Tudo que Poderia ter Acontecido
30 A garota em Arcádia
Notas iniciais

Você consegue imaginar uma época em que a verdade era livre? O nascimento de uma canção. A morte de um sonho. Mais perto do limite". (Tradução livre da música — Closer to the edge)
Rose Tyler foi tudo por um instante, mas o Doutor sabia o que deveria fazer. O Senhor do Tempo recomeçou a manipular os controles, em um desespero obstinado por liberdade. Após longos minutos a porta se abriu — e na frente da passagem antes fechada estavam Rory Willians e Amy Pond — surpreendentemente a garota ruiva apontava uma chave de fenda sônica para o painel colocado do lado de fora. Aparentemente o Décimo Primeiro Doctor decidira deixar a chave de fenda sônica com Amy a fim de que a garota pudesse ajudar sua regeneração anterior a abrir a porta. Lord Vael assentiu para o Doutor, declarando em silêncio que ficaria na sala, esperaria por todos e conseguiria um teletransporte seguro até um local neutro.
—O que estão fazendo aqui? — Questionou o Décimo Doctor para Amy e Rory pegando o sobretudo apressado e começando a percorrer os corredores.
—Precisa buscar sua filha — Disse Amy ao notar que o Doctor pretendia ir até Rose.
—Rose está morrendo, não posso permitir isso — A impaciência na voz do Senhor do Tempo era evidente.
—A sua regeneração mal humorada pegará Rose — Garantiu Amy ainda falando muito rápido — E a sua regeneração sexy cuidará de Evey. Então você precisa encontrar Susan e Rassilon.
—Sexy? — Questionou Rory enquanto voltavam a caminhar.
O Doctor assentiu. Era de fato um bom plano, talvez o melhor que fossem conseguir. Um resgate em três frentes sempre tem maiores chances de sucesso. Aquele que um dia fora O Último dos Senhores do Tempo caminhou pelos corredores obstinado, já havia encontrado — no painel da sala no qual estava preso — as coordenadas de Rassilon e ao passarem pelo último corredor, antes do encontro com o inimigo, o Doctor viu em uma das paredes as espadas dos antigos guerreiros de Gallifrey. Ele puxou uma delas ainda caminhando. Era tempo de lutar, de lutar com tudo que ainda possuía. Ele mataria quantos fossem necessários, ele mataria cada um que ousou entrar em seu caminho. Esse seria um daqueles fatídicos dias nos quais ele não é o Doutor. Um dia para ser esquecido.
***
O Doutor em sua Décima Segunda regeneração caminhava cautelosamente pelos corredores em que as celas de Gallifrey ficavam dispostas. Ele tinha certeza que Rose Tyler e Donna Noble haviam sido jogadas na sala doze; parecia destinado a ser ele a salva-las. Assim que alcançou o numero doze manipulou a chave de fenda sônica e então a porta se abriu.
Rose Tyler estava deitada tremendo furiosamente e usava o longo casaco que Donna Noble antes vestia. A capa de ambas havia desaparecido e a cela iluminada, branca, com apenas uma cama e nenhuma luz não artificial mais parecia uma condenação direta a morte. Estranho como por vezes algo que deveria parecer racional e justo apenas resguardava seu caráter enlouquecedor. Aquele cárcere perfeitamente quadrado era enlouquecedor.
—Doutor — Sussurrou Rose — Nossas filhas, nossas filhas…
—Elas ficarão bem — Garantiu ele recebendo um abraço efusivo de Donna, era estranho como não se sentia mais capaz de corresponder a abraços. — Há uma regeneração minha para cada uma delas, não se preocupe.
—Estão todos aqui? — Perguntou Donna ajudando Rose a se sentar e amarrando o casaco que a garota vestia.
—Todos sabiam que após conseguir o dispositivo teríamos que vir até o Capitólio. — Explicou o Décimo Segundo — Precisamos sair. Agora.
O Doutor colocou um dos braços de Rose sob seus ombros e começaram a caminhar. Precisavam deixar o Capitólio e apenas Lord Vael teria as coordenadas corretas para tirar todos daquele lugar a salvo. Ainda assim enquanto caminhavam vagarosamente e se escondiam quando ouviam passos sabiam que o foco jamais fora Rose Tyler e sim que o objetivo era Susan. Donna Noble e Rose Tyler já haviam entendido que se tratava da filha legítima do Doutor. Uma filha de Gallifrey que é também uma filha da Terra. As duas coisas ao mesmo tempo. Os senhores do tempo tinham um plano.
