Tudo o que não superamos

10 Em Busan ... a primeira vez.


Depois de alguns minutos em silêncio, Hanna respirou fundo e finalmente falou:

— Meus pais estão vindo na próxima semana.

Chan abaixou o olhar pra ela imediatamente.

— Sério?

Ela assentiu devagar.

— Faz tempo que não vejo eles.

Só aquela frase já carregava tanta saudade que Chan apertou a mão dela automaticamente.

Hanna tentou sorrir pequeno.

— E eu tava pensando em ir visitar meus avós em Busan antes.

Os olhos dele suavizaram na hora.

Ele sabia o quanto os avós eram importantes pra ela.

O único lugar na Coreia onde Hanna realmente conseguia respirar sem sentir que precisava competir o tempo inteiro.

Então ela criou coragem e perguntou:

— Você quer ir comigo?

Chan piscou surpreso.

— Eu?

— É.

Ela deu de ombros tentando parecer casual demais.

Falhando miseravelmente.

— Minha avó gosta de cozinhar pra um exército inteiro mesmo quando só tem duas pessoas em casa.

Ele soltou uma risada baixa.

— Isso foi um convite ou ameaça?

— Os dois.

Chan observou ela por alguns segundos.

E Hanna percebeu o exato momento em que ele entendeu o que aquilo significava.

Aquilo não era só um passeio.

Era pessoal.

Família.

Casa.

Memórias.

Ela estava abrindo uma parte importante da vida dela pra ele.

O sorriso dele mudou.

Ficou menor.

Mais cuidadoso.

— Você tem certeza?

Hanna assentiu quase imediatamente.

— Tenho.

Na verdade…

ela precisava daquilo.

Precisava guardar uma lembrança boa antes da despedida destruir tudo.

Chan desviou os olhos por um instante claramente tentando esconder o quanto aquilo mexeu com ele.

Depois respondeu baixo:

— Então eu vou.

O coração dela apertou imediatamente.

Porque ele parecia genuinamente feliz.

E aquilo fazia a culpa crescer cada vez mais.

Mesmo assim Hanna sorriu.

Um sorriso pequeno mas sincero.

— Minha avó provavelmente vai te adotar em menos de uma hora.

— Ótimo. Sempre quis outra avó.

Ela riu abafado enquanto Chan puxava ela mais pra perto outra vez.

E naquele momento simples, no silêncio confortável daquela sala vazia em Seoul…

Hanna quase contou tudo.

Quase.

Mas o medo venceu outra vez.

O fim de semana chegou rápido demais.

Antes que Hanna pudesse pensar melhor, ela e Bang Chan já estavam sentados lado a lado no trem para Busan.

A paisagem corria pela janela em tons acinzentados enquanto o céu anunciava chuva distante.

E pela primeira vez em muito tempo…

Hanna parecia tranquila.

De verdade.

Ela estava usando roupas confortáveis, sem maquiagem pesada de treino, os cabelos claros presos num coque bagunçado. Parecia mais nova assim.

Mais leve.

Chan observava aquilo discretamente enquanto ela apontava coisas pela janela igual criança animada.

— Quando eu era pequena eu achava que todos os trens iam pra praia.

Ele sorriu de lado.

— Faz sentido.

— Não faz não.

— Faz um pouco.

Ela fez careta indignada enquanto ele ria baixo.

A viagem passou mais rápido do que os dois imaginavam.

Talvez porque, pela primeira vez em meses, nenhum deles estava pensando em avaliações ou horários.

Só existiam os dois e o barulho confortável dos trilhos.

Quando finalmente chegaram, Hanna praticamente arrastou Chan pela estação.

— Anda logo!

— Yah, calma!

Ela ria pela primeira vez daquele jeito solto em semanas.

E Chan percebeu.

Busan mudava ela.

O jeito de andar.

O jeito de respirar.

Até a voz parecia mais quente ali.

Quando chegaram na casa dos avós, a porta mal teve tempo de abrir direito antes da avó dela surgir animada.

— Hanna-ah!

A senhora abraçou a neta imediatamente, enchendo o rosto dela de carinho enquanto reclamava:

— Você está mais magra outra vez!

