Tudo Novo de Novo
8 Capítulo 8 - Amar não é tão fácil
Notas iniciais
[Oblivion — Bastille]
Gina perdera o sono. Depois de acordar antes mesmo de o sol raiar, ficou rolando na cama por uns bons vinte minutos, antes de desistir a voltar a dormir. Desceu da cama, tentando fazer o menor barulho possível para não acordar Juliana. Colocou os chinelos felpudos que a amiga lhe dera e desceu as escadas, enrolada em uma manta. Andou até a cozinha, e abriu a porta, indo em direção ao riacho. A brisa gélida da madrugada penetrava pela manta, provocando leves arrepios na garota. Seguiu em direção a uma grande rocha, que ficava na beira do rio, aonde sempre ia quando queria ficar sozinha.
Ela não parava de lembrar-se do sonho que tivera. Sonho não, pesadelo. As palavras de menosprezo da recém-chegada, falando o quanto Gina era incapaz, o quanto ela inferior. Sacudiu a cabeça, afastando as lágrimas. Parecia tão real. Tão verídico. Gina não queria ser inferior. Na realidade ela nunca havia pensado em ter uma educação como a de Ferdinando, na capital, e fazer faculdade. E, mesmo o pai sendo dono de uma grande fazenda, não queria gastar o dinheiro dele com isso. Principalmente porque não tinha certeza do que queria, e ela odiava se sentir sem saber o que fazer. Odiava ter dúvidas sobre o próprio futuro. Por isso sempre fora tão metódica. Ela apertou os braços.
Por mais sólido que pudesse parecer, e por mais se sentisse brava com Aisha, ela sabia que a garota nunca diria coisas assim. Até o momento ela fora extremamente cortês e simpática, pronta para ajudar. E esse foi um dos principais motivos pelos quais ela veio. Não ia ficar brava com ela, ao menos, não por esse motivo.
Tirou os chinelos, e molhou os pés na beira do rio. A água era fria, mais ainda que o ar a sua volta. Os peixinhos passavam entre seus dedos, fazendo cócegas. Ela riu. Eles iam e vinham, sem se preocupar. Sem obrigações. Sem medo. A vida de um peixe parecia tão mais fácil. Não precisava pensar em educação, pessoas com más intenções, em esconder seus sentimentos, sofrer, amar... Amar... Mas ela mesma não sabia o que era amar...
Seu devaneio foi interrompido por um aroma de café recém preparado. Balançou os pés, tentando retirar o excesso da água, antes de coloca-los novamente nos chinelinhos felpudos.
Ao se aproximar da cozinha notou uma movimentação estanha. Estranha exatamente por não haver movimentação. Sua mãe sempre andava de um lado a outro, preparando a comida para o café da manhã. Mas tudo estava calmo e, agora que reparava, estava cedo demais para ela ter acordado.
Assim que entrou, preferia não o ter feito. Aisha estava sentada na mesa, lendo um livro e tomando uma xícara de café, usando um vestido rosa claro, de mangas longas.
– Bom dia, Gina – disse, levantando os olhos do livro – Achei que todos estavam dormindo ainda.
– Dia – cumprimentou seca.
– Eu fiz café, se você quiser.
Gina não iria aceitar se não fosse pelo grande ronco vindo do seu estômago, se pronunciando perante o cheiro. Mesmo a contragosto, pegou uma caneca e colocou um pouco de café, completando o resto com o leite que Aisha também havia fervido.
Ela se sentou de frente para a garota. O livro era mais grosso do que os que Juliana geralmente lia. Aisha parecia bastante focada, passando o indicador pelas linhas enquanto seguia com os olhos. Ela fazia isso rápido... E tinha acabado de acordar...
– Ocê acorda cedo... – Ela comentou
– Sim... Me acostumei. Eu gosto do silêncio que essa hora tem... Apesar de que por aqui, é sempre bastante silencioso – ela respondeu sorrindo, ligeiramente surpresa por Gina ter lhe dirigido a palavra.
– O Ferdinando falava isso também, mai ele ficava no quarto dele – não pode deixar de notar a semelhança entre os dois.
