Tudo Tem O Seu Tempo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Era uma quinta-feira e eu já estava voltando do trabalho quandoresolvi passar na minha mãe antes. Ao chegar lá notei que a minha mãe não estava. Procurei no quarto, na sala e encontrei ela desmaiada no chão da cozinha.
Sem pensar duas vezes eu peguei ela no colo e a levei direto para o hospital. Liguei para o meu pai e deu que o celular dele estava desligado.
Algumas horas depois ela foi transferida para o quarto e eu puder ir ver como a minha mãe estava.
Conversei com o médico e ele disse que minha mãe estava com a pressão muito baixa e por isso desmaiou. Ela teria que ficar alguns dias em observação e eu, lógico, ficaria junto dela.
Meu pai não foi visitar a gente nenhuma vez e eu já estava ficando com raiva disso. Depois de quatro dias sem ele ir visitá-la eu resolvi ir lá tirar satisfações com ele. Do hospital eu fui direto pra casa, mas ele não estava lá. Que burrice! A àquela hora ele deveria estar trabalhando. Fui para o trabalho dele, o encontrei atendendo uma senhora e esperei o meu pai terminar de atendê-la para ir falar com ele.
– Pai, por que o senhor não foi visitar a mamãe? – perguntei assim que a senhora foi embora
– O que? – ele pareceu confuso – Louis agora não.
– Agora sim! A minha mãe está lá no hospital e você não foi visitar ela nenhuma vez sequer!!
Eu comecei a fazer um escândalo desnecessário na loja e o chefe do meu pai o dispensou. Saímos da loja e ele me jogou para dentro do carro e começou a dirigir.
– Você sabe o tamanho da confusão que causou?! Eu posso ser demitido! – falou ele visivelmente irritado
– Foda-se o seu emprego, a minha mãe está em um hospital internada!
– Olha aqui moleque, a sua mãe tá doente então alguém naquela casa tem que trabalhar.
– Você é marido dela!
– Quer saber? Cansei. A sua mãe é uma vadia que engravidou de um riquinho que quando descobriu que ela estava grávida largou ela!
Eu fique sem reação ao ouvir aquilo. Só podia ser mentira! Ele parou o carro e me empurrou para fora. Estava nevando e eu corri para a casa da minha melhor amiga, Alice.
– O que aconteceu Louis?! – ela perguntou assim que me viu
– Eu... Alice... – eu contei pra ela o que eu acabara de descobrir pela boca do meu... Pela boca daquele homem
– Meu Deus, Louis... O que você vai fazer agora?
– Eu vou falar com a minha mãe. Perguntar se é verdade. E vou fazer isso agora! – disse me levantando
– Louis espera... – eu já havia saído
Cheguei no hospital e fui direto para o quarto dela
– Mãe.
– Oi filho...
– Mãe é verdade? O Carlos não é o meu pai biológico?
– Como você...
– Ele me disse. — a interrompi e perguntei novamente — É verdade?!
– Sim, é verdade filho...
– Quem... Quem é ele...? — perguntei inseguro
– Ele se chama Felipe...
– O que aconteceu?
Por um momento eu fiquei com medo daquilo tudo ser verdade, mas se fosse eu tinha que saber.
– Quando descobri que estava grávida.. ele me largou... – ela começou a contar a história, mas não conseguiu terminar.
Entrei em casa batendo a porta, estava com o rosto molhado e encontrei o meu pai... Meu padrasto na sala, mexendo no celular.
– Você sabe alguma coisa sobre ele? – perguntei assim que o vi
– Ele manteve contato sem que a sua mãe soubesse... Mas só por telefone.
Respondeu sem desviar o olhar
– Me passa.
– Você não vai gostar de...
– Me dá o número!
Ele anotou o número em um pedaço de papel e me entregou
– Eu avisei – disse me entregando o papel
Eu estava quase saindo quando ele me chamou
– Louis... Me desculpe.
Sai porta a fora e quando me dei conta estava na casa de Alice novamente. Quando terminei de contar ela estava sem palavras
– Alice... Eu preciso que você me empreste o seu celular. – naquela correria eu nem sabia mais onde estava o meu celular. Também não me importava
No quinto toque alguém atendeu
– Alô?