— Vovó…

Então os olhos da senhora pousaram em Chan parado alguns passos atrás segurando as bolsas.

E o sorriso dela aumentou na hora.

— Ahhh… então é ele.

Hanna congelou instantaneamente.

— Vovó!

Chan piscou confuso enquanto a avó ria claramente satisfeita.

O avô apareceu logo atrás mais contido, mas igualmente curioso.

Hanna tentou recuperar a dignidade rapidamente.

— Esse é o Christopher.

A avó dela repetiu imediatamente:

— O menino importante.

O rosto inteiro de Hanna ficou vermelho.

— Vovó!

Chan virou lentamente pra ela com um sorriso perigosamente divertido surgindo no rosto.

— Menino importante?

— Cala a boca.

A avó ria sem nem tentar esconder.

— Ela fala muito de você.

E pronto.

Agora até Chan parecia levemente vermelho também.

O avô pegou uma das malas com calma enquanto observava os dois.

Experiente demais pra não perceber o que existia ali.

— Entrem logo antes que esfriem na porta.

A casa tinha cheiro de comida caseira e chá quente.

Conforto puro.

Chan percebeu imediatamente como Hanna mudava ali dentro.

Ela parecia menos tensa.

Menos defensiva.

Mais filha.

Mais neta.

Menos trainee.

Enquanto a avó servia comida demais como toda avó tradicional acha necessário, Chan observava Hanna discutindo em dialeto de Busan porque claramente ela queria ajudar na cozinha e a avó não deixava.

Aquilo arrancou uma risada baixa dele.

Porque era bonito ver Hanna daquele jeito.

Tão viva.

Tão em casa.

E pela primeira vez em muito tempo…

ele se permitiu pensar que talvez realmente existisse um futuro pros dois além daqueles corredores sufocantes da agência.

O fim de semana passou com uma leveza quase esquecida.

Como se o tempo tivesse desacelerado só um pouco dentro daquela casa em Busan.

Sem managers gritando.

Sem espelhos gigantes.

Sem avaliação mensal.

Só comida quente,

voz de avó,

e o som distante do mar entrando pelas janelas abertas.

Bang Chan acabou se encaixando ali mais rápido do que Hanna imaginava.

O avô dela gostou dele imediatamente.

Talvez porque Chan escutava de verdade.

Sentava quieto prestando atenção nas histórias antigas como se cada detalhe importasse:

os anos difíceis depois da guerra,

os trabalhos no porto,

as mudanças da cidade,

as histórias da infância do pai de Hanna.

E o avô claramente adorava ter plateia.

— Naquela época homem trabalhava de verdade!

— Harabeoji… — Hanna reclamava da cozinha. — O senhor fala isso toda semana.

— Porque é verdade.

Chan segurava a risada tentando parecer respeitoso enquanto o senhor continuava falando orgulhoso.

E Hanna percebia aquilo.

O jeito gentil dele com os avós.

Educado sem parecer forçado.

Atencioso nas pequenas coisas.

A avó dela também se derreteu rápido.

Principalmente quando finalmente deixou Hanna ajudar na cozinha e Chan apareceu junto querendo ajudar também.

— Não precisa, eu faço.

— Posso cortar os legumes.

— Você sabe cozinhar?

— Sobrevivência de trainee.

A senhora soltou uma risada alta imediatamente.

— Coitado.

Hanna ria vendo Chan ser arrastado pra cozinha oficialmente adotado pela família.

E talvez aquilo tenha sido o pior.

Porque parecia certo demais.

Natural demais.

Naquela noite, depois do jantar, os quatro ficaram sentados no chão da sala tomando chá enquanto o avô contava histórias antigas e a avó tricotava reclamando de tudo no melhor estilo tradicional possível.

Hanna observava Chan sorrindo relaxado daquele jeito raro e sentiu o coração apertar silenciosamente outra vez.

Porque ele parecia feliz ali.

Feliz de um jeito simples.

Como alguém cansado que finalmente encontrou um lugar seguro por algumas horas.

Quando chegou a hora de dormir, a avó insistiu imediatamente:

— O menino fica aqui na sala.

