Tudo Novo de Novo
10 Capítulo 10 - A Virada
Notas iniciais
[A Magia do Lugar – Tim Rescala]
Gina piscou algumas vezes para assimilar o que havia acabado de ouvir. Sua boca estava semiaberta pela surpresa. Estava estática.
– P-Prima? – foi a única coisa que conseguiu dizer.
– Sim – Aisha suspirou – Bom, não somos exatamente primos... Somos quase.
– Como assim? – a cabeça de Gina rodava. Não conseguia mais entender o que a outra estava dizendo.
– Eu não sou exatamente parente do Nando – ela tentava explicar – Eu sou sobrinha, e afilhada, da Catarina, Gina. Por isso conheço o Nando tão bem. Fomos criados como se fossemos primos. E é isso que nós somos.
A ruiva ainda não podia crer no que estava acontecendo. Primos? Sobrinha da Madame Catarina? Aquilo tudo era demais para ela.
– Mai... Ocês...
– Eu sei... Eu sei... – Aisha sorriu – Na verdade, foi tudo ideia do Nando.
– Como é?
– A história é meio longa... Acho que devíamos ir para o meu quarto e lá eu te explico tudo.
Gina concordou. As duas foram para o quarto da garota que ficava ao lado da cozinha. Aisha fechou a porta e indicou a cama para sentarem-se. Gina fitava ela esperando encontrar algum sentido naquela história maluca de parentesco.
– Por onde eu começo? – ela pensava em voz alta – Logo que a tia Catarina começou a namorar o Coronel, ela fez questão de me apresentar. Nós não nos desgrudávamos quando eu era menor. Conheci o Nando quando tinha 8 anos. Nos demos bem logo de cara! – ela riu pela lembrança – Brincávamos sempre que nos víamos. Meu pai não me deixava viajar com a Catarina, então eu tinha que esperar eles irem para a capital. Depois de alguns anos, o Coronel achou melhor mandar o Nando pra lá para melhorar os estudos. Foi aí que começamos a ficar mais próximos. Fizemos o ensino médio no mesmo colégio e, coincidentemente, a mesma faculdade.
– Mai ieu não entendi onde entra a parte que ocê mentiu pra todo mundo! – atacou Gina, impaciente.
– Ei! Eu não menti pra ninguém! Nunca disse que não conhecia o Nando, só não comentei sobre esse meu parentesco...
– Dá no mermo!
– Não comentei porque ele me fez jurar que não contaria para ninguém – ela revelou.
– A troco de que?
– Você não entendeu mesmo, não é? – agora Aisha percebia que a outra não estava entendendo o sentido de nada do que havia acontecido até agora.
– Entender o que?!
– Quando eu soube que meu escritório queria me mandar pra algum lugar pra verificar minha atuação em campo, pedi que me mandassem para cá – ela recomeçou – Iria ficar com minha tia, e com o Nando também. Quando eu contei pra ele por telefone... Bom... Não recebi a oferta que imaginei.
– Oferta? Dá pr’ocê falar as coisa de uma veiz?
– Eu esperava que ele me convidasse para ficar com ele na Casa Grande, mas na verdade ele me fez outra proposta...
*FLASHBACK*
– Como assim, Nando?
– Ora minha cara, é bastante simples. Ocê finge que nós tivemos arguma coisa enquanto eu estive na capital.
– Nando... Você tem noção do que está falando? É uma besteira sem tamanho!
– É craro que não! Ela vai ficar com ciúmes e vai demonstrar, pelo menos um pouquinho, que gosta de mim!
– Não é assim que as coisas funcionam!
– Mai é assim que vai ter que ser!
– Nando... Não estou gostando dessa ideia... Ela pode ficar chateada. Já pensou que isso vai ferir os sentimentos da garota?
– Aisha... Ela me deixa maluco! Me rejeita, me esnoba, me aponta a espingarda...
– Espingarda?! Agora que eu não faço mesmo!
– Ela não vai fazer nada com você.
– Nando... – continuava ela, relutante.
– Aisha... Ocê não entende. Eu preciso da sua ajuda. Por favor.
Ferdinando soava extremamente sincero. Nunca antes ela o havia escutado suplicar pela ajuda para conquistar uma garota... Na verdade, não lembrava de qualquer garota que Ferdinando já se interessara que não tivesse aceitado ficar com ele.
