Tudo o Que Se Sente
6 Capítulo 6 - Confraternizando
Notas iniciais
Tem certas coisas que nos pegam de surpresa. Outras quase nos fazem ter um ataque cardíaco. Christopher parado em minha porta quase me fez ter um desses ataques.
Ele está com a mesma roupa do trabalho, porém toda bagunçada. Sinto-o me analisar também e me encolho. Vejo seus olhos pararem sobre as tatuagens em minha barriga e costela e pigarreio chamando sua atenção.
— Oi – fala nervoso. Arqueio uma sobrancelha em sua direção.
— Oi – respondo fria sem saber o que ele quer. Já tinha que lidar com ele no trabalho, o que ele queria batendo na minha porta as 20:30 da noite?
— Hm, será que eu poderia... – disse apontando para dentro. Abri a porta surpresa, dando passagem para ele entrar.
Meu chefe entra e fica analisando minha casa durante uns segundos. Será que esqueci de entregar alguma coisa para ele? Puxo na mente tentando me lembrar de algo mas nada vem. Por que ele está aqui agora? Limpo a garganta tentando chamar sua atenção e ele se vira para mim.
— Algum problema Sr. Edwards? – arqueio minha sobrancelha. Me sinto estranha ao tê-lo em minha casa e quero que ele saia. Tenho o sentimento dele estar invadindo minha vida ao estar dentro do meu esconderijo. Ele não responde durante uns segundos enquanto me encara.
— Gosto dos seus olhos – revela sorrindo me pegando de surpresa. Fecho mais a cara. Ele veio me incomodar na minha casa para falar que gosta dos meus olhos?
— Se o senhor não tem nada útil para dizer, não consigo imaginar por que está aqui – sou fria e isso me deixa mal. Não é da minha natureza tratar ninguém de forma ruim, independente da situação. Mas tem algo nele que me alerta para afasta-lo, e obedeço. Vejo seu sorriso morrer e ele ficar sério.
— Eu mereço não é? – sinto certa tristeza em sua voz, mas não sei do que ele está falando. Ele parece perceber isso e me explica. – ter você me tratando dessa forma – da um sorriso falso. Sinto meu coração perder um batida e ficar descompassado.
— É como tem que ser Senhor – tento explicar. Por que ele está tão chateado? Foi ele mesmo que disse varias vezes que não somos amigos. Eu que tentei forçar a barra, e percebi hoje mais cedo como pessoas como ele não querem conversa com pessoas como eu.
Sinto meu peito se apertar. Não importa o que eu falo para mim mesma, eu tenho a mania de querer ele por perto. Suspiro me afastando dele e vejo ele negando com a cabeça.
— Eu sei que você está assim por causa do meu jeito hoje – disse aflito se referindo a bandeja de comida. Nego com a cabeça. Não é só isso. A bandeja foi só o ponto final para eu me colocar em meu lugar, mas ele me tratava constantemente mal. – então o que é? – pergunta passando as mãos pelos cabelos.
— Olha, isso não importa ok? As coisas vão ser como o Senhor queria desde o começo. Não vou tentar ser sua amiga, não vou mais forçar a barra e não vou tentar mais cuidar de você. – odeio meu lado protetor. Eu deveria deixar de me importar com os outros.
— Mas eu gosto – sussurrou se afastando. Será que ele está drogado? Ele não falava nada com nada e me preocupo novamente. Não aprendo a lição mesmo.
— Do que Christopher – eu estava cansada. Ele conseguia fazer isso comigo. É desgastante.
— De ter alguém fora da minha família se importando comigo – disse se virando e olhando em meus olhos. Consegui ver a verdade ali e me senti emocionada. Seu olhar era dolorido. Ele se importava afinal. – então não pare de se importar comigo por eu ter sido um idiota. – pediu. – Por favor. – como eu poderia? Assinto com a cabeça e ele suspira aliviado.
Ficamos os dois em silêncio se encarando. Era estranho ter um homem tão bonito dentro do meu apartamento. Ainda mais quando esse homem é o seu chefe e quem eu pensava que me odiava. Pela forma que agiu, sabia ser novo pra ele também, estar se importando com alguém além dele e sua família. Hoje foi um dia de surpresas com certeza.
Sinto meu estomago roncando baixinho e descido que já passou da hora de comer.
— Tá com fome? – pergunto pra ele que assente com a cabeça. Sorrio. – Vou fazer uma comidinha caseira pra você então Chefe. – brinquei tentando aliviar o clima.
— Eu ajudo, tenho ótimos dotes culinários – fala se gabando e me pegando de surpresa.
Olho para o homem grande ao meu lado e não consigo imaginar ele botando a mão na massa. Literalmente. Andamos até a cozinha pequena e discutimos um pouco tentando decidir o que vamos fazer. Os escolhidos são macarrão ao molho branco, arroz de forno e filé.