Assim que adentraram a sala na qual Vael manipularia o teletransporte um grande alivio tomou o corpo de Donna Noble. Rose se sentou em uma das extremidades da sala ainda com os cabelos bagunçados e ainda com a mesma expressão de choque e dor; sentia que perdia sangue. O Doutor se voltou para Rose assim que travou a porta, afinal queria ter certeza que ficariam seguros até suas outras regenerações retornarem. O Décimo Segundo se sentou ao lado de Rose e com excessivo receio e constrangimento segurou sua mão.
—Você não morre hoje Rose Tyler — Garantiu o Doctor em voz baixa.
—E nossas filhas? — Rose tinha os olhos cheios de lágrimas, se sentia humana e fraca.
—Você me vê como o pai de suas filhas? — Perguntou o Doutor quase intrigado.
—Não importa quantas vezes seu rosto mude: é sempre o mesmo homem — Assegurou Rose Tyler com a voz fraca.
Rose Tyler apenas enterrou a cabeça no ombro esquerdo dele e então ele soube que seus corações ainda batiam por ela. Em um ritmo diferente, mais cruel e completamente novo. Talvez porque aquele amor cruel jamais morreu, talvez fosse culpa dos frutos do que tiveram, talvez fosse aquela fé cega que nunca o abandonou. Ele ainda agora — tanto tempo depois, tantas regenerações depois — após notar que jamais seria o herói no céu de Rose Tyler sentia-se decepcionado consigo mesmo, contudo permanecia acreditando naquela mulher. Na garota que amou. Na garota lobo mal. Ele jamais havia sido capaz de tirar os olhos dela. Jamais seria.
***
O Décimo Primeiro Doutor adentrou a pequena sala na qual havia descoberto — minutos antes — que Evey estava enclausurada. Não havia ninguém no local, o oxigênio parecia errado e a criança chorava compulsivamente. Clara Oswald ao lado do Doctor compreendeu que os Senhores do Tempo haviam selado a sala para que a criança morresse. Clara não conseguiu deixar de sentir uma sensação nauseante e angustiante dentro de si, haviam deixado uma pequena criatura para morrer e isso era perverso demais. A garota impossível desejou por um instante que todos os senhores do tempo ainda estivessem mortos e então afastou os pensamentos.
—Evey — Exclamou o Décimo Primeiro em um suspiro aliviado pegando a filha com cuidado — Evey, minha menina.
Clara Oswald sorriu com os olhos cheios de lágrimas ao ver o Doctor segurando a filha como se não houvesse um bem mais precioso ou mais importante em todo o mundo. Ela sentia as lágrimas porque Evey já havia nascido em uma batalha imensa pela própria vida, já havia sido trazida nesse mundo pela violência e pelo ódio e ainda assim agora era segurada com toda aquela devoção. Era emocionante ver alguma coisa pura, inocente e condenada acabar por encontrar o amor daquela forma.
—Ela é linda — Disse Clara sorrindo. — Ela é a melhor coisa que você já fez.
—Eu sei — Evey não estava chorando mais e o Doutor a entregou para Clara — Precisamos ir até a sala na qual Vael está.
—Eu cuidarei dela — Garantiu Clara sorrindo para Evey que erguia as mãos agora tranquila.
***
O Décimo Doutor adentrou a sala principal do Capitólio. Adentrou com seu olhar furioso, com sua postura combatente, com toda a sua alma e todas as suas regenerações dentro dele gritando por vingança. Isso foi tudo por muito tempo e continuou sendo até Rassilon o encarar como se não acreditasse naquela raiva, naquele ódio, como se pudesse se esquecer de que era o mesmo Doctor que matou daleks, que fez pessoas se matarem, que manipulou eventos e arruinou vidas. Rassilon tinha se esquecido de que esse era o Doutor e talvez por se esquecer desse pequeno grande fato não esperasse o golpe da espada que veio em sua direção. Rassilon foi rápido o bastante para se defender com seu típico cajado gallifreriano e assim pôde deter o golpe.
—Onde está minha filha? — Cada palavra saída da boca do Doutor era um sentença. — Cuidado com o que irá responder.
