Tudo o que se quer
6 Capítulo 6 - Desespero
Notas iniciais
Passei praticamente o dia inteiro mostrando as melhores residências a venda ou para locação a Arthur, de certo, eu não era obrigada a fazê-lo, porém o homem fora tão gentil a ponto de fazer com que eu quisesse ajudá-lo. No fim das contas, ele acabou alugando a casa mais próxima da minha.
– Desculpe, eu devia tê-la polpado de perder seu precioso tempo, senhora perfeita. — ele disse rindo brevemente.
– Não se preocupe. — disse fazendo um gesto com a mão. — E por favor, só Regina.
– Tudo bem, Regina. Hmm, preciso cuidar de minha mudança agora. Muito obrigado pela ajuda, depois faço questão de compensá-la. — ele segurou minha mão e a beijou novamente.
Entrei em casa pensando que não poderia haver nada que ele pudesse me dar afinal de contas e ainda disposta a descobrir uma razão real para Arthur ter resolvido sair de de um grande metrópole para se alojar aqui, na pequena Storybrooke.
No horário certo, fui buscar Henry no colégio. Eu sabia que era o dia de Emma, mas após a cena da noite anterior eu não podia deixá-la ficar perto do meu filho.
– Mãe? Porque a Emma não veio me buscar? — ele perguntou franzindo a testa e entrando no carro assim que me viu.
– Porque ela não pôde, meu amor. Agora vamos, fiz uma torta de maçã deliciosa. — disse e dei partida.
Chegamos em casa, comemos e depois aproveitei para ler um pouco com meu filho já que ele havia reclamado do pouco tempo que eu passava ao seu lado. Ele acabou dormindo, cobri-o e descia as escadas quando ouvi a campainha tocar.
– Nós temos um acordo! — vociferou Swan assim que atendi a porta.
– Tínhamos até o momento em que a encontrei caindo de bêbada ontem a noite! E meça o seu tom de voz porque esta é minha casa. — disse firme.
– Não se intrometa na minha vida Regina, você sabe muito bem que não sou de fazer isso. — ela disse, mais controlada.
– Não sei nada, aliás, não sei nada sobre você Swan, como posso entregar meu filho a uma... Delinquente? — cruzei os braços e a encarei com os olhos em brasa.
– Eu tenho muita capacidade de cuidar dele, até mais do que você. — ela disse de queixo erguido.
– Não me teste Emma Swan. — minha voz soou rouca e admito que sinistra, nem eu mesma já tinha ouvido-a sair com esse tom, mas naquele momento eu estava muito irritada com a loira insolente.
– O que está acontecendo aqui? — Henry cruzou o batente da porta coçando os olhos.
– Nada, filho, volte para seu quarto, está tarde. — disse sorrindo para ele.
– O que está acontecendo é que... — Swan o pegou pelo braço e o abraçou. — Regina quer me proibir de vê-lo.
Estreitei os olhos. Então era assim que ela queria jogar? Tudo bem, eu também sabia quais cartas usar.
– Não quero porque ela é uma irresponsável, Henry! — tirei-o dos braços dela. — Estava completamente bêbada ontem a noite no Granny's.
– Cale a sua boca! — a mulher se alterou.
– A verdade dói não é, querida? — sorri maliciosamente e então começamos a trocar insultos, que as duas tiveram a preocupação de seletar para a criança não ficar traumatizada.
– Chega! Eu não aguento mais essa briga de vocês! Devíamos ser uma família e não isso! — Henry disse e escapou de meus braços, atravessou a rua correndo e entrou na floresta.
– Viu só? A culpa é sua! — gritei com Swan.
– Minha? Deixe de ser cínica Regina...
– Vocês deviam se preocupar em ir atrás do menino. — a voz de Robin saiu dos fundos do meu jardim.
– Quem é você? — Emma perguntou confusa, enquanto eu corria atrás de Henry.
– Robin Hood, xerife.
Eu não conseguia ver para onde meu filho havia corrido, apenas fui atrás às cegas, mas assim que pisei na areia úmida o salto de minhas botas se afundou na areia.
– Argh! — resmunguei.
– Acho que devia reconsiderar seu tipo de calçado quando pisar na floresta, milady. — Robin chegou para me ajudar enquanto Emma voou floresta a dentro.
– Que ódio! — xinguei.
– Fique calma, conseguiremos encontrá-lo. — Robin disse e logo pediu para que eu me apoiasse em seus ombros, então ele quebrou os saltos de minhas botas de súbito. Eu estava prestes a reclamar, mas cai em mim e vi que era necessário.