— Vovó, ele pode pegar meu quarto e eu—

— Nem pensar.

A senhora apontou pra Hanna dramaticamente.

— Mocinha fica no próprio quarto.

Chan quase engasgou segurando a risada enquanto Hanna morria de vergonha.

No fim um colchão improvisado foi colocado na sala.

E honestamente?

Chan não parecia se importar nem um pouco.

Pelo contrário.

Enquanto Hanna trazia cobertores extras, encontrou ele olhando a casa silenciosa no escuro leve da madrugada.

— Desculpa pelo colchão improvisado.

Ele levantou os olhos pra ela e sorriu pequeno.

Cansado.

Mas genuinamente feliz.

— Hanna…

A voz dele saiu baixa.

— Acho que eu não me sentia assim faz anos.

Aquilo atingiu ela direto no peito.

Porque ela entendia perfeitamente.

Aquela casa tinha calor humano.

Tinha pausa.

Tinha afeto sem cobrança.

Coisas raras demais na vida dos dois.

Hanna se sentou no chão ao lado do colchão dele por alguns segundos.

Os dois falando baixo pra não acordar os avós.

— Minha avó gostou de você.

Chan soltou uma risadinha.

— Acho que fui oficialmente adotado.

— Ela faz isso.

Silêncio confortável.

Então ele olhou pra ela de um jeito mais suave.

Mais íntimo.

— Obrigado por me trazer aqui.

E pronto.

O coração dela apertou forte outra vez.

Porque ele não fazia ideia…

de que talvez aquela fosse a primeira e última vez vivendo algo assim juntos.

A casa já estava silenciosa.

Só o relógio antigo da parede marcando o tempo devagar e o som distante do mar entrando pela janela entreaberta.

Busan sempre tinha aquele cheiro de noite úmida e brisa salgada.

Hanna ainda estava sentada no chão ao lado do colchão improvisado enquanto Bang Chan observava ela em silêncio.

A luz fraca da rua atravessava a cortina iluminando parcialmente o rosto dela:

as sardas suaves,

os cabelos bagunçados,

os olhos cansados mas tranquilos.

E Chan sentiu aquela dor boa no peito outra vez.

Carinho crescendo quieto até ficar grande demais pra esconder.

— O quê? — Hanna perguntou baixinho percebendo ele olhando.

Chan balançou a cabeça de leve.

— Nada.

Mentira.

Ela percebeu.

Sempre percebia.

Os dois ficaram em silêncio mais alguns segundos ouvindo o som das ondas ao longe.

Então Hanna falou quase num sussurro:

— Eu não queria que esse fim de semana acabasse.

Chan sentiu o peito apertar sem entender completamente por quê.

Talvez porque ele também não quisesse.

Ali parecia simples imaginar um futuro.

Os dois longe da pressão.

Longe da competição.

Só… juntos.

Antes que pensasse demais, ele segurou delicadamente a mão dela.

E puxou ela devagar pra mais perto.

Hanna prendeu a respiração levemente surpresa.

Porque dessa vez foi ele.

Chan passou os dedos pelo rosto dela com cuidado quase absurdo antes de beijá-la.

Lento.

Como alguém que queria memorizar o momento inteiro.

Hanna correspondeu imediatamente, aproximando-se mais dele no colchão enquanto o mundo parecia diminuir até caber apenas naquele espaço pequeno da sala escura.

O beijo já não era tão tímido quanto os primeiros.

Ainda doce.

Ainda cuidadoso.

Mas agora carregava saudade antes mesmo da separação acontecer.

Os dedos dela se prenderam no moletom dele enquanto Chan segurava o rosto dela devagar, como se ela fosse algo precioso demais pra tocar de qualquer jeito.

O som do mar preenchia os silêncios entre um beijo e outro.

Calmo.

Constante.

E aquilo fazia tudo parecer ainda mais íntimo.

Hanna fechou os olhos sentindo o coração bater tão forte que chegava a doer.

Porque ela queria congelar aquele instante.

Queria que o mundo inteiro parasse ali:

na casa dos avós,

na sala escura,

no calor dele tão perto.

Chan encostou a testa na dela quando o beijo terminou, respirando baixo.

