Tudo que Poderia ter Acontecido
21 A garota em lugar nenhum
Notas iniciais
A garota Bad Wolf segurou mais uma vez a mão do Doctor invisível e surpreendentemente estavam no mesmo local, mas pelo aspecto das casas um tempo considerável havia se passado. Um minuto depois a TARDIS se materializou, o Doctor saiu dela com um dispositivo nas mãos, usava seu típico sobretudo e carregava aquele velho olhar de curiosidade e obstinação de quem busca alguma coisa. A garota Bad Wolf e o Doctor invisíveis seguiram logo atrás do Doctor.
–O que ele está procurando? Quer dizer...eu – Perguntou o Doctor invisível a garota Bad Wolf
–Rose Tyler, evidentemente – O Doctor invisível olhou preocupado para os prédios observando a passagem do tempo de modo mais evidente.
O Doctor adentrou um estabelecimento, parecia um bar. O local era fechado, pouca luz, mesas, pequenos palcos circulares espalhados e um balcão típico no qual se servia bebidas. Nada atípico, contudo, ao mesmo tempo o Doctor teve uma péssima impressão. O local não estava aberto ainda, não havia ninguém nas mesas e apenas uma mulher mais velha limpava o chão enquanto que uma garota jovem limpava o balcão do bar. O Doctor se aproximou aguardando a atenção da garota.
Ela tinha cabelos castanhos curtos, grandes olhos expressivos, um belo rosto e usava roupas insinuantes. O salto alto, o decote, o vestido curto e ainda assim se trajava como uma garçonete. De certa forma inconfessa o Doutor sabia que ela não podia ser apenas uma garçonete, a ousadia das roupas denunciava algo muito mais expressivo do que tudo isso. Surpreendentemente não havia um crachá com um nome.
–Senhor? – Perguntou a garota secando um copo de uísque.
–Apenas Doutor – Respondeu o Senhor do Tempo observando o ambiente em uma evidente procura – Você conhece ou há alguma Rose Tyler por aqui?
–Poderia descreve-la? – A moça se inclinou levemente, havia algo gentil nas palavras dela como se estivesse genuinamente interessada.
–Loira, olhos castanhos, grandes lábios – Começou o Doctor.
–Eu não sei nada quanto a Rose Tyler, mas o que você descreveu parece muito mesmo com Rosalie Smith – Explicou a garota com um olhar meio interrogativo – Doutor...Doutor quem?
–Apenas Doutor – Respondeu ele estreitando os olhos para a garota como se já a conhecesse de um sonho muito distante e muito estranho.
–Vou chamar Rosalie – Garantiu a garota contornando a parede que limita o balcão.
A garota de cabelos castanhos curtos irrompeu para depois do balcão seguida por Rose Tyler que agora se chamava Rosalie Smith. A garota loira segurava uma garrafa de uísque que instantaneamente caiu no chão se quebrando em mil pedaços, ela deu dois passos para trás ao ver o Doctor ali diante dela. Rose usava a mesma roupa que a garota que o Doctor acabara de conhecer, mas os saltos altos não eram negros e sim cor de pele. Ela encarou o homem que pensou que não veria nunca mais em completo e absoluto espanto.
Rose não teve tempo para falar nada, o Doctor não teve tempo para fazer nada além de se colocar de pé quando um homem baixo, de peso avantajado e bigode sinuoso se aproximou de Rose. Ele gritava coisas sobre ela ter deixado a garrafa de uísque se quebrar, gritava sobre como ela teria de pagar por tudo isso, mas o Doctor apenas prestou atenção nas palavras grosseiras do homem quando ele deu uma bofetada em Rose.
O Doctor se aproximou quase correndo e afastou o homem de Rose com um empurrão. Eles se encaram e o olhar de fúria do Time Lord dizia tanto que por um tempo parecia sair faíscas mortais. Rose se ajoelhou no chão e começou a limpar os cacos de modo resignado, não disse absolutamente nada.
–O que o faz pensar que pode bater nela? – Cada palavra do Doctor era um xingamento.
–Ela pertence a mim, todas aqui pertencem a mim – Disse o homem de modo atrevido – Todas possuem uma dívida maior do que podem pagar e pertencem a mim.
