Tudo que Poderia ter Acontecido
29 A garota na prisão de SHADA
Notas iniciais

"Eram mil contra um e um milhão contra dois. Hora de se incendiar e eu estou levando você. Mais perto do limite" — (Tradução livre da música Closer to the Edge)
Clara Oswald arregalou os olhos perplexa com as palavras ditas por aquele estranho homem- queria ser capaz de dizer qualquer coisa, perguntar algo importante ou questionar sobre tudo aquilo e então se calou. Afinal estavam em Gallifrey o lar do Doctor e quando se trata de coisas tão antigas tudo poderia ficar ainda mais nebuloso do que de fato já é. E estava ficando cada vez pior.
—Doutor temos de tira-lo daqui — Começou Clara em um sussurro após longos minutos de um silencio no mínimo perturbador.
—Braxiatel — O Doctor franzia as sobrancelhas perplexo como se esperasse respostas.
—Faz muito tempo meu irmão — Respondeu Braxiatel com um sorriso, mas havia algo confuso nos seus olhos — Houve um tempo que acreditamos que jamais nos veríamos novamente.
—Eles o prenderam aqui, mas eu procurei tanto por você antes da guerra — Garantiu o Doctor.
Clara Oswald tinha os braços cruzados encarava Braxiatel com as sobrancelhas também franzidas e assentia como se tentasse compreender toda aquela loucura interminável. Havia tantas coisas que ninguém conhecia sobre o Doctor. Até mesmo ela que nasceu para ser impossível não podia ter certeza acerca da verdadeira natureza do homem que todos chamavam de Doutor. Ninguém estava seguro ao lado dele e ainda assim haviam tantos amigos, tantos companheiros, tanta história e tantos segredos.
—Precisa ajudar Rose Tyler — Disse Braxiatel com sua voz altiva — Será o momento mais sombrio dela e você precisa guia-la.
—Eu não posso mudar o que vai acontecer hoje — O Décimo Segundo Doutor tinha certeza quanto a isso — Ela precisa enfrentar a hora mais sombria.
—E precisará de você — Completou Braxiatel finalmente voltando os olhos para Clara — A sua garota impossível. Eu sinto muito pela sua perca irmão.
—Eu estou aqui, como poderia estar perdida? — Clara questionou sorrindo e descruzando os braços, mas no fim ela compreendia a resposta. Ela iria morrer ao lado da Décima Segunda Regeneração do Doutor, ela morreria e isso o faria viajar sozinho.
O Doutor encarou Clara por um momento com os olhos tristes, com aquele olhar poderoso e absurdamente infeliz e nada pôde ficar bem naquele instante, nada pôde ter esperança, nada pôde viver. Todos partiam, todos tinham sua hora para dizer adeus, contudo os senhores do tempo permaneciam. Eternos, infinitos e cruéis.
—Vou tira-lo desse lugar — Garantiu o Doutor em sua usual imponência.
—Eu pertenço a esse lugar, eu não quero liberdade…eu quero ficar aqui e observar o universo, o tempo, a criação e o fim dela — Disse Braxiatel com enorme segurança — Não estou na Casa das Sombras em vão, eu pertenço a esse lugar agora.
O Doutor já apontava a chave de fenda sônica para as correntes que o prendiam e então parou diante do pedido do irmão. Talvez Braxiatel estivesse louco e o Doctor tinha certeza quanto a isso, ninguém em plena sanidade se condenaria desse modo. Clara Oswald caminhou até o fim da sala, pegou o dispositivo que faria as TARDIS se separarem e fitou Braxiatel. Clara Oswald: a garota trazida ao mundo por uma folha e condenada a deixa-lo nas asas de um corvo apenas suspirou e compreendeu que Braxiatel não estava louco. O irmão do Doutor estava cansado. Cansado da perca, da aventura, do luto, do fardo. Clara também se sentia cansada, cansada de morrer mil vezes e renascer outras mil vezes em nome do Doutor. Em nome daquele que nem mesmo revelava seu real nome ou sua verdadeira natureza para aqueles que amava.
