Tudo de Mim

35 Uma vida nada fácil.


O encanto pela minha irmãzinha acabou assim que ela chegou em casa. Nunca pensei que uma criaturinha tão miúda e tão delicada pudesse dar tanto trabalho.

Coitadinha da mamãe que tem que levantar todas as madrugadas para amamentar antes que a bebê acorde o bairro inteiro.

E isso acontece pelo menos umas duas vezes durante a madrugada.

Deve ser um saco.

A minha sorte é que por enquanto ela ainda está no quarto dos meus pais. Mas, mesmo assim, eu sempre acordo assustada com todo seu berreiro e levo horas para conseguir voltar a pegar no sono.

Fora isso, parece bem tranquilo. Pelo menos para mim que não tenho nenhuma obrigação além de tentar ajudar. Ao contrário da minha mãe que tem que fazer tudo: alimentar, trocar, banhar e todas essas coisas. O papai não faz muito, o que me parece muito injusto. Mas a mamãe não reclama. Apesar do cansaço e todo sacrifico, ela parecer amar tudo o que faz mesmo que isso lhe custe algumas horinhas de sono e descanso.

— Nossa, você está péssima. – Comenta a Nay assim que saímos da nossa sala rumo ao portão de saída.

Mais um dia vencido com sucesso.

— Não tenho dormindo direito.

Ela faz uma careta.

— Nossa! Deve ser péssimo. Ainda bem que a minha mãe nunca pensou em ter outro filho.

— Não estou dizendo que é horrível. É só que.... No começo é difícil para todos. Mas vamos nos acostumar logo, logo.

— Bom, espero que sim.

Dou um bocejo

— Ué, cadê seu boy?

Já estamos lá fora, com o sol quente batendo em nossas cabeças. E não há nenhum sinal do Alexandre. O que é estranho. Já que ele nunca deixou de vir antes.

— Deve ter acontecido alguma coisa. – Fico preocupada, de repente.

Pego meu celular na bolsa.

— Vou ligar para ele.

— Se importar se eu for para casa? Estou faminta!

— Não, tudo bem. – Sorrio. — Nos vemos amanhã.

Ela me dá um beijinho rápido e se vai.

Eu bem que insisto, mas ele não me atende. Fico pensando que talvez ele esteja ocupado, resolvendo problemas da mãe dele. O que seria super normal. Nem sei porque estou tão apavorada. Mesmo assim, não consigo evitar. Continuo tentando...

— Alex?

— Ah, oi. Eu já ia te ligar...

— Você está bem?

— Sim, é só que aconteceram umas coisas.

— Que tipo de coisas?

— Meu irmão... Ele brigou no futebol.

— O quê? Porquê?

— Uns garotos ficaram mexendo com ele, dizendo que a mãe dele era uma bêbada maluca, zombando disso e aí ele se irritou e partiu para cima.

— Não brinca?! Esse é meu garoto!

— Luci!

— O que foi? Ninguém é perfeito. Ele tem todo direito...

— Mas não é certo. – Ele me cortou.

— Eu sei, mas... Ah, por favor, vai me dizer que no lugar dele você não faria a mesma coisa?

— Sim, mas... Eu não quero isso pra ele.

— É, você tem razão. Isso não parece nada com ele. Mas não podem julga-lo!

— Bom, de qualquer forma, já resolvi as coisas por aqui. E me desculpe por não ter podido ir te buscar no curso.

— Ah, sem problemas. Já estou quase chegando em casa.

E era verdade. Estava tão atenta a nossa conversa que nem percebi.

— Além do mais, meu expediente de babá já vai começar.

Ele riu.

— Por falar nisso, como estão as coisas por aí?

— Complicadas...

— Duvido muito.

— Então, você teria que ver com os próprios olhos.

— Bom, quem sabe...

Só de pensar na possibilidade de ele aparecer na minha casa para uma visitinha meu coração se agitou dentro do peito.

