Tudo o que se quer
3 Capítulo 3 - Morreria feliz
Notas iniciais
Nós estávamos amarrados em algum lugar escuro, eles taparam minha visão e imagino que a dele também. Ele estava ferido.
– Robin? Por favor? Fale comigo? — sussurrei.
Ouvi uma lufada de ar sendo liberada com dificuldade, uma lágrima escorreu por meus olhos.
– Desculpe. Eu não sabia, eu juro que não sabia. — minhas palavras saiam cada vez mais embargadas pelo nós que se formava em minha garganta.
– A culpa é sua. — a voz dele saiu de forma dura seguida de um gemido doloroso. — Você queria que fôssemos pegos. Você apenas brincou comigo e tudo isso não passa de um teatro.
– Não, Robin! Eu não sabia de nada! Não falei nada! Tudo que eu queria era fugir com você para outro Reino, como havíamos planejado. — choraminguei.
– Mentirosa! — ele praguejou.
– Não! Eu não...
Neste instante ouvi passos caminharem até nós.
– Acabou o tempo. Sua hora chegou, ladrão de quinta. — as últimas palavras do homem foram abafadas pelo grito de Robin.
– Por favor, não o machuquem, por favor! Eu estou aqui, machuquem a mim! — disse desesperada.
– A Senhora Cora nos arrancaria o pescoço. — o homem riu.
– O que minha mãe tem a ver com isso?
– Não se faça de inocente, Regina! — Robin bufou.
– O que eu preciso fazer para que acredite em mim? — disse ao sentir suas palavras me atingindo de forma tortuosa. Como ele podia pensar que eu o havia traído? Como eu poderia trair o homem cujo sangue fluía em meu ventre?
– Vamos! — um homem com outra voz diferente me ergueu.
– Solte-me! Eu exijo saber a verdade! Não estamos em outras terras, não é mesmo? Tudo por aqui ainda está sob o domínio de minha mãe! — acusei buscando minha liberdade.
Quando finalmente me colocaram no chão eu pude ouvir um burburinho em volta. Meu capuz foi arrancado e a luz deixou minha visão turva, porém, mesmo assim, não pude deixar de notar Robin à minha frente, seu corpo amarrado em um tronco, sua camisa rasgada e seu peito sangrando. Minhas lágrimas passaram a correr furtivamente.
Havia mais gente, todos olhando atentos, alguns com a expressão satisfeita, outros cheios de medo e também havia cinco arqueiros se posicionando.
– Não! Mãe! Por favor, não! Eu faço qualquer coisa que a senhora quiser. Qualquer coisa! — gritei com esperança de ela aparecer e acabar com aquilo a qualquer custo. Eu pagaria qualquer preço.
– Foi você quem fez a escolha, querida. — Cora surgiu no meio do povo, usando um vestido escarlate e elegante.
– Eu estava certo. Você é a pior criatura que já apareceu em minha vida, Regina. — as palavras resignadas de Robin atingiram-me em cheio.
– Eu não o traí! Diga a ele mãe, diga que tudo isso foi você quem armou! Porque está fazendo isso comigo?
– Um homem em seu leito de morte merece sinceridade, minha filha. — ela disse e veio se colocar atrás de mim. Pelo canto do olho vi Robin frustrado e triste.
– Qualquer coisa... — supliquei a Cora em meio ao choro. — Dou qualquer coisa a você.
– As coisas não funcionam mais assim. — ela olhou para Robin com um sorriso malicioso nos lábios e estralou os dedos.
Toquei por sobre meu ventre ao ver cinco flechas em alta velocidade voarem em direção ao peito dele.
– NÃO!
Abro os olhos aterrorizada. Lágrimas escorrem por minhas bochechas e suor por minha testa. Puxo minhas pernas e as abraço apertado caindo em um choro descontrolado. Os sentimentos que me habitam neste momento são mais reais do que o próprio sonho havia sido.
Robin Hood. Porque ele havia aparecido em meus sonhos? Porque daquela forma?
Eu o conhecia, de fato. Agora sabia disso, mas não tinha ideia do quanto era verdade e o quanto eram apenas armadilhas de minha cabeça. Eu precisava encontrá-lo. Precisava saber a causa de tantas cenas me atormentarem todas as noites dos últimos... Não sei ao certo há quanto tempo isso acontece. Desde que me lembro e este homem parecia ser o único que podia me ajudar.
Henry entrou no quarto e arregalou os olhos ao me ver em um estado jamais mostrado a ele, fragilizada. Sequei rapidamente as lágrimas e me recompus.
– Mãe, você está bem? — ele se aproximou e então eu lhe puxei para um abraço apertado.
– Estou bem, não se preocupe. Henry, você sabe que tudo o que eu faço é porque quero lhe proteger e porque o amo? Mesmo quando estou sendo rígida. — afastei-me para olhar em seus olhos.
– Sei. Eu também te amo. — ele disse. — E a Emma.
– Porque? — franzi a testa.
– Porque ela também é minha mãe. — ele explicou calmamente.
– Mas ela apareceu a pouco tempo e eu estivesse com você durante dez anos, Henry. Não entendo...
– Esteve comigo quando não tinha trabalho a fazer. — ele rebateu.
Para aquilo eu não possuía resposta. Será que sem perceber negligenciei a convivência com meu próprio filho? Era por isso que estava pagando agora?
Suspirei e beijei a bochecha dele.
– Vá se arrumar, está quase na hora de ir para a escola.
– Tudo bem.
Ele saiu do quarto e eu fiquei pensativa por alguns instantes tentando colocar a ideias no lugar.
Finalmente me aprontei. Henry e eu tomamos café da manhã, o levei à escola e deixei meus afazeres de prefeita de lado para cuidar do meu maior problema no momento. Encontrar Robin Hood.
Em uma cidade como Storybrooke seria óbvio ele ter ficado no Cama e Café da Vovó, mas como previ, Robin não era um homem óbvio.
Com minha influência nata consegui descobrir que ele habitava um trailer escondido na floresta já havia algum tempo. À espreita. Preocupei-me com o fato dele ter estado me espionando nas últimas semanas, admito. Iria tira isso a limpo.
Deixei meu carro na estrada e segui ao lugar indicado. Caminhei por alguns minutos e não encontrei nada. Será que haviam me passado a informação errada?
Um barulho de galhos balançando me deixou alerta e ao olhar para trás para verificar do que se tratava, torci o tornozelo quando o salto de minha bota se afundou na terra.
– Ai! Era só o que me faltava! — praguejei alguma palavra vil e decadente.
– Havia muito tempo que eu não a ouvia em seus momentos de fúria. — Ele.
Robin estava bem na minha frente. Ele apoiou um braço no tronco da árvore atrás de mim, o que me fez encostar na árvore de susto.
Eu não podia acreditar, vê-lo vivo, ver aquele brilho em seus olhos trouxe-me alívio e alegria. Algo se ascendeu dentro de mim.
– Robin.
Seu outro braço já me prendia contra a árvore enquanto seus lábios avançaram para os meus. Eu não devia fazer aquilo, eu não conhecia, não devia baixar a guarda.
Claro que o conhece. Uma voz martelou em minha cabeça fazendo-me esquecer qualquer uma das minhas barreiras.
Segurei-o pela nuca e me entreguei àqueles lábios macios com a sensação de já conhecê-los bem demais.
Aquele beijo me fez pensar que se morresse naquele momento, morreria feliz.
Fale com o autor