Tudo que Poderia ter Acontecido
49 A garota e os objetos cortantes
Notas iniciais

Amy Pond imediatamente chutou um dos espelhos que caiu em cima do Silêncio. Gabrielle estava de pé segurando uma das mãos do Doctor e Amy imediatamente segurou a outra. Estavam prontas para lutar. Gabrielle usou o próprio corpo quebrando outro espelho e retirando a moldura — que antes não podia ser vista — e que possuía um material inexistente no planeta Terra. A barra era leve, transparente mas maciça e Amy Pond pegou a outra barra que era a segunda base para o espelho quebrado e assentiu.
Gabrielle claramente já havia feito aquilo antes, a luta não era algo inédito ou novo para a jovem porque os Silêncios estavam sendo derrubados pela garota enquanto o Doctor tratava de desviar os raios de energia emitidos por eles com um pedaço do espelho partido. O jogo de espelhos realizado pelo Doutor ao mesmo tempo em que Amy e Gabrielle lutavam com as barras parecia suficientemente eficiente.
Amy se viu segurando a barra habilmente e correndo na direção dos Silêncios, se viu os golpeando enquanto corria. Se viu usando toda a força que ela não sabia que possuía ao mesmo tempo que se abaixava quando a eletricidade emitida pelas criaturas ameaçava alcança-las. Foi daquela forma que ela compreendeu que havia se distanciado muito da garota que esperou, ela era alguma coisa nova. Alguma coisa muito mais corajosa.
Avançou correndo rumo a mais um dos Silêncios o golpeando no tronco, se abaixou para desviar da onda de eletricidade e então o golpeou na perna. Mais um havia caído e foi quando Amy sentia as mãos doendo pela força com qual segurava o objeto que usava para lutar que o Doctor segurou sua mão a fazendo correr. O Doctor, Amy Pond e Gabrielle Tyler correram seguindo o sinal da chave de fenda sônica rumo ao único espelho que poderia tira-los daquela dimensão.
Gabrielle segurava a mão direita do Doctor e Amy segurava a mão esquerda do Senhor do Tempo enquanto a mão livre da filha do Doutor tinha a chave de fenda sônica guiando para saída. Foi assim que atravessaram o espelho. Foi assim que deixaram a dimensão cheia de espelhos.
Assim que saltaram para o lado de fora o Doctor pegou novamente a chave de fenda sônica e usou para selar temporariamente a saída pelo espelho.
—O Silêncio ficará preso por algum tempo nessa dimensão e isso nos dará tempo para resgatar os que ainda restam — Garantiu o Doctor em sua Décima Primeira Regeneração.
—Para onde iremos agora? — Questionou Amy avançando rumo a TARDIS.
—Um lugar no qual o tempo não existe — Explicou o Doctor abrindo a porta da máquina do tempo.
***
Havia agora dois dias. Dois dias que Amy Pond esperava pelo local no qual iriam resgatar Evey e alguma coisa desconhecida a deixava apreensiva como se soubesse que algo estava chegando ao final daquela jornada e que nada seria fácil caso o tempo e o destino não se colocassem ao lado do Doctor. Tentou pensar na filha e em como os olhos de Melody Pond seriam tudo a ser visto quando ela retornasse para casa. Como todas as respostas viriam através da filha.
A garota de cabelos ruivos foi para a sala de controles encontrando Gabrielle sentada em um dos degraus da máquina do tempo contemplando em inércia as ações do Doctor nos controles. Amy se sentou ao lado da jovem mulher e também olhou na direção do Doctor.
—Eu não consigo ver meu pai — Disse Gabrielle em um suspiro tão baixo que Amy quase não pôde ouvir — Eu vejo um homem que tem a alma dele, mas que é completamente diferente.
—Eu sinto muito…quando tivemos que forjar a morte dele as coisas não foram exatamente como planejadas na última parte e ele acabou sendo atingido por três armas alienígenas poderosas — Explicou Amy repetindo o que o Doctor provavelmente já havia dito.
—Meus irmãos e eu não podemos nos regenerar — Garantiu Gabrielle mostrando a palma da mão ferida — Não podemos mudar de rosto, mas podemos fazer isso — Nesse momento a garota loira fechou a mão e quando a abriu a energia dourada típica dos Senhores do Tempo curou as feridas.
—Sinto muito por Nêmesis, acha que ela pode descobrir que vocês estão sendo resgatados? Acha que ela pode descobrir que o Doctor está vivo e tentar coloca-lo naquela Caixa de Pandora? — Questionou Amy Pond.
—Não é fácil nos matar, acredite Nêmesis tentou. — Começou Gabrielle com um leve sorriso — Mas tenho certeza que meu pai apenas acabará naquela Caixa de Pandora se desejar isso…e eu vejo o quanto ele não deseja.
—O fim de Nêmesis está próximo não é mesmo? — Amy Pond percebeu que não estava perguntando, era simplesmente uma afirmação.
