Tudo Novo de Novo
6 Capítulo 6 - Certezas
Notas iniciais
[Such a Lovely Thing — Devotchka]
– Ai ela disse que não ia ficar esperando por mim, e bateu a porta na minha cara! — lembrava-se Renato, nervoso.
– Ara, mas esse é o jeito dela — respondeu Ferdinando, achando graça.
– Mas não tem cabimento uma coisa dessas! Já diria Machado de Assis: "Porque bela, se independente?"
– Não acho que ele tenha dito isso — disse, gargalhando.
– Licença poética Ferdinando!
– Tudo bem... Mas olhe, se ocê tá gostando dela como diz, vai ter que maneirar.
– Maneirar como? — perguntou, desentendido.
– Como ocê percebeu, a Aisha não gosta que peguem no pé dela...
– Isso eu notei...
– Pois então. Chegue devagar. Com calma. Mostre pra ela que ocê não quer dominar.
– E como raios eu faço isso? — Renato andava de um lado ao outro no consultório.
– Pra começar, vá com ela nas entrevistas! Melhor, esteja lá quando ela chegar. Não ofereça ajuda, só a sua presença já vai ser suficiente — ele piscou.
– Você fala como se fosse fácil!
– Mais fácil do que conquistar a Gina eu garanto que é!
– E afinal, como vão as coisas, meu amigo?
Mas, antes que o engenheiro pudesse responder, uma senhora entrou no consultório.
– Oi pr'ocês!
– Olá Mãe Benta! — cumprimentou Nando, beijando a mão dela, ao que ela fez o sinal da cruz, abençoando o garoto.
– Ieu to atrapaiando? — ela perguntou, constrangida.
– Claro que não! Aliás, eu já estava de saída. Só mais uma coisa, Renato — Ferdinando cochichou — Antes de tudo, tenha certeza do que está sentindo!
– Pode deixar — o médico sorriu.
– Então até depois. Até, Mãe Benta — e saiu.
– Inté, meu fio!
Foi até boa a chegada de Mãe Benta. Nando preferia falar sobre Gina primeiramente, acima de tudo, com a madrasta. Catarina estivera ocupada pela manhã, conversando com o coronel; como ele estava cuidando da própria candidatura, ia quase todos os dias para a Cidade das Antas, o que facilitava as coisas para Ferdinando.
Essa era a hora que os trabalhadores voltavam ao serviço: lavoura, vendas, sapataria... O barulho natural da vila retornava e Nando sorria, constatando o quanto gostava daquele lugar e o quão sofrido fora ficar longe por tanto tempo.
**
[Corrido da Madame Epa — Tim Rescala]
As tardes na casa grande nunca foram silenciosas, o não havia motivos para aquela tarde ser diferente. Depois de brincar nos trilhos desativados da ferrovia, perambular pela vila e correr pelas plantações, Pituca, Serelepe e Tuim entraram na cozinha em busca de algo para recompor as energias.
Madame Catarina havia previsto tal acontecimento e já havia pedido para Amância preparar um de seus deliciosos bolos, juntamente com sanduíches e biscoitos coloridos. E de fato, os pequenos estavam devorando tudo com muito gosto quando a dona entrou na cozinha:
– Meus queridos, sossegaram finarmente? — ela sorria e depositava beijos na cabeça das crianças, e um particularmente longo na filha, sempre com muito barulho pelos adornos.
– Nóis só viemo fazer uma parada — disse Pituca, engolindo um pedaço de biscoito.
– Tá certo, tá certo — ela ria — E como ocê tá, Tuim?
– To bem, Madama Catarina.
– E a mãe?
– Também... Vai miorando cada dia.
– Que bão orvi isso meu querido. E Lepe — ela mudou de assunto — A Pituca disse que ocê pegou um livro pro Zelão.
– É pra ajudar ele a aprender mais rápido. Um dia na escola a perfessora Juliana falou que quanto mais a gente lê, mais a gente aprende.
– E ocê tá me saindo um ótimo perfessor!
– Bão, ele quer escrivinhar a carta de amor dele, intão to tentando ensiná ele rápido.
– Carta de amor?! — os olhos de Catarina brilhavam. Ela adorava ouvir sobre pessoas apaixonadas. Em outra vida, ela poderia ter sido a própria Afrodite.
