Tudo que Poderia ter Acontecido
35 A garota em Skaro
Notas iniciais

Rose Tyler fechou os olhos e esperou pelo som do disparo da arma Dalek. Havia perdido a ânsia e a fome por sobrevivência, havia tirado esse fogo de dentro de si com a passagem cruel dos anos. Estava pronta para aquele final. Foi então que ela sentiu seu corpo sendo puxado e ela sendo lançada para o chão com o corpo do Doctor sobre o dela. Ela poderia reconhecer o corpo magro do homem com quem dividira a vida até mesmo com os olhos fechados.
—Rose, você está bem? — Perguntou o Doctor agora colocando uma das mãos no rosto da garota enquanto permaneciam deitados tão próximo no chão quente do planeta.
—Sim, obrigada — Respondeu Rose com os olhos agora abertos. — Eu…
—Estava aceitando a morte, não ouse fazer isso Rose. Não ouse se render — O Doctor tinha um olhar muito preocupado.
Jack Harkness já havia destruído o Dalek que avariado tinha uma arma com defeito. Era essa a questão afinal: Skaro estava destituída de Daleks não avariados e haviam cybermans por toda a parte. Ainda parecia impossível delimitar com certeza o que estava se passando, mas naquele momento o Doctor se permitiu permanecer tocando Rose Tyler com os corações ainda acelerados de temor de que a garota fosse tirada dele.
—Eu te amo Doctor, eu te amo tanto. Te amei minha vida toda — Rose Tyler disse isso em um sussurro, em uma confissão dita por instinto.
O Senhor do Tempo não pôde responder. Não disse nada, porque Martha, Sarah Jane, Mickey e Jack agora se aproximavam perguntando se ambos estavam bem. Eles apenas se colocaram de pé, se olharam por alguns segundos e aquele olhar rápido já dizia tudo entre eles e bastava. Eles estavam juntos há tantos anos agora, tempo o bastante para que não houvesse nada errado em se manter no silêncio.
—Vamos nos dividir, precisamos percorrer Skaro e descobrir o que está acontecendo antes que os cybermans nos descubram ou os daleks retornem — Ditou Rose compreendendo que o Doctor permanecia excessivamente distraído para que dissesse qualquer coisa — Precisamos chegar juntos a cúpula principal e então nos dividimos.
—Tudo bem — Assentiu o Doctor ainda com as sobrancelhas franzidas e o olhar preocupado — Vamos nos separar.
—Donna e eu exploraremos a ala norte, Mickey, Martha e Sarah Jane podem explorar o andar subterrâneo e…Doctor e Jack ficam com a ala sul — Foi Rose a continuar com as ordens, todos pareceram satisfeitos.
O Doctor estava chocado, até mesmo surpreso pela decisão de Rose Tyler. Ela ter formado a equipe e decidido separa-los daquele modo indicava que não queria discutir sobre o que houvera com o Dalek, também indicava que ela estava cada vez mais cansada do tempo e mais exausta da vida. Era como se muitas coisas tivessem de ser ditas e não houvesse tempo. O Doctor não entendia essa urgência dentro de si.
Finalmente alcançaram o centro de comando Dalek, estava tudo deserto o bastante para que entrassem pela porta da frente e então Jack entregou comunicadores para todos, assim poderiam coloca-los no ouvido e apertarem o botão toda vez que quisessem falar algo que deveria ser ouvido por todos. Era tecnologia extraterrestre avançada de Torchwood e havia sido adaptada para funcionar em qualquer planeta. Todos tinham formas de se comunicar, informar e pedir ajuda caso necessário. Foi assim, sob essas condições, que se separaram.
***
Donna Noble carregava uma lanterna. Estavam no último corredor da ala norte e tinham esperança que o computador central fornecesse alguma informação. Todos pareciam seguros — nada de cybermans — na averiguação de suas devidas alas, contudo era sempre preocupante caminhar por corredores desconhecidos.
—O que está havendo Rose? — Donna tinha a voz calma, contudo seu olhar era cheio daquele típico julgamento que apenas a mulher ruiva poderia fazer.
—Não está havendo realmente nada…eu só estou sentindo o peso dos anos — Respondeu Rose sabendo que a mulher mais velha a olharia cheia de crítica.