– Quando eu ainda morava na república ele que me acordava.
– Ele entrava no seu quarto?! – perguntou Gina, incrédula.
– Ora, qual o problema? Ele só me acordava...
– Ieu acho isso um descaramento!
– Gina... Isso é normal! Só porque ele entrou no meu quarto não significa que... Bom... Não significa nada!
– Pois ieu acho que sim.
– Ele me disse que por aqui as coisas são mais conservadoras.
– Como assim?
– Nada não... Deixa pra lá. Mas me diga Gina... Do jeito que você fala, aparentemente, você nunca namorou, certo?
– Certo – disse com descaso, tomando seu café.
– Então você nunca beijou ninguém?
As bochechas de Gina enrubesceram. Não diria a uma estranha o que havia acontecido. Jamais.
– Não... Ieu nunca beijei ninguém
– E nunca se apaixonou?
– Porque tudo essas pergunta? – ela se irritou, batendo a caneca na mesa.
– Nada Gina... Só quero conhecer você melhor. E você é tão bonita... Duvido que não tenha ninguém interessado...
– Se tiver tá perdendo o tempo dele, porque ieu num ligo pra isso!
Aisha entendeu o recado. Era melhor ficar quieta. Voltou sua atenção para o livro novamente.
– Isso que ocê tá lendo... É pr’aquele trabaio da facurdade?
– Mais ou menos... Vai ajudar, mas não é obrigatório. Eu leio porque eu gosto. Você gosta de ler, Gina?
– Prefiro trabaiá na roça...
– Você nunca pensou em estudar sério?
– E ir pra facurdade que nem ocê e o Ferdinando? Bão... Não muito...
– E por que não? Você poderia fazer agronomia, como o Nando... Ele adorava.. Os olhinhos brilhavam quando ele chegava na república e falava das aulas que tivera – ela riu, lembrando.
– Oia, ieu num quero me formar pra ficar uma metida que nem ocês dois! – começou, antes que seu pesadelo pudesse se tornar realidade. Lembrava nitidamente das palavras que Aisha usara para descreve-la e não ia passar por isso de novo.
– Você me acha metida?!
– Acho! E ieu não preciso de um diproma pra ser importante que nem ocê! Ieu posso fazer muita coisa sem nunca ter tido essa educação que ocê tanto se gaba!
– Mas quem tá falando disso? Gina... Eu não estou te entendendo.
– Ocê é muito cheia de si! – Gina já estava se descontrolando, empurrando a cadeira para trás ao se levantar.
– Gina! O que é que você tem? – Aisha não estava entendendo a repentina mudança de comportamento da ruiva.
Antes que elas pudessem se entender, dona Tê adentrou na cozinha.
– Bom dia pr’ocês! Oiá... Esse café parece que tá bão mermo! ... Ocês tem arguma coisa? – perguntou vendo que as duas não tiravam os olhos uma da outra.
– Não mãe... Tá tudo bem.
– É isso mesmo, dona Tê.
**
[ Corrido da Madame Epa — Tim Rescala]
– Bom dia, querida Catarina! Bom dia, Pituquinha!
– Ara, arguém tá de bom humor hoje... – disse Catarina, sorrindo, imaginando o motivo pela alegria do enteado.
– Meu pai está? – ele precisava saber antes de dizer qualquer coisa.
– Ele tá no escritório tentando resorve aquele pobrema da candidatura dele.
– Pois então eu vou lhe contar Catarina... A Gina voltou a falar comigo! – revelou, com um sorriso que tomava conta de toda a face do rapaz.
– Vorto?! Intão aquilo que ocê lembrou ontem tava certo?
– Tava!
– Intão ocê vai casar com a Gina? – perguntou Pituca, ingenuamente.
– Ainda não – riu Ferdinando – Eu tenho que fazer ela descobrir que gosta de mim.
– Mai e se ela não gostar?
– Ela gosta... Ela provou que gosta – sorriu.