– É. Ele quer escrivinhá uma carta de amor pra perfessora! — disse o garoto, animado — Mai, por favor, não conte a ninguém! — não era segredo nenhum que Zelão era encantado por Juliana, mas ainda assim, sentia que aquilo não devia ser espalhado.
– Craro que não! — jurou Catarina, dando pulinhos de excitação, parecendo mais uma criança em meio a eles.
Rosinha, que estivera quieta até o momento, não aguentou de ciúme:
– Ieu num sei o que ele viu nessa tar perfessora!
– Ara, Rosinha, a gente num escolhe por quem a gente se apaixona — explicou Catarina.
– O que ela tem que ieu não tenho?! E despois, ele nem conhece aquela uma dereito.
– Mai a gente não precisa conhecer. As veiz só de oiá, já sabemo o quanto gostamo da pessoa...
– Eu que o diga — disse Ferdinando, entrando na cozinha; deu um beijo em Pituca, cumprimentou os garotos e corrigiu — Ou melhor, o Renato que o diga — riu.
– Como assim? — perguntou Catarina se aproximando, sorrindo de canto.
– Não é nada — ainda ria — Será que ieu posso... Falar com ocê?
Ela conhecia aquele tom. Sabia qual seria a conversa. Internamente ficava extremamente contente pela confiança que o enteado depositava nela acerca destes assuntos.
– É craro. Vamos pro seu quarto, sim?
Os dois saíram, enquanto as crianças terminavam o lanche, quase prontos para voltar a brincar livremente, aproveitando cada segundo da infância passageira.
**
[How it Ends — Devotchka]
– E agora eu não sei o que fazer, Catarina! — dizia Ferdinando, desesperado, depois de contar o que acontecera de manhã.
– Mai ieu não entendi, de que promessa ela tava falando?
Esse é o problema, eu não faço a menor ideia! — exclamou, andando de um lado a outro do quarto, com as mãos na cabeça.
– Ora, então ela tem toda a razão em ficar brava! — ria Catarina. Ela pegou na mão dele e sentaram na cama — Nando, tente se lembrar. Ocê tem que ter dito arguma coisa pra ela ficar desse jeito.
Ele se concentrou e vasculhou a memória atrás de algo. Refez todos os diálogos que tivera com a ruiva nos últimos dias, o que não foi difícil, uma vez que já sabia todos de cor. Inevitavelmente, lembrou-se do beijo que dera. Ele fechou os olhos. Lembrou-se do gosto, do cheiro, do modo que as mãos dela se apoiaram em seu peito. Lembrou-se até das ameaças e desafios que deixavam ela ainda mais marrenta, e ele ainda mais enlouquecido. E lembrou-se de uma frase. A última frase que ele disse à ela aquela tarde. Abriu os olhos, voltando-se à madrasta.
– Tem uma coisa... Mas não pode ser...
– Tem certeza? — perguntou, desconfiada.
– Tenho! Quer dizer... Não... Quer dizer... — ele estava gaguejando — Isso nem foi uma promessa! Eu só disse uma coisa que era certa!
– E ela não pode ter confundido?
– Pode... Ou não... Ah, Catarina, eu não sei!
– Tá certo, Nando. Mai me diga, o que essa sua cabecinha aí tá pensando?
– Ieu to pensando que... Se eu tiver certo, minha cara, eu vou explodir de tanta felicidade — disse, sorrindo, com o olhar perdido.
– Nando — começou ela, como quem não quer nada — Ocê não quer comer nada? Pruveita inquanto as criança não acabaro com tudo!
– Não... Obrigado... Estou sem fome — respondeu, sem saber ao certo onde ela queria chegar.
– Sem fome? Ferdinando, ocê num armoço hoje!
– Eu... Tava ocupado.
– Tentando lembrar da promessa? — ele consentiu com um sorriso — Sabe? Ieu acho que ocê num tá apaixonado pela Gina. Ocê ama a Gina — ela sorria, se aproximou do enteado, mexendo os dedos — Isso que ocê tá sentindo aí dentro num é paixão... É amor.
Ferdinando tinha lágrimas nos olhos. Ela estava certa. Ele amava aquela uma, e tinha a mais absoluta certeza disso.
– E digo mais — ela continuou — Quanto mais cedo ocê deixar isso craro pra ela, mió!