—Eu sei que esteve em um planeta no qual vinte e cinco anos transcorreram na sua consciência, mas foram dez para a Terra…ainda assim é um privilégio… — Donna não sabia porque estava dizendo algo no qual nem ela mesma podia acreditar.
—Certa vez as crianças tiveram férias de uma semana ao lado dos meus pais, eles simplesmente disseram que eu e o Doctor deveríamos ter mais tempo um para o outro — Começou Rose com a voz tranquila sabendo que seu comunicador estava desligado e não poderiam ouvi-la — O Doctor me levou para um planeta no qual um dia na terra equivalem a um ano. Eu já estava com o dispositivo que me permitia envelhecer na velocidade de meu planeta então ele achou que seria fantástico termos muito mais do que uma semana juntos. Estive por três anos naquele planeta, sentia saudades de todos como se houvesse se passado três anos na Terra…
—O homem do espaço está usando seus dias, garantindo que terá o máximo de tempo com você e não se importa do quão velha sua mente está ficando no processo. Seu corpo pode acompanhar o ritmo da Terra, contudo sua consciência sente que você já viveu muitos anos. — Concluiu Donna olhando com compaixão para a Rose.
—Quando entendi a ânsia e a fome dele por mim nesses melhores tempos eu compreendi que não tinha permissão para morrer…compreendi que minha morte seria como destruir parte do Doctor, parte do único pelo qual me sacrificaria — Rose tinha o olhar preocupado — Se eu tivesse contado cada ano em meio aos planetas malucos e aos tempos relativos eu teria exatos noventa e oito anos agora. Não sei como Jack consegue viver para sempre.
—Talvez seja o charme irresistível — Disse Donna rindo e recebendo o riso de Rose Tyler de volta.
Aquela foi a última risada de Rose Tyler.
Adentraram a sala de comando. Rose foi até os computadores e Donna ajudava a interpretar os dados. Se trancaram no local por mais minutos do que deveriam admitir porque a tecnologia Dalek era avançada o bastante para que Rose hesitasse perante os comandos que precisavam ser dados. Ainda assim, quando finalmente desvendaram a dimensão do plano não puderam acreditar no que liam.
—Os Daleks tem um plano de invasão — Começou Rose Tyler ligando o comunicador, sua voz falhava — Inlcui Terra, inclui tantos planetas e tantas galáxias…inclui o lar de nossos filhos Doctor.
O Doctor ouviu aquilo e então parou de caminhar. Ouviu aquelas palavras e fechou os olhos como que tomado pela dor e pelo tormento de ter seus filhos sob ameaça. Mortos por Daleks. Tirados dele para todo o sempre.
—Eles estão prestes a invadir todos esses planetas…mas para isso evacuaram Skaro e estão mantendo forças reservas em locais mais próximos das zonas de ataque. Eles se acostumaram a não possuir um lar — Explicou Donna enquanto Rose parecia preocupada demais para dizer qualquer coisa.
—Qual a relação dos cybermans com tudo isso? — Perguntou Jack com impaciência.
—Não conseguimos descobrir ainda — Explicou Donna com a voz hesitante — Mas os computadores registram que há um grande numero de formas de vida abaixo de Skaro.
—Os cybermans estão invadido Skaro pelo subterrâneo! — A voz de Rose era emergente agora — Mickey, Sarah Jane e Martha, precisam sair agora!
Mickey Smith, Martha Jones e Sarah Jane ao ouvirem o comando se viraram imediatamente e começaram a correr pelo corredor no mesmo sentido que haviam percorrido, com passos cautelosos, minutos antes. Foi então que ouviram os passos ainda mais claros dos cybermans vindo nas duas direções e antes de serem vistos entraram em uma das salas laterais.
—Oh não… — Foi Martha Jones a suspirar perplexa.
Ali diante deles haviam várias armaduras vazias, contudo havia acorrentada uma única humana ainda esperando para ser convertida. Ela usava vestido azul, cabelos negros, lábios vermelhos e parecia exausta.
—Qual o seu nome? — Sarah Jane se aproximou ao receber um olhar exausto da garota.
—Clara Oswin — Respondeu a jovem fechando mais uma vez os olhos.
A garota impossível ressurgia mais uma vez, mais uma vez em prol de salvar o Doctor. Essa seria mais uma de suas aventuras e essa seria outra história sobre a morte.
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