– Ela deve ser bastante especial, não é? – perguntou Aisha, já cedendo aos pedidos do primo.
– Ela é a mais especial, prima...
– ... Está bem – disse por fim – O que eu preciso fazer, então?
– Nada demais! – começou ele, empolgado – Primeiro, não pode demonstrar que conhece a Catarina... Nós não somos parentes! Fale coisas que deem a entender que nós somos bastante próximos, que ocê gosta muito de mim... Sabe? Esse tipo de coisa.
– Não vou precisar fazer nada... Físico?
– Não!
– Ótimo! E... Onde eu vou ficar? Tem algum hotel ou pensão por ai?
– Na verdade minha cara... Ocê vai ficar na casa dela...
– O que?!
*FIM DO FLASHBACK*
– E foi isso Gina... O Nando é completamente apaixonado por você, e precisava de ajuda para ter certeza que você correspondia. E parece que ele conseguiu – ela riu.
– Conseguiu o que?! Ieu num to com ciúme de ninguém... E não gosto daquele engenheirinho... – ela torceu o nariz, negando até o último momento.
– Ah não? Então quando ele te beijou, e todas as outras tentativas que ele fez, você não gostou? – Aisha riu pela cara de espanto da outra – Ele me contou.
Gina ficou vermelha. Levantou da cama e ficou de costas para a garota. Era muito para entender. Então, todas aquelas cenas, a vinda da garota para a casa dela, essa coisa que a ruiva sentia dentro do peito... Tudo era culpa daquele engenheirinho. Como sempre.
– Então, deixa ieu ver se ieu entendi – ela cruzou os braços – O Ferdinando fez ocê mentir pra todo mundo aqui, pra tentar me convencer a gostar dele...?
– Você falando desse jeito parece até uma coisa ruim...
– É uma maluquice!
– Gina. Presta atenção – Aisha levantou, indo até ela – O Nando fez tudo isso para você se sentir como ele se sente quando te vê com o Vira. Isso o que você está sentindo aí dentro, o Nando sente há mais tempo. Ele te adora Gina, será que não consegue entender isso?!
– Ocê tá falando que nem a Juliana – ela se emburrou.
– Porque é a verdade. Será que você não sente nada pelo Nando? Nem um pouquinho?
– To sentindo é raiva daquele um!
Mas não era raiva o que sentia. Mais uma vez, Gina estava confusa. Ferdinando, novamente provara o quanto gostava dela; e ela, como já acontecera antes, tinha a certeza de que não poderia retribuir todo esse carinho. Pelo menos, era o que ela achava. Mas, afinal, depois de tudo isso, depois de aceitar que sentira ciúmes de ver o rapaz com a, agora descoberta, prima, depois de perceber o quanto gostava de acompanhá-lo às idas até a Cidade das Antas, depois de reparar que não se importava de usar os vestidos somente para ficar alguns momentos na sala de jantar quando ele vinha visitá-los, ela finalmente tinha de admitir para si mesma que sentia algum tipo de atração por ele.
– Bom, agora que você já sabe de tudo... Acho que não tem motivos para você ficar brava comigo, não é? – tentou Aisha.
Gina deu um sorriso de canto para ela. Realmente, não havia motivos para não começar a gostar da garota.
– É... Ieu acho que não...
– Ótimo! – ela sorriu. Tentou dar um abraço em Gina, mas percebeu que talvez ela não fosse gostar, então parou na metade do caminho – Será que você poderia me acompanhar até a Casa Grande? Estou morrendo de saudades da tia Catarina!
– Como assim?
– Desde que eu cheguei não pude vê-la... Tinha que manter o plano.
– Intão ocê num vai se importar de esperar mai um poquinho!
– O que? – Aisha não entendeu o que ela quis dizer.
– Agora quem vai se divertir sou ieu! – Gina ria alto.
“De novo não”, pensava Aisha, enterrando o rosto nas mãos, já prevendo o que poderia acontecer.
**
[Something Stupid – Devotchka]
Juliana e Zelão voltaram a ler o livro, embaixo da grande árvore, agora de uma maneira muito mais confortável. Estava um aconchegado no outro. Zelão colocou os braços em volta dela, segurando o livro na frente dos dois. Juliana apoiava a cabeça no peito do outro, sentindo sua respiração, agora muito mais calma, a cada linha que ele lia. Uma das mãos dele acariciavam as mexas rosas do cabelo da garota, que sorria adoravelmente. Não sabiam há quanto tempo estavam ali, mas não queriam sair nunca mais.