O Doctor se voltou para a direção de Rose que agora estava em pé com uma bandeja, local em que ela havia reunido todo o vidro quebrado. Ela nem mesmo olhou nos olhos do Doctor apenas foi para o balcão e então ele segurou delicadamente o braço de Rose e ela pareceu saltar em alerta pelo toque. Rose estava aterrorizada até mesmo com o próprio marido.
–Precisamos conversar Rose, precisa sair daqui – O Doctor sussurrou sabendo que estava sendo encarado.
–Me deixe em paz senhor – Pediu ela com o olhar vazio, nunca o olhar dela havia sido tão vazio desse modo.
Rose seguiu para longe enquanto o Doctor dava dois passos para trás perplexo e estarrecido se perguntando quanto tempo havia se passado. O dono do estabelecimento abria a porta para que ele se retirasse e o Senhor do Tempo saiu pela rua com as mãos ansiosas percorrendo seu cabelo procurando respostas que não viriam.
–Doutor! Doutor! – A voz da garota que havia inicialmente falado com ele ecoava agora.
A garota o seguia correndovestindo um sobretudo branco por cima das chamativas roupas de garçonete. O Doctor parou surpreso e compreendeu imediatamente que ela queria ajuda-lo; a garota o guiou para um café e se sentaram nas mesas externas. A moça pediu um café enquanto que o Doctor encava a mesa em uma clara demonstração de temor, hesitação e curiosidade.
–Rosalie Smith – Começou a garota – Eu a conheço desde que ela chegou a Nova York, desde o segundo dia dela aqui.
–Há quanto tempo ela está em NY? – O Doctor agora começava a ter dimensão da reposta.
–Um ano – Respondeu a garota comendo um pedaço do bolo.
–O que houve com ela? – O Doctor temia a resposta.
–Quando ela chegou, ela dizia muito sobre o marido Doutor John Smith, era assim que ela o chamava quando eu rebatia que ninguém podia se chamar apenas O Doutor – Explicou a garota com a voz preocupada – Ela contava que o marido era um aventureiro, mas que nunca a deixaria para trás; que houveram problemas mas que ele iria retornar para ela. Suponho que você seja esse homem, o marido de Rose.
–Sim... – O Doctor respondeu quando ela pausou a fala.
–Foi assim nos três primeiros meses...mas estamos no meio da Grande Depressão. A crise é intensa demais para que qualquer um consiga emprego e ela procurou todos os dias por três meses – A garota agora encarava o próprio bolo com tristeza – Assim que ela chegou acabou por penhorar um relógio de prata. Foi assim, através do dinheiro desse relógio, que Rosalie sobreviveu por três meses, durante esse tempo ela procurava emprego e mantinha a esperança.
–Depois dos três meses não havia mais nada para penhorar – Continuou o Doctor compreendendo o que viria depois.
–Ela foi despejada, estava na pensão mais barata que conheço, mas ainda assim ela foi despejada – A garota falava aos sussurros – Rosalie foi morar nas ruas. Ela ficou nas ruas por dois meses até que o pior acontecesse.
–O pior? – O Doctor tinha os olhos tensos agora incapazes de encarar a garota.
–Um homem tentou violenta-la – Agora a garota mexia as mãos nervosa enquanto o Doctor parecia cada vez mais perplexo e mais desolado – Ela o matou.
–Ela o matou? – O Doctor arregalou os olhos.
–Sim, ela se defendeu – Garantiu a garota com algum orgulho – Rosalie foi corajosa e se defendeu e ela acabou o matando antes que ele pudesse continuar.
–Suponho que ela foi presa – O Doctor finalmente entendia o fim da história.
–Sim – A garota afirmou – Rosalie estava preparada para ficar presa, ao menos na prisão haveria comida e haveria um teto para que ela pudesse dormir, mas então disseram que ela seria tirada de Nova York. As prisões estão muito cheias. – A garota respirou profundamente – Ela não queria sair dessa cidade, dizia que se saísse nunca saberia se você voltou para tentar busca-la.
