Tudo o que não superamos
23 A distância que escolhemos
O prédio mergulhava naquele silêncio pesado de madrugada em Seoul.
Luzes acesas aqui e ali. O reflexo escuro dos prédios nos vidros altos.
A cidade seguia acordada… mas cansada.
No dormitório do Stray Kids, não era muito diferente.
Papéis espalhados.
Copos de café vazios.
Músicas abertas em abas demais no notebook.
Horas tentando fechar detalhes do novo álbum.
Bang Chan estava acabado.
Moletom largo já amassado.
Cabelo bagunçado de tanto passar a mão.
Olhos queimando da luz da tela.
Changbin tinha apagado no sofá.
Han ainda rabiscava letras num canto, murmurando sozinho.
Chan levantou.
Precisava respirar.
Foi até a janela do dormitório. A cidade brilhava lá embaixo.
Então viu um carro preto entrando devagar no condomínio.
No começo, nem ligou.
Até a porta abrir.
E ela descer.
Hanna.
Chan ficou imóvel.
Vestido escuro elegante.
Cabelo solto pelos ombros.
Salto fino ecoando baixo na calçada vazia.
Mas não era isso.
Ela parecia leve.
Sorria enquanto falava com alguém dentro do carro. Uma risada escapou antes da despedida.
Natural.
Feliz.
Aquilo bateu torto nele.
Fazia tempo que não via Hanna assim. Sem tensão. Sem distância calculada. Sem aquele olhar fechado que ela carregava perto dele ultimamente.
Ela parecia vivendo.
E talvez fosse exatamente isso que incomodasse.
Chan apoiou a mão no vidro.
O motorista falou mais alguma coisa pela janela aberta.
Hanna riu de novo.
— Boa noite!
Acenou.
O carro foi embora.
Ela ficou parada alguns segundos, respirando o ar frio da madrugada, antes de entrar no prédio.
Chan desviou o olhar devagar.
O peito apertado.
Leve. Constante.
— Hyung?
Han ergueu a cabeça.
— O que foi?
Chan demorou a responder.
— Nada.
Mentira.
Porque olhar pra ela agora… sempre fazia alguma coisa nele.
Do outro lado do condomínio, Hanna entrou no apartamento chutando os saltos pelo caminho.
— Finalmente…
A voz saiu cansada, mas satisfeita.
A noite tinha sido boa.
Depois de dias entre aeroportos, entrevistas, ensaios e apresentações, aquilo parecia quase surreal.
Ela tinha saído para jantar com coreógrafos, músicos, produtores. Gente que entendia aquele mundo sem transformar tudo numa disputa silenciosa.
E, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu relaxar.
Sem pensar em números.
Sem pensar em câmeras.
Sem pensar nele.
Acendeu só a luz pequena da cozinha.
O vestido já incomodava. Soltou o cabelo.
— Nunca mais salto alto por dez horas seguidas…
Foi pro quarto.
Tirou os brincos.
Depois o vestido.
O silêncio confortável do apartamento abraçando ela devagar.
Vestiu um roupão branco macio e prendeu o cabelo num coque frouxo.
Agora sim.
Banho quente.
Cama.
Talvez doze horas de sono.
Ela passava hidratante nos braços quando—
A campainha tocou.
Hanna travou.
Olhou o relógio.
02:17.
— Quem diabos…
A campainha soou outra vez. Mais longa.
Ela caminhou descalça pelo apartamento.
Quando olhou pelo visor, ficou imóvel.
Bang Chan.
Moletom preto.
Boné baixo escondendo parte do rosto.
Mãos nos bolsos.
Esperando.
Hanna soltou o ar devagar.
Surpresa. Confusa. Alerta.
Porque ninguém bate na porta de alguém às duas da manhã quando está bem.
Ela abriu só o suficiente pra encarar ele.
— Chan?
Ele levantou os olhos.
E ela percebeu na hora.
Tinha alguma coisa errada.
O olhar dele estava cansado demais. Pesado demais. Sincero demais.
— Desculpa aparecer assim.