– Juliana...?
– Diga.
– Ocê tá dormindo?
– Não... Estou ouvindo... Continue.
Zelão fechou o livro e beijou carinhosamente a cabeça dela. Juliana levantou.
– Temo que ir. Já tá ficando tarde – ele apontou para o horizonte, que possuía um céu alaranjado, denunciando o início da noite.
– Nossa! Eu não vi o tempo passar – ela baixou os olhos.
– Ieu tamém não – ele sorriu.
Os dois se levantaram. Juntos, dobraram a toalha que eles haviam sentado; Juliana pegou os cadernos, que não havia tocado em nenhum momento (a não ser quando tentava se distrair para esperar por Zelão); Zelão pegou o livro, limpando a contracapa com as mãos para tirar alguns resquícios de grama.
De braços dados, dedos entrelaçados e olhares conectados foram juntos de volta a fazenda dos Falcão. Não disseram nada durante o caminho, não precisavam afinal. Nada precisava ser dito, pois sabiam o que o outro diria. Queriam apenas aproveitar aquele sentimento, aquela atmosfera, aquele momento de alegria e pureza que enchia o peito dos dois. Ninguém tiraria aquela felicidade e amor deles. Amor... Amor...
Zelão girou a professora enquanto andavam, como se estivessem caminhando no compasso de uma bela melodia. Ela riu pelo gesto. Ele riu pela alegria dela. Juliana andou um pouco mais, ficando a frente do outro, observando-o por cima do ombro. Como ela era encantadora. Ele não conseguia resistir àquele olhar. Logo já estava atrás dela, com as mãos por sua cintura, seu cabelo, seu rosto, seus lábios... Passou o polegar pela boca rosada dela e logo pressionou os próprios lábios contra os dela. Ele a abraçou e girou a garota. Ela sorriu. Há muito esperava um ato desse de Zelão. “Finalmente”, ela pensou.
Continuaram andando, mais próximos, mais conectados, até a frente da fazenda. Nenhum dos dois queria se despedir. Não queriam se separar. Pois então não se despediriam. Ao menos, não com palavras. Zelão pegou a mão dela, como fazia todas as vezes, e beijou demoradamente seu dorso. A professora depositou um delicado beijo na bochecha do amado e rumou para a casa. Não queria, mas deveria. Se virou, e depois de um aceno, finalmente entrou.
...
[La Llorrona — Devotchka]
Juliana inspirou e expirou diversas vezes para se acalmar. Não queria que todos soubessem como estava nervosa. Há essa hora, provavelmente, Gina estaria voltando da lida junto com o pai e a última coisa que queria era um interrogatório por sua alegria incomum.
Julgou estar preparada. Ajeitou os cabelos, o vestido, e foi para a sala. Estava deserta. “Que estranho”, pensou. Foi para o andar de cima onde a amiga já deveria estar a sua espera, mas encontrou um quarto vazio. Ela não entendia o que estava acontecendo e porque a casa estava tão vazia. Foi até o quarto ao lado e bateu na porta. O violeiro a abriu.
– Vira! Pelo menos você está aqui! Sabe me dizer onde anda todo mundo?!
– Por que? Num tem ninguém aí?
– Não que eu tenha visto. A Gina não está no quarto, o seu Pedro não está na sala, nem no escritório... Não ouvi nenhuma voz no andar de baixo.
– Bão, o seu Pedro deve de tá na lida ainda porque a Gina vorto mais cedo.
– Mais cedo?
– É. Ieu orvi a voz dela e da Aisha há uns tempo, mai num sei onde elas deve de tá. E a Dona Tê ieu num sei...
– Bom... Então vou procurar as duas antes que alguma coisa de ruim aconteça – ela riu – Obrigada Vira!
Juliana desceu novamente as escadas e foi para a cozinha. Ninguém. Até que, finalmente, ouviu alguns ruídos de vozes vindas do jardim.
Se já não fosse estranho o suficiente não encontrar ninguém dentro de casa, ainda mais esquisito era ver Gina e Aisha conversando normalmente. E ainda mais: rindo.
Ela se aproximou com cautela, afinal, não sabia o que estava acontecendo.
– O que aconteceu? – perguntou ela, próxima das duas.