Fomos por uma direção diferente de Swan, gritando por Henry e prestando atenção nos arbustos porque ele podia muito bem estar escondido.
Passou-se mais ou menos duas horas e eu não conseguia encontrar meu filho, estava entrando em desespero. Encontramos Swan que também não havia obtido sucesso em suas buscas.
– Isso é culpa sua! — disse indo em direção a ela e pegando-a pelos cabelos. Emma não ficou para trás e também agarrou os meus.
– Minha não, foi você quem quebrou nosso acordo!
– Vocês duas! Parem! — Robin nos separou segurando me pela cintura com firmeza. — Duas mulheres adultas agindo como crianças! Não sentem vergonha? Agora é o momento de procurar pelo menino e não de uma luta.
Sai dos braços dele e ajeitei meu casaco retornando á minha compostura nata.
– Ele tem razão. — Swan afirmou, olhando-me de esguelha.
– Vou continuar procurando Henry. Precisamos nos dividir se quisermos encontrá-lo. — disse em teor de liderança.
– Ligarei para pedir reforços. — afirmou Emma, saindo pela mesma direção da qual veio.
– Eu vou pela direita e você pela esquerda. — instruí Hood.
– Como quiser. Nós encontramos aqui de novo em uma hora. Combinado? — ele se aproximou e beijou minha testa. — Tenha cuidado.
– Você também. — fechei os olhos por poucos segundos e inspirei o cheiro maravilhoso que ele tinha.
Separamo-nos sem mais qualquer palavra. Não era preciso.
Caminhei floresta a dentro à procura de meu filho, a lua cheia clareava a trilha por onde eu passava, o que era muita sorte, pois não foi necessário usar lanternas e muito menos eu tinha uma.
Gritei pelo nome de Henry até minha garganta doer.
Até depois disso.
Ele já havia fugido outras vezes por teimosia de criança, mas eu sempre o encontrava na casa de sua professora, Dona Santinha. Vulga Mary Margaret. Ou no emprego de David, que trabalhava com o veterinário da cidade. Henry adorava ir até lá para ver os animais que as pessoas levavam. Todavia, dessa vez era diferente. Ele estava perdido na floresta e a situação era bastante preocupante.
Olhei no relógio e faltavam poucos minutos para se dar a uma hora combinada. Comecei a me desesperar.
– Henry, por favor, apareça meu filho! — pedi em voz alta. — Henry! Henry! — continuei gritando.
Um grito abafado ao longe fez-me trocar de direção.
– Henry! Henry!
Continuei andando até ouvir a voz de novo, só podia ser ele e quanto mais eu me aproximava, mais eu ouvia o som de água corrente.
– Ah não... — minha aflição subiu de setenta por cento para duzentos.
No meio da floresta havia uma cachoeira que possuía alguns trechos profundos e águas turbulentas.
– Henry! — gritei de novo, sentindo minha voz fraquejar e a garganta doer, mas não importava. — Filho! Onde você está?
Apressei-me e em fim avistei a água corrente, acompanhei a margem até avistar a ponte Brooke.
– Henry!!! — meu coração quase saiu pela boca quando o vi pendurado ali em um pedaço de madeira e a ponte se esfacelando ao poucos.
Corri até lá e coloquei um pé na madeira, mas aquilo causou um tremor tão exagerado que meu filho gritou de horror.
– Eu vou tirá-lo daí, filho! Não se solte! — minha visão estava borrada por conta das lágrimas que faziam meus olhos arderam.
– Mãe!!! — ele gritou e a visão que tive foi assustadora. A madeira despencou totalmente dentro da água, como se alguém apenas houvesse estralado os dedos para que caísse com Henry junto.
Não pensei direito e entrei na água que estava gelada e a correnteza parecia ainda mais forte que de costume. Nada daquilo importava porém, eu só queria salvar minha criança.
Fui submersa antes mesmo que pudesse começar a nadar. Voltei para cima inspirei o ar com força.
– Henry! — o vi debatendo os braços veemente.
Nós dois estávamos sendo carregados pela água e eu tentava de todo modo chegar até ele, foi quando vi o tronco de uma árvore caído no caminho e levando em consideração a velocidade que ganhamos, se meu filho se chocasse contra ele...
– NÃO! Socorro! — gritei mais alto. Olhei para aquele tronco desejando com todas as minhas forças que a água fosse mais forte que ele ou que simplesmente desaparecesse. Eu queria aquilo com tanto fervor no intuito de salvar a vida de Henry e assim aconteceu. Vi o impossível acontecer diante de meus olhos, o objeto entrou em combustão se desfazendo em cascas sobre a correnteza e Henry passou por lá sem muitos problemas.