E de fato, ela havia. Só por ter voltado a falar com ele, ficar abalada quando falara da tal “promessa” (que na realidade não era promessa alguma) e se irritar quando viu Aisha e ele dançando juntos eram sinais suficientes de que a ruiva pudesse ter ao menos uma inclinação afetiva por ele. E isso já era mais do que o bastante para fazer Ferdinando persistir.
Catarina ficava radiante em ver a alegria do enteado. Apenas ficava preocupada pela reação que o pai dele, e seu marido, poderia ter a respeito dessa relação com a garota que todos chamavam de mulher-homem. Mas se era isso que iria trazer aquele brilho no olhar de Ferdinando todos os dias, aquele sorriso contagiante, então valeria a pena.
Pituca gostava muito de passar qualquer tempinho que fosse com o irmão. Sentira muita falta quando ele estava na capital. Apesar de já ter recuperado o tempo perdido, não se cansava de estar com ele, mas também adorava brincar com o amigo Serelepe. Estava tão feliz quanto a mãe por ver o irmão apaixonado daquele jeito. Ela gostava de Gina, ao menos, o que ela conhecia e já ouvira falar da garota. Seria legal ter uma irmã como ela.
Quando acabou de comer, a garota saiu discretamente enquanto a mãe e o irmão conversavam, sem deixar ser notada por ninguém.
– Catarina, ocê disse que meu pai ta ressorvendo uns problemas da candidatura... Que tipo de problema?
– Ieu num sei se intendi direito... Ele falou arguma coisa sobre dereito trabalhista... Que tavam falando que ele num ia ser candidato direito se continuasse as coisa como tá...
– Trabalhista? Aposto que é sobre as carteiras de trabalho que ele nunca deu!
– Ieu acho que sim...
– Até que enfim! Há anos falo pro meu pai contratar direito essa gente... Mas ele não me escuta!
– Mai Nando... Se ele quiser se eleger, vai precisa de arguem pra ajuda ele...
– Como assim?
– Ieu to falando de um adevogado! Ele precisa se defender direito dessa gente que tá contra ele!
– Não se preocupe... Sei exatamente quem pode ajudar... – sorriu, concentrando os olhos azuis nos dela.
Amância entrou na sala, pedindo licença.
– Doutô Nando, o Marimbondo, que trabaia pro seu Pedro Farcão disse que ele quer falar com sinhor.
– Comigo? A respeito do que?
– Ieu num sei, mai ele disse que era urgente. Pediu pr’ ocê encontra ele perto das plantação de café la na fazenda dele.
– Na plantação? – os olhos se abriram, ele ficou realmente preocupado. Não podia brincar com uma coisa tão séria quanto isso – Eu vou pra lá agora mesmo.
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[Cidade Sitiada — Tim Rescala]
– E então, fio?
– Não vou mentir, seu Pedro, a situação não é das melhores. Está vendo essas manchas amareladas aqui nas folhas? É sinal de praga. Se não for tratado logo, o senhor pode perder toda a safra, e ainda tem o risco de se espalhar para as outras plantas.
– E como ieu trato disso?! – perguntou, preocupado. Ele bem sabia tratar algumas pragas do seu jeito, com um veneno caseiro, mas já que tinha a oportunidade de falar com o um engenheiro agrônomo, para que desperdiçar?
– Bom, muitas pragas tem características bastante parecidas. Ieu posso levar umas amostras das folhas pr’aquele laboratório nas Antas. Com o resultado, a gente vai saber direitinho com o que tamo lidando, e vamo saber a melhor forma de tratar as plantas e a terra.
– E que mar lhe pergunte... Quanto tudo isso vai me custar?
– Seu Pedro – Ferdinando riu – O senhor foi o primeiro, e o único, que confiou em mim pra cuidar das suas terras. Além disso, ainda me deu casa e comida, quando meu me expulsou de casa. Eu não posso cobrar nada do senhor.
E de fato, seria imoral pedir algum tipo de pagamento. Pedro havia esquecido o orgulho e aceitado o rapaz, mesmo ele sendo filho de seu inimigo, na época. Ferdinando não podia pedir qualquer remuneração. Ao menos, não material.
