Tudo o que não superamos

27 Quando Finalmente Ficamos


Fazia exatamente um ano desde que Hanna tinha voltado para Seoul.

Um ano desde o reencontro com Bang Chan.

Ou Chris, como ela ainda chamava ele dentro da própria cabeça nos momentos mais frágeis.

Um ano de idas e voltas emocionais.

Silêncios.

Desejo.

Mágoa.

Quase.

E naquela noite, quando Cha Eun-woo beijou ela…

foi a primeira vez que outro homem a tocava daquele jeito desde Chris.

Talvez por isso tenha doído tanto.

Porque não foi ruim.

Esse era o problema.

Eun-woo era bonito.

Envolvente.

Gentil daquele jeito raro que fazia tudo parecer seguro.

O toque dele foi calmo.

Paciente.

Sem pressão.

E Hanna queria conseguir ficar ali.

Queria sentir aquilo sem peso.

Mas, no instante em que fechou os olhos, a culpa veio primeiro.

Depois a confusão.

E por baixo de tudo…

Chris.

Como uma marca que ela tentou esconder durante meses e nunca realmente conseguiu apagar.

Porque o corpo dela estava ali.

Mas o sentimento ainda não tinha ido embora.

Ela odiou perceber isso.

Odiou porque estava cansada de amar alguém que nunca soube ficar por inteiro.

Cansada de carregar uma história que parecia sempre presa no meio.

E mesmo assim…

quando outro homem tocou ela pela primeira vez em um ano… foi Bang Chan quem apareceu na mente dela.

Não como lembrança distante.

Mas vivo.

Preso fundo demais.

E foi aí que Hanna entendeu a pior parte:

seguir em frente era muito mais difícil quando uma parte do coração ainda continuava esperando alguém voltar.


O avião tinha pousado em Seoul fazia pouco mais de duas horas quando Bang Chan finalmente abriu o celular de verdade.

A viagem pra China tinha sido longa.

Entrevistas.

Evento.

Hotel.

Agenda apertada demais pra pensar.

Ou pelo menos era isso que ele tentou fazer.

Mas não adiantou.

Porque mesmo longe … Hanna continuava ali.

Na cabeça dele.

Nas pausas silenciosas.

Nas músicas que não terminavam.

E principalmente naquela lembrança irritante dela olhando pra outro homem daquele jeito leve que nunca conseguiu ter com ele.

Chan entrou no dormitório quase de madrugada.

Boné baixo.

Moletom largo.

Cansaço estampado no rosto.

Os outros já dormiam.

Silêncio.

Ele jogou a bolsa no chão do quarto e ficou sentado na beirada da cama por alguns segundos olhando pro celular aceso na mão.

A conversa com Hanna ainda estava lá.

Parada.

Fria.

Tempo demais sem nada.

O dedo dele passou pela tela devagar.

Hesitando.

Como sempre.

Mas dessa vez alguma coisa estava diferente.

Talvez porque, pela primeira vez, ele sentisse que realmente podia perder ela.

Não em teoria.

Não emocionalmente.

De verdade.

Pra outra pessoa.

Pra outra história.

Chan respirou fundo antes de finalmente digitar.

“Precisamos conversar.”

Ele apagou.

Muito seco.

Tentou de novo.

“Você tá acordada?”

Apagou também.

Droga.

Parecia ridículo que alguém capaz de subir num palco diante de milhares de pessoas travasse na hora de mandar uma mensagem pra uma garota.

Mas era Hanna.

Sempre foi diferente com ela.

Depois de alguns segundos, ele digitou outra vez:

“Cheguei da China hoje.”

Pausa.

“Posso falar com você pessoalmente?”

Simples.

Honesto.

Sem esconder que estava nervoso.

Ele ficou olhando a tela depois de enviar.

Como se pudesse voltar atrás.

Mas não voltou.

No prédio a frente, Hanna estava sentada no sofá do apartamento ainda acordada quando o celular vibrou na mesa.

Ela pegou distraída.

Até ver o nome.

Chris.

O coração bateu errado imediatamente.

Ainda acontecia.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo depois de tentar seguir.

Ela abriu a mensagem devagar.

Leu uma vez.

Depois outra.

“Posso falar com você pessoalmente?”

Hanna encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos por um instante.

Porque sabia.

Sabia exatamente o peso daquela mensagem.

Agora não, Chan…

foi o primeiro pensamento.

Cansado.

Quase defensivo.

Porque toda vez que ele aparecia, levava embora a calma que ela tinha passado semanas tentando construir.