– Juliana... Ocê num vai creditá! A Aisha é prima do Nando!
– Você contou?! – perguntou Juliana, surpresa.
– Eu não consegui mais esconder... Já estava ficando louca! – Aisha riu.
– Pera aí... Ocê sabia?!
– Eu descobri naquela noite que eles dançaram juntos. Ouvi o Nando falando o que a Aisha devia fazer, e ele me contou. Me fez jurar que não ia dizer nada pra você! E depois... O plano era bastante bom...
– Ah, então tava todo mundo rindo da minha cara? – Gina cruzou os braços, emburrada.
– Não estávamos rindo! Estávamos tentando te convencer que você gosta do Nando!
– Sei... Não deu certo – disse, birrenta.
– Bom... Agora que ela sabe, você vai contar pro Nando? – perguntou Juliana, sentando-se no chão, junto com elas.
– Ah, essa é uma ótima pergunta! Fala pra ela Gina – disse Aisha, irônica.
– Ara, ieu só disse que ieu tumém quero brincar ué.
– Como assim? – perguntou Juliana, curiosa.
– Em poucas palavras, ela quer dar o troco no Nando.
– Mas você e o Vira já não foram troco o suficiente?!
– Ieu já disse que ieu e o Vira somos amigos! E despois... Não vou fazer nada muito sério... A Aisha só vai parar de defender ele.
– Tudo bem, Gina. Me diz o que eu tenho que fazer afinal – disse Aisha.
– Bão, o Nando pedia pr’ocê ficar endeusando ele pra mim, num era? Principarmente quando o Vira tava junto. Agora ocê num vai fazer nada. Ocê vai ficar quieta, e se quiser pode me defender, falando a verdade: que o Vira é só um bão amigo meu.
– Só isso? Não quer que eu fique provocando ele?
– Não.
– Ah... Então vai ser bem fácil – ela riu.
– Eu disse!
– Gina! – chamava dona Tê de dentro da casa.
– To indo mãe! – ela respondeu, se levantando para atender o chamado da senhora.
– Sabe Juliana, eu acho que tenho uma ideia de como juntar os dois, sem quebrar nenhuma das promessas que eu fiz – disse Aisha, com um sorriso malicioso.
– E eu posso saber que ideia é essa? – ela também sorriu.
**
[Epa Troller – Tim Rescala]
– Nando? – chamava a madrasta, batendo na porta do quarto do enteado.
Ele abriu.
– Seu pai acabou de chegar das Antas e... Acho mió ocê ir falar com ele...
– O que aconteceu? – perguntou com um ar cansado, imaginando o grande problema que teria pela frente.
– Acho que as notícia num são das miores...
– Está bem... Já vou descer.
...
– Pai? – Nando entrou no escritório.
Epaminondas estava em sua mesa, com vários papeis espalhados e a cabeça nas mãos. Ao ouvir o filho entrar levantou o rosto e apontou a cadeira para que ele sentasse.
– O que aconteceu?
– Eles me caluniaram! – gritou ele – Mai eles vão ver só! Vão ver do que o Coroné Epaminondas é capaz!
– Quem seriam eles, meu pai?
– Aquele prefeitinho de meia pataca e os ajudante dele. Ele levou toda aquela corja dele pra me desmoralizar no fórum!
– E o que ele disseram?
– Ara... Isso num importa – respondeu o coronel, dando de ombros, desviando do assunto – O que importa é que ieu vo faze eles morde aquelas língua!
– Epaminondas – disse Ferdinando, firme – O que foi que eles disseram sobre o senhor?
– Eles... Falaro que ieu num pago meus funcionário como deveria... E que eles nem deveriam trabalha pra mim porque nenhum tem carteira assinada...
– Ah! Ai está! E onde está a parte da calunia? Tudo isso é a mais pura verdade!
– Ocê tá do lado deles Ferdinando?!
– Eu estou do lado desses funcionários que trabalham de sol a sol e não ganham nem metade do que realmente merecem! Há tempos eu lhe digo pra registrar todos os trabalhadores, mas desde quando o senhor me escuta, não é mesmo?! Quem sabe agora vai me dar ouvidos!
– Oia como ocê fala comigo que ieu sou seu pai! E já que ocê se acha tão inteligente, o que ocê faria, senhor engenheiro agrônomo? – ironizou ele, mais uma vez ridicularizando a profissão do filho.