– Aliás... Já que o senhor perguntou meu preço, eu só quero uma coisa...
– O que?
– Saber por onde anda sua filha – ele sorriu, com o canto dos lábios, e os olhos brilhantes.
– Ela tá cuidando dos milho – ele riu de volta.
– Pois então é pra lá que ieu vou!
– Ela ta trabaiando com o Vira – alertou – Num vai faze tempestade em copo d’água.
– Não se preocupe, seu Pedro. Ieu só vou contar a novidade... Que ieu vo vorta a trabalhar aqui.
– Bem vindo de vorta fio – ele sorriu, fraternalmente.
Ferdinando agradeceu com a cabeça. Andou rápido por entre a plantação conhecida até o milharal onde a ruiva estava. Não se importaria com a presença do violeiro, com a rabugice dela, com nada. Ele agora tinha a certeza que ela correspondia aos seus sentimentos. E o fato de ele voltar a trabalhar na fazenda, e ficar todos os dias ao seu lado, melhorava cada vez mais a situação, apesar de ele não voltar a morar na mesma casa. Parecia que o destino estava finalmente colaborando. Os pássaros voavam ao ver o rapaz se aproximando, sorrindo, quase voando como eles, correndo pela terra úmida de braços abertos. A alegria que sentia era imensa. Ao menos, por enquanto.
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[Head Honcho — Devotchka]
– Gosta!
– Não gosto!
– Gosta!
– Não!
– Claro que sim! Ara Gina, vai... Confessa!
– Confessar o que Vira?! – ela já estava irritada com o amigo que não parava de provoca-la.
– Que ocê tá de asa caída pelo Ferdinando!
– Ieu num tô coisa nenhuma por aquele engenheirinho!
– Tá bão... Tá bão... Mas se ocê num gosta dele, saiba que ele gosta d’ocê.
– Para de bestage, Vira!
– Num é bestage! Ocê num ouviu que ele disse que queria te faze primeira dama das Anta?!
– Ele tava se fazendo de engraçadinho! – disse brava, voltando a se abaixar para afofar a terra como Ferdinando havia ensinado – E despois, ocê mermo viu ele dançando com a Aisha – ela pronunciou o nome como se fosse uma maldição.
– Mai eles num são amigos? Ela merma me disse que nunca se apaixonou.
– São... – ela parou – E ela te disse isso a troco de que? — perguntou, maliciosa.
– Não é nada disso que ocê ta pensando! – avisou – Ela só tava sendo gentir quando ieu tava chateado por causa da Milita.
– Ieu num sei como ocês consegue gostar daquela uma – disse Gina, inconformada – Ocê, a Juliana, o pai, a mãe...
– O Ferdinando – provocou — Ocê tá é morrendo de ciúme!
– Ciúme é teu nariz!
Viramundo ria alto pela braveza da amiga, cujo rosto, agora, começava a ficar vermelho, começando pelas bochechas e se espalhando pelo resto do rosto. Gina pegou um punhado de terra, compactou com as mãos e jogou em Vira, da mesma forma que ela fazia com o pai, quando ela era criança e queria se esquivar de algum assunto (geralmente sobre a escola, quando assustava algum coleguinha ameaçadoramente).
O amigo fora pego desprevenido. Não ia deixar barato. Revidou o golpe do mesmo modo, acertando ela no braço. Em poucos instantes estavam rindo como dois garotinhos, dois irmãos. E, afinal, era isso que sentiam um pelo outro. Uma amizade tão grande que o sentimento chegava a ser fraternal. Ela era a irmãzinha e ele o mais velho.
Os dois estavam enlameados, com as mãos mais sujas que de costume. A brincadeira tomou os pensamentos dos dois, que nem mais se lembravam de quem havia começado, e porque o havia feito. Braços, pernas, cabelos, nada era poupado pelo adversário. Estavam se divertindo tanto que nem notaram a presença de uma terceira pessoa vendo a cena boquiaberto.