Ficaram encarando um ao outro por alguns instantes. Nando nunca tivera esse tipo de conversa com a mãe e, infelizmente, nunca teria. Mas Catarina cumpria tal papel de forma impecável, fazendo com que ele ficasse completamente a vontade com ela, sem contar o quanto confiava nela.
– Nandinho... — ela mudou o tom, ficando levemente sem jeito — Ieu posso lhe perguntar uma coisa?
– Ieu até já sei o que é — ele riu. E de fato, acertou em cheio na pergunta que ela faria.
**
[Exhaustible — Devotchka]
Na fazenda do Falcão Gina trabalhava na roça. Não haveria nada de anormal, a não ser pela distância que ela estava. Apesar de sempre ficar nas redondezas da casa, hoje ela preferira ficar mais afastada, sozinha com os pensamentos.
Ela sempre fora de um gênio forte, desde criança. De acordo com a mãe, aquilo era culpa de Pedro, que criara a filha como um garoto. Mas não era culpa dele. Aquilo vinha dela mesma. Ela não via utilidade em usar as coisas que a mãe queria; até que gostava dos vestidos, mas não havia ocasião para usá-los, muito menos aquelas melecadas que Juliana gostava. Afinal, o que elas esperavam? Que os usasse na roça? Ou ainda, que ficasse em casa para usá-los? Não. De jeito algum.
O vento soprou, interrompendo os pensamento de Gina com o aroma de terra e o som dos ramos de trigo batendo uns nos outros. Odiava admitir, mas aquele engenheirinho havia feito um bom trabalho. Ela sorria observando a plantação e imaginando a futura safra.
E então aquele pensamento que, com tanto esforço vinha tentando evitar, se instalou de vez em sua cabeça. Ferdinando. O sorriso se desfez e, em seu lugar, os lábios franziram. Ela bufou. Porque ele conseguia tirá-la do sério mais fácil que qualquer um? Porque ela se importava tanto com aquela bendita promessa? Gina sentia algo diferente por ele, isso era certo, mas estava devidamente apaixonada? Ela não sabia responder.
Mas uma coisa era certeza: ela não suportava ver Nando e Aisha juntos. Ciúme? Talvez. Gina sentia como se a garota estivesse provocando ela, falando o quanto eram íntimos e como ela estava com saudades, do modo que ela ficava quando estavam juntos, jogando o cabelo para trás, rindo... Não gostava de Aisha, e não fazia questão de fingir o contrário.
Por estar perdida em seus pensamentos não viu quando Pedro se aproximou, observando a filha já crescida, admirado.
– Fia, porque ocê veio pra cá?
– Pai! Ieu num tinha visto o senhor — ela disse, surpresa — Ieu.. Quiria ficar sozinha um pouco. E cade o Vira?
– Porque ocê quer saber? — perguntou, desconfiado.
– Ara, porque ele é meu amigo, e trava trabaiando com o senhor!
– Pois ele foi pra casa. Sabe, fia, um passarinho me contou que ocê e o Ferdinando brigaro... É verdade?
– Briga, briga mermo, num foi. Mai de repente deu aqui, nas veneta, que ieu não queria mai falar com ele — preferia não dizer a verdade.
– Ah é, redepente... Redepente despois que o Viramundo veio morar aqui! — disse ele inconformado.
– Que que uma coisa tem a ver com a outra?!
– Tem que ver? Tem que ver que ele te ensina a cantar, depois vai te ensinar a tocar uma viola, sacomé?!
– Pai! Se o senhor continuar com essas coisa ieu vô imbora! — disse, brava.
– Num vai não, que ieu ainda tenho que falar com ocê! — retrucou, também nervoso.
– Pois intão fale!
– Ocê tá sabendo que o Viramundo só saiu da venda porque o Giácomo expurso ele de lá, despois que viu ele no maior trelelê com a Milita?
– To. É só isso? — ela colocou as mãos na cintura.
– ...É!
– Intão essa cunversa já acabô!
Gina saiu pela plantação deveras irritada. Já não bastava Ferdinando, agora o pai também estava sugerindo que ela e Viramundo pudessem ter algo mais que amizade. Por essas e outras é que ela não demonstrava seus sentimentos abertamente. Só esperava que Vira e Milita estivessem bem.
Pedro seguia a filha para casa mais atrás, dando tempo e espaço a ela. Queria ter certeza que a filha soubesse no que estava se metendo, apesar de nunca saber, ao certo, o que passava na cabeça dela.