– Felipe?
– Sim, sou eu.
– Aqui é Louis, o seu filho. – ele não disse nada – Podemos conversar?
– É...
– Me passa o seu endereço.
Anotei a rua em um papel, o mesmo que estava o numero de telefone dele, e fui para o endereço indicado.
Cheguei lá e percebi que ele morava em uma mansão
Entrei e vi que a casa estava cheia de enfermeiros, pedi algumas informações e subi para o segundo andar.
– Sr. Felipe, o Louis está aqui. – falou o mordomo.
– Pode deixar... – falou com voz fraca e eu entrei no quarto – Olá filho...
– Não quero que me chame de filho... A não ser que você tenha uma ótima história pra me contar.
– Como você... Quando você soube...?
– Ontem. A minha mãe me contou depois que o meu p... O Carlos me contou. – ainda tenho que me acostumar com a ideia do Carlos não ser o meu pai biológico.
Mas foda-se, ele me criou e é o meu pai do mesmo jeito. Mais pai que esse cara ele com certeza é.
– A sua mãe... – ele pareceu se lembrar de alguma coisa – Como ela está?
Levei um susto quando ele perguntou por ela... Inevitavelmente eu me lembrei do que tinha acontecido com ela e tive que segurar as lágrimas.
– Ela... – as lágrimas começaram a rolar sem permissão pelo meu rosto. Eu comecei a chorar e, embora eu realmente não quisesse chorar na frente daquele homem, eu não conseguia parar as lágrimas – Ela teve uma... Uma arritmia cardíaca...
–Como... ? – ele havia ficado surpreso com essa noticia – O Carlos me disse que ela estava no hospital, mas ele não disse que era assim tão grave...
– Lógico que ele não disse, ele não sabia. Ele nem sequer foi visitar ela. Mas eu entendo ele... Se eu estivesse no lugar dele, também não iria querer visita-la, talvez por não querer vê-la morrer...
– Entendo...
– Não, você não entende. Você não a amava e deixou isso bem claro quando nos deixou. – eu olhei para ele ainda chorando e fiz a pergunta que estava presa na minha garganta desde que eu descobri a verdade – Por que você fez isso? Por que nos deixou?
– Louis eu... Você pode não acreditar, mas eu fiz isso para o bem dela... Eu a amava, e ainda amo na verdade.
– Então por quê?! Por que fez isso?
– Louis você já deve ter percebido, essa casa esta cheia de enfermeiros... Eu estou morrendo. – ele me olhou e eu não disse nada – Quando descobri que ela estava grávida foi no mesmo dia em que eu descobri que estava doente... Eu não queria que ela se apegasse a mim e depois sofresse então eu... Fugi. Eu a deixei e voltei para cá. Louis eu tenho uma doença desconhecida... E as únicas coisas que descobriram sobre ela foi que a doença se manifesta quando a pessoa chega aos trinta anos mais ou menos e que ela não tem cura. Pelo menos não por enquanto.
A enfermeira entrou e disse que ele precisava descansar, eu saí do quarto e fui dar uma olhada na mansão. Tinha um jardim enorme e cheio de flores lindas... Passei muito tempo admirando aquelas flores. Quando cheguei à sala eu percebi que havia um piano de cauda branco ali, caminhei até ele e levantei o pano que o cobria... Era lindo, eu realmente amava piano... Me perguntei se poderia tocar, olhei em volta e não havia ninguém então me sentei em frente ao piano e comecei a tocar algumas teclas... Comecei a tocar a música Fragmentos de Memórias, era a preferida da minha mãe...
“Ei, estou sentindo a ponta de seus dedos desaparecerem...
Ei, estou te vendo neste cenário...
Ando junto com você pela sua delicadeza...
Finjo saber que isso não pode ser eterno...
Ouço sua voz chamar meu nome
Ela termina dentro do meu peito
No outro lado da porta aberta
Ela transborda mas não desaparece...”
Parei quando vi que o meu pai estava me observando
– Desculpe...
– Não se desculpe, você canta muito bem. Você gosta de tocar?
– Gosto sim, a minha mãe sempre pedia para que eu tocasse para ela... Era a sua música favorita.
– É uma letra muito bonita... Você poderia continuar?