— Preciso desligar, Luci.

— Eu também.

Sem mais nem menos, nós desligamos juntos.

Corri até em casa, onde encontrei a mamãe no sofá com a Nicole adormecida nos braços.

Ela colocou o dedo sobre os lábios, sinalizando para que eu fizesse o mínimo de barulho possível para não acordá-la.

Subi para o meu quarto na pontinha dos pés, tomei um banho, me troquei e fiz a tarefa de casa do curso.

Por incrível que possa parecer, eu adoro o meu curso preparatório de fotografia. Adoro as aulas e os professores. Adoro até mesmo fazer os deveres de casa. Pois está tudo relacionado ao que eu mais amo: fotografar. E isso torna tudo tão mais fácil e prazeroso!

Horas depois, desço para comer alguma coisa. Nicole já está acordada. E a mamãe está tentando mantê-la entretida com alguma canção infantil. O que não é nada fácil, já que ela só quer dormir e comer.

— Não vejo a hora de ela crescer.

— Mas ela acabou de nascer, mãe!

— Pois é... Mas os primeiros meses são tão sem graça.

— Como assim? – Pergunto, enquanto como.

— Ela não fala, não brinca, não anda.

Dou risada.

— Quando tudo isso começar, você precisará de muita energia. Então, já comece a descansar desde agora.

Ela me dá um sorriso.

— É, você tem razão.

A mamãe quer ficar em casa cuidando da minha irmã o máximo de tempo possível, enquanto isso uma velha amiga dela, de confiança, cuida da loja e eu apareço de por lá de vez em quando para conjuntar uma graninha extra e ajudar.

Estou terminando de comer quando a campainha toca.

Nicole começa a chorar alto.

E eu corro para ver quem é.

— Cheguei em um mau momento? – Pergunta ele, com um sorriso.

— Alex!

Não sei porque, mas eu o abraço. Acho que deve ser.... A força do hábito.

— Oi. – Ele parece levemente surpreso.

— Oi. Entra.

— Alex! – Minha mãe abre um sorrisão enquanto tentar calmar a Nicole.

— Vim visitar a princesinha Nicole. Como ela está?

Todo jeitoso ele se aproxima e a pega nos braços como se tivesse muita pratica naquilo, ao contrário de mim que ainda estou tentando pegar o jeito da coisa.

Assim que ele a pega, ela se cala imediatamente e passar a olhar para ele com atenção como se ele fosse a coisa mais interessante que ela já viu até agora.

É, maninha. Eu sei. Ele é lindo de morrer!

— Ótimo! Fique com ela, querido. Preciso lavar umas roupas.

Minha mãe sai de cena praticamente correndo.

Alex sacode de leve a bebê nos braços, olhando para ela com admiração.

— Meu Deus! Estou impressionada.

— Viu? Eu sou ótimo nisso.

— É, tô vendo – Sorrio para ele. — Mas a culpa de ela abrir o berreiro foi toda sua.

Ele sorri de volta.

— Apesar de tudo, eu acho que ela já me ama.

Solto um risinho.

— Não seja tão convencido!

Alex fica em nossa casa até a hora do jantar, por pura insistência da mamãe que parecia confiar minha própria irmã mais a ele do que a mim. Um absurdo!

Quando ele enfim teve que ir para buscar o irmão na casa de uma vizinha, a mamãe fez questão de ele levar um marmitinha com o resto do jantar.

— Ela sentiu muito a sua falta. – Comento, já lá fora.

Estamos só nós dois.

— Eu também senti muita falta dela... E de tudo.

Ele me olha tão profundamente com seus olhos verdes que me sinto encolher por dentro de pavor.

— Volte mais vezes.... Para cuidar da minha irmã por mim. Você leva muito mais jeito e sabe que é sempre bem-vindo aqui.

— Não foi o que pareceu no ano-novo. – Ele comenta com um sorriso de lado.