Mas então veio outro pensamento.

Mais silencioso.

Talvez agora seja a hora.

Talvez finalmente tivesse chegado o momento de parar de empurrar aquilo pros cantos.

Sem fuga.

Sem pausa.

Sem deixar sentimentos apodrecerem no meio do caminho.

A decisão que os dois vinham adiando fazia tempo demais.

E Hanna sabia.

Se encontrasse ele agora…

alguma coisa finalmente ia mudar.


A porta abriu devagar.

Hanna ainda segurava a maçaneta quando Bang Chan entrou no apartamento.

O silêncio veio primeiro.

Pesado.

Ele parecia exausto.

Cabelo bagunçado, moletom escuro, olhos fundos de quem não dormia direito fazia tempo. A viagem pra China claramente tinha acabado, mas o cansaço tinha vindo junto.

Hanna fechou a porta atrás dele sem dizer nada.

Os cabelos estavam presos de qualquer jeito. O rosto sério demais. Tenso demais.

Ela percebeu imediatamente que ele estava nervoso.

E Chan percebeu que ela também.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Só ficaram ali.

Se encarando.

Como duas pessoas cansadas de fugir da mesma conversa.

— Você demorou pra responder — Chan disse por fim.

A voz saiu rouca.

Hanna cruzou os braços devagar.

— Porque eu pensei muito antes de deixar você entrar.

Aquilo atingiu.

Dava pra ver.

Chan passou a mão no rosto rapidamente, inquieto, andando alguns passos pela sala sem conseguir ficar parado.

— Hanna, eu—

Parou.

Respirou fundo.

Tentou de novo.

— Você acha que isso é fácil pra mim?

Ele abriu os braços num gesto frustrado.

Descontrolado.

Típico dele quando finalmente perdia a calma.

— Você some, depois aparece com outro cara, todo mundo comentando, todo mundo olhando… e eu tenho que agir como se estivesse tudo bem?

Hanna soltou uma risada seca, incrédula.

— Ah, então agora você resolveu sentir?

Chan travou o maxilar.

— Não faz isso.

— Não, Chan. Você não pode entrar aqui depois de meses e agir como se só você estivesse sofrendo.

Ela deu um passo à frente.

O nervosismo agora virando raiva.

— Você sempre fala como se tudo fosse impossível pra você. Como se fosse o único com medo. Como se fosse o único confuso.

A voz dela começou a falhar levemente.

Mas ela continuou.

— Nada disso foi fácil pra mim também.

Chan desviou o olhar por um segundo.

E ela percebeu.

Percebeu porque conhecia ele bem demais.

— Eu errei — Hanna continuou, mais baixa agora. — Eu voltei. Eu me arrependi. Eu me entreguei pra você de novo mesmo sabendo que podia acabar exatamente assim.

O apartamento ficou em silêncio.

Só a respiração dos dois preenchendo o espaço.

Então ela respirou fundo.

Como quem finalmente chegava no limite.

— Mas agora chega.

Chan levantou os olhos imediatamente.

— Ou você decide hoje o que você quer…

A voz dela saiu firme.

Sem tremor dessa vez.

— Ou vai embora e não me procura mais.

Aquilo bateu nele de verdade.

Sem defesa.

Sem fuga.

Chan ficou parado por alguns segundos.

Depois simplesmente sentou no sofá.

Os cotovelos apoiados nos joelhos.

A cabeça baixa.

Como alguém finalmente esmagado pelo próprio peso.

Hanna observou em silêncio, o peito apertando cada vez mais.

Porque ela achou que conhecia aquela cena.

Achou que sabia o final.

Ele ia respirar fundo.

Pedir desculpas.

Dizer que precisava de tempo.

E ir embora outra vez.

E honestamente?

Ela não sabia mais se aquilo destruiria ela… ou aliviaria.

Chan passou a mão na nuca devagar.

Respirou fundo uma vez.

Duas.

Então levantou a cabeça.

E olhou pra ela de verdade.

Sem máscara.

Sem orgulho.

— Eu não consigo.

Hanna franziu levemente a testa.

— O quê?

A voz dele falhou antes de continuar.

— Ficar sem você.

Silêncio.

Pesado.

Real.

Chan sustentou o olhar dela dessa vez.

Sem fugir.

— Não mais.

Hanna ficou imóvel.

Como se não tivesse entendido direito.

Ele levantou devagar do sofá.

Os olhos vermelhos de cansaço.

Ou emoção.