—Ela já foi enviada para Shada — Assegurou Rassilon apontando um painel do outro lado da sala — Pode ver nas coordenadas. É tarde demais.
Amy e Rory correram até o painel a fim de verificar, contudo o Doutor não desviou o olhar de Rassilon. Havia todo aquele ódio latejante dentro dele, todo aquele desejo de ver tudo queimar mais uma vez. Afinal que caminho ele estava percorrendo? Quão longe estava indo? Mas nada poderia para-lo, isso o destruiria e ainda assim ele seguiria em frente. Porque o universo pagaria junto com Gallifrey caso fosse necessário.
—Susan já está em Shada — Disse Rory se virando para o Doutor enquanto Amy continuava de frente para o painel com os olhos fechados.
Amélia Pond sabia o que essas palavras significariam para o Doutor. Ela conhecia a tempestade, a fúria e a crueldade. Ela não sabia exatamente como reconhecia esses elementos, mas quase sempre se pareciam com lembranças de uma outra vida, como se pudesse reconhece-lo perfeitamente de uma outra história que não viveram. E então viria a tempestade, a tempestade iminente.
Exatamente por isso Amy não se assustou quando ouviu as explosões por toda Gallifrey. O Décimo Doutor havia programado uma serie de explosões em toda a Cidadela e apenas não as ativaria caso Rassilon entregasse Susan. Rory caminhou um passo para trás hesitante ao ver a fúria no olhar do Doutor, ao ver ele iniciar uma luta com Rassilon, ao ver o cajado do líder de toda a conspiração ser quebrado, ao sentir o vidro estilhaçado quando o Doutor foi lançado do outro lado da sala. Ainda assim Amy Pond ao se virar e ver o Décimo Doctor cravar a espada em Rassilon sentiu seu próprio coração ser quebrado. Finalmente estavam vendo os demônios? Como isso havia acontecido? Aquele era o Doutor ou o homem antes do Doutor? A escuridão havia sido trazida, tudo havia mudado e ainda assim havia mais. Sempre havia mais.
Amy tinha as mãos sobre os lábios e não conseguia parar de chorar. Rory Willians caminhou na direção do Doctor em passos hesitantes, ignorou o corpo de Rassilon e apenas se ajoelhou ao lado daquele que já estava de joelhos em meio ao vidro, ao sangue, a vida que havia sido tirada. Estavam ali: o Ultimo Centurião e a Sombra de um Doutor lado a lado.
—Precisamos sair daqui — Começou Rory com a voz tranquila — Vael não poderá usar o teletransporte duas vezes e Rose não irá aguentar muito tempo.
—Não posso deixar Gallifrey, nunca encontrarei esse lugar novamente — Assegurou o Doutor — Susan estará perdida para sempre.
—Ela está em Shada — Disse Rory com tristeza — É um planeta prisão…
—Eu sinto muito — Declarou Amy Pond com a voz cheia de tristeza.
Amélia se aproximou, se ajoelhou na frente do Doutor e de Rory Willians. Ali a garota que esperou, o último centurião e o Doutor nascido do amor. Dois humanos fortes. Um senhor do tempo fraco. Um caminho cheio de escuridão. Amy Pond segurou a mão de Rory Willians e mais depressa do que o Doutor pôde perceber a garota ajustou o manipulador de vórtex, segurou a mão do Doctor e então estavam na sala junto a Vael. Assim que Lord Vael notou que os três indivíduos restantes haviam chegado ajustou as coordenadas. Um instante depois estavam todos em uma das montanhas de Arcádia.
Lord Vael havia sido rápido e levado Amy Pond, Rory Willians, Evey Tyler, Donna Noble, Rose Tyler, Clara Oswald, Décimo Primeiro, Décimo Segundo Doctor e o Décimo Doctor para um lugar seguro. Estavam todos juntos, mas Susan não estava ali. E bastou esse segundo de consciência para que Rose Tyler sentisse suas forças restantes se perderem. Sentir que um pedaço seu sempre faltaria. Estavam em Arcádia e não havia uma única alma naquelas montanhas que não se sentisse abandonada, deixada para trás e arruinada. Mas o Doctor em sua décima regeneração ainda guardava a fúria. A fúria de uma tempestade eminente que cairia em Arcádia.
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