Tudo que Poderia ter Acontecido
24 A garota impiedosa, o homem em ruína e corra garota esperto
Notas iniciais
“Eu ouvi que havia um acorde secreto
Que David tocou e louvou ao Senhor
Mas você não se interessa mesmo por música, não é?
É assim — a quarta, a quinta
A menor cai, a maior ascende
O Rei perplexo compondo aleluia
Sua fé era forte, mas você precisou de provas
Você a viu se banhando do telhado
A beleza dela sob a luz do luar te arruinou
Ela te amarrou numa cadeira da cozinha
Ela destruiu seu trono, cortou seu cabelo
E dos seus lábios ela extraiu a aleluia
Houve uma época em que você me deixou saber
O que era real e acontecia
Mas agora você nunca me mostra isso, não é?
E se lembra de quando eu me aproximei de você
A escuridão sagrada foi junto também
E cada suspiro que déssemos era aleluia
Houve uma época em que você me deixou saber
O que era real e acontecia
Mas agora você nunca me mostra isso, não é?
E se lembra de quando eu me aproximei de você
A escuridão sagrada foi junto também
E cada suspiro que déssemos era aleluia”
(Tradução livre da música — Hallelujah)
Clara Oswin Oswald não compreendeu o próprio impulso. Não compreendeu porque correu dez passos em disparada por Rose Tyler e a jogou no chão a salvando, não compreendeu porque exatamente escolheu ser abatida pelo carro. Mas quando Rose foi jogada e virou o rosto em direção a mão que a salvou ainda teve tempo de ver o carro em alta velocidade bater em Clara e a lançar a poucos metros dali.
–Não!! – O Doctor gritou correndo na direção de Clara e Rose.
Rose tentou se levantar, mas o próprio pé estava torcido. Haviam luzes em todas as partes e o motorista havia parado o carro incapaz de acreditar nas próprias ações. O Doctor invisível e a garota Bad Wolf olhavam o caos instaurado perplexos enquanto que o primeiro olhava para os próprios pés, mais uma morte de sua garota impossível. Mais um sacrifício. Mais uma vez ela não podia ficar. Mais uma vez ela tinha de morrer.
–Vá até Oswin! – Gritou Rose para o Doctor quando ele fez menção de se aproximar da esposa.
O Doctor se aproximou, não havia ninguém ainda perto o bastante do corpo de Clara, ela tinha os olhos abertos e piscava lentamente enquanto pequenas lágrimas saiam de seus olhos. Agora ela entendia que havia se atirado para salvar Rose Tyler porque devia salvar o Doutor, ele jamais seria salvo se ela não fizesse a coisa certa. Ela nasceu para esse momento, nasceu unicamente para esse pequeno instante no qual ela salvaria aquele velho Senhor do Tempo. O motivo da existência dela finalmente estava simplificado, definido e claro. Ela esperou vinte e três anos pelo momento em que morreria para salvar o Doctor.
–Clara, eu sinto muito – O Doctor segurava a mão dela com força.
–Eu sei – Garantiu Clara com a voz pesada – Eu precisava salva-la, dessa vez te salvar significava salvar Rose Tyler, não era a vez dela.
–Obrigada por salva-la, obrigada por me salvar – Agradeceu o Doctor com as mãos no rosto da Clara – Eu queria poder te salvar, não era a sua vez também.
–Corra, corra garoto esperto – Começou Clara olhando para o Doctor – E lembre-se de mim.
Clara fechou os olhos em seu momento final. O Doctor a encarou por alguns minutos e então a multidão começou a se juntar, os bombeiros estavam no local e era hora de dizer adeus a garota impossível, ele beijou a testa dela antes de deixar aquele local. O Doctor caminhou até Rose a ajudou a se levantar e caminharam juntos até a TARDIS. Rose estava descalça, com os olhos cheios de lágrimas pela amiga e tinha o sobretudo do Doctor sobre seus ombros, eles caminharam de mãos dadas, contudo dessa vez eles não correram. Não era ainda o tempo de correr.
Assim que entraram na TARDIS o Doctor fez um hemograma completo em Rose Tyler e deu alguns remédios avançados que curariam os hematomas até o dia seguinte. Ficaram sentados nas cadeiras do painel de controle central como se fossem incapazes de conversar, ninguém disse nada, contudo em algum momento Rose silenciosamente agradeceu o Doctor e caminhou para o sofá da biblioteca, dormiu ali mesmo. Longe de seu Doctor, longe das meretrizes, muito longe de tudo que foi e esteve sendo.