– Primeiramente, meu pai, eu procuraria um advogado. Um que saiba como tratar dessas causas trabalhistas. Mas, como o senhor fez questão de frisar, eu sou apenas um engenheiro agrônomo, não devo conhecer qualquer advogado, não é mesmo? – ele se apoiava na mesa, encarando o pai de perto – E falando nisso, tenho muito o que fazer, então, se me der licença...
– O que ocê quis dizer com isso? Ocê... Sabe de arguém que possa ajudar nesse caso?
– Eu sei... Mas aceito que queira lidar com isso sozinho – ele sorriu, cínico.
– Ferdinando... É craro que não! Ocê sabe que ieu prezo muito a sua ajuda... Ieu tava nervoso – disse passando a mão pelos ombros do filho, que já estava próximo a porta para sair.
Era sempre assim. Quando o coronel percebia o quanto uma outra pessoa podia ser útil para ganhar uma causa fazia de tudo para agradá-la, mesmo que tivesse que admitir que estava errado.
– Mai me diga meu fio, quem é esse adevogado que ocê falou?
– É a melhor advogada trabalhista que eu conheço... O problema vai ser convencer ela a querer te ajudar...
**
[Elephant Gun — Beirut]
A próxima semana veio tão rápida como se foi a anterior. As coisas estavam ligeiramente mais calmas na casa dos Falcão agora que não tinham discussões diárias sobre a nova moradora, que havia se tornado até uma colega de Gina. Inicialmente houve um certo estranhamento por parte de Pedro e Teresa por essa repentina mudança de comportamento da filha, mas eles decidiram não fazer muitos questionamentos e apenas agradecer silenciosamente pelas garotas finalmente estarem se dando bem.
Juliana estava mais feliz e carinhosa do que nunca, se é que isso era possível. Ninguém se atreveu a perguntar a causa, afinal, se a professora preferia manter segredo por enquanto, isso era escolha dela; talvez, mais cedo ou mais tarde ela diria.
Viramundo ainda não tinha terminado a musica que estava escrevendo para Milita, mas não iria perder mais um dia de trabalho na lida com Gina (mesmo que da última vez Ferdinando quase o estrangulara); começou a pensar que pudesse ser melhor que ele começasse a trabalhar com Pedro para evitar futuros desentendimentos.
Aisha havia acabado a pesquisa de campo e agora o trabalho podia ser concluído dentro de casa. Esperava que ficando na fazenda pudesse evitar algumas distrações, como a tal conversa do primo (que provavelmente seria mais alguma ideia de como deixar Gina com ciúmes), ou ainda um certo médico bastante persistente que ela gostava cada dia mais. E ela ainda tinha que ir até as Antas pegar os tais documentos com o prefeito. Mas isso ela resolveria mais tarde, provavelmente durante o jantar, que era quando Ferdinando aparecia para ver a ruiva.
...
[Crônica da Cidade – Tim Rescala]
– Boa tarde, amigo Pedro!
– Tarde Nando!
– O senhor pediu para me chamar?
– Ieu pedi sim! Queria que ocê desse uma oiada aqui nos pé de café. Ieu lembro que ocê tinha dito que a praga pode se espaiá pela plantação...
– De fato, seu Pedro, mas não acho que isso ocorra tão rapidamente – ele sorriu – De qualquer forma, eu posso mandar analisar algumas outras plantas, para garantir que a praga se paralisou por aqui, se o senhor quiser.
– Isso, fio! Quanto mai segurança pra minha safra, mió.
– Está certo. Tenho alguns saquinhos de coleta aqui comigo, então vou andar pelas plantações mais próximas.
– Tudo bem. Precisa de ajuda?
– Não, não, muito obrigado. Mas... Que mal lhe pergunte, seu Pedro, em qual das plantações sua filha estaria?
– Em nenhuma. A essas hora ela já deve de tá em casa – ele piscou.
– Está certo – riu – Bom, ia dar uma passada por lá de qualquer forma para falar com Aisha... Acho que posso trocar uma palavra ou duas com Gina.
– Boa sorte!