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[The Oblivion — Devotchka]
Juliana estava na sala de jantar, com vários cadernos espalhados pela mesa, para serem corrigidos. Ficava extremamente feliz por ver o progresso dos alunos a cada linha escrita. Entretanto, já faziam dez minutos que ela olhava a mesma frase e, sempre que terminava de ler, esquecia o que estava escrito. Tal distração tinha nome: Zelão.
Ela não acreditava que havia se oferecido para ajudá-lo. Não que ela não quisesse, pelo contrário, queria arranjar meios de ficar cada vez mais perto dele. Entretanto, sempre que estava com ele, ela se tornava uma completa idiota, e não conseguia agir normalmente.
Juliana fechou o caderno, apoiou a cabeça nas mãos e fechou os olhos. Tentava se concentrar o máximo que podia, mas a imagem dos olhos castanhos do capanga estava fixada em sua mente.
– Tarde, Juliana — saudou Viramundo, entrando no aposento.
– Oi, Vira! — respondeu ela, cordial, levantando a cabeça.
– Ocê tá bem? — perguntou preocupado, vendo a indisposição da garota.
– Estou sim! Só um pouco... Distraída.
– Arguma coisa que ieu possa ajudar?
– Infelizmente, não — sorriu — Mas obrigada — pensando melhor, talvez fosse bom pedir uma opinião além da de Gina — Vira... Posso te perguntar uma coisa?
– Pergunte.
– Como você se sentia quando estava com a Milita?
– Como assim?
– Ora... Como você se sentia! O que você pensava, como seu coração batia...
– Ieu ficava enfeitiçado. Num tinha mais ninguém no mundo, o tempo parava, a única nota que saia da minha viola era de amor — ele dizia, sonhador.
– E como você tá desde que veio pra cá?
– ... To tendo que lidar com esse buraco que se abriu dentro do meu peito.
– Mas a Gina me contou que você disse pra Milita que não queria mais nada com ela...
– Sabe perfessora — ele ficou de frente, encarando-a — As veiz a gente tem que deixar o outro livre, porque sabe que vendo ele feliz, ocê também fica... Mesmo que isso seja o pior pr'ocê mermo.
– E como você sabe que o outro vai ser feliz?!
– ... Num sabe. Só o tempo sabe.
– Entendo...
– Espero poder ter ajudado — ele sorriu.
– Ajudou sim, Vira, muito obrigada!
Viramundo lançou um doce olhar à amiga e subiu para se lavar após o dia na roça. Juliana continuou ali, encarando os cadernos, sem disposição para abri-los. Ao menos uma coisa era decidida: ela já sabia exatamente o que sentia.
Ela ia contar cada segundo até ver Zelão novamente.
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[The Clockwise Witness — Devotchka]
Aisha revia suas anotações, escrevendo algumas coisas ali e aqui. Ela parou. Estava na bifurcação entre a vila e as casas. Desde que chegara ainda não havia conhecido a vila por completo, a escola de Juliana ou a venda que Viramundo havia morado anteriormente, apesar de ter ficado na frente para conversar com Ferdinando. Após as entrevistas ela iria dar uma volta por ali.
Andou pelo caminho previamente conhecido, admirando tudo a sua volta, e percebendo o quanto era diferente da capital: mais vivo, mais colorido, alegre, singelo, acolhedor. Tudo passava a ideia de um ambiente pacato e puro. Após alguns minutos, chegou às casas que havia parado a pesquisa pela manhã e teve uma agradável surpresa.
– Renato?! — disse, andando até o banco onde ele estava.
– Olá! — ele se levantou.
– Não esperava que você realmente viesse — sorriu.
– Eu disse que viria, não disse? Porque tão surpresa?
– É que eu não estou acostumada que cumpram as promessas que me fazem.
– Pois comigo você pode sempre contar.
Os dois se encararam. Renato passava confiança e os olhos dele mostravam que não estava mentindo. Aisha parecia calma e adorável, finalmente aparentando confiar no rapaz.
– Bom... Vou voltar às perguntas — ela desviou os olhos.
– Boa sorte! — ele desejou, honestamente, voltando para o banco.
Ela não demonstrava o quanto ficou feliz por ele ter vindo. Ela já havia sofrido muito por depositar confiança nas pessoas erradas. Não queria falar sobre isso por enquanto, mas estava cada vez mais gostando do tal médico.