***
Lord Vael, Rose Tyler, Donna Noble e o Décimo Doutor haviam adentrado a sala do Alto Concelho de Gallifrey graças a ajuda de Vael. Felizmente o concelho não estava reunido, quase nenhum Senhor do Tempo estava na Cidadela devido a uma reunião mais importante em Arcádia. Ainda assim poderia haver alguém, afinal sempre restava alguma surpresa. Eles haviam dispersado os poucos indivíduos que vigiavam as entradas e agora na sala principal finalmente guardavam a terceira parte do dispositivo que separaria as TARDIS. O Doutor colocou o dispositivo em um dos bolsos do grande sobretudo em um suspiro aliviado, mal podia acreditar que tudo havia ocorrido da melhor forma possível.
Rose Tyler ainda estava fascinada. O local no qual o Alto Concelho estava instalado era exatamente no centro da Cidadela sendo que a própria Cidadela já representava o centro de Gallifrey. Ela era uma das poucas humanas que já haviam pisado no núcleo absoluto daquele planeta há tanto perdido e agora apenas podia sentir o fascínio diante da sala central. Assim como todos os outros corredores e salas laterais que haviam percorrido as paredes, da sala central e circular que ocupavam agora, eram douradas e todos os outros detalhes eram talhados em vermelho.
—Vamos sair daqui, vamos todos sair daqui — Anunciou o Doutor apressado.
Rose Tyler caminhava na frente seguida por Donna Noble, Vael e por último o Doutor. Atravessaram um corredor e entraram em uma sala de tamanho médio, igualmente decorada e em formato retangular. Havia uma sala anexa logo em seguida e Rose a atravessou primeiro sendo seguida por Donna. E foi assim que a porta se fechou os separando. A sala na qual Rose e Donna estavam presas tinha um formato triangular e a porta de vidro que havia se colocado entre elas e o Doutor parecia muito forte. O Doctor fez um sinal afirmativo para Rose e caminhou até os controles anexos da sala retangular na qual agora também estava preso.
Rose Tyler e Donna Noble observavam atentas através do vidro o Lord Vael e o Doctor se voltarem para o painel de controle para liberar as portas que haviam se fechado. Rose caminhou até o fim da sala triangular e também tocou a porta que estava terminantemente trancada. Ela voltou para perto do vidro observando um Doutor cada vez mais frustrado por não conseguir libertar Donna, Rose ou a si mesmo.
Rose Tyler e Donna Noble não viram o perigo, não sentiram a ameaça, não perceberam que a sala estava silenciosa demais.
Ainda assim as mãos as tocaram, puxaram Rose com violência enquanto Donna tentava inutilmente fugir. Rose se debateu diante dos dois homens que seguravam seus braços, começou a chutar o ar compulsivamente, contudo outros dois homens seguraram suas pernas a carregando. Rose começou a gritar enquanto percebia que era levada para a mesa que ocupava o centro da sala, eles a fizeram se sentar na grande mesa. Donna não podia lutar contra tantos.
—Não se assustem humanas — Foi assim que Rassilon adentrou a sala com o seu usual orgulho, com as roupas de Gallifrey e com a segurança cruel de quem havia planejado tudo o que estava acontecendo — Rose Tyler tem algo que queremos.
—O que? — Rose olhou para a própria barriga e compreendeu o que eles queriam e seus olhos se encheram de lágrimas — Não…não…
Rose em sua compreensão não notou a mulher que se aproximou pelas suas costas, contudo sentiu a cruel pontada de algo que injetaram em suas costas. Sentiu que o bebê se mexia dentro dela, sentia que ele queria conhecer o mundo mesmo que ainda não fosse tempo. Gritou de dor por uma contração que o corpo dela não podia aguentar, sentiu a adrenalina e o desespero de toda aquela dor.
—Não podem fazer isso! — Havia muita raiva na voz de Donna, ela conhecia Rassilon devido aos eventos que tentaram trazer Gallifrey para ocupar o lugar da Terra anos antes.
—A mulher mais importante do universo — Disse Rassilon se aproximando com um olhar desafiador enquanto Donna o encarava com força e severidade — Você pode morrer agora diante de sua amiga ou pode se aproximar e segurar a mão dela. Faça uma escolha sábia.