Rouco. Baixo.
— Eu só…
Parou no meio.
Como se nem soubesse mais o que queria dizer.
— Aconteceu alguma coisa?
Chan soltou uma risada fraca.
Sem humor.
— Acho que sim.
O corredor permaneceu em silêncio.
A luz do apartamento iluminava só metade do rosto dele.
— Chan… o que você quer? Já é tarde.
A voz dela saiu cansada. Não fria.
Porque já era tarde demais pra joguinhos.
Ele respirou fundo.
— Eu só queria falar uma coisa. Não vou demorar.
Hanna observou ele por alguns segundos.
Aquilo não parecia orgulho. Nem raiva.
Parecia desgaste.
Ela abriu espaço.
— Tá. Entra.
Chan entrou devagar.
O apartamento estava quente. Cheiro leve de hidratante, perfume e vapor escapando do corredor.
Confortável.
Caseiro.
Aquilo apertou ainda mais o peito dele.
Hanna fechou a porta.
— Pode falar.
Ela caminhou até a sala.
Roupão branco preso na cintura.
Cabelo preso de qualquer jeito.
Rosto limpo.
Sem maquiagem.
Sem personagem.
Sem câmera.
Só ela.
E talvez fosse isso que tornasse tudo pior.
— Eu tava indo tomar banho. Deixei a banheira enchendo.
Chan assentiu.
Mas não falou nada.
Porque tinha ensaiado aquilo mil vezes na cabeça.
Ia entrar. Explicar. Dizer que sentia falta dela. Que odiava aquela distância. Que ver ela com outro homem estava acabando com ele.
Só que agora…
As palavras tinham sumido.
Hanna percebeu.
Os olhos perdidos.
A respiração pesada.
As mãos inquietas.
— Chan?
Ele levantou o olhar.
E perdeu o pouco controle que ainda tinha.
Foi até ela num impulso.
Rápido.
Como se pensar mais cinco segundos fosse fazê-lo desistir.
Hanna arregalou os olhos quando ele parou perto demais.
O silêncio ficou enorme.
Ela sentia a respiração dele agora.
O olhar também.
Confuso. Cansado. Intenso.
Como alguém segurando coisa demais há tempo demais.
— Eu tinha tanta coisa pra falar…
A voz saiu baixa.
Ele soltou uma risada curta.
— Mas agora parece que eu esqueci tudo.
Hanna não recuou.
E aquilo foi perigoso.
Os olhos dele desceram por um segundo.
O roupão.
A pele úmida do pescoço.
O cabelo bagunçado.
Depois voltaram pro rosto dela imediatamente.
Como se brigasse consigo mesmo.
— Você tá diferente.
Escapou sem querer.
Hanna sustentou o olhar.
— Você também.
Pausa.
A água enchendo a banheira era o único som no apartamento.
Chan passou a mão no rosto.
— Eu vi você chegando hoje.
Ela piscou, surpresa.
— Você tava feliz.
Aquilo pegou ela desprevenida.
Porque não parecia acusação.
Parecia saudade.
Chan engoliu seco.
— E eu percebi uma coisa que tá me irritando faz dias.
Riu baixo outra vez.
— Talvez semanas.
Hanna sentiu o peito apertar.
Conhecia aquele tom.
Era o tom que vinha antes de alguma verdade feia demais.
— Chan…
Mas ele cortou:
— Eu odeio a ideia de você seguir em frente sem mim.
O silêncio caiu pesado.
Ele parou a poucos centímetros dela.
— Eu não gostei.
Seco. Direto.
Hanna franziu levemente a testa.
— Do quê?
Chan fez um gesto vago entre os dois.
— Disso tudo. Você… com ele.
Agora estava claro.
Ela sustentou o olhar.
— É trabalho.
Firme. Controlada.
Chan passou a mão pelo rosto.
— Eu sei. Mas não pareceu.
O silêncio pesou.
Hanna cruzou os braços.
— E o que você queria? Que parecesse frio? Forçado?
Ela inclinou a cabeça.
— Foi você que escolheu isso.