Ele tira a parte de cima do terno e arregaça as mangas até o cotovelo se preparando. Começamos a fazer as coisas e não deixo ele comandar muito em minha cozinha pelo simples fato dela ser minha né. Ele não pode invadir tanto assim. Deixamos o macarrão e o filé pronto e coloco o arroz montado no forno para aquecer.
— Eu preciso tomar um banho, por que quando você chegou e tinha chegado a poucos minutos de uma corrida. – falo explicando. – estou com suor seco e isso tá me agoniando. – completo envergonhada. Ele ri assentindo com a cabeça. – tira esse arroz de dentro do forno daqui 10 minutos. Não esquece – mando virando as costas e indo em direção ao meu quarto.
— Sim chefe. – escuto ele responder e rio entrando no meu quarto e fechando a porta.
Tomo um banho rápido sem deixar de pensar que ele esta na minha cozinha. É surreal demais pensar que o meu chefe arrogante e frio está na minha casa totalmente a vontade. Parecia outra pessoa sem toda a personalidade difícil. Uma pessoa que me atraia mais.
Saio do banheiro e me seco. Coloco uma calcinha boxer preta, um shorts de malha e uma camiseta larguinha que não deixa visível a minha falta de sutiã. Coloco minhas meias que vão até metade da panturrilha e desembaraço meus cabelos úmidos, saindo do quarto logo depois.
Paro no batente da porta observando Christopher e sua desenvoltura na minha cozinha. Ele ainda não tinha me reparado na porta e vejo ele mexendo nas portas do meu armário procurando os pratos e talheres. Quando acha, organiza tudo na mesa deixando preparada para quando eu chegasse. Observo seu corpo de costas e constato que eu precisava conhecer homens novos por que meu chefe me tira do eixo.
Algum tempo depois ele se vira e me nota. Vejo as maçãs de seu rosto ficando avermelhadas e acho fofo. Ele não parece ser do tipo que cora.
— Você tá aí a muito tempo? -pergunta sem jeito coçando a parte de trás dos cabelos loiros. Vejo seu olhar descer por meu corpo e ele engole seco, fixando seus olhos nos meus. Sinto um arrepio passar através do meu corpo.
— Alguns minutos – admito me aproximando. – você estava tão concentrado que nem percebeu eu chegando – ri audivelmente. Fiquei sem graça ao ver ele me olhar tão fixamente e corei. – enfim, tudo pronto chefe??
— Tudo pronto, e está tudo cheirando muito bem devo dizer – brinca. – eu procurei mas não achei. Não tem nenhuma bebida para acompanhar? – perguntou curioso. Fiz uma careta.
— Eu acho que não – fui sincera. – faz um tempo que não faço compras, então tem umas coisas faltando. – ele compreende e concorda com a cabeça. Uma coisa passa pela minha mente e me lembro de algo. – espera um pouco – falo indo até meu quarto.
Em uma das gavetas do meu quarto encontro um vinho que ganhei da minha mãe na minha formatura do ensino médio. Eu nunca fui de beber, então deixei guardado, quase como um enfeite.
Volto pra cozinha sorrindo e levanto o vinho nas mãos. Escuto Christopher dar uma risada gostosa. Abro o frizzer da geladeira e coloco à garrafa lá dentro. Não dá para beber quente não é?
— Vamos ter que deixar ele pra depois da comida – falo dando de ombros.
— Pensei que não tivesse nada. – uma pergunta muda em sua voz. Concordo com a cabeça.
— Minha mãe me deu de presente na minha formatura do colegial. Nunca achei um motivo para beber e nem uma companhia, então deixei guardado – confidencio. Vejo seus olhos brilharem. – agora vamos comer por que estou faminta. – como para que confirmar, minha barriga ronca alto e eu rio.
Nos servimos e sentamos um de frente para o outro. Espero Christopher provar a comida e o encaro ansiosa. Ele faz um suspense até levantar os dedos em joia.
— Sua comida é tão boa quanto da minha mãe – garante. Mas não sei se isso é bom já que não sei se a mãe dele é uma boa cozinheira.
— E sua mãe cozinha bem? – não me calo, a curiosidade me vence.
— A melhor comida do mundo – diz com os olhos ainda brilhantes. Eu definitivamente gosto dessa versão de Christopher Edwards. Mas não sabia infelizmente, qual era a versão verdadeira dele.
— Obrigada então – respondo com o ego um pouco maior.
Comemos a maior parte da comida em silêncio. Vez o outra perguntamos alguma coisa banal sobre a vida um do outro. Não queríamos invadir nenhum espaço pessoal. Descobri que a cor preferida dele é o preto, que ele sabe tocar piano e guitarra. Que ele fala português e espanhol, que tem dois irmão (não se aprofundou nesse assunto e eu já imaginava por que), nasceu aqui em Nova York e sempre quis ter um cachorro mas não tinha tempo para cuidar.