***
Rose despertou, caminhou até a sala de controle e chamou pelo Doctor. A garota suspeitou que não havia ninguém e foi até a banheira tomando um banho para em seguida ir até guarda roupa principal da TARDIS colocando um longo vestido de cor creme e um sobretudo branco. Não queria ir até o quarto que dividia com o Doctor, não se sentia digna de nada aquilo, se sentia cada vez mais atordoada e atormentada sem o álcool. Sem o esquecimento sobre as coisas que fez e sobre as coisas que fizeram com ela.
A garota abriu a porta da TARDIS caminhou vagarosamente sendo seguida todo o tempo pelo Doctor invisível e pela garota Bad Wolf. Rose se viu parada no lugar do acidente, na frente do bar que trabalhou por tanto tempo. Naquele local uma pequena multidão se juntava e o bar se mostrava devastado: havia sido destruído por um incêndio horas antes. Rose colocou as mãos sobre a boca perplexa, havia sido o Doctor...ele havia queimado tudo. A garota procurou no aglomerado de pessoas algum rosto conhecido e então viu os cabelos negros de Mary e a trouxe para perto.
–Rose! – Disse Mary empolgada – Ele está morto, aquele que disse nos possuir está morto.
–Ele morreu? – Rose tinha a voz letárgica.
–Sim e todos os outros homens associados a ele – Afirmou Mary – Estamos livres.
–Ao que parece sim – Rose apenas conseguia sentir perplexidade.
–Queria que Clara estivesse aqui, ela sempre quis ser livre – Garantiu Mary agora triste.
–Adeus Mary – Rose a abraçou com força e então correu em direção a TARDIS.
Quando Rose abriu a porta da TARDIS o Doctor já estava na sala de controle sentado em um degrau pensando, ele estava preso em pensamentos, mas o silencio começava finalmente a matar Rose. Ela se sentou do lado dele e colocou a cabeça no ombro do velho Senhor do Tempo com a esperança de que pudessem ser salvos. A garota segurou a mão dele com tanta tristeza e então ele soube que ela já sabia sobre o incêndio no bar.
–Você não é um Deus vingativo – Rose dizia mais para si mesma do que para o Doctor – Você é mais do que qualquer coisa assim...você é mais do que a vingança.
–Não depois do que fizeram com você – Garantiu o Doctor sombriamente.
–Humanos fazem isso com humanos – Afirmou Rose Tyler com a voz pesada – Como posso permitir que tire essas minhas memórias se o fardo passará a ser seu?
–Ainda é um fardo menor apenas saber – O Doctor garantiu seriamente – Essas lembranças, essas memórias não te darão nada de bom.
–Eu posso voltar a ser a velha Rose Tyler – Garantiu a garota com um leve sorriso – Mas eu preciso que volte a ser o velho Doctor também.
–É um acordo justo – Assentiu o Doctor em concordância.
Rose se colocou de pé retirando o pesado casaco e caminhou para a cozinha da TARDIS, ela não esperava ser seguida pelo Doctor. Ele tinha as feições atormentadas de alguém que sente culpa e segurança cega; os olhos de um homem que sabia que tinha ido longe demais, mas que ainda assim não conseguia se arrepender. Era um homem envergonhado por não ser capaz de sentir qualquer piedade, ele lamentava porque nesse dia ele não pôde ser o Doutor e mais uma vez iria ser o tempo de começar a correr.
A garota pegou um copo de água enquanto que o Doctor permanecia encostado na mesa da cozinha com o olhar distante, era como se ele não estivesse ali. Rose se aproximou tocou o rosto dele, que em troca apenas a fitou preocupado, e então a garota o beijou com intensidade e doçura. Com toda aquela devoção e aquele temor pelo qual sempre se beijaram e sentiu aos poucos as mãos do Doctor tocarem sua cintura e a virarem para a mesa. O Doctor a colocou sentada na mesa da cozinha e continuou a beija-la, porém era um beijo desesperado de um homem que temia demais o futuro, era o beijo desesperado de uma garota que havia perdido a alma.