Aquilo acertou em cheio.
Porque ela estava certa.
— Eu não escolhi te ver daquele jeito com outro cara.
A voz saiu mais alta, mais emocional.
Hanna riu sem humor.
— Não. Mas escolheu me deixar sozinha.
Agora sem filtro.
— Escolheu distância. Escolheu dúvida. Escolheu não confiar.
Cada palavra atingindo exatamente onde devia.
Chan ficou em silêncio.
Respiração pesada.
— Eu só tava tentando não me machucar de novo.
Honesto. Cru.
Por um instante, o olhar dela suavizou.
Mas não o bastante.
— E eu?
Baixo.
— Você acha que eu também não me machuco?
O silêncio ficou sufocante.
Hanna deu um passo à frente.
Agora não existia espaço pra fugir.
— Eu fiquei.
Pausa.
— Dessa vez eu fiquei.
Aquilo desmontou alguma coisa nele.
Chan desviou o olhar.
— Eu sei…
Quase um sussurro.
Então ela respondeu na mesma hora:
— Mas você nunca deixou eu ficar de verdade.
Fim.
Sem desculpa bonita.
Sem rodeio.
Só verdade.
Ao fundo, a água da banheira continuava enchendo.
Constante. Irritante.
Como eles.
Chan levantou os olhos devagar.
Sem defesa dessa vez.
— Eu não sei como fazer isso.
A frase saiu cansada.
Sem orgulho. Sem máscara.
Hanna respirou fundo.
Porque aquilo já não era mais discussão.
Era escolha.
E ela também estava cansada.
— Então aprende.
Simples.
— Ou me deixa ir.
Agora sim.
O limite.
O silêncio ainda pesava entre eles.
As palavras dela continuavam ali.
Cortando.
“Então aprende… ou me deixa ir.”
Chan ficou parado por um segundo.
Só um.
Porque depois disso… acabou.
Não teve cálculo.
Não teve orgulho.
Não teve distância.
Ele simplesmente foi.
A mão segurou a cintura dela de repente, puxando Hanna contra ele sem aviso.
O corpo dela reagiu no susto.
— Chan—
Mas a frase morreu ali.
Porque ele beijou ela antes.
Forte. Quente.
Desesperadamente sincero.
Como alguém que passou tempo demais tentando se controlar e finalmente perdeu a guerra.
Hanna travou por um instante.
Choque. Raiva. Saudade.
Tudo junto.
As mãos dela bateram no peito dele numa tentativa fraca de afastar.
— Não…
Mas não saiu como recusa.
Saiu como medo.
Chan segurou ela com mais firmeza, a respiração pesada contra a dela.
O beijo não era delicado.
Não tinha calma.
Era carregado de tudo que eles nunca conseguiram dizer direito.
Da falta. Da mágoa.
Da vontade ridícula de continuar voltando um pro outro.
Ele afastou o rosto só o suficiente para respirar.
A testa encostada na dela.
Os olhos fechados por um segundo.
Como se estivesse no limite.
— Eu te quero.
Baixo.
Rouco.
Sem defesa nenhuma.
E aquilo desmontou Hanna mais do que deveria.
Porque não era perfeito.
Nem seguro.
Nem inteligente.
Mas era real.
E ela sempre soube reconhecer quando era real.
As mãos que antes tentavam empurrar diminuíram a força devagar.
Os dedos deslizaram pelo braço dele.
Seguraram o moletom.
E foi ali que Chan percebeu.
Ela ainda estava ali.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo machucada.
Hanna abriu os olhos lentamente.
O olhar preso no dele.
E então… cedeu.
Sem fingir que aquilo resolvia alguma coisa.
Só verdade.
Ela puxou ele de volta pela gola do moletom.
E o beijo recomeçou.
Diferente agora.
Ainda intenso.
Ainda perigoso.
Mas correspondido.
O mundo do lado de fora desapareceu.
A cidade. Os problemas.
O orgulho idiota dos dois.
Tudo longe.
Só existia aquele apartamento silencioso, a água transbordando esquecida no banheiro e dois corações teimosos demais para aceitarem distância.