— Ah, aquilo. Aquilo ficou no passado, certo? Estamos numa boa agora, não estamos?

— É, parece que sim. Finalmente.

Ele dá um passo na minha direção. Diminuindo a distância entre nós.

— Eu senti falta desse seu lado. — Ele tocou o meu cabelo de leve.

— Que lado? – Me faço de desentendida.

— Esse que não me ataca o tempo todo.

— Só quando você merece.

— Tenho tentando fazer de tudo para não merecer.

— Ótimo.

Finalmente crio coragem para olhar para ele de volta, que até então, não tirou os olhos de mim. E bastou eu fazer isso para me envolver num beijo profundo.

Um beijo que foi capaz de juntar todas as peças quebradas do meu coração.

Quando ele se afastou, vi no seu olhar que ele estava prestes a se justificar, se desculpar. Mas eu não permiti. Eu o beijei de volta. Um beijo rápido e delicado.

Eu não sabia dizer se aquilo era errado: nossa reaproximação, o acerto de contas, os beijos inesperados, as trocas de olhares e sorrisos sugestivos. Mas não queria mais me sentir mal e nem culpada. E nem queria que ele se desculpasse ou se afastasse toda vez que quisesse me beijar ou fazer algo igualmente íntimo.

Porque eu também queria beija-lo na maior parte do tempo em que estávamos perto um do outro.

Eu só não tinha coragem.

Talvez um pouco de medo e receio que aquilo acabasse nos arrastando de volta para o buraco em que cavamos no passado. Mas eu precisava arriscar. Como eu jurei a mim mesma que faria. Porque tudo aquilo de ruim tinha ficado para trás, certo? Eu estava mudada, ele estava mudado, tudo estava mudado.

Quem sabe agora tudo seria diferente.

Eu nunca vou saber se não tentar.

~*~

— Nós precisamos conversar sobre isso, Luci. De uma vez por todas. O tempo está passando, amiga. E nós nem resolvemos nada ainda.

Eu confesso que estava evitando a Fabi nos últimos dias, porque agora ela só queria falar do futuro, de faculdade e todos os planos que envolvia esses assuntos.

Acontece que, era demais para mim. Já foi um grande passo começar a estudar, me dedicar mais e passar no vestibular. Era um passo ainda maior começar a planejar o futuro, pensar na matricula, no curso, nas aulas, em uma nova rotina...

— A questão é: não tenho dinheiro o suficiente.

— Luci, olha só, acho que você ainda não entendeu. – Ela me olhava seriamente. — Tenho certeza que seus pais ficariam gratos em te ajudar com o dinheiro da passagem, você só precisa falar com eles. O resto meus pais garantiram que dão um jeito. Tudo que você precisa agora é dar o primeiro passo.

— Olha, entendi. Mas sem querer ofender, não quero dar nenhum desgaste aos seus pais.

— Mas isso só seria até você encontrar um emprego!

— Mesmo assim, é muita coisa. Pense só: aluguel, despesas, comida, materiais da faculdade, transporte público... Fabi, isso tudo envolve muita grana, amiga.

— É, mas eles querem ajudar! Eles disseram isso. Não fui eu que decidi tudo, Luci. E de qualquer forma, precisamos decidir algumas coisas o quanto antes.

— Quer saber? – Me levantei, cansada desse papo. — Você decide tudo. O que tiver bom pra você, vai estar bom pra mim. – Dei uma piscadinha final.

— Mas...

Eu já estava correndo até a saída.

— Você vai falar com o seus pais? – Ela gritou do seu quarto, mas eu já estava na rua pronta para ir para casa e não tocar nesse assunto tão cedo.

Crescer é um grande e terrível pesadelo.

Naquela noite, Alex apareceu lá em casa na hora do jantar com o Luiz.

Enquanto ele cuidava da minha irmã para dar um descanso para a mamãe, Luiz e eu estávamos no meu quarto colocando nossas séries preferidas em dia.

