Tudo de Mim

1 Grande confissão.


Notas iniciais
Oi, oi. Prontos para uma nova história?

Acaba de terminar o primeiro episódio da quinta temporada de uma das minhas séries favoritas: American Horror Story. E eu estou louca para começar o próximo. É simplesmente viciante. Não dá para parar. Eu preciso de mais. E preciso agora.

Alexandre move a cabeça que até então estava deitada sobre o meu colo.

— O que foi? – Pergunto a ele. — Não está gostando?

Juro que se ele falar que não eu quebro todos os dentes dele.

— Não é nada. – Ele sorri suavemente. — Quer mais pipoca? Eu vou pegar.

Ele se levanta e saí do quarto.

Nós estamos juntos há quase dois anos e eu ainda não consigo entende-lo ou decifra-lo. Ele basicamente agiu estranho o dia todo. Eu bem que tentei ignorar isso. Mas algo me diz que tem alguma coisa de errada. E eu juro que dessa vez não fiz nada.

Não dessa vez.

Aguardo pacientemente ele voltar para continuarmos assistindo. Mas ele está demorando mais do que deveria. Até porque para fazer uma pipoca de micro-ondas se gasta no máximo três minutos. Ou ele teve algum problema na cozinha. Ou tem mesmo alguma coisa acontecendo de errado rolando e ele está me evitando.

Eu voto na última opção.

— Alex, tudo bem aí?

— Sim, sim. Tudo sob controle.

E então ele finalmente volta com mais um balde de pipoca cheio de manteiga e um copo cheio de Coca-Cola com gelo e rodelas de limão. Do jeitinho que eu gosto.

Ele volta a se sentar ao meu lado sobre a cama.

— Por acaso, você tem alguma coisa para me dizer? – Pergunto.

— Hm... Não. Não tem nada. Vamos continuar?

E nós continuamos. Mas não é mais a mesma coisa. Tem algo de errado. Eu tenho certeza. O clima está esquisito. Ele está distante e estranhamente quieto. E ele não é assim. O Alex tem o hábito de comentar cada segundo do filme ou da série. O que normalmente me irrita um pouco. Mas hoje eu estou sentindo falta disso.

Resolvo dar pausa na série.

— O que aconteceu? – Ele se vira para mim surpreso.

— Vai desembuchar agora ou daqui a pouco?

Ele parece pensar nisso por um segundo.

— Vamos falar sobre isso mais tarde.

Ele dá play na série.

Dessa vez ele se aproxima e volta a deitar a cabeça no meu colo para que eu fique fazendo carinho na cabeça dele repleta de cachos rebeldes.

Trinta minutos depois o segundo episódio chega ao fim e a chuva lá fora só parece aumentar.

— E então, vai me contar o que está acontecendo agora?

Coloco o balde de pipoca praticamente vazio ao lado, sobre o criado-mudo.

Ele dá o ultimo gole no refrigerante.

— Eu não queria falar sobre isso. – Diz ele, evitando me olhar.

Ai. Meu. Deus.

Estou começando a ficar apavorada.

— Você sabe que não vou te deixar em paz até você falar alguma coisa.

Ele me olha rapidamente e suspira.

— É, eu sei.

— Então diz logo, cacete!

— O.K. É o seguinte, Luci. Eu não queria te contar isso, mas não vejo outra saída. Até porque odeio mentir ou esconder as coisas de você.

— Tá, disso eu já sei. Agora fala logo!

Ele suspira mais uma vez.

Nesse momento, meu coração já está prestes a sair pela boca.

— Lembra-se do sábado passado? Que a gente brigou feio?

Eu balanço a cabeça. Sim! Claro que lembro. Como poderia esquecer?

Por mais que a gente brigue o tempo todo por qualquer coisinha, eu sempre serei capaz de me recordar de cada briga que já existiu entre nós.

— Pois então. Eu fui a um barzinho com meus colegas e...

— Sim. Eu sei disso também.

— E eu.... Eu.... Eu acabei ficando com uma garota.

Ah. Meu. Deus.

— Que garota, Alexandre?

— Uma garota qualquer. Eu não lembro o nome dela!

— Mentiroso! Me fala de uma vez a verdade, Alexandre.

Não sei porque ele ainda acha que pode me enganar.

— Fala logo, cacete! Quem era ela?

— Calma, Luciana! – Ele me olha apavorado.

Típico de um sujeito culpado.

— Fala, Alexandre! Quem era ela?

— Era a Thalita. Pronto. Falei.

Não. Não. Não. Não. Não.

Isso não pode ser real.

— Porra, Alexandre! Logo a Thalita? Que merda você tem na cabeça, hein?!

— Mas nós tínhamos terminado, lembra?!

