Tudo de Mim
18 Um cara legal.
Notas iniciais
— Você acordada tão cedo num domingo de manhã? – Papai perguntou, surpreso.
Fiz uma careta.
Não é como se eu estivesse acordada a essa hora por vontade própria.
— Querido, por favor, não abuse da vontade da nossa filhinha de me ajudar na faxina da casa. – Mamãe piscou na minha direção sem ele perceber. — Você não ia jogar bola com seus amigos as dez horas?
Papai conferiu as horas no relógio.
— Caramba! Estou atrasado!
Rapidamente ele beijou a mamãe de leve nos lábios e me deu um beijo na testa antes de partir.
— Finalmente. – Mamãe suspirou.
A verdade é que eu não tinha acordado as nove da manhã de um domingo para ajudar na faxina da casa. A verdade é que eu tinha acordado as nove da manhã de um domingo para ajudar a mamãe com os preparativos da festinha surpresa para o papai da revelação do sexo do bebê enquanto ele estava fora com os amigos.
O que basicamente dava no mesmo.
Eu fiquei com todo o trabalho mais pesado, é claro. Queria poupa-la dos esforços maiores. Enquanto a mamãe ficou na cozinha fazendo maravilhas de comer para servir na festinha, eu dei uma leve arrumada na sala e a decorei de um jeito super fofo em tons de azul claro e rosa bebê após pegar várias referências em pesquisas na internet.
Por fim tirei milhares de fotos de tudo.
Quando já estava tudo basicamente pronto, por volta do meio-dia, subi para tomar um banho e me arrumar. Meu pai poderia chegar a qualquer hora. E eu ainda não tinha ido buscar o bolo na confeitaria na rua de trás que a mamãe mandou fazer.
Já estava me arrumando quando ouvi a campainha tocar. E logo em seguida as vozes da Fabi e do Chris invadindo a minha sala e admirando tudo que eu tinha feito com tanta dedicação.
Me apressei por ali e logo depois desci para agradecê-los por vir.
Mamãe também convidou algumas de nossas vizinhas fofoqueiras e bisbilhoteira que eu particularmente detesto, mas que tenho que suportar e convidou também algumas de suas clientes da loja e amigas de longa data.
Nenhum sinal do papai.
— Vocês aceitam um docinho? – Saí perguntando por aí com a bandeja em mãos.
Obriguei o Christian e a Fabi me ajudarem a servir também.
Amigos servem para essas coisas, não é mesmo?
Enquanto o pessoal comia à vontade e conversavam animados entre si espalhados por toda a sala da nossa casa e dando atenção total a minha mãe e sua barriguinha saliente, fiquei em um canto, tirando fotos e observado a movimentação.
Houve um momento em que a lente da minha câmera pousou no casal de pombinhos apaixonados abraçados perto da porta. Fabi e Chris. E como sempre que os vejo nesse clima fofo e romântico, senti um leve aperto no coração ao me dar conta de que o Alex não estava mais ali por mim. Não estava mais ali comigo. Nós tínhamos deixado de ser esse tipo de casal que aproveita qualquer momento a sós para roubar beijinho um do outro, risadinhas e olhares apaixonados e significativos.
Distraída, fiquei pensando nele, me fazendo várias perguntas mentais que nem percebi quando meu pai chegou, todo suado depois de uma manhã inteira no futebol.
Coisa que ele não fazia há bastante tempo.
A carinha de surpresa dele ao ver toda aquela gente ali e a decoração envolvendo nossa sala tão simples foi a melhor. Por sorte deu tempo de registrar com a minha câmera sempre em mãos, pronta para qualquer coisa.
Papai cumprimentou todo mundo de longe e depois subiu para tomar um banho e se trocar. Quinze minutos depois ele desceu, todo arrumadinho e perfumado.
Tirei variz fotos dele e da mamãe junto dos convidados.
Lá pelas cinco da tarde, quando todos os petisquinhos e bebidas estavam chegando ao fim, mamãe resolveu que era hora de revelar a grande surpresa. Ninguém sabia a verdade. Eu era a única. Papai estava mais ansioso que qualquer pessoa.
Quando a mamãe cortou o bolo e o recheio cor-de-rosa ficou estampado em suas mãos para todo mundo foi como assistir a um grande espetáculo.
Ooooooooh....
É uma menina!
O papai caiu no choro. Foi tão bonitinho!
O pessoal comeu o colo com recheio cor-de-rosa de morango e ficaram mais um pouquinho até o céu começar a escurecer. Fabi e Chris foram os últimos. Até porque eu praticamente implorei para eles ficarem e me ajudarem a limpar a bagunça.
Mais tarde, deixei meu pai e minha mãe ali, sozinhos, para aproveitarem melhor aquele momento de casal grávidos e subi para o meu quarto me sentindo em paz.
Missão comprida.
Me joguei na minha cama e não demorou nem dez segundos de descanso para o meu celular começar a jogar e eu me levantar desesperada para pegá-lo e atender na esperança de que fosse o Alex. Quando olhei para o visor e vi aquele número desconhecido na tela eu tive certeza: é ele. Ele finalmente sentiu a minha falta.