O beijo ansioso foi forte o suficiente para que o Doctor segurasse o corpo de Rose com força, para que Rose retirasse o casaco dele com ansiedade, para que o vestido dela subisse pela cintura. Aquele desespero um pelo outro, era algo até então desconhecido. Era algo inédito e impossível. Rose arfou por sentir os lábios dele, por sentir alguma coisa finalmente depois de tanto tempo em dormência e dor constante, arfou ao sentir que ela havia perdido tudo, mas que ele, de alguma forma, estava tão perdido quanto ela.
A força do toque de ambos se intensificava com os beijos e cada vez mais forte era o desespero que sentiam aliado a um prazer crescente. Rose sabia que seus gemidos cresciam, que o som de sua voz aumentava a cada vez que o sentia dentro dela com mais intensidade e ela era grata por isso, por estarem se possuindo naquele desespero. Pela boca desesperada dele percorrendo seu corpo, pelas mãos de Rose nele enquanto permanecia sentada naquela mesa que se mantinha imóvel mesmo com o movimento de ambos. Rose sentiu que havia chegado ao ápice e que estavam começando de novo, ela não sabia quantas vezes os olhos dela tinham se fechado naquele delírio ou quantas vezes ela havia arfado por isso, mas em algum momento acabou. Em algum momento Rose estava deitada na mesa da cozinha da TARDIS e o Doctor estava de pé do outro lado perfeitamente recomposto com as mãos na parede pensando em como apagar as memórias de Rose.
–Isso foi tão humano – Foi a única coisa que o Doctor disse.
Rose se moveu, saiu de cima da mesa e colocou o vestido longo caminhando até o homem que sempre estaria lá e entendeu a preocupação dele. Clara estava morta, a mulher com a qual se casara havia perdido metade da alma e o tempo estava passando, correndo cada vez mais forte. Eles queriam sorrir, mas não conseguiam. Como tudo podia ser tão triste?
–Eu senti sua falta – Disse Rose com a voz amena tocando nos braços do Doctor e o fazendo deixar de tocar a parede, eles se fitaram finalmente sem se tocarem.
–Não a farei esquecer essa parte, não a parte em que fizemos amor aqui – Garantiu o Doctor ainda sem toca-la.
–O que devo fazer? – Perguntou a garota com um leve sorriso.
–Imagine um corredor com portas, coloque em uma das portas a lembrança de todo esse um ano – Pediu o Doctor calmamente – Coloque absolutamente tudo, caso queira se lembrar da última uma hora nessa cozinha...não coloque na porta.
–Eu quero me lembrar da última uma hora – Sorriu Rose Tyler vendo o Doctor colocar as duas mãos sobre sua cabeça e fechar os olhos, ela fechou os olhos também.
Por um momento o Doctor estava na mente dela, retirando aquela porta e o que havia de pior. Ele estava retirando uma dor imensa e guardando esse segredo para sempre; estava guardando um fardo, um fardo cruel e pesado, que sempre acabava restando para ele. Talvez um dia no futuro ele revisitasse essas lembranças e sentisse repulsa ou menos amor por Rose Tyler, contudo aquele velho Senhor do Tempo já sabia que aquela mulher havia sido sua ruína. Rose Tyler foi impiedosa em seu amor, foi impiedosa em tirar tudo dele, foi impiedosa em retira-lo de seu trono e torna-lo algo cheio de coisas que ele não compreenderia antes. As coisas que viu ao retirar essas memórias, jamais foram revisitadas. Ainda assim a certeza da ruína que representava Rose Tyler seria sentida para sempre porque a alma dele de alguma forma pertencia a ela agora, a aquela impiedosa garota, a garota que sempre seria algo grande e terrível.
***
Rose acordou de mais um pesadelo. Sentiu seu corpo se levantando com força enquanto que a barriga de seis meses de gravidez pesava, o Doctor estava ao lado com o braço envolto nela, já que a garota havia adormecido minutos antes enquanto assistiam TV; ele a acalmou e saiu para buscar algo. Fazia agora oito meses desde o dia em que o Doctor havia ido a Nova York resgata-la, para ela haviam se passado apenas três dias devido as memórias apagadas, mas o Doctor sempre saberia que foi cerca de um ano. A garota Bad Wolf e o Doctor invisível apreciaram Rose Tyler sorrir tocando a própria barriga para acalmar a criatura que ela carregava dentro de si enquanto que o Doctor se aproximava com uma xicara de leite entregue finalmente a garota. Eles se sentavam lado a lado, o Doctor a abraçou levemente tocando na barriga dela enquanto a criança chutava. Tudo estava bem.
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