Thalita é uma garota que estudou com ele no ensino médio há cinco anos atrás. Até aí tudo bem. Afinal, o que de mal tem nisso? O problema é que a vaca sempre foi louca por ele. E sempre deixou isso muito claro não só para ele, como também para todo mundo. Inclusive para mim.

Sempre que a gente estava numa festinha dos colegas dele da época do colégio, ela estava por lá e bastava eu me ausentar um minuto para ela aproveitar e ir falar com ele, se esfregar nele, jogar charminho para cima dele. Só faltava tirar a roupa na frente de todo mundo no meio da festa e agarra-lo de uma vez.

— O que você está fazendo? – Perguntou ele preocupado.

Eu já tinha me levantado e pegado meu tênis jogado por ali. Coloquei-o rapidamente, peguei minha mochila sobre a cadeira e fui em direção a porta.

— Luciana, espera!

— Não ouse vir atrás de mim, Alexandre.

Foi a última coisa que eu disse olhando nos olhos dele antes de fechar a porta com tudo.

Eu tinha que ser rápida, pois se ele resolvesse vir atrás de mim para se desculpar ou inventar uma historinha qualquer para se justificar, ele ainda teria que procurar seu tênis, calça-los e colocar uma calça descente que não fosse do pijama do Star Wars.

O único problema é que estava caindo um temporal lá fora e já estava muito tarde, então eu nem ousaria ligar para casa e pedir para o meu pai vir me buscar de carro. O Alexandre mora em um prédio em uma avenida movimentada rodeada de barzinhos e pizzarias. Já eu moro algumas ruas mais a trás. Há cinco minutos daqui.

Eu já não estava me importando com mais nada. Nem mesmo com a chuva gelada que molhava toda a minha roupa, cabelo e tênis. Eu só queria chegar em casa o mais rápido possível. E para isso eu precisava praticamente correr.

Ouvi a buzina de um carro se aproximando.

Desejei com todas as minhas forças que não fosse algum tarado, prestes a me sequestrar e me fazer de refém em um cativeiro nojento e imundo longe daqui.

Felizmente, ou, infelizmente não era nenhum tarado ou alguém curtindo com a minha cara por estar sozinha de baixo da chuva a essas horas da noite. Era apenas o Alexandre me enchendo o saco. Implorando para eu entrar no carro com ele.

De jeito nenhum, babaca!

Mostrei o dedo do meio.

Para despista-lo, optei por seguir pelo caminho mais longo e talvez o mais perigoso, já que eu teria que subir um escadão imenso. Mas pelo menos assim o Alexandre não teria como me perseguir com sua lata velha. E tudo que eu mais queria era me ver livre dele agora. Esse cretino desgraçado mentiroso de uma figa.

Eu sei que o nosso relacionamento é complicado desde o início e que nunca esteve perto de chegar a perfeição. Eu sei que somos dois idiotas com personalidades muito fortes. E sei também que apesar de brigarmos muito por tudo, nós sempre arrumamos um jeito de concertar as coisas. Mas não sei se vai ser assim dessa vez. Afinal, ele mentiu para mim por uma semana e ficou com uma das garotas que eu mais detesto na vida. Como vou conseguir olhar para ele depois disso?

Alex e eu temos uma história longa e complicada.

Nós nos conhecemos no meu primeiro ano do ensino médio. Eu tinha apenas quinze anos e ele tinha dezenove. Na época, eu era só uma garota inocente e inexperiente, prestes a descobrir um novo mundo, uma nova realidade.

Eu o via apenas na hora da saída, pois ele já tinha terminado o ensino médio. E na época estava apenas ficando com uma garota do terceiro ano. Eu ficava de longe, apenas babando enquanto ele se agarrava com a outra encostada no seu carro velho na frente de todo o colégio. Mas eu não era a única que ficava de longe, apenas olhando e morrendo de inveja. Praticamente todas as garotas do meu colégio faziam o mesmo.

Logo de cara ele me chamou atenção. Meio que foi a amor à primeira vista. Não só por ele ser mais velho, mas também porque ele não era muito comum. Alto, magro, branco e tatuado. Sem falar no cabelo castanho cheio de cachos rebeldes em contraste com a barba rala e olhos verdes.

Ele era como uma celebridade. Um ídolo. Que eu só via de longe. E que não tinha coragem nem de chegar perto. Até porque eu não tinha motivos para isso, mas se tivesse, tenho certeza de que teria uma parada cardíaca assim que ele colocasse os olhos em mim. E não demorou muito para isso acontecer.

Era um dia normal e eu estava ali, de baixo de uma árvore, me refrescando na sombra e esperando a Fabiana, minha melhor amiga, quando de repente, ele acenou para mim e foi que eu senti a parada cardíaca no mesmo instante.

