Você se regenerou — Disse Amy em um sussurro como se não pudesse acreditar — É um outro homem agora.
—Onde estão os outros? — Questionou o Doctor — Por quanto tempo estive fora?
—Três dias…eles estão dormindo nas salas secundárias -Respondeu Amy ainda desconfiada e com as sobrancelhas franzidas.
—Eu preciso comer — Disse o Senhor do Tempo se virando e sendo seguido por Amy.
—O que acha de tiras de filé de peixe com creme? — Perguntou a garota envolvendo o próprio braço no braço esquerdo do Doctor.
—Geronimo — Respondeu o Doctor em um sussurro.
Rose Tyler fora o primeiro e o último rosto que sua décima regeneração vira.
Amélia Pond era o primeiro rosto que sua décima primeira regeneração viu e também, um dia, seria o último.
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