Os olhos ainda fechados por alguns segundos.

— Você me deixa completamente sem defesa.

A voz saiu rouca.

Honesta.

Hanna sentiu o peito apertar imediatamente.

Porque ele falava aquilo sem saber o tamanho da verdade escondida dela.

Ela acariciou o rosto dele devagar tentando guardar cada detalhe na memória.

E naquele instante desejou, talvez pela milésima vez naquela semana…

que amor sozinho fosse suficiente pra impedir despedidas.

O coração de Hanna batia tão forte que parecia impossível esconder qualquer coisa naquele momento.

O som do mar ao fundo.

A sala escura.

O calor de Bang Chan tão perto dela.

Tudo parecia perigoso demais.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos como se tentasse impedir o tempo de correr.

— Eu queria… eu…

A voz falhou.

Porque junto daquela vontade existia dor.

Despedida.

Medo.

Chan percebeu imediatamente que havia algo mais por trás daqueles olhos marejados.

Ele afastou só o suficiente pra olhar ela melhor.

— Hanna?

Ela respirou fundo.

E então falou quase num sussurro:

— Eu quero você por completo hoje.

O olhar dele mudou imediatamente.

Surpresa.

Desejo.

Confusão.

Hanna continuou antes de perder a coragem:

— Eu quero ser sua.

Chan arregalou os olhos levemente.

Porque claro…

ele também queria.

Eram dois jovens apaixonados, emocionalmente exaustos, agarrados um ao outro como se o resto do mundo estivesse desmoronando lá fora.

O momento parecia perfeito demais.

Mas ainda assim ele segurou delicadamente o rosto dela e perguntou baixo:

— Hanna… você tem certeza?

Ela assentiu sem hesitar dessa vez.

— Tenho.

Então os olhos dela vacilaram um pouco.

— Você não quer?

Aquilo quase fez Chan rir de nervoso.

Ele encostou a testa na dela respirando fundo antes de responder:

— Não é isso.

A voz dele saiu rouca.

Honesta.

— É óbvio que eu quero você.

O peito dela apertou imediatamente.

Mas Chan continuou acariciando o rosto dela devagar.

Com cuidado.

— Eu só… não quero que você faça isso porque tá triste ou assustada.

E pronto.

Ele tinha percebido.

Talvez não a verdade inteira…

mas alguma coisa.

Hanna desviou os olhos pela primeira vez.

Porque ela não tinha tempo.

Porque estava indo embora.

Porque queria guardar ele consigo de alguma forma antes do mundo separar os dois.

Mas não conseguia dizer isso.

Chan segurou a mão dela entre as dele.

Quente.

Firme.

— A gente pode ir com calma.

Ele deu um sorriso pequeno tentando aliviar o peso do momento.

— Não precisa ser tudo tão rápido.

Mas Hanna sentiu os olhos queimarem imediatamente.

Porque pra ela…

o tempo já estava acabando.

Hanna não deixou ele pensar demais.

Talvez porque se desse espaço pro medo…

ela perderia a coragem.

Os dedos dela seguraram o moletom de Bang Chan enquanto o empurrava devagar até ele deitar no colchão improvisado.

Chan soltou uma risada baixa de surpresa.

— Hanna…

Mas ela beijou ele outra vez antes que terminasse a frase.

Um beijo carregado de saudade antes mesmo da despedida existir.

De amor jovem.

De urgência.

Como se tentasse gravar aquele momento dentro da própria alma.

Chan ainda tentou ir devagar no começo.

As mãos segurando o rosto dela com cuidado, como alguém preocupado em não quebrar algo precioso.

Mas Hanna não queria distância naquela noite.

Queria sentir ele ali.

Inteiro.

Real.

Então foi ela quem aprofundou o beijo primeiro, os dedos se prendendo nos cabelos dele enquanto o coração batia descompassado dentro do peito.

E Chan cedeu.

Porque também estava apaixonado.

Também estava cansado de lutar contra tudo.

Também queria esquecer o mundo por algumas horas.

O som do mar preenchia os silêncios entre os beijos.

A madrugada abraçava os dois naquela sala pequena da casa dos avós em Busan.