Não tive tempo de assimilar nada do que havia acabado de acontecer quando vi Robin correndo pelas margens mais próximo de Henry do que eu.
– Salve-o, Robin! Por tudo o que há de mais sagrado... — afundei novamente e voltar para a superfície foi uma luta.
Em minha cabeça apenas uma frase se passava: Que ele salve meu filho.
Meus pulmões queimaram pedindo por ar quando em fim pude respirar novamente. Eu estava desnorteada e confusa mas ao virar a cabeça para trás, descobri Robin puxando Henry para fora da água, eles estavam numa posição anterior à minha naquela hora.
Sorri antes que a água pudesse me engolir novamente e senti um baque enorme contra minha cabeça, então tudo ficou escuro.
"Talvez a morte não fosse tão ruim.
Talvez o vazio não fosse tão ruim.
Sua vida por uma mais preciosa.
Prata pro ouro.
Amor por amor.
Talvez a escuridão não fosse tão ruim.
Preto é a minha cor, afinal.”
– Regina… Regina… — ouço meu nome ao longe, perdido no meio do nada e não sei quem o chama. Onde eu vim parar?
Aos poucos a voz vai ficando mais e alta, porém ainda é escuro e frio. De repente sinto um aperto em meu tórax, e de novo, e de novo. Isso é doloroso. Meus sentidos se aguçam.
– Vamos… Vamos. — já posso ouvir com clareza.
Sinto lábios frios e urgentes sobre os meus, algo arranca o ar de dentro de mim, aliás, não só ar. Há fogo, meus pulmões estão queimando... Não, não é fogo… É água. Os lábios estão lá novamente.
Estou tão confusa.
Inspiro forte sem perceber o quanto queria isso e tusso cuspindo mais água do que achei que fosse possível, minha cabeça lateja. Abro os olhos e quem vejo não é quem eu esperava.
– Que bom que você recuperou os sentidos! — ele diz com um sorriso grande no rosto.
Arthur.
– Henry. — sussurro passando as mãos sobre meus cabelos ensopados. — Minha garganta arde.
– Ele está…
– Mãe! — viro o rosto e lá está meu garoto correndo em direção a mim.
Henry se joga sobre meu corpo abalado, mas não me importo, eu o abraço forte e choro silenciosamente agradecendo por ele estar bem.
Sinto uma mão tocar minha cabeça e envolver os braços ao redor de mim e Henry. Robin.
– Mãe, ele me salvou, já sei que ele é seu amigo, mas nós não conseguíamos encontrá-la! — meu filho diz, a aflição crescente em sua voz.
– Está tudo bem agora, sim? — beijo a testa dele e tento me levantar, mas estou fraca para tanto.
Sem aviso, Robin me ergue em seus braços e pede para Henry cobrir-me com um casaco que imaginei ser dele.
– Obrigada. — digo para Arthur.
– Não há o que agradecer, eu fico feliz em ter ajudado. — aquele sorriso gentil ainda está em seu rosto.
– Como a encontrou? — olho para Robin e vejo que está taciturno, encarando o outro homem.
– Eu vi quando ela bateu a cabeça na pedra. Estava passeando com meu cão. — ele apontou para o pastor alemão sentado incrivelmente quieto a pouca distância. — Mergulhei mas não conseguia encontrá-la, então tentei mais duas vezes e na terceira tive sorte.
– E eu também. — comento em um sussurro, não sei onde se encontra minha voz nesse momento.
Apesar de tudo, a tensão no ar é tangível, então observo os dois homens me encarando.
– Ela está bem? — ouço a voz de Swan, que quebra toda aquela cena. A agradeço mentalmente.
– Sim. — digo imediatamente. Desejei que Robin não precisasse me carregar para mostrar que sou forte e posso me virar, mas esse não era o caso no momento. Droga.
– Ela ficará. Vou levá-la hospital. — Hood falou, já me carregando com habilidade.
– Não quero ir para o hospital. Odeio hospitais. — reclamo e tusso sentindo dores horríveis na garganta.
– Mas você vai, nem que seja para darem uma olhada em você.
– Não quero… — comento, cansada e encosto minha cabeça em seu peito.
– Não vá dormir, você acabou de levar uma pancada forte na cabeça. — ouço a voz dele em meu ouvido, porém o sono que se apodera de mim naquele instante é mais forte que eu e simplesmente não vejo quando ele me vence.