Quando deslizei o botão para o lado para atender a ligação, levei o celular a orelha e não consegui dizer absolutamente nada. De repente tudo que eu queria dizer a ele sumiu da minha cabeça. Eu estava tão nervosa de estragar tudo que fiquei muda.
— Aproveitadora de Rapazes Inocentes?
Quê? Ah, não. Não não não não.
— Lorenzo?
— Ah.... Olá. – Ele pareceu sorrir. — Ufa. Que bom que é você.
— E quem mais poderia ser? Esse número é meu! E afinal, como foi que você conseguiu o meu número? Posso saber?
Nem dei tempo para ele responder, pois eu sabia exatamente quem tinha sido.
Christian.
Eu vou matar aquele garoto amanhã!
— Não brigue com ele. Meu primo não teve culpa de nada. – Ele riu. — Digamos assim que eu fui um pouquinho ameaçador.
— E o que você poderia ter contra ele que fosse tão sério assim?
— Digamos assim que.... Você não sabe de tudo.
— É claro que não sei! Por isso estou perguntando.
Ele riu de novo.
— Ei, calma. Não precisa me atacar.
— Eu não estou te atacando! Só estou curiosa para saber porque você me ligou a essa hora.
— Queria falar com você. Tem algum problema nisso?
— É claro que tem! Tem todos os problemas.
— Ah, é? E quais são? – Ele parecia se divertir muito com a situação, o que me deixava ainda mais irritadiça.
— Eu não quero ter a sua amizade.
— E quem foi que disse que eu quero a sua?
Bufei.
— Eu não quero nada com você.
— E quem foi que disse que eu quero algo com você?
Suspirei.
O.K.
Talvez eu tenha interpretado um pouquinho mal. Só não gosto nada dessa situação.
— Então o que você quer? – Perguntei, mais calma.
— Apenas conversar.
— E conversar sobre o que?
— Não sei... Talvez sobre a sua falta de talento para fotografia.
— Seu idiota!
Estava prestes a deslizar na cara dele com toda minha fúria quando ele me chamou.
— Ei, calma. Calma! Estou brincando.
— Odeio esse tipo de brincadeira.
— Eu percebi! Nossa... Você tá bem? Ou você tem o costume de atacar as pessoas assim?
— Só as desaforadas.
Ele riu.
— Tudo bem. Já entendi. Mas antes de desligar na minha cara me responda uma pergunta.
— Hum. – Encorajei-o a prosseguir.
— Você tem namorado?
Eu poderia dizer que sim, assim eu o afastaria definitivamente caso ele esteja com segundas pretensões para cima de mim. Mas eu disse que não. Porque é a verdade. É a minha nova realidade. Não tenho mais namorado e acho que nunca mais terei.
Cansei de esperar. Cansei de acreditar. Cansei de me iludir.
— Que bom. – E então ele desligou.
Ele desligou?
Não fui quem desligou. Foi ele!
E o que ele quis dizer com esse “que bom”?
Cretino.
Então é isso? Isso é tudo que mereço. Uma vida cercada por cretinos.
~*~
— Eu poderia te estrangular agora, sabia?
Chis me olhou assustado.
— Porque? Eu não fiz nada! A Fabi está sã e salva.
— Nem tudo é a Fabi, sabia?
O encarei seriamente.
— Ah, já sei. – Ele desviou o olhar. — Você descobriu.
— Foi meio obvio, não é mesmo? Afinal, ele é seu primo!
— Não foi tão obvio assim! – Ele se defendeu com uma careta. — Vai ver ele é bom nessas coisas de investigação. Nunca se sabe.
— Não interessa! Você não tinha o direito!
Eu já não estava tão mais brava assim, mas as vezes eu gosto de fazer uma ceninha.
— Eu sei, eu sei. Mas não tive muitas escolhas. Ele me ameaçou, sabia?
— E com o que pelo amor de Deus?
— Ele sabe coisas.
— Que tipo de coisas? – Instiguei.
— Coisas.
— Christian, desembucha!
— Ok, ok. Ele ameaçou contar a Fabi sobre meus casos amorosos do passado.
— Só isso? Desde quando isso é tão ruim?
— Eu era um canalha, Luci. Você sabe.
— Eu sei. Mas isso foi no passado. Não tem mais importância.
— Sim.... Eu só não quero que a Fabi tenha vergonha de mim.
— Ela não faria uma coisa assim!
— Eu prefiro não arriscar.
Fomos então para o intervalo nos encontrar com a Fabi e não tocamos mais no assunto.
— Hoje os estudos serão lá em casa. – Christian anunciou.
— Mas porquê? – Perguntei, intrigada.
— É só que a minha mãe não vai poder preparar nada para a gente hoje, porque ela tem consulta. Mas a Dani, a empregada do Chris, se disponibilizou a fazer algo bem gostoso para a gente.
— Você tem empregada? – Olhei para ele, surpresa.
— Pois é. – Disse ele sem muita empolgação como se aquilo fosse irrelevante.
Já ficou muito claro que o Chris não é esse tipo de riquinho que saí por aí esbanjando o que tem. Na verdade, parece que ele está sempre evitando o assunto.