E a primeira vez deles aconteceu assim:

sem perfeição,

sem pressa cruel,

sem promessas exageradas.

Só dois jovens apaixonados tentando se agarrar ao pouco de felicidade que tinham encontrado.

Depois, ficaram abraçados em silêncio no colchão estreito.

Hanna desenhava distraidamente linhas invisíveis no braço dele enquanto Chan acariciava os cabelos dela devagar.

Nenhum dos dois queria dormir.

Porque dormir significava amanhecer.

E amanhecer significava voltar pra realidade.

Em algum momento Hanna acabou pegando no sono encostada no peito dele ouvindo as batidas calmas do coração dele.

E Chan ficou observando ela por muito tempo.

O rosto tranquilo.

As sardas suaves.

A respiração finalmente leve depois de tantas semanas difíceis.

Naquele instante ele pensou, talvez pela primeira vez de verdade:

“Eu amo ela.”

O amanhecer chegou rápido demais.

Assim que os primeiros raios de sol atravessaram a cortina, Hanna despertou assustada.

Levou alguns segundos pra lembrar onde estava.

Então arregalou os olhos imediatamente.

— Meu Deus.

Chan ainda sonolento piscou confuso.

— Hm…?

— Meus avós!

Ela praticamente levantou em pânico tentando arrumar o cabelo bagunçado enquanto Chan segurava a risada deitado no colchão.

— Você tá rindo?!

— Um pouco.

— Christopher!

Ela jogou uma almofada nele indignada enquanto tentava ajeitar as roupas correndo.

Chan finalmente sentou rindo baixo vendo o caos dela.

E honestamente…

achava ela a coisa mais linda do mundo naquele momento.

Antes de sair correndo pro quarto, Hanna voltou rápido só pra beijá-lo mais uma vez.

Curto.

Carinhoso.

Então sussurrou contra os lábios dele:

— Finge que dormiu a noite inteira comportado.

Chan sorriu daquele jeito cansado e apaixonado que desmontava ela inteira.

— Vou tentar mentir bem.

Ela riu abafado antes de fugir pelo corredor igual adolescente fazendo coisa escondida.

E Chan ficou sozinho na sala olhando a luz da manhã entrar pela janela.

Feliz.

Sem imaginar que aquele talvez fosse o último momento de paz antes de tudo mudar.

O resto do dia seguiu surpreendentemente tranquilo.

Leve até.

Como se o universo tivesse decidido dar uma pequena trégua aos dois.

Depois do café da manhã — onde Hanna evitou olhar diretamente pros avós por pura paranoia enquanto Bang Chan parecia calmo demais — eles saíram para caminhar pela orla de Busan.

O céu estava claro.

O vento carregava cheiro de sal.

E o mar brilhava bonito sob o sol da tarde.

Hanna caminhava alguns passos à frente às vezes, animada mostrando lugares da infância.

— Ali tinha uma lojinha de doces que eu amava quando vinha passar férias.

Chan observava ela falando e sorria sozinho.

Porque gostava daquela versão dela.

Mais espontânea.

Mais livre.

Ela apontava tudo:

o mercadinho,

as ruas estreitas,

os restaurantes antigos,

os pescadores perto do porto.

Como se estivesse entregando pequenos pedaços da própria história nas mãos dele.

Em determinado momento Hanna simplesmente entrelaçou os dedos nos dele enquanto caminhavam pelo calçadão.

Natural.

Simples.

E Chan olhou pras mãos unidas por um instante antes de sorrir pequeno.

Porque aquilo parecia absurdamente normal.

Não trainees escondidos.

Não futuros idols cheios de regras.

Só um casal jovem andando pela praia num domingo qualquer.

O vento bagunçava os cabelos dela enquanto Chan segurava a mão dela dentro do bolso do casaco às vezes pra aquecer os dedos frios.

Pequenos gestos.

Pequenas intimidades.

Eram essas coisas que mais pegavam Hanna desprevenida.

Porque ela nunca tinha imaginado que amar alguém pudesse ser tão silencioso assim.

Não grandioso.

Não dramático.

Só confortável.

Eles pararam perto da areia observando as ondas quebrando.