***
Uma mão acaricia meu rosto carinhosamente. Eu conheço esse tipo de carícia.
– Robin? — pergunto ao abrir os olhos.
– Milady. — ele sorri, aquele brilho em seus olhos finalmente vem à tona e eu não posso deixar de retribuir.
Levo a mão à garganta e ele logo pega a jarra no meu criado mudo e me serve com um copo d’água me ajudando inclusive a erguer a cabeça para beber.
– Eu estou bem, não precisa de tudo isso. Onde está Henry? — tenho certeza de que meu rosto assume uma expressão alarmada.
– Está dormindo. Ele ficou com durante o dia hoje, mas voltou e está são e salvo, pode ficar tranquila.
Inspirei aliviada, meu filho estava bem.
– Por quanto tempo dormi? — inquiri.
– Quase dois dias.
– O que? Como assim? — perguntei o mais alto que consegui. Olhei ao meu redor e só então minha ficha caiu.
Eu estava em meu quarto, lá fora estava escuro, havia mais travesseiros na cama do que o costume, toquei meu colo e percebi a camisola azul marinho.
– Quando eu vesti essa roupa? — franzi a testa e ele me lançou um olhar sedutor que me deixou levemente corada.
– Acalme-se. — Robin se apressou a explicar pegando uma mecha solta de cabelo e colocando atrás de minha orelha. — Você praticamente desmaiou em meus braços, então eu a levei para os hospital e você não acordava. Acho que foi o segundo pior momento daquele meu dia. O primeiro foi perder você de vista após colocar Henry a salvo. Entrei na água mas não conseguia encontrá-la, me senti tão inútil e pensar em perdê-la de novo doía-me mais que tudo. Após, no hospital, entrei em desespero porque você estava inconsciente, mas o médico disse que ia ficar tudo bem, medicaram-na e como sabia que não gosta de hospitais, pedi para trazê-la. Desde então estou aqui, para cuidar de você. — sua mão voltou a acariciar meu rosto, fechei os olhos, feliz pelo que aquele toque me causava. Era mais que segurança, era mais que bem estar ou prazer, era mais. — Sei que você acha melhor fazer as coias à sua maneira, — ele continuou — mas eu estou aqui para mostrar que não está sozinha. Eu sei o quanto você é forte, mas em seus momentos mais difíceis, pretendo estar ao seu lado para impedir que toda e qualquer dor que venha a lhe afligir seja encarada solitariamente.
De uma forma que eu não conseguia assimilar, aquele homem me entendia mais do que qualquer pessoa com quem eu já havia cruzado nessa vida e isso vindo de alguém que conheço a sei lá… Uma semana? Era mais que impressionante.
Naquele momento, senti meu coração se aquietar no peito, como se estivesse em um lar, como se estivesse me dizendo: está tudo bem, eu estou bem.
– Obrigada. — foi a única palavra que saiu da minha boca antes que eu o pegasse pela nuca e o puxasse para mim.
Robin me beijou suavemente, como se estivesse com medo de que eu me quebrasse. Por um lado, eu gostei, pois não estava mesmo em condições de fazer “acrobacias”, por outro lado, eu queria que tudo se aprofundasse naquela noite mesmo.
– Durma comigo? — sussurrei ofegante contra sua boca.
– Durmo. — ele sussurrou de volta enquanto eu descia minhas mãos para o primeiro botão de sua camisa. Ele as segurou lá e sem afastar os lábios dos meus completou. — Eu disse que durmo com você. — ele sorriu contra minha boca.
Canalha.
Suspirei derrotada. Se estivéssemos em outras circunstancias, eu argumentaria, mas nas atuais não. Ademais, ainda me sentia cansada.
Ajeitei-me no outro lado da cama enquanto o via tirar sua camisa e sua calça e deitar ao meu lado vestido apenas com uma samba-canção charmosa levando-se em consideração o modelo.
– Vou dar boxers de presente a você. — mordi o lábio com um sorriso tímido.
– Vai me dar o que? — ele franziu o senho, sorrindo também.
– De que tempo você veio, Robin Hood? — ergui uma sobrancelha.
– De um tempo que em breve também terá sido seu tempo. — notei que ele brincou com as palavras e tempos verbais, mas no fundo, eu sabia que Robin apenas tentava explicar mais uma de suas verdades. — Chega de conversa, descanse mais. — ele me puxou delicadamente para seu peito, onde me aninhei de maneira confortável, e nos cobriu.
– Durma bem, minha rainha.
– Boa noite… — e as palavras saltaram em minha mente. — Fora da lei.
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