Fomos então para a casa dele depois do colégio.
Pois é, eu continuo nesse de Grupo de Estudos como se fosse me ajudar em alguma coisa na vida. Quem nasce burra, continua burra. Não tem muita solução.
E esse é claramente o meu caso.
Estudo, estudo... E não aprendo nada.
— Chega! Estou farta. Podemos comer algo agora?
O cheirinho de algo muito gostoso que entrava pelo quarto do Christian estava me matando aos poucos.
— Vamos dar uma pausa então. – Fabi se levantou e ajudou eu a me levantar também.
Descemos a lustrosa escada de mármore branco e fomos rumo a cozinha.
— E aí, Dani, o que temos de bom para hoje? – Perguntou Chris, animado.
A Dani não foi a primeira coisa em que reparei junto daquela cozinha chique e brilhosa. Mas sim em quem estava ali, sentando na mesa, comendo algo. Estava de costas, mas eu sabia exatamente de quem se tratava.
No exato momento em que ouviu a voz do Chris, ele virou-se para trás e me viu. E então abriu um sorrisinho.
Eu não retribuí.
— Olá, Ruiva. – Lorenzo se levantou, limpou as mãos na calça e cumprimentou a Fabi ao meu lado, pegou as mãos dela e as levou até a boca e a beijou de leve.
Revirei os olhos.
Que tipo de pessoa ainda faz isso?
Fabi sorriu toda corada com o gesto e saiu, para se juntar ao Chris, alheio a tudo isso, próximo a Dani, perto da pia, enquanto ela terminava de preparar algo.
— Oi, Aproveitadora de Rapazes Inocentes. – Lorenzo sussurrou.
— Será que você pode parar de me chamar assim?
— Tudo bem. – Ele sorriu. — Mas você não deveria abraçar caras que você mal conhece no meio da rua, do nada, sem dizer nada. Sem nem avisar!
— Eu não fiz de propósito. – Justifiquei.
Mas é claro que ele não estava nada interessado nessa parte.
Ele só estava interessado em me provocar e consequentemente me irritar e gostar ainda menos dele.
— Eu sei que não fez. – Ele me olhou de um jeito provocativo.
Lutei contra a vontade de revirar os olhos novamente.
— E aí, Pac-Man, está com fome ou não? – Chris me chamou.
Fui me juntar a ele e a Fabi na mesa e a Dani nos serviu com sucos, salgados, doces e tudo mais que há de bom nesse mundo alimentício.
Quando olhei para trás, Lorenzo havia desaparecido.
— Vocês armaram para mim. – Digo de boca cheia.
— Do que você tá falando? – Perguntou Fabi, com os olhos claros alarmados.
— Vocês armaram para mim com o Lorenzo. Aposto que foi ideia dele me trazer aqui para nos reencontrarmos como se nada disso fosse totalmente planejado.
Fabi e Chris se entreolharam.
— Nada do que você está falando faz sentido, Luci.
Balancei a cabeça de um lado para o outro.
— Não me façam de boba. – Levantei-me, satisfeita. Já tinha comido de tudo um pouco de cima daquela mesa. Minha barriga estava tão estufada que a calça estava apertada na cintura. — Eu não preciso de mais um idiota envolvido na minha vida.
E saí. Não sabia para onde, pois não conhecia nada daquela imensa casa. Só estive ali uma vez. No sábado. E estava tudo tão diferente e tão cheio de gente. Mas eu sabia que queria encontrar um banheiro para me esconder por uns instantes.
Andei de um lado para o outro, olhando tudo, certa de que encontraria um banheiro atrás de alguma porta. Estava tão convicta disso que acabei me chocando contra algo. E quando olhei para cima percebi que não era algo. Mas sim... em quem.
— Eu não sou nenhum idiota. – Lorenzo disse, muito sério.
Seus olhos azuis-acinzentados pareciam muito frios.
— E saiba você que eu não planejei nada disso. Eu só estou hospedado aqui por um tempo. Nem sabia que você ia vir aqui hoje, o.k?
— Não é bonito escutar a conversa alheia, o.k.? — Revidei.
Sim, eu estava o encarando de volta como se ele não me desse medo.
Ele realmente não me dava medo. Eu só estava envergonhada no momento.
— Não é bonito julgar as pessoas precipitadamente, o.k?
Ele passou por mim, mas não sem antes esbarrar no meu ombro como uma criança mimada e desapareceu.
Finalmente encontrei o maldito banheiro me tranquei ali.
Passei um bom tempo sentada sobre a tampa do vaso pensando que de alguma forma eu me sentia culpada por ter o julgado mal ou o interpretado mal. Talvez ele fosse um cara legal e eu só estivesse descontando minhas frustações amorosas nele.
Coitado. Não me parece justo.
— Está tudo bem? – Fabi me perguntou quando me encontrou.
— Está. Me desculpe...
— Não, eu que peço desculpas. Só quero que saiba que eu e o Chris não...
— Sim, eu sei. Me desculpe.
Toquei a bochecha dela e sorri. Ela sorriu junto.
— Vamos voltar para a tortura?
Ela pegou a minha mão.
— Vamos lá.
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