Donna Noble voltou seus olhos para Rose Tyler. Para o fato da jovem mulher ter as roupas rasgadas, estar deitada naquela estranha mesa de pedra e por gritar de dor como se estivessem a queimando viva. Encarou aquela cena com tristeza, com o peso do universo nos ombros e por um instante não se sentiu nada importante. Sentiu que a desgraça de Rose Tyler era a única coisa significativa.
Donna caminhou até Rose e segurou a mão da mulher loira com força enquanto outro Senhor do Tempo algemava a mão esquerda de Donna a fim de evitar uma fuga. Rose olhou desesperada para o vidro diante dela, o vidro no qual o Doctor estaria assistindo impotente tudo aquilo, e então desviou o olhar.
Rose gritou várias vezes perante a dor, o sangue, o desespero e a necessidade de ser forte. A mulher diante dela responsável pelo parto não era a mesma que havia aplicado a injeção tantos minutos antes. Era uma mulher muito mais velha e Donna teve certeza que podia reconhecê-la porque se lembrava de seu avô descrevendo as aparições contínuas de uma estranha mulher de Gallifrey. Ali estava ela novamente, fazendo os filhos de Rose Tyler chegarem a esse mundo mesmo que o preço fosse alto.
O Doutor batia no vidro; batia no vidro desesperadamente desde que tudo havia começado e ainda assim era incapaz de chegar a mulher que amava. Ela estava diante dele tendo um parto forçado e haviam sido os senhores do tempo responsáveis por toda aquela dor. Havia sido seu próprio povo a impor aqueles gritos à Rose Tyler. O Doutor sentia a fúria, sentia as lágrimas em seus olhos, sentia o temor de perder a mulher diante dele e o terror de ver os filhos serem criados sem mãe. Ele não podia entender como havia deixado o céu e chegado ao fim do poço tão rapidamente. Não podia compreender como a estrada de repente se tornou tão longa e como as cinzas ficaram tão definitivas.
Ainda assim foi em meio ao perigo, ao caos, a perca, a mudança e a crueldade que o Doutor viu a primeira filha nascendo. Através daquela parede de vidro ele viu a primeira criança ser entregue a Rose Tyler e então ele viu mais uma criança ser entregada a esposa. Eram duas crianças. O Doutor havia acabado de se tornar pai de duas garotas enquanto Rose Tyler do outro lado do vidro as segurava com o que parecia ser suas últimas forças. Havia sangue por toda a parte.
—Minhas filhas — Rose segurava as filhas e sussurrava muito fraca, sentia que não parava de perder sangue — Se chamarão Susan e Evey.
—São lindos nomes — Garantiu Donna com um sorriso fraco e com os olhos cheios de lágrimas.
Rassilon caminhou até Rose Tyler e pegou de seus braços a garota que ela havia chamado de Susan. Sentiu que estava perdendo uma de suas filhas, que ela seria criada longe e arrancada de sua vida para sempre. Sentiu um pedaço de si mesma sendo retirado de seu corpo, sentiu a dor, tentou compreender as razões do porquê.
—Essa criança será levada para prisão de Shada e aguardará o momento — Declarou Rassilon.
—Não tire minha filha de mim, por favor não a tire de mim! — A voz de Rose estava cada vez mais distante, mais danificada e ainda assim havia um desespero sincero.
Por um segundo isso foi tudo que o Doutor pôde sentir. Sentiu que havia decepcionado Rose Tyler, sentiu que havia se tornado um escravo do tempo, sentiu o tempo no qual disse adeus a Rose e a fez se despedaçar em lágrimas. Se lembrou de como trouxe o inferno para a vida daquela mulher e como agora ela perderia muito mais do que ele seria capaz de reparar. Ele havia contado tantas mentiras, sido tão cruel, feito coisas terríveis e escolhido por vezes um caminho que Rose Tyler jamais escolheria para ele. Ainda assim aquela humana estava em todas as coisas. Por um segundo ele soube que Rose Tyler estava em todas as coisas importantes.
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