***
A TARDIS se materializou. Amélia Pond abriu a porta da TARDIS e encarou a floresta cheia de neve, fitou o Doctor que sorria levemente enquanto Gabrielle apenas fechava o casaco perante o frio aterrador. Não disseram nada por muito tempo porque o Doctor ativava a invisibilidade da máquina do tempo, mas Amy se aproximou de uma árvore a tocou levemente e viu algo escrito: “A única água na floresta é o rio”. A garota piscou assustada por ver a inscrição e então o que antes estava gravado na árvore desapareceu. Não havia mais nada, Amy deveria dizer algo para o Doctor, mas decidiu ficar em silêncio.
Caminharam em Silêncio pela floresta e Amy Pond tentou compreender por si mesma porque um local aparentemente comum era de fato um local onde o tempo não passava e foi então que compreendeu: não importava o quanto caminhassem estavam sempre caminhando em círculos. O lago, as árvores, a clareira. Era um lugar congelado no próprio tempo. Uma mesma paisagem. Um beco sem saída.
—Como espera encontrar Evey aqui? — Questionou Amy quando contou a décima vez que percorreram em círculos o mesmo trajeto.
—Quantas vezes for necessário, precisamos procurar algo escondido. Algo no canto do olho -Garantiu o Doctor atentamente — Nêmesis ocultou o local em que Evey está escondida.
Percorreram o mesmo caminho mais quatro vezes até que Gabrielle emitiu um som de surpresa e parou de caminhar.
—Eu vejo algo no canto do meu olho, eu vejo algo como uma cabana -Garantiu Gabrielle falando ao sussurro e com as mãos em gesto de tranquilidade -Mas se eu me movo desaparece.
—Fique imóvel — Pediu o Doctor se aproximando da filha ficando apenas alguns centímetros do rosto dela e então batendo as mãos empolgado e sorrindo enquanto completava- Visualize o local porque vou coloca-lo em sintonia com o essa paisagem através do seu aparelho óptico e da minha chave de fenda.
O Doctor pegou a chave de fenda, se inclinou e a apontou para o olho de Gabrielle após alguns segundos algo começou a surgir do lado direito.
Gradativamente uma cabana se mostrava não mais oculta; movida pelo tempo. Agora aquela cabana de palha também estava congelada.
—Tudo aqui sempre se repete. Não há passado, não há futuro…tudo se mantém igual — Assegurou o Doctor enquanto avançavam rumo a cabana.
Abriram vagarosamente a porta da cabana de palha que parecia ter apenas um cômodo. Assim que a porta de madeira se abriu a imagem de Evey ficou clara: a garota de cabelos castanhos estava sentada, com uma postura perfeita, em uma cadeira de madeira e segurava com a mão direita uma faca. Ela se apunhalava repetidas vezes, infinitamente. Especialmente na barriga, na perna, nos ombros e no peito.
—Deus! — Amy Pond abriu a boca perplexa com todo o sangue no chão da cabana.
—Evey…Evey — Gabrielle caminhou dois passos a frente, mas notou que a garota permanecia inerte realizado a mesma ação.
—Acho que ela está hipnotizada…condicionada a realizar a mesma ação infinitamente — Disse o Doctor vagarosamente enquanto mexia as mãos nervoso — Eu vou desmaia-la.
—Tem certeza que é uma boa ideia? — Questionou Gabrielle apreensiva percebendo a quantidade infinita de sangue no chão que pisavam.
—Ela é metade Senhora do Tempo, ela vai se curar milhões de vezes… para desconecta-la desse mundo sem tempo irei desmaia-la — Assegurou o Doctor se aproximando de Evey.
O Senhor do Tempo se aproximou da filha e então se colocou atrás da cadeira, segurou levemente o pescoço dela e então percorreu o caminho até próximo a clavícula onde tocou em um ponto específico que a faria desmaiar. Imediatamente a garota desmaiou, imediatamente a garota caiu inerte e o Doctor a segurou.
Ele carregou a filha até as proximidades da TARDIS, carregou o corpo repleto de sangue dela enquanto Gabrielle o seguia com a chave de fenda sônica a fim de reestabelecer a sincronia da TARDIS. Já Amy Pond ficou por último encarando a cadeira e a cabana cheias de sangue, a garota ruiva já tinha a mão na maçaneta da porta estando prestes a fecha-la quando sentiu mãos rápidas e fortes a puxando para dentro da cabana. A porta de fechou em um sonido muito claro para Amy. Tudo se tornou escuridão e por mais que ela quisesse gritar, não conseguia emitir um único som.
Ainda assim Amy Pond viu pela última vez um rosto que não esqueceria: uma mulher de cabelos negros, roupas pretas e um tapa olho típico dos seguidores do Silêncio. Uma voz dizia à distância, tempos depois, quando Amy vagarosamente despertava com roupas típicas de hospital em um quarto desconhecido a mais terrível frase: “Sua filha será aquela a destruir o Doutor, ela o levará para Trenzalore”.
Amy Pond começou a gritar, mas sentiu que era cortada um milhão de vezes. Eram os objetos cortantes, era o destino se cumprindo e sussurrando que ela era a mãe da mulher que um dia tentaria matar o Doctor. Era o tempo cumprindo sempre seus deveres de um jeito ou de outro…era a melodia de um rio.
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