— E como anda aquele lance com a garota da sua rua que você tá afim?

— Na mesma.

— Você ainda não falou com ela?!

— Não muito...

— Luiz!

— O quê? Eu sou iniciante ainda, tá legal?

— O.K. Mas você precisa pelo menos saber se é reciproco.

— E como você sugere que eu faça isso?

— Sei lá. Preste atenção nos sinais que ela dá. Tente se aproximar mais. Ou pergunte diretamente a ela e acabe logo com esse lenga-lenga, querido.

— Não é tão fácil assim.

— Claro que é! Você é lindo e inteligente.

— Você me acha bonito?

— Com toda certeza.

Ele sorri, se achando.

— Vou pensar mais sobre isso.

Dessa vez não damos um beijinho de despedida, até porque o Luiz está no carro, esperando para ir embora e não é como se tivéssemos voltado a ser um casal.

— Você está com aquela cara. – Diz minha mãe assim que volto para dentro de casa.

— Que cara?

— De apaixonada. – Ela sorri.

— Ah, mãe, por favor, né.

— É verdade, Docinho! – Ela ri, mas fica séria de repente. — Olha, eu amo o Alex e sempre vou amar. Mas tome cuidado, viu? Não quero te ver triste de novo nem tão cedo.

Já no meu quarto ligo meu notebook para não pensar muito sobre isso e acabo encontrando o Lorenzo online. Faz alguns dias em que a gente não se fala de nenhuma forma. Ele anda ocupado com as coisas dele e quase sem tempo para nada, nem para mim. Eu já imaginava que isso aconteceria cedo ou tarde, só não queria.

— Que saudade, seu merdinha. – Digo assim que ele aceita nosso vídeo-chat.

— Eu também estava morrendo de saudade! – Ele sorri, gracioso. — Finalmente tive um dia de folga. Mas e aí, como estão as coisas por aí? Eu adorei as fotos que você me mandou da sua irmãzinha. Ela é linda! Ela é a sua cara.

Conto as poucas novidades a ele, dando prioridade ao curso em que ele me incentivou a começar e deixo de fora certos detalhes. Mas logo me arrependo.

Ele é meu melhor amigo, poxa.

— Alex e eu nos beijamos, de novo.

Não consigo decifrar a expressão dele ao ouvir isso.

— Ah, é? Uau.

— É só isso? Uau?

— O que você quer que eu diga, Luciana? Que eu já esperava e que eu torcia muito por vocês? – Ele faz uma careta. — De qualquer forma, não importa. Se você está feliz, eu ficaria feliz também. Por você. – Ele se afasta da câmera e olha para o lado rapidamente. — Olha, preciso ir agora. Conversamos mais outra hora.

E então ele se vai, sem nem se despedir direito.

E eu fico sem reação. Totalmente paralisada, sem entender nada. Ou ele ficou puto comigo, ou decepcionado, ou.... Sei lá o quê. Talvez só esteja mesmo ocupado demais pra mim agora. Eu não entendi nada. Eu só disse a verdade. Eu queria que ele soubesse. Ele tinha que saber.

Quando vou me deitar, fico com isso remoendo na minha cabeça.

Será que eu fiz a coisa errada ao beijar o Alex e permitir ser beijada por ele?

Será que fiz mal em contar ao Lorenzo?

Será que existe alguma possibilidade de algum dia Alex e eu darmos certo?

Será que o Lorenzo e eu nunca mais seremos os mesmos? Nem mesmo amigos? Por ele me amar demais e morar longe? E eu não amá-lo o suficiente?

Às vezes eu só queria que fosse tudo mais fácil na minha vida.

Mas quem não quer isso?

Notas finais
O próximo capítulo será bem decisivo para a Luci e o Alex e o futuro dos dois. Falta pouco pra tudo terminar. Dois ou três capítulos. Ainda não me decidi. Enquanto isso, comentem! Beijão e até o próximo capítulo ♥