Ferdinando caminhou até as plantações de soja e feijão que ficavam mais próximas das de café e recolheu as amostras necessárias. Praga era um dos piores problemas para se enfrentar pela rapidez com que se espalhava caso não fosse tratado como deveria e pelos estragos que proporcionava. Seria uma tragédia se toda a safra fosse perdida. Seu Pedro e a família dependiam da venda daqueles produtos; sem contar que seria uma grande perda para o próprio Ferdinando ver que todo seu árduo trabalho de preparação da terra fora em vão.
Ele respirou fundo. Aquele aroma de terra era quase medicinal para o engenheiro; se abaixou, pegou um punhado de terra e amassou entre os dedos, apertando o máximo que conseguia, descarregando toda a insegurança, estresse e nervoso naquele simples montinho de terra. Depois, deixou tudo cair suavemente, como uma pequena chuva de terra carregada de problemas. Talvez aquele não fosse o método mais terapêutico de reestabelecer a tranquilidade e a neutralidade que existia, mas sempre funcionava com Ferdinando.
Agora, mais calmo, e com as amostras guardadas no bolso interno da casaca, andou até o casarão para se encontrar com a amada e tentar convencer a advogada a ajudar seu pai.
...
[We’re Leaving – Devotchka]
– Não!
– Mas Aisha...
– Mas nada! Eu já estou fazendo muito por você, sabia?! – disse ela nervosa, entre dentes para que ninguém escutasse.
– Por favor! Não estou te pedindo nenhum absurdo!
– Nenhum absurdo?! Você quer que eu defenda seu pai, e ainda tem a cara de pau de dizer que não está me pedindo nenhum absurdo!
– Aisha!
– Não vou! Arranje outro advogado!
– Por favor... Por mim!
– Esqueça! – ela cruzou os braços, brava.
Ferdinando chegou perto dela. Tentou pedir com os olhos, sem dizer qualquer palavra. Aqueles belos olhos azuis fitando os grandes olhos verdes dela.
– Nem tente! Conheço seus truques, Napoleão. Não vai me convencer! – disse ela, indo para o outro lado da sala.
– Ara, Aisha. Por favor! – pediu, batendo o pé, como uma criança fazendo birra. Ferdinando estava começando a ficar sem argumentos para convencer a garota... Ou não – Pense bem, minha cara, ocê vai poder ajudar todo mundo daquela fazenda.
Ela se virou para ele, demonstrando que estava escutando o que ele tinha para dizer.
– Ocê vai poder dar pr’aquela gente toda as carteira de trabalho... – disse ele, girando a cartola nos dedos.
– Seu pai nunca concordaria com isso – ela respondeu, começando a ceder.
– Pela candidatura? Ah... Ieu acho que vai deixar sim... Sem contar que ocê é a sobrinha favorita da Catarina – ele cochichou.
– Ele não é o tipo de pessoa que se deixa levar por alguém... Mesmo que seja eu!
– Pois eu te prometo que vai.
Aisha fitou ele por alguns instantes. Acima de tudo, Ferdinando era seu melhor amigo, e era realmente muito difícil ela negar alguma coisa para ele e vice e versa. E depois, até que seria divertido ter o Coronel na palma da mão.
– Talvez – ela disse por fim – Mas eu tenho algumas condições!
– E quais seriam, minha querida? – perguntou ele sorrindo abertamente.
– Seu pai vai ter que fazer tudo o que eu disser, sem questionamentos. E não vou trabalhar de graça, principalmente para ele; da mesma forma que não vou tratar ele como marido da minha tia e seu pai, e quero que ele me trate como uma advogada desconhecida.
– Justo. Mais alguma coisa?
– Acho que não... Por enquanto.
– Então isso é um sim? – perguntou esperançoso.
Ela revirou os olhos e bufou.
– Não vou fazer isso por você, nem por seu pai, mas pelos trabalhadores que merecem uma condição mais digna!
– Obrigado! – agradeceu ele, extremamente animado.
Ele abraçou a garota e a rodou, da forma que havia feito quando ela chegara, exatamente como fazia quando eles eram menores e ficavam muito tempo sem se ver.
Curiosamente, Gina chegou na sala, acompanhada de Viramundo bem naquele instante. Ferdinando soltou a garota assim que viu que haviam mais pessoas no cômodo. Aisha agradeceu silenciosamente por Gina já ter descoberto tudo, caso contrário, provavelmente, ela provavelmente iria conhecer a espingarda de que já ouvira falar.
– Tarde pr’ôces – disse Gina, com um sorriso irônico.
– Tarde Gina – respondeu Ferdinando.