– Claro... — respondi meio envergonhado
"Ei, as palavras ditas naquela noite
Sabe, você as entendeu de qualquer modo...
Mesmo se o amanhã for igual à hoje
As coisas que eu acredito caminharão em silêncio...
Estou transbordando de coisas que quero te dizer
Eu quero fazer o tempo parar, nesse instante
Por causa das coisas que eu não quero que desapareçam
Eu continuarei a preencher calmamente cada página
Nesse mundo transitório, eu achei um fragmento de minhas memórias
A paisagem que você viu, enquanto olhava rapidamente para seus olhos...
Ouço sua voz chamar meu nome
Ela termina dentro do meu peito
No outro lado da porta aberta
Ela transborda mas não desaparece”
– É realmente uma música muito linda...
– Sim, foi ela que me ajudou a compor a letra...
Passei alguns dias com ele e ficamos bem próximos. Ele não era tão ruim quanto pensei e eu entendi o porquê de ele ter decidido nos deixar, no fim ele fez uma boa escolha.
Certo dia enquanto conversávamos no quarto dele eu percebi que Felipe estava com uma aparência mais cansada e parecia mais triste também... Ele tinha mandado trazer o piano para o quarto dele e eu tocava frequentemente quando ele pedia.
Sem que ele soubesse eu comecei a compor uma música e ela já estava pronta.
– Felip... Pai, se importa de eu tocar uma música que eu fiz recentemente?
Achei que ele estava dormindo mas ele logo abriu os olhos
– Nossa que surpresa Louis. Você nunca teve a iniciativa de tocar, só tocava quando eu pedia – disse ele sorrindo.
– Pois é, mas é que eu fiz uma nova música e eu gostaria que você ouvisse.
– Eu vou adorar...
Fui até o piano e comecei a me preparar. A música se chamava Smile
“Sorria, embora seu coração esteja doendo
Sorria, mesmo que esteja quebrado
Enquanto houver nuvens no céu
Você vai conseguir...
Se você sorrir
Através de sua dor e tristeza,
Sorria e talvez amanhã
Você verá o sol vir brilhar totalmente, para você
Ilumine seu rosto com alegria
Esconda qualquer traço de tristeza
Embora uma lágrima possa estar tão perto
Essa é a hora que você tem que continuar tentando
Sorria, qual é a utilidade do choro?
Você vai descobrir que a vida ainda vale a pena
Se você apenas sorrir.
Essa é a hora que você tem que continuar tentando
Sorria, qual é a utilidade do choro?
Você vai descobrir que a vida ainda vale a pena
Se você apenas sorrir.
Sorria, embora seu coração esteja doendo
Sorria, mesmo que esteja quebrado
Enquanto houver nuvens no céu
Você vai conseguir
Essa é a hora que você tem que continuar tentando
Sorria, qual é a utilidade do choro?
Você vai descobrir que a vida ainda vale a pena
Se você apenas sorrir.
Você vai descobrir que a vida ainda vale a pena
Se você apenas sorrir.
Sorria”
Quando terminei tinha um homem ao lado do meu pai e os dois estavam emocionados, mas só o meu pai chorava.
– Linda música – falou o médico – Muito prazer eu me chamo Luiz, sou o médico do seu pai.
– Eu me chamo Louis
– Foi você quem escreveu a letra? Ela é muito bonita.
– Pai?! – o meu Felipe estava tossindo e parecia pálido
Luiz chamou dois enfermeiros e começou a examina-lo, ele estava muito pálido e parecia estar sentindo muita dor.
– Com licença, você tem que se retirar agora. – falou uma das enfermeiras
– Mas ele é o meu pai!
– Por favor, é para o bem dele.
– Está bem...
Eu fiquei horas esperando até que o médico saísse para me dar noticias
– Louis.
– Como ele está? – perguntei nervoso
– Eu... Eu sinto muito. Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas a doença era desconhecida e ele não resistiu...
– Ele... Ele morreu... ?