–Então ela pediu ajuda a você, pediu que você a apresentasse ao seu...carrasco – Concluiu o Doctor enquanto a garota assentia triste.
–Eu a alertei sobre o preço que se paga, o preço que se paga nas longas noites, o preço que se paga quando seu “dono” vende seu corpo inúmeras vezes todas as noites – Explicou a garota acendendo um cigarro – Ainda assim ela disse que faria qualquer coisa para permanecer em Nova York, qualquer coisa para não voltar para as ruas. Foi assim que ele pagou a fiança dela e o advogado, mas em troca ela teve de ficar conosco naquele lugar. Faz seis meses para ela, para o resto de nós faz muito mais tempo.
–Por que ele a deixou sair para vir falar comigo agora? – Questionou o Doctor evidentemente arrasado.
–Porque depois que a depressão forçou tantas de nós a isso, depois que a fome se tornou insuportável e não haviam mais oportunidades – Ela tragou mais uma vez o cigarro – Ele compreendeu, assim como todas nós, que não havia porque não voltar...é o único modo de sobreviver. O único modo que restou. Nenhuma de nós têm alternativas Doutor.
O Doctor fechou os olhos tentando absorver tudo isso. Entre todos o tempo e espaço em que Rose Tyler podia ficar presa durante um ano, ela havia ficado presa exatamente no ano de 1930 em que pessoas matavam, roubavam e se vendiam porque não havia outra escolha. O ano dos suicídios, da falta de emprego, de poucos homens abastados e de nenhuma oportunidade. O único ano em que o relógio de prata não valeria muito e em que o aluguel não pode ser pago. Rose havia sido condenada e viveu no último ano as piores das condenações. O que ele havia feito com ela afinal?
–Pode compra-la – Explicou a garota recebendo um olhar de desprezo do Doctor – Se deseja falar com ela por algumas horas pode pagar por isso e caso deseje que ela pertença a você pode compra-la também.
–Ela não é um objeto – Assinalou o Doctor com os olhos na xícara de café.
–Na grande crise, na grande depressão – Começou a garota finalmente terminando o cigarro – Todos são escravos. Todos são objetos que podem ou não pertencer a alguém.
–Eu vou falar com Rose e depois irei compra-la – O Doctor odiava usar essa palavra, mas então com um de seus olhares mais terríveis completou – E por último irei me vingar desse homem.
–Depois que Rosalie matou aquele homem, ela pediu para que nunca mais ninguém a chamasse de Rose – A garota assinalou com um olhar preocupado – Ela disse que Rose era o diminutivo de Rosalie e então ela passou a ser conhecida por todos nós pelo nome verdadeiro. Depois que ela matou aquele homem algo sumiu dentro dela...ela nunca mais falou do marido, ou seja, de você; ela nunca mais teve esperança. Precisa ajuda-la.
–Eu sei – Assegurou o Doctor
O verdadeiro nome de Rose não era Rosalie, isso provavelmente havia sido uma invenção porque ela sabe que não pode usar o nome verdadeiro quando é uma viajante do tempo que cruzou tantas realidades diferentes. O Smith deve ter surgido do nome falso do Doctor: John Smith. Ela havia sido astuta nas mudanças e na transformação em outra pessoa muito diferente.
– Inclusive, qual o seu nome? – Completou o Doctor.
–Meu verdadeiro nome é Clara Oswin Oswald – Respondeu a garota com um leve sorriso – Mas a maioria me chama apenas de Oswin.
O Doctor invisível havia reconhecido Clara desde o primeiro instante e agora entendia que ela sempre estaria lá. Impossível, mudando, em diversos tempos. Sempre ali visível ou não fazendo algo pelo seu Doutor em tudo que aconteceu, aconteceria e em tudo que poderia ter acontecido. Ela estava ali naquela realidade para salvar o Doctor e ela faria isso mais uma vez, porque algumas coisas sempre são exatas e Clara sempre seria aquela que entrou em sua linha tempo para ajuda-lo e para morrer por isso. Era um mundo injusto de uma garota impossível sempre presa em lugar nenhum, fadada a salvar um homem que sempre tinha algo ainda mais valioso para proteger. Dessa vez Rose Tyler era a pessoa mais valiosa.
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