– Ieu to atrapaiando arguma coisa?
– Não, não... A gente tava aqui falando sobre a nossa ida pra Cidade das Antas amanhã, num era minha cara?
– Ahn? Ah... Sim, sim... Você quer ir com a gente, Gina?
– Ora, Aisha, a Gina tem muito trabalho pra fazer com o... Viramundo, não é mermo? Ela não vai perder tempo de querer ir conosco até as Antas.
– Pois é aí que ocê se engana. Ieu aceito o convite Aisha. Se o Vira puder ir comigo, craro...
– Claro que sim! Vai ser ótimo! Se a Juliana não desse aula amanhã poderíamos ir todos!
– Espera, espera... Eu ouvi bem? Você disse que aceitou, Gina? – perguntou ele, piscando os olhos algumas vezes.
– Sim. Fui convidada. Ou não fui?
– Foi sim! – respondeu Aisha, animada.
– E vai levar seu amigo? – perguntou, seco, olhando seriamente para o violeiro, que não havia aberto a boca desde que chegara.
– Vou. E porque não? Se ieu posso deixar de ir pra lida pra ir pras Anta, o Vira tumém pode. Num é Vira?
– É... É sim – gaguejou.
– Eu não vejo nenhum problema – disse Aisha.
Ferdinando olhou para ela, bravo, esperando que a parceira dissesse algo em seu favor, e não aceitando as ideias loucas de Gina. Ela estava do lado de quem afinal?
*FLASHBACK*
– É só uma ideia, Gina. Não precisa fazer se não quiser – disse Aisha, com cautela, trocando alguns olhares com a professora para saber se estava indo pelo caminho certo.
– Ara... Pode falar.
– Bom, o Nando provavelmente vai vir falar comigo amanhã sobre a ida até as Antas, e eu acho que você deveria ir junto.
– Junto? Pra ele ficar de conversinha com ocê e me deixar de lado?
– Na verdade eu pensei em você levar o Vira com você...
– Mai ieu já disse que ele é só meu amigo!
– Eu sei Gina! Mas o Nando ainda não se convenceu disso!
– Pensa bem Gina – disse Juliana, tentando ajudar a outra – Se você for com o Vira vocês também podem fazer algum ciúme para o Nando... E nem vai precisar de muito esforço, não é mesmo...
– É... Acho que sim...
– Então! Vamos falar com o Vira e ver se ele concorda com tudo isso!
*FIM DO FLASHBACK*
– Então estamos acertados? Que horas você vem me buscar Nando? – perguntou Aisha, de um modo adorável.
– Venho por volta das dez. Assim podemos almoçar naquele restaurante que comemos da última vez – ele sorriu para ela.
– Ótimo! Falando em comida... – ela apontou para a mesa que, magicamente, fora posta enquanto eles estavam conversando, e tinha um cheiro absolutamente delicioso de frango assado, batatas e creme de milho.
– Vai ficar pro jantar? – perguntou Gina, esperando que pudesse provocar ele um pouco mais.
– Se isso for um convite – ele sorriu de lado.
– Só perguntei. Se ocê quiser pode ficar...
– Pois então eu fico.
Pedro, Teresa e Juliana que estavam na cozinha vieram se juntar a mesa. Pedro ficou imensamente satisfeito por ver Ferdinando jantando com eles, e encheu o garoto de perguntas, desde os possíveis modos de combater as pragas na plantação até o processo de candidatura do amigo Epaminondas. Em qualquer outra circunstância, o engenheiro não teria se importado de modo algum em responder a quaisquer perguntas que o amigo Falcão pudesse vir a questionar, mas naquele momento, a única coisa que queria era provocar a ruiva o tanto que ela o estava provocando.
Por fim, o jantar acabou sem que se ouvissem outras vozes a não ser a de Pedro e de Ferdinando, por vezes complementadas por dona Tê, que concordava aqui e ali com alguma coisa que o marido dizia. Ligeiramente irritado pela situação, a Ferdinando só restou se despedir.
– Bom, boa noite pr’ocês. Te vejo amanhã Aisha?
– É claro que sim – ela sorriu e ele também.
Gina fingiu ficar brava para não levantar suspeitas de que algo pudesse estar dando errado no plano mirabolante que ele havia criado, mas por dentro estava gargalhando. Aquela viagem às Antas seria uma das melhores que já fizera.
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