O som de um pigarro fez o casal parar o que estavam fazendo. Gina ainda estava com terra nas mãos quando se virou para o lado do barulho. Surpreendeu-se ao ver a figura do engenheiro, razão inicial para a brincadeira, lembrava-se agora.
– Ferdinando? Que que ocê tá fazendo aqui?!
– Cadê a Aisha? – perguntou, com a voz tremida.
– Ela tá lá na casa, fazendo o trabaio dela – respondeu Viramundo.
– Com licença – disse o outro, andando rápido na direção contrária a que viera.
Gina e Viramundo apenas se entreolharam e voltaram ao trabalho que havia sido interrompido. “É hoje que ele me mata” pensou Vira, rindo sozinho.
**
[Nothing — The Script]
Seus olhos podiam ser confundidos com um mar revolto, tanto pela pureza do azul, quanto pela quantidade de água, igualmente salgada e amarga. Ferdinando estava com raiva de ter pensado que Gina podia ter, finalmente, se apaixonado por ele. Por que tinha que ser tão difícil. E por que ela, Deus?
Não queria falar com Aisha, apenas dissera aquilo para se esquivar. Também não queria falar com Catarina. Não queria falar com ninguém. Queria ficar sozinho. Foi em direção ao trigal.
Os ramos dourados, chicoteando uns nos outros o acalmavam de uma maneira inexplicável. Respirou fundo, limpando as lágrimas de raiva do rosto com os dedos. Precisava de uma bebida.
...
– Bom dia, Milita.
– Bom dia, doutô Nando.
– Ocê me vê uma dose, por favor – pediu, com a voz cansada, sentando-se em frente ao balcão.
– O doutô parece mal – ela notou, colocando um pequeno copo em frente ao engenheiro e enchendo-o com cachaça.
– Ocê nem faz ideia, minha cara.
Ele pegou a bebida e virou de uma vez. O líquido desceu pela garganta queimando. O gosto era amargo. Era como ele se sentia. Pegando fogo... Amargo...
Apertou os olhos ao sentir aquele gosto. Voltou o copo ao balcão e negou quando a garota ofereceu outra dose.
Admirava a madeirado balcão, lembrando-se da cena que teimava em se repetir incessantemente na cabeça. Ferdinando sentiu uma mão em suas costas.
– Bom dia, meu amigo.
– Olá Renato.
– Você parece péssimo!
– Eu estou péssimo – respondeu, massageando as pálpebras fechadas em movimentos circulares.
– O que houve? – perguntou, preocupado.
– Você não deveria estar no posto? – notou o engenheiro.
– Eu vim buscar algumas coisas que a Mãe Benta pediu... Milita – chamou – Eu preciso de três pedaços de gengibre e dois limões.
– É pra já, doutô.
– Mas me diga Nando... É a Gina?
– E tem outro motivo que me deixa nessa situação?
– O que foi agora? – o médico sorriu, amigavelmente.
– Quando ieu finalmente acho que estou indo pelo caminho certo, tudo dá errado! – suspirou – Ieu vi ela e o Viramundo juntos na lida.
– Juntos?! – Milita havia voltado, e estava tão atônita quanto Renato.
– Bom... Não juntos... – ele se explicou – Eles estavam rindo... Pereciam muito próximos... Mais que amigos...
– Ora, Ferdinando... Pare com esse ciúme! Ela só estava trabalhando! – riu o médico.
– Ieu num acho – disse Milita, com olhos baixos – O Vira me disse que não queria mai nada com eu... Deve de tá apaixonado por ela.
Ferdinando abriu ainda mais os olhos. Se ajeitou no banco para ter certeza de que havia escutado corretamente. Se o violeiro não estava mais comprometido com a italianinha, significava que não a amava mais, o que podia dizer que estava interessado por outra.
– Mas isso a estar apaixonado é um grande passo! – dizia Renato, cético à repentina mudança de sentimentos do outro. Milita se afastou novamente.
– Ela tá certa... – Ferdinando estava com o olhar perdido.
– Nando – chamou Renato – Você não disse que ela tinha ficado chateada por você não cumprir o que prometeu? Quer um sinal mais claro do que esse!