Eu estava tremendo e começava a chorar, eu queria sair dali, fugir. Correr para um lugar desconhecido. Primeiro a minha mãe e agora o meu pai. E logo agora que eu estava começando a gostar dele, a me acostumar com a ideia de ter dois pais... Por que o tempo tem que nos tirar as pessoas que mais amamos? Lembro que quando eu era criança uma vez ela havia dito que tudo tem o seu tempo. Foi como se ela soubesse que iria morrer e tivesse se despedindo de mim... Na hora eu não tinha entendido, eu era muito pequeno, mas agora... Talvez ela já soubesse desde aquela época que iria morrer... Talvez ela sempre soube disso... Quando eu recebi a noticia da morte dela eu sofri muito, mas quando eu recebi a noticia da morte do meu pai... Eu sofri duas vezes. Eu cheguei aqui com muita raiva dele e não acreditei no que ele havia dito, agora eu me arrependo de não ter acreditado nele desde o inicio. Eu fiquei um mês aqui, mas só me aproximei mesmo dele nesses últimos dias, quando ele começou a puxar assunto. E justo quando eu estava me aproximando dele, ele morre. É como se o Destino estivesse tirando todas as pessoas que eu amo. Eu cheguei a pensar se a próxima pessoa que eu perderia não seria Alice, peguei o celular e liguei para ela.
– Alice...
– Louis? Você esta chorando? O que aconteceu?
– Alice, tem como você... Vir pra cá?
– Onde você esta? Eu estou indo agora mesmo!
Uma hora depois ela chegou. Eu não estava mais chorando, mas quando ela chegou e me abraçou eu comecei a chorar novamente e ela acabou me acompanhando. Eu contei pra ela tudo o que tinha acontecido e disse que se eu a perdesse também eu não iria aguentar e era capaz de me matar. Ela ficou brava e começou a me dar um sermão por eu falar aquilo. A gente subiu e eu a levei até o quarto de meu pai, ele estava coberto por um pano branco...
– Ele morreu logo depois de eu tocar o piano...
– Eu sinto muito Louis...
Pode parecer uma frase comum e sem emoção, mas ela realmente sentia muito. Eu conheço Alice desde o ensino médio e nós sempre compartilhávamos os momentos tristes e felizes... Ela sabia como eu estava me sentindo e era uma pessoa com quem eu podia dividir a minha dor... O enterro foi no mesmo dia que o da minha mãe e no mesmo cemitério, quando o enterro chegou ao fim um advogado veio falar comigo e disse que o meu pai havia me deixado a mansão de herança. Eu me mudei para lá e chamei Alice para passar as primeiras semanas comigo, não queria ficar sozinho. Não queria me lembrar do que havia acontecido naqueles últimos dias...
Já se passaram quinze anos desde a morte de meu pai e hoje eu tenho trinta e seis anos. Descobri que tenho a mesma doença que o meu pai, ela ainda é desconhecida. Contratei o Dr. Luiz para cuidar de mim e ele disse que durante esses anos fez algumas pesquisas e descobriu que eu teria mais ou menos cinco ou seis anos até... Enfim, vocês já entenderam.
Hoje eu já não culpo mais o destino pela morte de meus pais e também aprendi que tudo tem o seu tempo. O homem nasce, cresce, vive, e morre. E é assim com todos os seres vivos. Decidi viver cada dia como se fosse o último, porque mesmo com essa nova descoberta, eu ainda achava que poderia morrer a qualquer momento.
– Alice... -chamei com a voz mais fraca do que imaginei
– Que foi Louis? — perguntou preocupada
– Eu quero tocar...
Não consegui terminar a frase, mas ela compreendeu o que eu queria e me ajudou a chegar no piano que ainda estava no quarto.
Aline e eu continuamos ali naquela casa, mesmo depois da morte de Felipe. O meu pai, Carlos, não quis vir e eu respeitei sua decisão.
Aline uma vez se declarou, mas eu, apesar de retribuir o sentimento, não conseguiria imaginar ela sofrer depois que eu partisse.
Ouvi ela chamar os enfermeiros e depois fui colocado de volta na cama.
Toquei seu rosto e, com o pouco de forças que me restava, sussurrei um "Eu te Amo".
Lentamente eu fui fechando os olhos, pude sentir suas lágrimas molhando minha mão e depois seus lábios tocando os meus. Fui perdendo a consciência aos poucos e a última coisa que ouvi foi o meu nome sendo chamado por sua voz.
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