Para ele eu disse sobre a minha mãe e como ela é a pessoa que eu mais amo no mundo. Sobre eu ter uma voz muito boa para música, já ter feito aulas de vários tipos de dança. Minha cor preferida ser o azul e eu ter claustrofobia. Isso ele disse que já tinha percebido.
Quando acabamos o jantar eu lavo a louça enquanto ele seca. Depois, pego o vinho na geladeira e duas taças. Sentamos na sala sobre o tapete felpudo em silêncio. Ficamos alguns minutos somente apreciando a bebida. Acho sexy ter ele sentado no meu tapete com as mangas da camiseta arregaçadas e uns botões abertos e o cabelo bagunçado.
— É estranho isso não é? – ele perguntou do nada. Franzi a testa sem compreender, até perceber que ele estava falando da gente ali, tomando vinho como se fôssemos amigos. Assinto com a cabeça – eu gosto – deu de ombros. – parece certo – completou encarando meus olhos de forma intensa.
— Prefiro você assim do que agindo feito um babaca comigo – bufo irritada e me levanto. Enrosco meu pé em alguma coisa que não faço ideia e tropeço derramando vinho na camiseta branca dele. Coloco as mãos na boca surpresa e começo a rir com a careta que ele faz. – Me desculpa – peço rindo. Droga, aquela camiseta devia custar uma fortuna.
Coloco minha taça em cima da mesinha e Christopher também. Tem um bico muito lindo em seu rosto e ele me olha bravo.
— Qual é Louise, você destruiu minha camiseta. – não aguento e volto a rir alto. Ele tenta ficar sério mas começa a rir também. – que droga, como vou embora com essa mancha enorme?
— Vem aqui. – falo chamando ele até meu quarto. Ele me segue e quando entramos ele olha pra todos os cantos do meu quarto. – eu devo ter uma camiseta que dá certinho em você por aqui – falo procurando uma camiseta masculina das que eu uso pra dormir. Lembro de uma que usei no final de semana. É preta social parecida com a que ele está vestido. Pego ela e estendo em direção a Christopher. – aqui, essa deve dar.
— Não vou usar uma camiseta do seu namorado – fala bravo com uma carranca no rosto e cruzando os braços sobre o peito. Bufo para ele e reviro os olhos.
— Não é de namorado. É minha – explico tentando ser calma. Ele franze a testa. – eu tenho várias ok? São mais confortáveis que pijama e eu fico bem mais sexy com elas. – admito e vejo seus olhos se arregalarem.
Ele anda até mim e pega a camiseta da minha mão e a leva até o nariz.
— Tem seu cheiro – fala naturalmente. Arregalo os olhos surpresa e sinto minhas bochechas quentes.
Ele começa a abrir os botões da camiseta e sinto a temperatura do quarto aumentar. Vejo sua pele aparecendo pouco a pouco e fico surpresa ao ver tatuagens que pegam do seu ombro esquerdo até a lateral do abdômen definido. Sinto meus dedos coçarem com o desejo de correr minhas mãos por toda a pele que consigo ver. Quando ele está totalmente sem a camiseta me sinto excitada e isso é errado.
Sinto seus olhos em mim e sei que ele viu todas as minhas reações sobre seu peito desnudo. Sinto minha pele quente e me viro de costa tentando controlar minha mente. Tento me lembrar que ele é meu chefe e no máximo um amigo, mas meu corpo não parece concordar.
— Pronto – ouço sua voz e me viro a tempo de ver ele fechar o último botão da camiseta.
— Agora me dá essa camiseta – tento agir naturalmente e pego a camiseta manchada da sua mão. – vou lavar ela e amanhã te entrego novinha na empresa pode ser? – ele concorda com a cabeça e me dá um sorriso de lado.
O celular de Christopher toca na sala e andamos até lá. Ele olha o visor, desliga a chamada e se vira para mim.
— Preciso ir – ele fala. Concordo com a cabeça. Me sinto estranha ao perceber que não queria que ele fosse.
— Vamos chefe, te levo até a porta – falo. Olho no meu celular é me assusto a ver que era quase meia noite. – parece que o tempo passou bem rápido. Eu não tinha percebido que já estava tarde – falo olhando em seus olhos. Ele concorda. E vou junto com ele até a porta.
— Boa noite Louise, até amanhã – sussurra depositando um beijo em minha bochecha. Sorrio carinhosa.
— Boa noite Chris, tome cuidado na rua. – me despeço com um pequeno aperto no peito. Ele sorri, vira as costas e vai embora.
Eu tinha medo de ir trabalhar amanhã, e ver que as coisas voltaram a ser como antes. Eu gostava desse Christopher, e não estava preparada para dar um adeus a ele.
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