– Mas...
– Mas nada! A Juliana mesmo diz que eles são apenas bons amigos! O primeiro passo para se conquistar uma dama, é confiar nela. Deixe ela ter o espaço que precisa, e vá chegando aos poucos. Não adianta tentar se jogar, que não vai dar certo.
– Ocê tem razão... – disse por fim Ferdinando, um pouco mais seguro – Pelo visto ocê tá sabendo bastante coisa de como funciona o pensamento feminino, não?!
– Bom... – ele enrubesceu.
– Ieu soube que a Aisha cuidou muito bem d’ocê – sorriu.
– E ela daria uma ótima médica se quisesse.
– Ocê num me diga isso perto dela... Ela fica brava que só vendo... Mas fico contente de ver vocês dois se dando tão bem!
– Aquela garota é um anjo... Eu acho que estou realmente apaixonado, meu amigo – confessou, com os olhos brilhando e o sorriso estampado no rosto.
– Pois então, te desejo boa sorte! Não vai ser difícil pra você, conquistava qualquer uma que queria, não é mesmo?
– Mas ela é diferente, e você sabe! Afinal... Porque ela é tão marrenta assim?
– Acho melhor você perguntar isso a ela. Não cabe a mim responder. Acho que temos um gosto parecido, não é? – brincou.
– Tá tudo aqui, doutô Renato.
– Obrigado, Milita. Bom, agora eu vou voltar para o meu posto.
– E eu vou prometi ajudar meu pai com a campanha dele... Acho que vamos para as Antas de novo...
Despediram-se da garota, e tomaram seus caminhos, Ferdinando acompanhou o amigo até a bifurcação, onde rumou para sua casa. Teria muito que ajudar o pai. E, em breve, precisaria de uma ajuda profissional.
**
[Cabelo de Fogo — Gabriel Sater]
Já era noite. A lua, quase cheia, brilhava no céu, iluminando a vila de Santa Fé. No andar de cima da venda, Milita se observava no espelho. Passava as pontas dos dedos pelo pescoço, sob os olhos, pelas sardas que se espalhavam em suas bochechas, pelo cabelo ruivo que se desprendia do coque, e caia por sobre os ombros dela. No passado, àquelas horas, estaria ouvindo Viramundo tocando alguma moda para ela, perto do riacho, observando as estrelas.
Ela saiu para a sacada. A lua estava bem acima da igreja, que ficava a sua frente. A lua que observava com o amado. Como uma mesma lua podia trazer tanta alegria e tristeza ao mesmo tempo? Não podia ser a mesma lua.
Afinal, não era. E a melhor forma de explicar isso era o amor de Vira. Ainda era uma ruiva, mas não era ela. Ainda era uma caipira, mas não era ela.
– Tudo isso é culpa sua, papa – resmungou, baixinho.
De fato, se Viramundo estava morando na casa dos Falcão, era por culpa de Giácomo que vivia brigando com ele. E porque toda essa bronca? Porque ele não era bem sucedido e estudado como doutor Renato? Não era rico como Ferdinando? Mas nenhum deles a faria feliz... Apenas Vira... Apenas o violeiro. Não importava o futuro, ela queria o presente... E queria já.
Mas agora isso não fazia diferença. O pai havia conseguido afinal. O amor havia acabado como uma musica que chegava ao fim, suave e passageira. Uma lágrima escorreu pela bochecha da garota, que a limpou com as costas da mão. Não podia fazer mais nada. Já tentara argumentar, mas não obtivera resultados. Infelizmente, acabou, bem como aquele dia. Ela se virou para o quarto e fechou a janela.
Do lado de fora, escondido sob o capim da ribanceira, Viramundo observava a amada em segredo. Não queria fazê-la sofrer ainda mais no futuro, por isso decidiu terminar tudo. Mas uma coisa não era tão simples de apagar: o amor que sentia por ela. Sim. Amor. Somente a visão da italiana já fazia o coração bater em descompasso, acelerado, mas ao mesmo tempo, trazia um sentimento de calma em seu peito, sentimento que só ela transmitia.
