Tudo começa no verão.
1 Prefácio
Notas iniciais
Boa leitura!
A garoa fina abraçou-me por inteira logo que coloquei os pés fora de casa. Era uma chuva fraca, mas não por isso menos incômoda que as demais, que me forçava a caminhar mais devagar, segurando o guarda-chuva acima de mim em uma tentativa falha de proteger meu corpo das gotículas que caíam do céu. Ao dar cada passo, o vento beijava-me ambas as faces, brincando com minhas madeixas loiro-escuras, e eu sentia frio. Mentalmente, perguntava-me se aquilo era de fato necessário, mesmo que já soubesse da resposta – sim.
Durante quinze minutos, andei sem pensar em nada, inconscientemente fazendo o caminho ao qual me habituara, repetido tantas vezes durante os últimos meses. Não era novidade estar indo ao hospital. Novidade era, entretanto, não passar o trajeto inteiro com mil pensamentos bombardeando-me a cabeça.
Já estava gravado em meu cérebro que deveria parar na floricultura para comprar flores amarelas antes de ir visita-lo. Que deveria bater três vezes à porta, para ele saber que era eu do outro lado. Que um sorriso meu o faria sorrir também, e por isso fingia tão bem estar alegre ao vê-lo deitado em um leito de hospital. Tudo se tornara tão automático que arriscava descrever tal rotina como enfadonha, mesmo dentro de circunstâncias tão delicadas.
Bati três vezes à porta do quarto de hospital – a de número 320, com a qual já estava fortemente familiarizada – e entrei de forma sorrateira. Meu coração doía só de sentir aquele ambiente gelado e entristecedor que qualquer hospital carregava consigo.
– Bom dia, Will. – eu disse ao abrir um sorriso melancólico, enquanto pousava o recém-comprado ramalhete de flores amarelas – cujo nome eu nunca recordava – em uma mesinha perto do corpo de meu namorado. Ele dormia em um sono profundo, as roupas de tom azul pastel contrastando com sua pele avermelhada e seus cabelos escuros.
Não estava com pressa para ir embora e não via motivo em fazê-lo antes que ele despertasse. Aprendi que o tempo às vezes não importava quando se estava ao lado de alguém amado. Tempo era apenas mais uma incógnita, dentre tantas outras que o homem inventara. Sentei-me na poltrona ao lado da cama em que ele repousava e aguardei pacientemente. Odiava ter de ficar ali, em silêncio, com as nádegas contra o estofado duro, novo, apenas mexendo em meu tedioso celular, até que ele resolvesse despertar. Mas o que eu podia fazer? Afinal, havia ido até lá para ver William acordado.
Doía ter de vê-lo assim, tão frágil, em uma situação como aquela. Mesmo tendo passado os últimos meses indo ao hospital, não era algo com o qual queria me acostumar. Rejeitava o fato de que ele não estava saudável, como estava quando o conheci. E pensar que isso fora há tão pouco tempo...
Funguei alto ao reviver tais pensamentos – quando me dei conta, algumas lágrimas já ameaçavam escorrer por minhas bochechas rosadas. Eram boas lembranças, paradoxalmente tristes dadas as circunstâncias do momento. Se tivesse de eleger apenas um defeito para minhas visitas, seria o fato de que na maior parte das vezes eu chegava quando Will estava dormindo, e, ao esperar que ele acordasse, minha mente trabalhava ininterruptamente em reviver as memórias do que vivenciamos juntos – quase sempre isso terminava em choro.
- Mel. – sua voz entrecortou o silêncio agonizante dentro do quarto e cocei os olhos marejados para tentar disfarçar que estava à beira das lágrimas. Abri-lhe um sorriso amarelo ao deixar o celular de lado, olhando em seus olhos profundos.
- Boa tarde, Will. Dormiu bem? – indaguei de maneira doce, quase um hábito após certo tempo perguntando-lhe as mesmas coisas a cada um ou dois dias. Ele fez que sim com a cabeça e seus lábios se curvaram para cima. Não havia como fingir que eu estivera quase chorando e ele percebeu isso, provavelmente permanecendo quieto por estar estudando minha expressão no momento, pensando em suas próximas palavras.
- Ei, não precisa ficar triste. – disse, por fim, após alguns segundos.
- Eu não estou.
- Poupe-me, Mel. – revirou os olhos, tom de voz subindo um pouco – Não minta para mim.
- Eu só estava... – comecei uma tentativa de justificar as lágrimas, mas logo fui interrompida.
- Eu sei. Pensando em como tudo isso aconteceu.
Suspiramos ambos, a atmosfera do quarto 320 agora um pouco mais tensa. Sabíamos como aquilo provavelmente terminaria, mas custava a terminar. Tudo o que queria era que acabasse da forma mais rápida e menos dolorosa, pelo menos para ele. Para mim, seria doloroso de qualquer forma. Que pelo menos, então, não se estendesse muito.
-Trouxe flores para você. – apontei para o ramalhete na mesa, a cor de sol contrastando com as tonalidades pastéis do ambiente.
-Amarelas. – sorriu William – Minhas preferidas.
Notas finais
Obrigada!
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