Tudo bem que eu esteja exagerando um pouco, mas foi assim que eu me senti. Não conseguia acreditar. Por um momento até duvidei de que ele estivesse mesmo acenando para mim. Olhei para trás, olhei para o lado, mas eu era a única ali. Então, eu acenei de volta com um sorriso sem graça e ele riu, como se estivesse estampado na minha testa o quanto eu era ridícula.

O encanto logo se rompeu quando a namoradinha dele chegou, o abraçou e eles começaram a se beijar ferozmente.

Nos dias seguintes foi a mesma coisa. Enquanto eu esperava pela Fabi e ele por sua garota, acenávamos um para o outro como se fôssemos conhecidos. E eu me sentia tão sortuda e tão boba. Me perguntava porque ele repararia numa garota como eu sendo que ele tinha ao seus pais uma loira gostosa do terceirão?

Num belo dia, aconteceu o improvável. Ele e loira gostosa não estava se agarrando como se costume, mas pareciam estar tendo uma bela briga. O colégio todo parou para assistir a briga. Inclusive eu. Dois minutos depois, mesmo de longe, deu para entender que eles tinham rompido seja lá o que estivessem tendo. E eu fiquei triste, porque aquilo significa uma coisa: ele não voltaria a aparecer e nunca mais eu poderia vê-lo e acenar para ele, porque eu não fazia ideia de onde encontra-lo.

Mas não foi bem isso que aconteceu. Mesmo no outro dia, quando eu já estava desanimada, ele apareceu com seu carro velho e parou em frente à escola. A loira gostosa não apareceu. O que só poderia significar que eles não tinham se acertado coisa nenhuma. Então porque ele estava ali?

A Fabi enfim tinha chegado para me encontrar e irmos para casa. Ela sempre ficava alguns minutos a mais do colégio para tirar dúvidas com os professores. Ela é muito comprometida com os estudos. Sempre foi. E quando estávamos de saída, eu ouvi um “ei, você!” e me virei para traz rapidamente. A visão que tive a seguir foi como ter a visão do paraíso bem diante dos meus olhos. O garoto, que eu ainda desconhecia o nome e a origem, vinha correndo na minha direção.

Mas como isso poderia ser possível?

— Ei. Oi.

— Oi...

Minha nossa! Que sorriso incrível e maravilhoso!

— Qual é o seu nome?

Ele estava mesmo falando comigo? Quais eram a chances de isso acontecer?

Não que eu fosse uma garota esquisita e excluída no colégio. Mas também não era popular. Eu era.... Eu. Vivendo a minha vidinha simples e normal.

— Luciana. Porque?

— Por acaso a gente já não se viu em algum lugar?

— Não.... Tenho certeza que não.

Até porque eu me lembraria.

— Então foi engano meu. Me desculpe. – Ele deu uma risadinha.

Eu sorri, corada. Pegando fogo.

Me perguntei quais eram minhas condições físicas naquele momento: Será meu delineador estava muito borrado? Meu cabelo muito bagunçado? Batom machado nos meus dentes da frente? Cheirinho ruim de suor? Oleiras muito profundas?

— Bom, de qualquer forma, a gente se vê amanhã. – Ele piscou.

Quase tive minha segunda parada cardíaca em menos de um mês.

Ele se virou e seguiu em direção ao carro.

Mas parou no meio do caminho e voltou-se para mim de novo.

— E a propósito, eu me chamo Alexandre. Mas pode me chamar de Alex.

E foi assim que a nossa história se iniciou. Nada muito extraordinário, romântico ou excitante. Ele apenas passou a vir todos os dias na hora da saída. E eu descobri mais tarde que era só por minha causa. Para poder me ver. Nós conversamos todos os dias. Ele me pagou um sorvete, conheceu a Fabi, nos levou para casa de carro.

Foi um longo processo. Mas eu já estava apaixonada por ele há muito tempo, antes mesmo de saber qual era o nome dele. E quando ele me beijou pela primeira vez, em um desses novos encontros a sós, depois do colégio, eu tive ainda mais certeza: eu estava ainda mais apaixonada pelo cara mais incrível que já conheci na vida.

Não posso dizer que foi fácil. Primeiro porque eu sofri algumas ameaças da loira gostosa e sua gangue quando ela viu com os próprios olhos que eu tinha substituído o lugar dela. Mas eu não tinha medo dela e de sua gangue. Deixei isso bem claro. O que eu sentia pelo Alex era incompreensível. Não era só fogo no rabo. O que eu tenho certeza que foi a única coisa que ela sentiu por ele por ser mais velho e dependente.

Para poder se exibir para as amigas. Típico desse tipo de garota que odeia sair perdendo, ainda mais para um garota como eu: não tão bonita, não tão popular.

— Docinho, o que aconteceu? – Perguntou minha mãe preocupada assim que entrei em casa ensopada. — Pensei que você fosse dormir na casa do Alex hoje.