Algumas crianças corriam pela praia enquanto casais tiravam fotos perto da água.

Hanna ficou olhando o horizonte quieta por alguns segundos.

Então falou baixinho:

— Eu sentia muita falta daqui.

Chan virou o rosto pra ela.

E percebeu a saudade escondida naquela frase.

Saudade da família.

Da sensação de pertencimento.

De não precisar lutar o tempo inteiro.

Ele apertou de leve a mão dela.

— Dá pra entender.

Ela sorriu pequeno.

Depois virou pra ele divertida:

— Você combina com Busan.

Chan arqueou a sobrancelha.

— Isso foi um elogio?

— Talvez.

— Explica.

— Você parece menos tenso aqui.

Aquilo fez ele ficar em silêncio alguns segundos.

Porque era verdade.

Ali ele não era apenas um trainee tentando desesperadamente debutar.

Era só Christopher.

Um garoto de dezoito anos apaixonado andando de mãos dadas com a garota que gostava.

E talvez justamente por isso aquilo doesse tanto sem eles perceberem ainda.

Porque os momentos mais felizes quase sempre são os mais frágeis.

O fim de semana acabou rápido demais.

Como coisas boas sempre acabam.

Quando o trem partiu de Busan de volta para Seoul, Hanna ficou observando o mar desaparecer lentamente pela janela.

Silenciosa.

Bang Chan percebeu, claro.

Ele sempre percebia.

Então apenas segurou a mão dela entre as dele durante boa parte da viagem.

Sem precisar falar muito.

Os dois já entendiam o silêncio um do outro agora.

O retorno pra realidade veio rápido assim que os prédios altos de Seoul apareceram novamente.

No dia seguinte:

escola,

treino,

vocal,

dança,

avaliação.

A máquina continuava funcionando sem se importar com sentimentos.

Mas alguma coisa entre eles tinha mudado definitivamente naquele fim de semana.

O vínculo ficou mais profundo.

Mais íntimo.

Mais perigoso também.

Agora não era só paixão adolescente escondida nos corredores da empresa.

Agora existia apego de verdade.

Chan sentia isso claramente.

Durante os ensaios ele observava Hanna mais do que antes:

se ela tinha comido,

se estava cansada demais,

se parecia ansiosa.

Uma responsabilidade silenciosa começou a crescer dentro dele.

Porque agora ela parecia ainda mais “dele”.

Não num sentido possessivo.

Mas próximo.

Precioso.

Alguém que ele queria proteger daquele lugar cruel.

Numa madrugada depois do treino, os dois estavam sentados no chão da sala de prática dividindo um isotônico enquanto Hanna reclamava da aula de canto.

— Eu vou perder a voz antes dos vinte anos.

Chan ria ouvindo ela dramatizar quando comentou casualmente:

— Falei de você pros meus pais.

Hanna parou imediatamente.

— O quê?

Ele deu de ombros tentando parecer tranquilo.

Falhando completamente.

— Minha mãe perguntou por que eu tava sorrindo tanto nas chamadas de vídeo ultimamente.

Hanna sentiu as bochechas esquentarem.

— E o que você falou?

Chan sorriu pequeno olhando pra garrafa nas mãos.

— Que tinha uma garota.

O coração dela tropeçou forte dentro do peito.

Porque aquilo parecia sério demais.

Real demais.

Ele levantou os olhos pra ela então.

Calmos.

Sinceros.

— Eu quero apresentar você pra eles um dia.

E pronto.

Aquilo quase destruiu Hanna ali mesmo.

Porque Chan falava como alguém construindo futuro.

Enquanto ela escondia uma despedida inteira dentro do peito.

Ela tentou sorrir.

Tentou mesmo.

Mas sentiu os olhos queimarem imediatamente.

Chan franziu levemente a testa.

— Hanna?

Ela desviou o rosto rápido fingindo abrir a bebida.

— Nada.

Mas ele percebeu a voz falhando.

Claro que percebeu.

Chan se aproximou devagar.

— Ei…

Hanna fechou os olhos por um segundo.

A culpa estava começando a esmagar ela inteira agora.

Porque quanto mais ele amava ela…

mais cruel parecia continuar escondendo a verdade.