Ele sonhava com o cheiro do perfume dela novamente. Com o som da sua voz sussurrando seu nome. Com seus lábios nos seus...
– Ara... Se ieu pudesse ficar do seu lado pra sempre, meu amor...
Mas ele não podia. Não se quisesse poupá-la de um futuro incerto.
– Ocê é que queima meu coração, com esse seu olhar... Com esse cabelo... – declarou solitário – Até que isso dá música – ele pensou.
A viola não estava ali no momento, não queria se denunciar. Levantou do mato, sem fazer barulho e voltou para casa, dando uma última olhada em sua dama de cabelos de fogo.
**
[Gina — Tim Rescala]
– Gina?
– Hm... – ela grunhiu.
– Tá acordada?
– Agora tô, né.
– Não sei como você consegue dormir tão fácil...
– Quer que ieu te mostre?
– Engraçadinha.
Gina se virou na cama para ficar de frente para a amiga. Era comum uma acordar a outra no meio da noite para conversar, desabafar... Quem imaginaria que elas ficariam tão próximas? No começo, Gina não gostava de Juliana, e a professora tinha certo medo da outra. Hoje, as duas pareciam irmãs.
– Eu não vi a Aisha hoje...
– Ela ficou no quarto dela trabaiando... Mai tamém num feiz farta.
– Você não brigou com ela, não é Gina?
– Craro que não!
– Certeza?
– Ocê me acordou pra ficar me amolando por causa da Aisha? – perguntou Gina, irritada.
– Não... É que eu não consigo dormir!
– Ieu consigo...
– Gina!
– Brincadeira – ela riu baixo – Mai porque ocê tá sem sono?
– Porque amanhã é sábado! – ela disse animada, com o tom de voz baixo, como se fosse a resposta mais óbvia – Eu vou ver o Zelão – explicou, diante do silêncio da outra.
– Ah – ela lembrou-se – Ocê disse que ele vai ler pr’ocê...
– Sim... E ainda vai ser Peter Pan!
– Pé de que?
– Peter Pan – ela repetiu – Conta a história de um menino que não quer crescer. Tem fadas, piratas, índios... É minha favorita!
– Parece de criança...
– Mas é de criança... Por isso é tão legal!
– Ocê mar pode esperar não é? – ela ficava contente em ver a amiga daquela maneira.
– Não – ela confessou, sorrindo para o teto – E ele nem foi me ver hoje... Achei que ele fosse me acompanhar de volta da escola, como ele fez a semana toda...
– Ele deve de ter ido com o coroné.
– Como assim?
– O pai disse que ele foi pras Anta cuidar da candidatura... O Ferdinando foi junto – ela completou – Ocê sabia que ele vai vorta a trabaia aqui?
– Trabalhar? Com o que?
– O pai disse que tá tendo umas praga nas árvore de café... Se o Ferdinando fizer o que fez no resto das terra vai ficá tudo bem.
– Gina... O que você sente pelo Nando? Seja sincera.
– Ieu num sei. Eu gosto dele... Mai ieu num acho que é do jeito que ele diz gostar d’eu. E ieu tamém não gosto quando ele fica de conversa com a Aisha. Pode inté ser ciúme como ocê diz... Mai que ieu num gosto, num gosto...
– E pelo Vira?
– Ai, num começa Juliana! Já disse que ele é só um amigo!
– Então porque você não acredita quando o Nando diz que a Aisha é só uma amiga? – ela provocou.
– Ieu num sei...
– Você já pensou que o Nando pode sentir o mesmo quando vê você com o Vira?
– Mai é diferente! A Aisha é estudada, morou com ele... Conhece mai do que ieu...
– E você trabalha com o Vira todo dia, ele te chama de “Flor”, te ensinou a cantar... – Juliana tinha ótimos argumentos.
– Mai é diferente!
– Diferente como?
– Diferente diferente! E vamo dormir?
– Vamos – ela revirou os olhos – Boa noite, Gina.
– Bas noite, Juliana.
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