Após bater em cinco portas diferentes, Aisha ainda estava mexida pelo ato de Renato. Sim, só o fato de ter ido já era grandioso. Parou antes de ir para a próxima casa, e o observou. Ele estava ainda no banco, brincando com um matinho que achou. Ela suspirou.
[ Dearly Departed — Devotchka ]
– Renato — ela chamou, indo até ele. Ele levantou a cabeça — Você... Poderia... Me fazer um favor? — ela perguntou, acanhada.
– Eu? — indagou, incrédulo. Ele ficou radiante. Não imaginava que pudesse ser tão simples conquistar a confiança da garota, por menor que fosse — Claro! O que eu preciso fazer?!
– Não é nada de mais — alertou, voltando a demonstrar que ela podia fazer aquilo sozinha — Só preciso que você conte quantas pessoas tem em cada categoria e coloque aqui — ela entregou alguns papeis para ele e um lápis.
– Só isso?
– É.
Ele sorriu e foi logo para o banco começar o trabalho. Aisha admirou ele por alguns instantes e virou-se para continuar o questionário. Quando Renato acabou, decidiu juntar-se a ela, ao que Aisha não contestou, com a desculpa de continuar organizando para não perder tempo.
E passaram a tarde assim, juntos, entrevistando os moradores da vila. Da mesma forma que de manhã, todos foram de extrema cordialidade, o que facilitou por demais o trabalho da advogada.
– É isso então — disse Renato, enquanto se afastavam da última casa entrevistada.
– Nem acredito que conseguimos falar com todo mundo em um dia!
– Pois é!
– Obrigada por me acompanhar, Renato.
– Obrigado por deixar que eu ficasse.
Ela abaixou os olhos, sorrindo. Enquanto eles andavam de volta para a vila ouviram galopes vindos na direção deles. Seguido, a visão de um cavalo branco com crinas tão azuis quanto os cabelos de Aisha, e montado nele, sorridente, estava o rosto familiar.
[Till the End of Time — Devotchka]
– Oi procês! — saudou Ferdinando.
– Nando! — se alegrou Aisha.
– Olá, meu amigo!
Ele desceu do cavalo e acarinhou o animal.
– Eu estava indo conversar com meu colega Pedro Falcão, quando pensei em ver como ocês estavam.
– Já terminamos tudo.
– Tudo?! Quanta eficiência, minha cara!
– E quem é esse? — perguntou, encantada com o cavalo.
– É o Quarta-feira. Na verdade, ele é do meu amigo Zelão, não sei se você já o conheceu. Ainda lembra como montar? — ele provocou.
– Você sabe montar? — perguntou Renato, incrédulo.
– Claro, é muito fácil. Meu primo e minha tia me ensinaram quando eu era menor. Acho que ainda consigo — ela sorriu, passando a mão na face de Quarta-feira.
– Ah não, então vocês vão ter que me ensinar! Não posso ser o único nesse lugar que não saiba como se faz! — os três riram.
– A Aisha te ensina! — disse, prontamente, Ferdinando.
– Eu?!
– Sim! Eu preciso falar com seu Pedro antes do jantar. E sei que vai cuidar muito bem dos dois — ele riu.
– Está certo — ela concordou — Mas então leve isso pra mim. E tome muito cuidado para não perder nada! — e deu a papelada da pesquisa para Ferdinando.
– Pode deixar! Até depois... E boa sorte, Renato!
– Vou precisar — riu.
Ferdinando se despediu e continuou seu caminho, evitando olhar para trás. Decidiu seguir uma rota alternativa para dar mais privacidade aos dois, apesar de querer muito ver Renato aprendendo a montar. Riu sozinho, imaginando a cena.
– Certo — começou Aisha após a saída de Ferdinando — Bom... É bastante fácil. Primeiro você sobe. Coloque o pé aqui — ela apontou — Isso. Agora pegue impulso e senta. Segura na sela, que fica mais fácil. Mas espera, que eu vou segurar as rédeas.
Mas Renato não esperou. Na realidade, ele não ouviu a última orientação da garota. Como o cavalo estava solto, quando o médico tentou subir, Quarta-feira relinchou e empinou, fazendo ele cair de costas.
– RENATO!!
Ela conseguiu acalmar o cavalo e correu para ajudar o rapaz que estava gritando de dor. O que acontece quando um médico se machuca e não há outro para ajudar? Aisha estava desesperada.
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