Talvez os dois.

— Não dá.

A voz saiu mais baixa agora.

Mais sincera do que ela já tinha ouvido dele em muito tempo.

— Eu não consigo ver você com outro.

Respirou fundo.

A mandíbula travando.

— Não consigo ouvir as pessoas falando de vocês.

Outro passo na direção dela.

— Não consigo fingir que isso não tá acabando comigo.

Hanna sentiu o coração acelerar imediatamente.

Porque Bang Chan nunca fazia aquilo.

Nunca colocava tudo pra fora daquele jeito.

Nunca sem fugir no meio.

Ele parou na frente dela.

Perto o suficiente pra ela sentir a respiração dele.

— Eu quero você.

Simples.

Direto.

Sem metáfora.

Sem desculpa.

E pela primeira vez…

Hanna ficou sem resposta.

Chan ficou parado diante dela por alguns segundos.

Como se ainda estivesse esperando Hanna mandar ele embora.

Mas ela não mandou.

O silêncio entre os dois já não parecia guerra.

Só cansaço.

Muito cansaço.

Então ele se aproximou de vez.

Devagar dessa vez.

Sem impulso.

Sem desespero.

Os braços envolveram Hanna com cuidado, puxando ela contra o peito dele.

Ela ficou rígida no primeiro instante.

Sem corresponder.

Os olhos fechando devagar enquanto sentia o calor dele outra vez.

Familiar.

Perigoso.

Confortável demais.

A voz dela saiu baixa contra o peito dele:

— Eu não quero mais nada escondido.

Chan apertou os braços ao redor dela sem dizer nada.

Então Hanna continuou:

— Eu não quero ser uma sombra na sua vida.

Aquilo atingiu direto.

Ela respirou fundo antes de completar:

— Eu tô cansada de esconder o que eu sinto.

Chan fechou os olhos por um instante.

Como se aquelas palavras finalmente colocassem nome em tudo que vinha destruindo os dois.

— Tudo bem — ele respondeu baixo. — Tudo bem…

A mão dele subiu devagar pelas costas dela.

Calma.

Quente.

Segura.

— Eu também tô cansado disso.

E foi ali que Hanna cedeu.

Os braços envolveram a cintura dele lentamente, e Chan soltou o ar preso como se estivesse segurando aquilo fazia meses.

Naquela noite, não teve pressa.

Não teve discussão.

Não teve impulso desesperado.

Só os dois.

Sentados no sofá depois de tanto tempo lutando um contra o outro… e contra si mesmos.

Hanna ficou abraçada nele, a cabeça apoiada no ombro de Chan enquanto o apartamento permanecia silencioso.

E honestamente?

Fazia muito tempo que nenhum dos dois sentia aquele tipo de paz.

Aconchego.

Conforto.

Como voltar pra casa depois de uma viagem longa demais.

Os dedos de Chan acariciavam distraidamente o braço dela enquanto o pensamento inevitável apareceu.

— E o Cha Eun-woo?

A pergunta saiu mais baixa do que ele pretendia.

Quase cuidadosa.

Hanna suspirou devagar antes de levantar um pouco a cabeça pra olhar pra ele.

— Eu vou conversar com ele. Explicar tudo.

Chan observou ela em silêncio por um instante.

— Por quê?

Ela franziu levemente a testa.

— Como assim?

— Vocês estavam sérios?

Hanna abaixou os olhos por um segundo antes de responder:

— Não.

Pausa.

— A gente tava se conhecendo.

Chan ficou quieto.

E ela percebeu imediatamente a culpa começando a aparecer no olhar dele.

Então continuou antes que ele falasse qualquer coisa:

— Mas ele é uma pessoa boa, Chan.

A voz saiu sincera.

Sem hesitação.

— Gentil. Interessante. E… nós ficamos próximos.

Ela brincava distraidamente com a manga do moletom dele enquanto falava.

— Eu não quero que fiquem rusgas entre nós.

Chan assentiu devagar.

Sem ciúme dessa vez.

Sem ironia.

Só entendendo.

Porque no fundo… ele sabia.

Cha Eun-woo apareceu quando ele não apareceu.

Esteve presente quando ele escolheu distância.

E talvez por isso aquela vitória agora viesse misturada com culpa.

Hanna percebeu o silêncio dele e ergueu o rosto devagar.

— Ei.

Chan olhou pra ela.

— Eu escolhi você.

Simples.

Mas aquilo desmontou ele de novo.

Porque depois de tudo… ela ainda escolheu ficar.