Mesmo sem saber se daria certo.
Mesmo sem saber o que vinha depois.
E talvez…naquela madrugada…isso simplesmente não importasse.
O quarto ainda carregava o silêncio da noite.
Cortinas fechadas.
Luz fraca entrando pelas frestas.
O tempo tinha passado rápido demais.
Hanna estava de pé.
De costas.
Vestindo a camisola.
Movimentos calmos.
Controlados.
Como se aquilo… não tivesse significado mais do que devia.
Chan ainda estava na cama.
Sob os lençóis.
Observando. Em silêncio.
Ela não olhou pra trás.
— Já é quase de manhã.
A voz dela saiu neutra.
— Melhor você ir.
Pausa.
— Não quero que alguém te veja saindo daqui.
Mais uma pausa.
— Não quero fofoca… nem meu nome envolvido.
Direta. Fria. Demais.
Chan piscou devagar.
Como se as palavras demorassem a encaixar.
Ele se sentou.
Passou a mão no rosto.
Sentindo. Não o que aconteceu.
Mas o que veio depois.
Distância. De novo. Ele levantou.
Pegou a roupa. Vestiu devagar.
Sem pressa. Sem dizer nada.
Mas por dentro… aquilo bateu.
Porque ele podia.
Podia virar. Podia responder.
Podia dizer: “Então deixa falarem.”
“Deixa todo mundo saber.”
“Eu não me importo.”
Mas não disse.
Porque não era verdade.
Ainda não.
As dúvidas ainda estavam ali.
Firmes. Silenciosas. E ele sabia.
Assumir algo assim… exigia uma certeza que ele não tinha.
Hanna virou de leve.
Encostada na parede agora.
Braços cruzados.
Observando. Esperando.
Mas não pedindo nada.
Nunca mais.
Chan terminou de se arrumar.
Olhou pra ela. Por um segundo.
Quase disse algo. Quase ficou.
Mas não.
— Tá.
Simples.
Ele caminhou até a porta.
Abriu.
E antes de sair… parou.
Sem olhar pra trás.
— A gente não pode continuar assim.
Baixo.
Mais pra si do que pra ela.
Mas ela ouviu.
Claro que ouviu.
E mesmo assim… não respondeu.
A porta fechou.
E dessa vez… não teve eco.
Só um silêncio pesado.
Porque agora… não era mais sobre sentimento.
Era sobre o jeito errado de viver ele.
E os dois sabiam.
Mas mesmo assim… ninguém parava.
A porta fechou.
E ele foi.
Hanna não se moveu.
Ficou ali. De costas.
Olhando para nada.
Como se o corpo ainda estivesse preso naquele momento.
Como se, se não se mexesse… talvez ele voltasse.
Mas não voltou.
O silêncio se espalhou pelo quarto.
Pesado. Definitivo.
Ela fechou os olhos.
E então… veio.
A dor.
Não da noite.
Mas da falta. Da escolha.
Uma lágrima desceu.
Lenta. Sem pressa. Sem controle.
— Não era isso…
Baixo.
Quase um sussurro.
Porque não era.
Ela não queria só aquilo.
Não queria encontros roubados.
Não queria portas fechadas.
Não queria ser escondida.
Ela queria… ele.
Por inteiro.
Sem medo. Sem metade. Sem dúvida.
Mas ele não ficou.
De novo.
E isso… doeu mais do que qualquer despedida.
Ela respirou fundo.
Passou a mão no rosto.
Secou a lágrima.
E então… algo mudou.
Ela virou devagar.
Olhou o quarto.
Olhou a cama.
Olhou o espaço vazio.
— Chega.
Simples. Sem grito. Sem drama.
Mas firme.
— Se você não aceita o que somos…
Pausa.
A voz mais forte agora.
— Eu vou seguir em frente.
Não era ameaça.
Não era jogo.
Era escolha.
E pela primeira vez… ela não estava esperando ele fazer a parte dele.
Ela estava pronta pra fazer a dela.
Mesmo que doesse.
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