— Eu ia. – Digo enquanto tiro o tênis com força. — Mas não vou mais.

Subo para o meu quarto, o único lugar que eu quero estar agora. Tiro minhas roupas molhadas e vou direto para o banho. Um banho bem quentinho para acalmar os nervos. Depois de por algo mais leve para dormir, desço para colocar as roupas molhadas para secar na área de serviço. Minha adorável mãe que até então estava no sofá vendo TV agarradinha com o meu pai, vem a minha procura.

— Você e o Alex brigaram de novo.

Não era bem uma pergunta. Ela estava convicta disso.

— Você acertou. – Digo, sem muita paciência.

Na cozinha, encho um copo com leite gelado.

Bebo tudo de uma vez.

— Não quer me contar o que aconteceu? – Ela insiste.

— Não, mãe. Eu só quero dormir agora, ta bom?

Dou um beijinho nela.

— Boa noite, pai. – Digo ao passar pela sala.

Já de volta ao meu quarto, apago todas as luzes e me aconchego na minha cama, de baixo das cobertas.

Não vou chorar, digo a mim mesma.

Vou apenas dormir e esquecer isso tudo.

Mas é claro que não é tão simples assim.

Por um bom tempo eu me remexo de um lado para o outro sem conseguir pregar os olhos. Minha mente está a mil por hora. Não consigo não pensar no Alex e no que ele me relevou. Estou com muita raiva dele. Essa era para ser a nossa noite. Íamos assistir muitas series, pedir pizza e mais tarde dormir abraçadinhos em sua cama.

Era para ser perfeito.

Mas ele estragou tudo.

Se não é ele, sou eu quem estrago tudo.

Há sempre algo no meio para atrapalhar.

Fecho os olhos imediatamente, assim que minha mãe abre a porta e coloca a cabeça para dentro do meu quarto só para conferir se já estou dormindo.

Às vezes eu tenho certeza de que ela gostaria que eu fosse mais aberta com ela. Falasse mais sobre os meus problemas. Mas eu não consigo. Não acho que faz muito sentido conversar com ela sobre essas coisas, mesmo sabendo que ela é capaz de me entender. A única pessoa que me faz sentir confortável para isso é a Fabiana. Mas normalmente ela dorme cedo aos domingos, pois amanhã cedo temos aula. E eu não quero acorda-la para enche-la com meus problemas amorosos.

A coitadinha deve estar cansada de me ouvir falar sobre o Alex.

E eu estou cansada de ter sempre um motivo para me queixar.

Alex não me pediu exatamente em namoro. As coisas foram simplesmente acontecendo entre nós. Nós nos beijamos um dia, no outro nos abraçamos e depois começamos a andar mãos dadas e nos ver e nos falar com mais frequência. Não só depois do colégio. E mesmo quando eu me dei conta de que as coisas estavam ficando sérias, tanto que ele já até frequentava a minha casa, eu não insisti no assunto.

Não queria rotular nada.

Só queria estar com ele. Apenas com ele. E ele admitiu sentir o mesmo. Nenhum de nós ficou com outra pessoa depois que isso começou. Então sim, isso é basicamente um namoro. Um compromisso. Mas quando a gente briga é como se esquecêssemos isso. Ficamos tão bravos um com o outro que acabamos fazendo besteira.

Ele não é o único culpado.

Não estou culpando-o e nem o defendendo.

O que eu quero dizer é que é... Complicado.

Nós gostamos para valer um do outro, mas existem momentos que isso não parece o bastante. E eu fico pensando se isso é certo. Se realmente merecemos um ao outro. Se não deveríamos estar juntos. E se funcionamos melhor separados.

Pensar nessas coisas é tão cansativo.

Já estou quase pegando no sono quando ouço a voz dos meus pais no corredor. E eu pensando que eles já estivessem dormindo. Mas pelo visto não. Me enganei.

— Eles brigam o tempo todo, assim como nós já brigamos um dia. Quando mais jovens. – Essa é a voz do meu pai. — Mas eles se amam de verdade. E um dia encontraram um jeito de consertar isso. De fazer dá certo. Vai dar certo, acredite. Olhe só para nós: nós não conseguimos? Eles vão conseguir também. Não se preocupe.

Fecho meus olhos com forças, na tentativa de impedir as lágrimas escaparem.

Mas não adianta, elas escapam mesmo assim.

Meu celular vibra de baixo do travesseiro.

É uma mensagem do Alex.

Eu te amo. Me desculpe por tudo. Eu sei que não te mereço, mas não quero estar com mais ninguém que não seja você.

Ah, merda.

Ele sempre consegue atingir meu ponto mais fraco.

Notas finais
Digam-me o que acharam desse início. Vale a pena continuar?