Os corredores da agência nunca dormiam.

Mesmo tarde da noite ainda existia alguém:

ensaiando;

correndo;

cantando;

chorando escondido no banheiro;

ou dormindo sentado em algum canto.

Trainees eram fantasmas cansados vagando atrás do mesmo sonho.

E Hanna já tinha aprendido a passar por eles sem olhar muito.

Porque naquele lugar todo mundo carregava olheiras e ambição.

Mas foi numa madrugada depois de uma avaliação particularmente horrível de vocal que ela reparou nele pela primeira vez.

A sala de prática ao lado estava aberta.

Música baixa escapava pela fresta da porta.

Hanna passou distraída…

até ouvir alguém falando inglês sozinho no meio da letra.

Aquilo chamou atenção imediatamente.

Ela espiou sem querer.

O garoto estava sentado no chão da sala, apoiado contra o espelho, um caderno aberto cheio de anotações no colo.

Cabelo bagunçado.

Moletom preto enorme.

Fones pendurados no pescoço.

Ele batucava o lápis distraidamente enquanto escutava a própria gravação com uma expressão crítica demais pra alguém tão novo.

Então percebeu Hanna parada.

Os olhos dos dois se encontraram.

— Ah… desculpa. — Hanna se afastou rápido. — Eu não tava espionando.

O garoto soltou uma risada curta pelo nariz.

— Todo mundo espiona todo mundo aqui.

O sotaque dele não era totalmente coreano.

Hanna percebeu na hora.

— Você não nasceu aqui.

— Austrália.

Ele fechou o caderno e levantou devagar.

— Você é a brasileira, né?

Ela fez uma careta.

— As pessoas me chamam assim?

— Entre outras coisas.

Aquilo deveria soar cruel.

Mas nele parecia só honestidade cansada.

— Sou Chan.

Ele fez uma reverência pequena.

— Bang Chan.

Bang Chan

Hanna repetiu o nome mentalmente.

Ele parecia mais velho do que realmente era.

Não fisicamente.

No olhar.

Como alguém que já tinha entendido cedo demais como aquele lugar funcionava.

Chan estava na agência há três anos.

Três anos vendo gente chegar cheia de esperança…

e ir embora destruída.

Treinando até madrugada.

Dormindo pouco.

Esperando uma chance que nunca parecia próxima o suficiente.

Mesmo assim continuava ali.

Isso impressionou Hanna imediatamente.

— Você ainda tá treinando essa hora?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Você também.

Ela abriu a boca pra responder…

e fechou de novo.

Chan sorriu de lado.

Primeira vez que ela percebeu aquilo:

ele tinha um jeito leve de enxergar as pessoas sem pressionar.

Raro naquele ambiente.

— Vocal? — ele perguntou apontando pras partituras na mão dela.

Hanna assentiu.

— Sou ruim.

— Então por que continua?

Ela demorou um pouco pra responder.

Porque a resposta parecia óbvia.

— Porque eu quero debutar.

Chan ficou em silêncio alguns segundos.

Depois assentiu devagar.

Como alguém que entendia aquilo profundamente.

Mais do que deveria aos dezesseis anos.

— Então continua amanhã também.

Simples assim.

Sem discurso motivacional.

Sem pena.

E talvez justamente por isso aquelas palavras ficaram na cabeça dela.

Nas semanas seguintes, Hanna começou a encontrar Chan pelos corredores com frequência:

na máquina de bebidas;

nas salas de prática;

no estúdio;

dormindo torto no sofá da empresa;

carregando notebook e fones como se fossem partes do corpo.

E aos poucos ela percebeu algo:

Bang Chan era respeitado pelos trainees.

Não porque fosse famoso.

Não era ainda.

Mas porque sobreviver três anos naquele lugar sem desistir transformava alguém.

A amizade deles não aconteceu de repente.

Foi construída no cansaço.

Nos corredores silenciosos depois da meia-noite.

Nas bebidas de máquina.

Nas avaliações ruins.

Nas madrugadas em que nenhum dos dois conseguia dormir por ansiedade.

Bang Chan começou aparecendo aos poucos na rotina de Hanna como música de fundo:

sempre ali,

sempre trabalhando,

sempre cansado.

E Hanna entendia aquilo.

Porque via nele a mesma coisa que carregava dentro do peito:

o medo constante de não ser suficiente.

Chan treinava há três anos e ainda assim os diretores continuavam exigindo mais.

Mais liderança.

Mais composição.

Mais performance.

Mais resistência.

Nunca bastava.

Hanna percebeu rápido que ele raramente elogiava a si mesmo.

Mesmo quando fazia algo incrível, apenas franzia a testa e dizia:

— Dá pra melhorar.

Ela odiava aquilo porque fazia exatamente igual.

Então sem perceber os dois começaram a se encontrar cada vez mais.

— Você vai praticar vocal agora?

— Vou.

— Posso usar a sala também?

— Claro.

Virou hábito.

Enquanto Hanna treinava notas até ficar rouca, Chan ajudava:

— Respira primeiro.

— Você tá empurrando a garganta.

— Relaxa o maxilar.

E em troca Hanna ajudava ele na dança.

Numa noite particularmente fria em Seoul, Chan estava claramente irritado tentando aprender uma sequência nova.

Ele errava sempre no mesmo ponto.

Bufou frustrado pela quinta vez seguida.

— Isso tá horrível.

Hanna, sentada no chão alongando as pernas, levantou uma sobrancelha.

— Não tá horrível.

— Tá sim.

— Você só tá duro.

Chan olhou indignado.

— Obrigado.

Ela riu pela primeira vez em horas.

— É sério. Você pensa demais antes do movimento.

— Porque eu preciso acertar.

— Não. Você precisa sentir o tempo primeiro.

Ela levantou e foi até ele.

— Faz comigo.

A música recomeçou.

Hanna executou os passos com aquela fluidez quase natural do balé. Chan observava concentrado enquanto ela segurava o pulso dele no momento certo do giro.

— Aqui. Relaxa o ombro.

Ele tentou de novo.

Melhorou imediatamente.

Chan arregalou os olhos.

— Espera… como você fez isso?

— Anos levando bronca de professora de balé.

— Finalmente alguém útil nessa empresa.

— Yah!

Ela empurrou o braço dele indignada enquanto os dois riam baixo pra não chamar atenção dos managers.

E foi assim.

Sem perceber.

Eles começaram a virar refúgio um do outro naquele lugar sufocante.

Chan entendia a solidão dela sem precisar explicar.

Hanna entendia o cansaço dele sem precisar perguntar.

Os dois tinham deixado família, país e adolescência pra trás por um sonho absurdamente difícil.

E talvez por isso existisse conforto na companhia um do outro.

Numa madrugada, depois de horas treinando, Hanna caiu sentada no chão da sala de ensaio completamente exausta.

— Acho que minhas pernas vão cair.

Chan estava deitado perto do espelho tentando recuperar o fôlego.

— Se caírem, pelo menos você não precisa treinar amanhã.

— Nossa, genial.

Silêncio confortável.

Só a respiração cansada dos dois preenchendo a sala.

Então Hanna falou baixinho:

— Você nunca pensou em desistir?

Chan demorou pra responder.

Os olhos fixos no teto.

— Todo mês.

Ela virou o rosto pra encará-lo.

E ele sorriu pequeno.

Cansado.

Honesto.

— Mas aí eu acordo e continuo vindo.

Hanna ficou olhando ele por alguns segundos.

Porque entendia perfeitamente.

Naquele lugar ninguém sobrevivia sem teimosia.

E talvez fosse exatamente isso que unia os dois.